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Presidenciais 2016

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Jorge Sampaio. O Presidente que despediu Armando Vara

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Em tempo de campanha para as presidenciais, o Expresso recorda alguns dos momentos mais importantes do Palácio de Belém, desde Spínola até aos dois mandatos de Jorge Sampaio. Este é o quinto episódio desta série de artigos

Bernardo Ferrão

Bernardo Ferrão

Subdiretor da SIC

Não é habitual um Presidente da República forçar uma demissão num Governo, mas teve de acontecer. A Fundação para Prevenção e Segurança criada por Armando Vara e Luis Patrão estava envolta em demasiada polémica e Jorge Sampaio, a caminho da reeleição, deu um murro na mesa. E Guterres teve de obedecer.

No 1º de Dezembro de 2000 (naquela altura ainda se celebrava o feriado da Restauração), o Expresso trazia na primeira página a história que iria consumir e marcar o Governo de António Guterres, e a presidência de Jorge Sampaio, por uns bons meses: “Vara e Patrão criam fundação polémica”.

A história deu brado. O país ficara a saber que Vara e Patrão tinham criado uma fundação privada, alimentada por dinheiros do Estado, que se substituía ao Ministério da Administração Interna na conceção e execução de campanhas da Prevenção Rodoviária. Mas não era só isto. A “obra” dos dois governantes de Guterres metia “amigos”, membros dos gabinetes, atribuição de dinheiros públicos para campanhas sem concursos, bem como a entrega de imóveis do Estado. Ou seja, era tudo muito pouco transparente.

Assim que a bomba explode, o segundo Governo de Guterres, que já não estava na sua melhor fase, abana. E não é pouco. Fernando Gomes, ex-MAI, diz que o primeiro-ministro sabia da existência da empresa. Guterres defende-se, fala de uma cabala política contra si e chega a dizer: "Este é o dia mais infeliz da minha vida". E não era para menos, os envolvidos eram dois dos mais fiéis guterristas.

No PS o caso gera convulsão interna, mas a oposição chama-lhe um figo. Durão Barroso, líder do PSD, agarra-se à polémica e não hesita em meter ao barulho o Presidente da República: "Poderá haver caso mais gritante de confusão de interesses e de incompatibilidade entre aquilo que é do partido e aquilo que é do Estado? Alguém ouviu o Dr. Jorge Sampaio? Alguém ouviu uma palavra de moderação do Dr. Jorge Sampaio?". Barroso faz estas declarações durante uma sessão de apoio ao candidato presidencial Ferreira do Amaral.

As eleições para Belém seriam daí a poucas semanas (em janeiro de 2001) e Sampaio, não ignorando os efeitos na campanha, estava preocupado. Era contra a existência daquela Fundação. Em público chega mesmo a falar de um “clima de suspeição” que era preciso afastar urgentemente. Os sinais que saiam de Belém eram claros: Armando Vara tinha de sair do Governo.

Há vários encontros ao mais alto nível. Vara, que nessa fase era ministro-adjunto e do Desporto, chega a pôr o lugar à disposição mas Guterres defende-o num aceso debate no Parlamento. Sampaio não fica satisfeito e chama o primeiro-ministro ao Palácio de Belém. No dia seguinte, Vara deixa de ser ministro.

As relações entre Vara e Sampaio, que já não eram as melhores, azedam de vez. E o presidente que fazia campanha para a reeleição sentiu-o no terreno. Segundo relatos da época, a passagem de Sampaio por Bragança, terra do ex-ministro, foi penosa. Um verdadeiro desastre.

Vara controlava o PS local e boicotou a campanha. A vingança era óbvia, mas valeu-lhe de pouco. Sampaio foi reeleito e Vara nunca mais voltou a um lugar de governação. Nem mesmo com o seu amigo Sócrates, com quem, ainda assim (e Sampaio continuava em Belém), chegou a administrador na Caixa Geral de Depósitos.

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