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Presidenciais 2016

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Maria de Belém. “Esta candidata não é afetiva a fingir”

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LUCILIA MONTEIRO

Animada por uma boa recepção na feira da Tocha, em Cantanhede, Maria de Belém solta-se, assume o seu lado afetivo. “Nunca tinha falado disso porque queria que os que me acompanham o vissem”

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Jornalista da secção Política

Lucília Monteiro

Lucília Monteiro

Fotojornalista

Agostinho da Silva foi citado por duas vezes, este domingo, no almoço-comício da candidatura de Maria de Belém, na Figueira da Foz. A primeira por Manuel Machado, presidente da Câmara Municipal de Coimbra e da Associação Nacional dos Municípios Portugueses: "O que interessa na vida não é prever os perigos da viagem, é tê-la feito". A segunda pela própria candidata, que se socorreu do filósofo desaparecido em 1994, para lembrar que ele dizia que "o problema de Portugal são as elites" e fazer-lhe uma adenda: isso é porque "as elites deixaram de ouvir o povo. Comigo não é assim e não é de agora. Não é para que me tirem uma foto, é por eu ser assim".

Animada pela boa recepção que tivera de manhã, na feira da Tocha (Cantanhede), território dominado pelo PSD e pelo CDS, Maria de Belém "atreve-se", pela primeira vez na campanha, a falar do seu lado afetivo. Explica que se nunca se referiu a isso antes foi porque queria que as pessoas que a acompanham na campanha vissem por elas próprias como é que ela superava as provas de rua (depois de muitas das iniciativas dos primeiros dias terem sido, propositadamente, dentro de portas): "As pessoas sentem afeto; esta candidatura não é afetiva a fingir".

Antes de si discursara Almeida Santos, presidente honorário do PS, lamentando não fazer um discurso político "há tanto tempo que desaprendi". A curar uma gripe, não quis deixar de ir prestar "uma homenagem muito sincera" a uma "querida amiga" e atribuiu-lhe o feito de ter "revolucionado as candidaturas das mulheres portuguesas à Presidência da República" - tinha havido "um exemplo único no passado, uma grande senhora também" (Maria de Lurdes Pintasilgo), recordou. Depois, falou dos anos em que, em Moçambique, ajudou a combater o antigo regime.

A candidata não desperdiçou a deixa e, quando subiu ao palanque, recuperou os anos anteriores ao 25 de abril - já ontem, em Coimbra, o tinha feito - para saudar na pessoa de Almeida Santos todos os que, de "fora da metrópole", ajudaram Portugal a conquistar a democracia: "Não foram sobressaltos cívicos recentes, foi uma vida de coragem". Uma indireta com dois destinatários: Marcelo e Sampaio da Nóvoa.

"Presidente de quê?"

De manhã, na feira, Maria de Belém faz campanha com a 'banda sonora' de Sampaio da Nóvoa por fundo. Um carro de som do candidato percorre o recinto com apelos ao voto no candidato e insiste em fazer passar a mensagem, mesmo depois de um membro do staff de Belém lhe pedir que desligue os altifalantes enquanto passa a caravana. Ninguém repara: os feirantes querem vender, os transeuntes querem comprar. As eleições presidenciais são a última das suas preocupações. Ainda assim, muitos têm curiosidade em saber quem lá vem. Aceitam o folheto que explica as razões da candidata, alguns até acedem a colar na lapela o autocolante que apela "vota bem, vota Maria de Belém". Prevêem: "Isto vai ser entre o Marcelo e o Sampaio da Nóvoa". Desejam: "Para mim está bem se for entre ela e o Sampaio da Nóvoa. Marcelo é que não! Não gosto daquela cara!".

A figura miúda de Maria de Belém é engolida pela nuvem de câmaras (de televisão e fotográficas) que a impedem de progredir, senão muito devagar, pelas bancas que vendem hortaliça, pão, roupa interior, esfregonas, chouriços, lençóis. Pára aqui e ali, conversa sobre a circunstância quando o interlocutor se mostra disponível. Demora-se um pouco mais junto à senhora dos tremoços de Cacima ("feitos de maneira tradicional"), dá-lhe os parabéns por estarem tão "bem temperados", terem "pouco sal", cumprindo as orientações da Organização Mundial de Saúde. É bem recebida. O facto de ser uma mulher a candidatar-se a presidente não passa despercebido e é saudado por muitas das suas congéneres - "já era tempo". Apoiantes da candidata pedem-lhes que vão votar, "é já no domingo". "Vou, claro", assegura uma potencial eleitora. Mas é para "presidente de quê?".