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Marisa Matias: “Eu sou a candidata perigosa para os calcinhas”

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Nuno Botelho

Ou sim ou sopas, não há meias tintas. Foi essa a mensagem e o repto de Marisa Matias no muito concorrido e vibrante comício do Cinema São Jorge, na tarde deste sábado, em que a candidata deu asas a uma dose de irreverência que ainda não se vira. Com Marisa estiveram Catarina Martins, Pablo Iglésias e, sem ser anunciada, apareceu Helena Roseta

Paulo Paixão

Paulo Paixão

Texto

Jornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

Fotografia

Fotojornalista

A frase é de Pepetela, o escritor angolano citado por Marisa Matias no comício de hoje em Lisboa, no cinema São Jorge. A fauna humana divide-se em “homens, mulheres e calcinhas”. Estes são “os que gostam de tudo”, disse Marisa. Acima de tudo, aceitam tudo. Ou, de outra forma, estão sempre dispostos a aceitar tudo. “Os calcinhas são os reis da política realista e os resultados da política realista são, realisticamente falando, a desgraça do nosso país”, afirmou a candidata.

Marisa aproveitou o momento da campanha (o dia em que ela chega a meio) para imprimir um novo timbre ao discurso. A sala a abarrotar (aliás, pelo menos algumas dezenas de pessoas tiveram de ficar de fora, quando a lotação de 1200 lugares esgotou); a motivação provocada pela presença de Pablo Iglésias, o líder do Podemos que atravessou a fronteira para declarar o apoio à sua ex-colega no Parlamento Europeu e parceira de muitas lutas transeuropeias; a presença de Catarina Martins a cimentar a entrega da família bloquista; a chegada surpresa de Helena Roseta, a alargar o campo da candidatura para a área do PS e dos movimentos de cidadãos; tudo isso. foram o cenário e os ingredientes ideais para o clique. “Eu sou a candidata perigosa para os calcinhas, perigosa para a tristeza, perigosa para a fatalidade”, disse Marisa Matias.

Com as sondagens a darem-na muito longe de ter qualquer hipótese de passar à segunda volta (que, de resto, segundo os mesmos estudos de opinião é uma possibilidade remota), a candidata apoiada pelo BE diz acreditar. “Falta uma semana. Muitas vezes os impossíveis são possíveis”. Várias vezes, por outros oradores, já havia sido lembrado que antes de 4 de outubro (e mesmo nessa noite) poucos acreditavam que o Governo em Portugal pudesse ser hoje aquele que é.

O primeiro apelo ao sonho foi feito por Pablo Iglésias, quando lembrou que em Espanha algumas sondagens davam apenas 10% ao Podemos, e no final o partido nascido de um movimento de cidadãos teve mais de 20%, sendo hoje a terceira força do país. “Aqui vai ocorrer o mesmo: que haja uma surpresa, Portugal merece uma surpresa. Vamos caminhar para a segunda volta”, afirmou o político espanhol.

Denúncia da Constituição não escrita

Marisa, que tem feito da defesa da Constituição o santo e a senha da corrida a Belém, deu hoje uma volta a esse texto, ao denunciar a “Constituição não escrita” que vigora no país, “a Constituição do medo”.

E que Constituição é essa? É “a cultura dos caladinhos a obedecer a quem manda, é a cultura do não te metas em problemas, a cultura do mais vale um pássaro na mão do que dois a voar”, disse, entre outros exemplos. “É a Constituição não escrita que eu quero vencer”, salientaria depois.

Voltando a Pepetela: “O topo do nosso país está cheio de calcinhas”, disse a candidata, introduzindo nos discursos de campanha essa palavra-chave, uma versão mais literária dos DDT (os Donos Disto Tudo).

E como é que a coisa (o poder desses calcinhas, ou DDT) se processa? É através da narrativa das inevitabilidades. “É o consolida”, disse Marisa. “Consolida, filho, consolida”, ouviu-se na sala, num espontâneo tributo à cantiga-manifesto de José Mário Branco, cujo espírito atravessou hoje, em alguns momentos, o São Jorge. “É o FMI”, prosseguiu Marisa; ou “é a Comissão Europeia, o tem de ser”.

Um assobio bem caro

Marisa lembrou “a enxurrada de dinheiro” levada pelos mais recentes buracos na banca, o Banif e o BES, cinco mil milhões no total dos dois casos. Denunciou o facto de a culpa continuar solteira. “A culpa é de todos, não é de ninguém”, é a conclusão que se tira até ao momento.

A candidata presidencial falou depois dos que “assobiam para o ar”, para declarar: “É o assobio mais caro da História de Portugal”.

Os adversários nesta eleição foram visados, mas sem os nomear, quando falou dos “candidatos da conversa fiada, os que têm medo de tudo”.

Normal e mágica

Se a candidata é Marisa, ninguém estranhará que a presença de Pablo Iglésias, líder do Podemos, uma espécie de partido-irmão do Bloco (Mariano Rajoy selou de resto esse parentesco quando chamou ao BE “o Podemos de lá”), tenha sido o filme cabeça de cartaz no São Jorge, na tarde de hoje.

O político espanhol não defraudou expectativas. Mostrando ser um exímio orador, agradeceu os primeiros aplausos com um “muito obrigado”. De seguida, deu “gracias al pueblo de Portugal” por estar a ouvi-lo em espanhol (coisa rara, assinalou, um povo ouvir assim com naturalidade alguém que lhes fala noutro idioma em sua própria casa).

Iglésias falou da forma como Marisa Matias lhe ensinou, e a outros eurodeputados do Podemos, os segredos dos bastidores do PE.

E traçou da candidata presidencial um retrato, que mistura os traços de qualquer pessoa (Marisa parece-se com a “gente normal”) com os que os apenas estão ao alcance de muito poucos. “Marisa tem algo mágico”, disse Iglésias. “Nós, as pessoas normais, caminhamos; Marisa avança”.

Balanço para as últimas etapas

De caminhos e de caminhadas já falara Catarina Martins. A porta-voz do Bloco foi cáustica para Cavaco e para Marcelo, ao mesmo tempo. Falou dos que querem “convencer” o país que, “depois de Cavaco, qualquer coisa é melhor do que Cavaco”. Uma falsa questão para Catarina: “Como se isso chegasse. Não chega. Temos de ser mais exigentes”.

À boleia do discurso de Iglésias, a líder do BE lembrou que “em Portugal, em Espanha e em toda a Europa” está a ser feito “um caminho. E é esse caminho que temos de continuar”, defendeu.

No itinerário de campanha de Marisa Matias, após o comício, que instilou confiança nas hostes bloquistas e outros apoiantes, uma arruada desceu a Avenida da Liberdade, terminando frente à Ginjinha do Rossio.

No caminho a percorrer até dia 24, as barreiras serão ainda muitas e se calhar insuperáveis no seu todo. Mas hoje Marisa ficou menos longe: ganhou embalagem e músculo.