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Presidenciais 2016

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Belém quer um PR que ajude a transformar o país

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“As pessoas têm rosto, não são números”. Se Guterres não veio a Belém, Belém foi a Guterres buscar um slogan que promete assumir como lema do seu mandato presidencial

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Texto

Jornalista da secção Política

Lucília Monteiro

Lucília Monteiro

Fotos

Fotojornalista

LUCÍLIA MONTEIRO

Lia e Cristina, ambas arquitetas na casa dos 30, foram esta manhã à Biblioteca Municipal de Espinho contar a sua história de vida (de sobrevivência) a Maria de Belém. A primeira, atropelada aos 4 anos, paraplégica desde então, narrou as dificuldades de crescer e ir à escola num país que ainda hoje dedica pouca atenção à mobilidade das pessoas com deficiência; a segunda, sujeita a um transplante pulmonar, contou as dificuldades que encontrou depois da operação. A candidata presidencial agradeceu-lhes: "Testemunhos com rosto são sempre muito mais expressivos do que indicadores ou grandes números". E recorrendo a um slogan que muito se ouviu nos anos dos governos de Guterres lembrou que "as pessoas não são números, correspondem a problemas reais e concretos que quem está na política deve resolver".

Ao quarto dia de campanha, Maria de Belém parece ter deixado os hospitais e as instituições para trás (do programa de hoje só constava uma visita a uma Misericórdia) mas ainda assim não arrumou os "pergaminhos" de ex-ministra da Saúde ou pessoa dedicada às causas sociais. Nem o irá fazer - a sua estratégia passa exatamente por lembrar aos seus potenciais eleitores o que fez ao longo dos seus 40 anos de vida pública. A história de Lia permitiu-lhe recordar o período em que esteve no Secretariado Nacional para a Reabilitação e durante o qual se aprovou legislação que impunha o prazo de um ano para a adaptação dos edifícios à mobilidade - "ainda hoje é um problema"; a de Cristina levou-a de volta ao tempo em que esteve no ministério da Saúde e à Comissão de Humanização que criou - "e que nunca foi reconduzida por nenhuns dos meus sucessores, infelizmente".

“A política não é um ferrete”

São dois exemplos de como o Presidente da República "pode ajudar a transformar o país: "quando temos a legislação mas não temos a prática". A candidata entende que o Chefe do Estado tem de "instigar a sociedade e mobilizar os poderes públicos para que não haja pessoas excluídas". E doutrinou, numa referência indireta aos que doutrinam sobre as virtudes de não serem políticos (Sampaio da Nóvoa, leia-se): "A política só tem legitimidade se for para promover o bem comum". Voltando à carga: "A política não é um ferrete, é investir na vida das pessoas, transformar para melhor a vida das pessoas".

De Espinho, Belém foi até à fábrica de malas Cavalinho, em Ílhavo, onde encontrou uma empresa que paga acima do salário mínimo nacional aos 82 funcionários e remunera de forma igual o trabalho igual de homens e mulheres. A candidata, que se apresenta às presidenciais com a Constituição por programa, afirmou que "um dos mais importantes" da Lei Fundamental é o que respeita ao "direito ao trabalho" e assumiu que tudo fará para que esses princípios sejam "rigorosamente cumpridos". Depois de apelar aos trabalhadores da Cavalinho que "votem em consciência" no dia 24, Belém acompanhou o proprietário da fábrica, Manuel Jacinto Azevedo, numa visita ao "maior presépio do mundo" - um parque temático contíguo às instalações que só este ano (reabre anualmente entre novembro e março) já recebeu mais de meio milhão de visitantes. Um dos quadros (composto por manequins de tamanho natural) recria uma taberna onde três ex-Presidentes da República, Eanes, Soares e Cavaco, jogam às cartas com Álvaro Cunhal. "Podem acreditar que, se Maria de Belém for eleita, terá lugar no presépio", garante Manuel Azevedo.

LUCILIA MONTEIRO