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Presidenciais 2016

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Marisa ‘sigue adelante’

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Nuno Botelho

“Si, se puede!”, “Si, se puede!”, gritou-se por várias vezes no comício da Marisa Matias no cinema São Jorge, em Lisboa. Ao contrário do provérbio, neste caso, de Espanha vieram mesmo bons ventos. Soprados por Pablo Iglésias, deram um empurrão na campanha. Marisa, que recebeu o apoio de Helena Roseta, anda neste domingo pelo Algarve, e amanhã por Espinho e Porto

Nuno Botelho

Nuno Botelho

Fotojornalista

A produção luso-espanhola, com a presença do líder do Podemos, foi a estreia de um apoiante internacional nesta campanha presidencial. A avaliar pela reacção do público, foi um promissor ensaio geral para o resto de campanha de Marisa Matias.

Sessões políticas em espaços fechados são fatos à medida, já se sabe. Contudo, nem sempre o corte da máquina partidária assenta de forma primorosa no corpo do candidato.
Mas logo desde a entrada na sala (ladeada por Pablo Iglésias, Catarina Martins e o mandatário da campanha, António Capelo), se percebeu que Marisa estava dispensada de qualquer segunda prova.

Pablo Iglésias era o chamariz da tarde de sábado. Não exclusivamente por ele, mas por certo em parte devido à sua participação, a sala (1200 lugares) ficou cheia a tal ponto que, já o comício decorria, teve de ser proibida a entrada de mais gente.

Um vigoroso despertar

Caso alguém estivesse a dormir na forma, o prelúdio musical (o coro Lisboa Cantat entoou o sempre arrebatador “Acordai”, de Fernando Lopes Graça) despertou as hostes. O ator e encenador António Capelo, aproveitando a deixa da letra de José Gomes Ferreira, espevitou-as ainda mais: “Acordai, acordai, que a liberdade está a passar por aqui”.

Depois de citar Jorge de Sena, num poema de 1972 (“Que Portugal se espera em Portugal”), Capelo declamou “Esta gente/ Essa gente”, de Ana Hatherly. Para dizer que “o que é preciso é gente (…) que mostre o dente”, “gente que enterre o dente / que fira de unha e dente / e mostre o dente potente / ao prepotente”. Um repto a Marisa para, daqui para frente, ferrar mais o dente?

Quem o ferrara claramente, o dente, mas no lado de lá da fronteira, foi Pablo Iglésias. Embora gostasse de ver no seu país “uma solução à portuguesa, o líder do Podemos parece pouco esperançado que isso aconteça. É que Iglésias trocaria de bom grado Pedro Sanchez (o líder do PSOE) por António Costa. “Infelizmente, não temos em Espanha um Partido Socialista como em Portugal”, disse aos jornalistas, em conferência de imprensa anterior ao comício.

Adivinha quem vem hoje…

Se a presença de Iglésias foi um aguardado apoio de peso (Podemos e Bloco são partidos irmãos, e Pablo fez questão de reconhecer quanto devia a Marisa por todo o apoio recebido em Bruxelas, quando se tornou eurodeputado), outro foi inesperado para a plateia; Helena Roseta, hoje deputada independente eleita pelo PS, que entrou na sala já Catarina Martins estava a meio do discurso.

Pouco mais tempo falaria a porta-voz do Bloco de Esquerda. E foi no pequeníssimo intervalo, antes da intervenção de Marisa Matias, que Helena Roseta passou para o palco onde estavam os oradores. Aí, foi saudada efusivamente por vários dirigentes do Bloco. Alguns deles, além de outras batalhas políticas, estiveram com ela na segunda campanha presidencial de Manuel Alegre. Ato contínuo, foi convidada a sentar-se em lugar de destaque, na primeira fila atrás do púlpito. Depois, já com Marisa ao microfone, ouviu da candidata palavras de boas vindas.

Helena Roseta diria mais tarde que está com Marisa Matias, entre outras razões, por ela “ser mulher”, e também por a candidata “pensar o que diz e dizer o que pensa”. E não menos importante, notou Roseta, por ser uma pessoa que “não faz cálculos” (num mundo e num tempo em que a maioria está nas mãos dos que fazem sempre continhas à vida).

Expansão em direcção ao centro?

A ida de Roseta ao São Jorge deixa Marisa com um apoio de peso fora da área de influência do BE. Navegando agora nos mares do PS, a atual deputada chegou lá pelos afluentes dos movimentos cívicos, os Cidadãos por Lisboa (CPL), que ainda integra, e transporta naturalmente esse capital.

Helena Roseta mantém desde há anos uma estreita ligação política com António Costa. Foi sua aliada na Câmara de Lisboa a partir de 2008, e umas das suas apoiantes para secretário-geral (inscreveu-se então no processo das primárias, para poder votar). É presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, suportada pelos votos dos deputados dos CPL e do PS, cuja lista encabeçou como independente, nas autárquicas de 2013.

Se Helena Roseta voltar a alguma iniciativa de Marisa Matias, isso será certamente uma nova força motriz na candidatura.

Os jovens, os avós e os pais

Num ponto, pelo menos, se tocam as trajetórias de Roseta e de Iglésias: a participação e a liderança de movimentos de cidadãos. Os CPL nunca deram lugar a um partido, é verdade (embora algumas propostas suas tenham sido e continuem a ser postas em prática em Lisboa). Na génese um movimento de cidadãos (os Indignados, que ocuparam as ruas e agitaram Espanha já na fase recente de maior austeridade e elevado desemprego), o Podemos transformou-se em partido e é hoje a terceira força política do seu país (um resultado que trocou as voltas a algumas sondagens).

Foi esse histórico recente que Pablo Iglésias recordou no comício, no qual mostrou ser um um orador exímio. Pablo colocou Marisa no pelotão da “gente normal, que se veste como as pessoas da rua”. Como ele, de resto, que interveio em mangas de camisa. Um estilo que não é de indumentária, mas de princípios e de causas, para “acabar com uma classe política que está velha”.

O político espanhol de uma nova geração quis deixar “uma mensagem aos jovens de Portugal”, que ele sabe, “claro, que vão votar Marisa”. E o pedido é que não vão sozinhos: “Vão votar com os vossos avós e pais”.

Comunhão ibérica

“Si, se puede”, “Si se puede”(o lema do Podemos), gritou-se por várias vezes no cinema São Jorge. Começou por ser uma saudação da plateia portuguesa a Pablo Iglésias. Mais tarde repetiu-se, já numa aparente fraternidade ibérica, como palavra de ordem para a corrida de Marisa.

“Adelante que se puede, en Portugal también se puede!”, proclamou Iglésias já no final do discurso. Na tarde de sábado, em Lisboa, no cinema São Jorge, correu tudo sobre rodas. Pouco depois, na arruada que desceu a Avenida da Liberdade (Marisa, Pablo e Catarina tiveram por vezes de aceder a tirar algumas “selfies”), foi só aproveitar a embalagem.

O verdadeiro teste de stress começa neste domingo. Marisa Matias anda pelo Algarve. Amanhã, começa o dia na feira de Espinho e termina-o com um comício no Porto, no antigo mercado Ferreira Borges.

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    Ou sim ou sopas, não há meias tintas. Foi essa a mensagem e o repto de Marisa Matias no muito concorrido e vibrante comício do Cinema São Jorge, na tarde deste sábado, em que a candidata deu asas a uma dose de irreverência que ainda não se vira. Com Marisa estiveram Catarina Martins, Pablo Iglésias e, sem ser anunciada, apareceu Helena Roseta