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Marisa contra a corrupção: “Há uma economia predadora que vive da vampirização do Estado”

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Nuno Botelho

A partir de casos na saúde e no ensino, a candidata presidencial apontou baterias ao desperdiço dos dinheiros do Estado e indicou caminhos para combater a corrupção

Paulo Paixão

Paulo Paixão

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Jornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

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Fotojornalista

O relatório do Tribunal de Contas (TC) que apurou um buraco de 36 milhões de euros no Serviço de Utilização Comum dos Hospitais (o SUCH, uma central de compras) foi o mote para o prato forte do jantar-comício que encerrou a jornada desta terça-feira da campanha de Marisa Matias: um ataque à corrupção.

“A ligação entre interesses privados que se misturam com o interesse público é o ponto nevrálgico da corrupção”, disse a candidata presidencial apoiada pelo Bloco de Esquerda. Na última iniciativa do dia, que juntou em Leiria mais de uma centena de pessoas, Marisa Matias esteve acompanhada, entre outros, pelos deputados Heitor de Sousa e José Manuel Pureza, pelo ex-dirigente bloquista João Semedo (que após a saída de Francisco Louçã partilhou a liderança do BE com Catarina Martins) e por José Gusmão, membro da comissão política do partido.

“Há uma economia predadora que vive da vampirização do Estado e dos dinheiros dos contribuintes. Temos de acabar com ela”, afirmou Marisa Matias, antes de defender um conjunto de medidas concretas, em vez de uma pulverização de medidas: “Atirar lama em todas direções só serve para absolver os culpados e punir a democracia”, disse.

“A corrupção não se combate com generalidades. Fazer o combate com generalizações é favorecer os corruptos”, adiantaria mais tarde.
Assim, acrescentou, “atacar a corrupção é bater-lhe onde realmente lhe dói: na fiscalidade, na justiça e na transparência”. Uma das medidas preconizadas pela candidata bloquista é o “princípio da exclusividade dos cargos públicos”. Como tal, importa “combater o princípio da porta giratória entre o público e o privado”, sublinhou.

A saúde é, segundo Marisa Matias, um dos palcos das “zonas escuras da economia” – e aqui com alusões a outros sectores ainda mais obscuros (“os três mil milhões de euros para o Banif foi o que se cortou no SNS, que tantas mortes provocou”, disse).

Outros negócios que a candidata quer erradicar passam-se na educação. A candidata denunciou a existência de contratos de associação com colégios privados “ao mesmo tempo que há escolas públicas a funcionar abaixo das suas possibilidades”. Com tal opção, “o que fazemos é dividir alunos e desperdiçar milhões de euros”, afirmou.

Camélia, flor de nova revolução?

Numa jornada dedicada aos problemas de cidadãos com deficiência (os surdos) e mais tarde empenhado em chamadas de atenção para o que corre bem na investigação e na inovação (com uma visita a uma unidade orgânica do Instituto Politécnico de Leiria) e na saúde (com uma ida ao Hospital de Santo André, em Leiria), os argumentos políticos mais clássicos, visando outras candidaturas, estiveram arredados dos discursos de Marisa Matias.

Durante a tarde, a candidata prescindiu de usar todos os cartuchos num comentário afirmação de Marcelo Rebelo de Sousa segundo o qual “o voto já está decidido”.

“O voto será decidido no dia 24 de janeiro, na primeira volta, e no dia 14 de Fevereiro na segunda volta”, disse Marisa. “A campanha serve para esclarecer e para os candidatos defenderem as suas convicções, não para esconderem o jogo”.

E interrogado se tal era alguma referência a Marcelo, Marisa quis retirar qualquer protagonismo ao candidato da direita, colocando-se ela própria como sujeito da ação: “Eu não estou a esconder o jogo”.

O registo “low profile” ficou ainda mais simbolizado pela adoção de uma flor para esta campanha. No jantar de Leiria, ofereceram a Marisa uma camélia, e logo a candidata lembrou que há semanas o seu mandatário nacional, António Campelo, lhe afirmara que “todas a revoluções têm uma flor” e que a da Marisa “devia ser uma camélia”.

O “regresso do centrão” e do “pântano político”

Se a candidata se resguardou na apreciação dos seus adversários, tal não esteve, contudo, ausente, das intervenções do dia.

No jantar-comício, o primeiro orador da noite, Heitor de Sousa, insurgiu-se contra aquilo a que chamou a recente “normalização do pensamento dominante” em Portugal.

Para o parlamentar bloquista, no panorama mediático português está instaurada uma hierarquia entre os vários candidatos presidenciais. Numa primeira divisão, estão Marcelo Rebelo de Sousa, Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém. “É o regresso do centrão político, na pessoa dos três candidatos”, disse Heitor de Sousa.

Numa “segunda divisão” encontram-se, entre outros, Marisa Matias. E há um terceiro escalão, uma espécie de “distritais”, que agrupa outros candidatos.

Mas foi em relação aos candidatos que o deputado do BE diz terem sido colocados na “pole position” que Heitor de Sousa dedicou alguma atenção, e fê-lo com ironia e imaginação suficientes para lhe garantires o estatuto de autor das frases do dia da caravana bloquista.

Sem os nomear, de Marcelo recordou que ele se considera o candidato da “esquerda da direita”. Em relação a Nóvoa, “o que não era de direita nem de esquerda, é agora de esquerda”; e Maria de Belém, “a que tem de exibir a carta de alforria da esquerda, é agora a candidata da direita da esquerda”.

“É o regresso do pântano político”, afirmou Heitor de Sousa.