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Presidenciais 2016

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A noite em que um tsunami de emoções afogou Marisa Matias

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Nuno Botelho

Talvez como nunca o discurso de um candidato tenha sido tão esvaziado pela sua própria campanha. A voz de João Semedo está bem viva, chega muito longe e o que disse em Coimbra, na noite desta quinta-feira, ecoará por muito tempo. No plano político, atirou a matar sobre Marcelo, colando-o ao fascismo

Paulo Paixão

Paulo Paixão

(texto)

Jornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

(foto)

Fotojornalista

A intervenção não estava no programa do comício com que Marisa Matias fechou a jornada de campanha na sua terra, esta quinta-feira. Foi o deputado do Bloco eleito por Coimbra, José Manuel Pureza, quem deu a novidade: João Semedo, o antigo dirigente do BE que um cancro na garganta retirou do primeiro plano da vida partidária, iria voltar a intervir numa iniciativa política.

Eram 22h45 e fez-se um silêncio sepulcral no Pavilhão de Portugal. “Espero que me ouçam. Só mesmo a Marisa é que punha a falar aqui um tipo sem cordas vocais”. As palavras foram ditas devagar, com visível esforço (mais para o fim as pausas tornaram-se maiores), mas suficientemente audíveis por todos.

A surpresa bem patente na cara de muitos deu depressa lugar a expressões faciais de uma concentração absoluta. Ninguém queria perder pitada do que estava a acontecer. João Semedo apelou à compreensão. “Vou ser breve, mas se calhar demorado”, o que “não é uma absoluta contradição”, gracejou.

“Peço desculpa por isso, e por recorrer aos apontamentos, porque há um ano que já não vou aos treinos. Já não sou o que era”, acrescenta.

“Foi arrepiante!”

De repente, depois do espanto inicial, e do esforço de cada um para captar todos os pormenores, um ambiente de comoção geral atravessa a sala. Não se percebe bem se começou ao mesmo tempo em todo o lado. Simplesmente, olha-se à volta e há olhos espelhados.

E tal não aconteceu só entre apoiantes da candidata - “foi arrepiante!”, “comovi-me como nunca esperei”, “chorei, chorei…” -, são desabafos ditos por muitos no final, como se na confissão tivessem encontrado alívio. A verdade é que a comoção, importa dizê-lo, também grassou entre jornalistas.

Muitos dos profissionais de comunicação que fazem a cobertura da campanha de Marisa Matias estiveram na estrada há quatro meses com Catarina Martins, nas legislativas. Num caso e noutro, estão fartos de ver como João Semedo é presença assídua em iniciativas do BE, do Porto a Lisboa, em Leiria ou Coimbra, como se os obstáculos ditados pela sua doença fossem um pequeno “pin” que se dribla facilmente. E se calhar são, mas apenas para ele, porque para quem já manteve algumas conversas com o ex-deputado a sensação é bem diferente.

Vê-lo na noite desta quinta-feira subir ao palco, arregaçar as mangas, disposto a dar o corpo às balas (numa altura em que as intenções de voto na candidata estão aquém do que ela esperaria), não poderia deixar ninguém indiferente. Até os que têm por dever de ofício reportar com imparcialidade aquilo que observam.

E mesmo o recurso de ir às entranhas buscar uma reserva de frieza e de objetividade, que a profissão especialmente requer para casos assim, é tarefa que no momento, a quente, se revela impossível. Só o tempo (neste caso, poucas horas decorridas) consegue repor a normalidade possível. Em nome da lealdade aos leitores, sem chegar ao extremo de qualquer declaração de interesses, impõe-se este registo de ocorrências.

A geringonça de Semedo

Nunca se saberá qual foi a maior fonte dos sobressaltos sentidos por quem na noite passada ouviu João Semedo. Se a sua simples presença, e a determinação de dizer o que pensa (já não seria pouco). Se as tiradas humoradas com que pontuou o discurso.

Num ambiente pesado, o riso tanto desanuvia como pode dilacerar ainda mais. Um exemplo: a certo momento, sobre o desempenho do aparelho que tem na garganta e lhe permite fazer-se ouvir (além de ele próprio, sem cordas vocais, ter sido obrigado a reaprender a falar), Semedo afirmou: “A geringonça vai funcionando”. Breve pausa, intencional: “Mas a outra vai funcionar melhor”.

Ou ainda, se o nervo sensível na base dos sobressaltos foi a contundência do ataque político desferido contra Marcelo Rebelo de Sousa. Não pela pancada em si, que nada deve condoer os apoiantes de Marisa. Mas por ter sido dada por alguém que se julgaria, por via de um qualquer preconceito meridiano, “arrumado” para estas andanças. Ou talvez, o mais provável, a ignição de tudo tenha sido um “cocktail” de razões e sentimentos.

João Semedo, antigo deputado e ex-coordenador do Bloco (esta função desempenhada no tempo em que repartiu a direcção bicéfala com Catarina Martins, após a saída de cena de Francisco Louçã), falou durante 14 minutos. Foi interrompido apenas amiúde (embora no final tenha sido saudado de pé). Como se a plateia, num entendimento tácito, tivesse pretendido evitar ao máximo o sacrilégio de interromper uma intervenção ouvida com devoção.

Marcelo mergulhado no fascismo

Mas reduzir a prestação de João Semedo a uma espécie de “reality show” com laços sentimentais para a família bloquista seria a amputação de toda a dimensão política do momento, no quadro da campanha eleitoral.

O ex-dirigente do BE assinou o mais violento ataque sobre Marcelo Rebelo de Sousa ao longo destes dias. Foi tudo sem meias palavras: “Ninguém escolhe o pai ou a mãe; é a família que nos escolhe a nós. Marcelo não tem culpa de ter tido um pai apoiante do fascismo e de Salazar”, começou por dizer Semedo.

Foi um mero preâmbulo do passo seguinte, destinado a colar Marcelo à ditadura que governou Portugal até 1974. “Mas ter sido apoiante do fascista Marcelo [Caetano] não é culpa do pai de Marcelo [Rebelo de Sousa]”, prosseguiu o antigo deputado bloquista.

De seguida, veio o segundo ponto do libelo. “Em 1969, quando os estudantes de Coimbra se levantaram contra Américo Tomás, onde estava Marcelo Rebelo de Sousa? Não estava do lado dos estudantes, mas do lado de Américo Tomás. Uns lutaram pela liberdade e pela democracia; há outro que tudo fez para prolongar a tortura, a censura e a guerra colonial”.

Foi a acusação mais “hard”, mas outras de menor peso já teriam sido suficientemente acutilantes: “Não haja qualquer ilusão: se Marcelo chegar a Belém não vai para lá dar notas aos ministros e secretários de estado, não vai lá para entreter os nossos serões com a Dona Judite. Se Marcelo se instalar em Belém, é a conspiração política que se instala [no palácio]”.

Adrenalina ou “boomerang”?

É impossível apurar, poucas horas após o sucedido, se alguém da candidatura de Marisa Matias, e o próprio João Semedo, terão alguma vez imaginado o impacto emocional que este último iria desencadear no Pavilhão de Portugal.

Semedo foi um eucalipto de grande porte que praticamente tudo secou. Em Coimbra, houve um AS (antes de Semedo) e um DS (depois de Semedo). No AS, tudo o que foi dito perderia de seguida relevância. E no AS houve algumas intervenções marcantes, como a de José Manuel Pureza, que desconstruiu os “quatro mitos” de “O Senhor da Armadilha” (Marcelo, pois claro). Azar o de Pureza, que terá de repetir o guião em outra ocasião, se quiser que ele seja conhecido.

Já no DS, só falou Marisa Matias, mas antes de ela intervir já se percebera que pouca atenção atrairia. Na parte programática (a candidata quer “continuar a fazer campanha a falar das grandes questões, das escolhas”), Marisa centrou-se na necessidade de o país ter, de acordo com a protecção constitucional, “um ambiente sadio e sustentável”. Mas se quer que a mensagem passe talvez seja melhor voltar a ela nos próximos dias.

O que fica verdadeiramente do comício de Coimbra é, para dentro e fora do Bloco, a aparição surpresa de João Semedo e a comoção coletiva gerada; e para esta campanha eleitoral, o que sobressai a partir de agora é o chumbo grosso disparado contra Marcelo.

Saber se o uso de tal arsenal traz ou rouba votos, isso é outra questão. Terá sido Semedo a chispa que ainda não aparecera ao lado de Marisa, injetando na candidatura uma dose grande de adrenalina? Ou esta investida contra Marcelo terá um efeito “boomerang” para os propósitos de Marisa, dando àquele, e de bandeja, um ensejo para se vitimizar?

Política feita com amor

Marisa leu o discurso que levava preparado, no dia em que andou pela sua cidade. Ao fim da tarde, numa arruada, havia estado com os pais, outros familiares e amigos do peito, o que a deixou emocionada.

Mas esses episódios, comparados com o que viveria horas depois, pareceram apenas pequenos fogachos de afeto (e não foram, de facto). O que presenciou e sentiu fê-la engolir em seco.

“O João deixou-me sem palavras, o que não costuma acontecer, pois sou acusada do contrário”, disse. Uma pausa, antes da declaração: “Foi dos maiores atos de amor a que assisti na política. João, obrigado!”.

Por essa altura, já mais de um quarto de hora depois de ter começado a falar “um tipo sem cordas vocais”, entre as cerca de 200 pessoas que lotaram o Pavilhão de Portugal, ainda muitos passavam a mão pela cara, num gesto que pretendiam discreto, mas no qual com os dedos tentavam enxugar umas lágrimas resilientes.

Como se cada um tentasse esconder dos outros o que estava à vista que todos sentiam dentro de si.