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Presidenciais 2016

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Duas ou três coisas de que Marcelo não está a gostar no Governo Costa

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Jose Carlos Carvalho

Tem repetido que tudo fará para segurar António Costa. Mas o professor critica algumas políticas em que o atual Governo está a desfazer o que o anterior deixou. Como as alterações nos impostos. Ou na educação, justiça, saúde e segurança social. Suavemente, Marcelo critica

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

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Jornalista da secção Política

José Carlos Carvalho

José Carlos Carvalho

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Fotojornalista

Nesta altura do campeonato, podem alguns eleitores ainda ter muitas dúvidas sobre o posicionamento exato de Marcelo Rebelo de Sousa - hoje, agora - sobre um conjunto de assuntos sobre os quais já disse coisas variadas. Mas num ponto ninguém terá dúvidas: Marcelo tudo tem feito para sossegar o atual Governo e os seus apoiantes, repetindo, dia após dia, que será um baluarte da estabilidade e um pilar da governabilidade. Voltou a dizê-lo, sem hesitações, esta segunda-feira, num almoço em Lisboa promovido pela Confederação do Comércio e pela União das Associações de Comércio e Serviços.

O professor escolheu a “confiança” como o predicado de que o país mais precisa, e a sua construção como uma das tarefas do sucessor de Cavaco em Belém. E quem diz confiança diz governabilidade. “Temos de criar estabilidade governativa”, disse Marcelo, notando que nesta fase “o pior que podia haver era juntar-se uma crise política à crise económica e social”. Até aqui nada de novo.

Ora, a governabilidade e a estabilidade pedem consensos e é aí que a cola com que Marcelo se tem pegado ao Governo de António Costa começa a dar de si. Nos últimos dias, o professor já tinha defendido a estabilidade e os consensos de regime em áreas como “o sistema educativo, o sistema hospitalar, a organização judiciária ou os fatores de sustentabilidade da segurança social”. Voltou a defender isso está segunda-feira, frisando que “não é possível estar a mudar” o essencial destas áreas de cada vez que muda o governou ou, no mesmo governo, de cada vez que alguém muda de ideias.

Mas esta tarde Marcelo foi mais longe e juntou os impostos à lista de áreas em que preferia não ver alterações tão frequentes. Falando perante representantes do sector do comércio, reconheceu que “a estabilidade fiscal é muito importante para quem desenvolve atividade económica”.

Ora, em todos estes sectores, o início de mandato do Governo Costa ficou marcado ou por reversões das políticas do anterior governo - os casos mais notórios foram a educação e o mapa judiciário - ou pelo promessa de o fazer: e já é sabido que boa para da reforma do IRS e do IRC aprovada pela coligação será desfeita em breve.

Fundos europeus e banca

Outras duas preocupações assinaladas por Marcelo - e ambas dirigidas ao público que o ouvia - foram os fundos europeus e o sistema bancário. Com recados ao
Governo, que é, em primeira linha, quem terá esses dossiês em mãos. Sobre os fundos comunitários, Marcelo chamou a atenção para que haja “conhecimento adequado, transparência e disponibilidade dos fundos europeus” - é agora que eles são mais necessários, para sair da crise, ou tudo será mais difícil.

Sobre a banca e o necessário financiamento da economia, Marcelo prometeu que como Presidente da República acompanhará de perto tudo o que for necessário para “reforçar o sistema financeiro”, incluindo no aspeto da “regulação”.

A aposta na procura interna

Além deste caderno de encargos - que valendo para Belém, vale sobretudo para quem está no Governo - Marcelo fez o elogio do sector do comércio e do “necessário” estímulo à procura interna. E, nesse ponto, não podia estar mais longe daquilo que foi a governação da sua família política. Se Passos e Maria Luís tratavam a procura interna essencialmente como um problema, Marcelo é mais moderado nessa atitude, aproximando-se do pensamento de Costa e Centeno.

No meio, diz o professor, é que está a virtude, num “modelo económico que possa fazer convergir a aposta nas exportações com o papel permanente e insuperável do estímulo do consumo interno”.

É assim, agradando agora a uns e agradando depois a outros, que Marcelo faz o seu caminho, falando de tudo como se fossem evidências. Nada mais do que evidências.