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Presidenciais 2016

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Um “vadio” acidental na campanha de Marisa

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Nuno Botelho

Quase todas as campanhas acabam por ter figuras marcantes (ainda que só por minutos ou horas). Ficam associadas ao imaginário das andanças de um dado candidato. O encontro imediato de Marisa Matias foi em Coimbra. Há mais de 24 horas, mas podia estar ainda por acontecer, porque há pequenas histórias que se desligam do tempo

Paulo Paixão

Paulo Paixão

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Jornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

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Fotojornalista

Chegou incógnito e partiu anómimo. Voltaria uma segunda vez, e abalou como da primeira: “Anónimo”.

O embate foi na Rua do Corpo de Deus, uma via íngreme que dá para a Baixa de Coimbra. Um homem de chapéu aproxima-se da candidata e faz saber que há contas para ajustar.

“Tenho uma dívida para consigo, o Sampaio da Nóvoa e o Henrique Neto, porque vão obrigar o Marcelo a ir à segunda volta”, diz. Nessa altura, já microfones e câmaras registam o momento.

O discurso é fluído, por vezes com referências indiretas (embora a soar bem). Uma é para Marcelo: “Por vezes as pessoas são promovidas na sua competência até à incompetência”, declara.

“Gostava que fosse Presidente da República o Henrique Neto”, diz, parecendo deixar desarmada Marisa Matias. Rapidamente esclarece: “Mas antes do Neto gostava que fosse Presidente a pessoa com quem estou a falar”.

A candidata, a jogar em casa, percorrendo ruas da cidade que bem conhece, sentiu-se mais confortável. “É uma mulher jovem que dignifica a vida política”, continua o transeunte acidental.

Um homem orgulhoso e desgostoso com a Pátria. “O país da minha paixão é cada vez mais o país da minha vergonha”.

Novo piscar de olho a Marisa Matias. “Era bom que os portugueses conhecessem melhor o seu trabalho lá fora, na saúde [no âmbito das funções de eurodeputada]”.

Aqui a candidata parece querer fazer um teste aos conhecimentos de quem a interpela. “Está a referir-se a quê?”

A resposta sai na ponta da língua, identificando dois dossiês decididos no Parlamento Europeu nos quais Marisa teve papel crucial: combates ao Alzheimer e aos medicamentos falsificados.

A conversa vai seguindo o seu curso, com novos votos de felicidades para a candidata, embora desta feita com algum sal: “Eu não ficaria infeliz se ganhasse".

Antes de bater em retirada, para continuar a arruada, Marisa agradece a atenção. “Nunca se agradece aquilo que se merece”, ouve de chofre, quando já se afasta. E recebe também do seu interlocutor durante alguns minutos a garantia de que tentará assistir ao comício marcado para daí a algumas horas.

Com a candidata já ao largo, alguns do jornalistas continuam de volta do homem do chapéu, a tentar espremer algo mais.

“Veio aqui de propósito ou foi um encontro por acaso?”, pergunta-se.

O esclarecimento, com palavras que parecem escolhidas a dedo, deixa muito por esclarecer. “Andava por aqui e acabei por esperar por ela”.

Mas o melhor está guardado para o fim.

“Podemos perguntar-lhe o seu nome?”

“Perguntar podem, mas isso não tem qualquer interesse. Digam que sou um vadio e um cidadão anónimo deste país, que se passeia por aí".

Ante algum espanto e sorriso no olhar dos jornalistas, uma explicação ainda mais maliciosa: “Tenho o direito à vadiagem, porque já trabalhei bastante”.

Depois de novo pedido de identificação, repete a senha: “Um vadio”, mas que ganhou o “direito à vadiagem”.

Horas depois, já de noite, no comício realizado no Pavilhão de Portugal, o homem do chapéu lá aparece de novo. Depois dos discursos, com a sala já semi-vazia, cumprimenta Rui Pato (o emérito guitarrista que foi companheiro de estrada de Zeca Afonso) e troca novamente algumas palavras com Marisa Matias.

O Expresso volta à carga, a tentar saber o nome do Senhor X. “Como disse esta tarde, sou um vadio, mas que já ganhou o direito a sê-lo”, repete, com um sorriso.

“Olhe, mas mais do que vadio, sou um vagabundo, que quer dizer aquele que vagueia pelo mundo”, diz, com requinte didático.

No dia 24, votará em quem?

”Não voto, nunca votei e agora já sou velho para debutar”, esclarece, com novo sorriso.

Ante nova surpresa do jornalista, lá parte o homem do chapéu, a vaguear pela cidade do Mondego.