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Presidenciais 2016

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O debate em que foram todos iguais mas em que uns continuaram a ser mais iguais do que outros

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Jose Carlos Carvalho

Maria de Belém não foi. Marcelo e Nóvoa foram à RTP de gravata preta em homenagem a Almeida Santos. O único debate televisivo com todos os candidatos presidenciais foi longo e com muitos sound bites mas não deixou de mostrar que há dois campeonatos distintos

Rosa Pedroso Lima

Rosa Pedroso Lima

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José Carlos Carvalho

José Carlos Carvalho

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Tiago Miranda

Tiago Miranda

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Duas horas de debate televisivo é muito tempo. Mas mesmo assim, não chega para contentar todos. Já na reta final, a palavra é dada a Vitorino Silva e “Tino de Rans” resume o que se está a passar: “há aqui candidatos que jogam o campeonato dos pelados e outros o dos relvados. Passem-me a bola, é o que eu peço aqui”.

O tempo foi salomonicamente repartido entre todos, mas nem assim chegou para apagar a evidência que Marcelo Rebelo de Sousa e Sampaio da Nóvoa jogam noutra divisão. Pelo menos, nesta fase do campeonato para a Presidência da República e a cinco dias da eleição.

Depois, houve a combatividade de Marisa Matias, o discurso hábil de Henrique Neto e a retórica comunista de Edgar Silva. E, finalmente, na última divisão, os candidatos mais pequenos lutaram pela vida e pelos seus minutos de exposição mediática a que acham que têm direito. Tino, Jorge Sequeira, Cândido Ferreira e Paulo Morais sabem que vão ficar pelo caminho, mas aproveitaram todo o tempo de antena que a televisão lhes deu.

Jose Carlos Carvalho

Marcelo aguenta

Vamos por partes. Marcelo aguentou tudo. Driblou as acusações de que tinha fugido à tropa, porque "já respondi a isso" e demonstrou que apenas adiou a chamada à guerra para prestar provas académicas. Fintou o ataque de Sampaio da Nóvoa que o acusava de, em tempos idos, ter recusado no Parlamento a criação do Rendimento Mínimo Garantido. "Lembro-me como se fosse hoje", disse sem pestanejar, garantindo que foi das "duas vezes em que esteve contra a decisão do partido e fui democraticamente batido". E até teve tempo para elogiar Costa, para garantir que vê no Presidente da República "um colaborador com os outros órgãos de soberania". Mais ainda, acha que o chefe de Estado "deve ser o coadjuvante do sucesso do governo, porque é o Governo quem deve ter sucesso porque tem legitimidade constitucional".

Como Deus e os anjos, Marcelo promete colaboração com o primeiro-ministro em nome do "interesse nacional" e até mesmo "por mais que isso de desgoste as pessoas da minha área política" tem de dizer "que faz sentido dizer que é bom para o País que um Governo possa chegar ao fim da Legislatura.

Tiago Miranda

Nóvoa ataca e defende

Sampaio da Nóvoa foi um dos candidatos que entrou diretamente ao ataque contra Marcelo Rebelo de Sousa. Até para que "o debate não fique um pouco monocórdico"' atirou com contradições à cara do professor de Direito e lamentou "a permanente dúvida sobre o que pensa Marcelo Rebelo de Sousa" dadas as suas mudanças constantes de pensamento.

Mas, o terreno não lhe foi fácil. Confrontado com a contradição de se afirmar independente, mas ter a cúpula socialista do seu lado, teve de responder. "Nunca fui, nem serei um candidato do PS", rematou. Mas logo a seguir, foi do lado de Cândido Ferreira que veio a acusação mais grave. O médico reafirmou que a licenciatura de Nóvoa "é uma falsa licenciatura" e até leu em direto um documento que demonstrava que o curso de Teatro que surge no curriculum do ex-reitor de Lisboa não era, na altura em que o fez, um curso de nível superior.

"Os cursos de teatro que fiz não são, obviamente, uma licenciatura", respondeu Nóvoa. E, virando-se para o lado, enfrentou cara a cara o adversário para lhe dizer "olhos nos olhos" que "a calúnia é sempre a arma dos desesperados" e que "não há ninguém que tenha sido tão escrutinado quanto eu no seu percurso académico".

Jose Carlos Carvalho

Marisa chega à grande área

A candidata do Bloco de Esquerda não está na Liga de Honra mas entrou em jogo diretamente para a linha de golo. Fugindo ao guião das perguntas preparadas pelos jornalistas da RTP, avançou diretamente para "a vergonha" da decisão tomada pelo Tribunal Constitucional e rematou: "cheguei ontem e não queria acreditar. Tivemos uma decisão de privilégio de grupo e nenhum candidato disse nada. Não era nada com ninguém".

A denúncia caiu fundo e o passe foi certeiro. "Hoje, percebi melhor porque houve este silêncio. São trinta os deputados que assinaram o documento e eles serão os apoiantes de Marcelo Rebelo de Sousa, Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém".

Marisa Matias teve ainda uma outra boa jogada, quando contra-atacou Paulo Morais no campo do adversário . "Não basta falar de corrupção, é preciso denunciá-la. O senhor esteve 35 anos no PSD e não indica um nome de um seu colega?", disse ao candidato a Belém. "Colocar todos os políticos no mesmo saco é um favor que faz aos corruptos", rematou. "Gostava que apresentasse queixas e não se limitasse a falar".

Henrique Neto repartiu os ataques por Nóvoa e Marcelo Rebelo de Sousa. Acusando o primeiro de "enrolar, enrolar, enrolar" o discurso e o segundo de "seguir a mesma escola", concluiu que ambos "fogem à dizer o que pensam e o que tencionam fazer". E "quando se esconde o pensamento ou o que se vai fazer, está-se a mentir por omissão".

Num registo sempre mais calmo, Edgar Silva defendeu que o apoio do PCP é "um certificado de garantia que nunca vacilarei na defesa dos direitos do povo e dos trabalhadores", mas tentou mostrar que não está "amarrado ao campo da CDU". Uma duvida que se levantaria pouco mais tarde quando claramente se colocou ao lado da greve geral da Administração Pública, convocada pela CGTP. Apesar de "não caber a um Presidente da República" comentar uma greve, sempre foi dizendo que ela tem por base uma "reivindicação justíssima".

Tiago Miranda

Os pequenos também têm sound bites

Numa divisão diferente deste campeonato, o resumo da jornada dos clubes mais 'pequenos' é cheio de boas imagens. Cândido Ferreira não resistiu a dizer mais uma vez que é "o único candidato que trata por tu António Costa".

Jorge Sequeira começou por dizer que a sua ideia de felicidade é "estar aqui com estes candidatos que são os homens mais corajosos do País" e acabou a defender que o Presidente da República deve ser "um afável provedor do cidadão" capaz de ter "uma escuta ativa".

Paulo Morais não falou só de corrupção, mas avançou com uma outra ideia radical. "Um Presidente que receba um Orçamento de Estado que não tenha os livros escolares do primeiro ciclo gratuitos, deve veta-lo", exigiu. A promessa é válida já para o OE deste ano.

Já Tino de Rans foi o recordista de bons lances televisivos. Falou da sua ida a Bruxelas e da noite que passou em Lisboa junto dos sem-abrigo. "Não venho aqui para intrigalhar" acabou por confessar. Tal como assumiu que uma série de matérias ali tratadas "não me interessam agora nada. Até estive para aqui a fazer bonequinhos". A plateia riu. O candidato aplaudiu(-se) no final. Desta vez, foi uma campanha alegre.