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Presidenciais 2016

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“Ó sr. guarda, desapareça!” e a Presidência Aberta que abanou o cavaquismo

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António Pedro Ferreira

No arranque da campanha das Presidenciais recordamos alguns dos momentos mais importantes do Palácio de Belém, desde Spínola até aos dois mandatos de Jorge Sampaio. Este é o terceiro episódio desta série de artigos, com Mário Soares a fazer uma Presidência Aberta em Lisboa, que se transformou num exercício contínuo de crítica social

Ricardo Costa

Ricardo Costa

Diretor de Informação da SIC

Muitos leitores não têm ideia de quanto tempo se levava de carro entre Vila Franca de Xira e Loures ao início da manhã de um dia normal de trabalho, em 1993. Nessa altura, também só quem tinha que fazer esse percurso todas as manhãs – ainda sem a esmagadora maioria das estradas e vias rápidas que hoje circundam a capital do país – é que sabia exatamente o que isso custava e demorava, num pára-arranca sem fim à vista.

Pois bem, alguém convenceu o Presidente da República Mário Soares que ele devia experimentar o percurso e que o devia fazer como qualquer cidadão, sem polícia ou batedores e, já agora, à hora a que milhares e milhares de automobilistas o faziam todas as manhãs. O percurso foi feito num autocarro com a imprensa a bordo e toda a comitiva, onde se encontravam os autarcas de Vila Franca e Loures, eleitos pelo PS e pelo PCP.

Na verdade, aquele percurso era igual a tantos outros que se podiam fazer todas as manhãs à volta ou a caminho de Lisboa ou Porto. Na capital, rotas não faltavam. Mas aquela, como quase todo o programa escolhido por Mário Soares durante a sua Presidência Aberta em Lisboa, não passava por nenhum concelho liderado por um autarca do PSD. E isso fazia alguma diferença, para que o exercício de crítica ao Governo de Cavaco Silva fosse levado a sério e, já agora, contínuo.

O que tornou essa manhã célebre, foi o momento em que o Presidente se irritou e foi à janela do autocarro gritar para um elemento da GNR, que se tinha acabado de apear da moto e ouviu incrédulo o Presidente da República gritar-lhe assim: “Ó senhor guarda, desapareça, não queremos polícias aqui”. O momento é espantoso e absurdo, e só se percebe no que foi a loucura daquela Presidência Aberta que durou quinze dias e que se transformou num exercício de deitar abaixo a alegada “máscara” do sucesso dos Governos de Cavaco Silva.

Soares gritou porque sempre foi uma pessoa impaciente, mas, sobretudo, porque o elemento da GNR estava a atrapalhar o plano e que passava por fazer todo o percurso sem qualquer ajuda policial. Naquele dia isso era o mais importante, como no Casal Ventoso o que interessava era mostrar o submundo de um bairro da droga em plena capital e na margem sul uma escola a cair e… por aí fora. Tudo isto se passou em concelhos com autarcas do PS ou do PCP, com exceção de Oeiras, onde Isaltino Morais conseguiu mostrar porque foi o autarca que mais depressa acabou com bairros de barracas e como se movia tão à-vontade no meio do povo como Mário Soares.

Clara Azevedo

A visita a Isaltino – impossível de contornar, pela popularidade e eficácia – foi a concessão política num programa impiedoso, que parecia nunca mais acabar e que deu cabo dos conselhos de ministros durante duas semanas. No meio da agenda, até Cavaco Silva teve que ir à Presidência Aberta para o encontro semanal com o Presidente, neste caso na Pousada de São Filipe em Setúbal. Cavaco foi, claro, almoçar e reunir, para gáudio do Presidente e da comitiva que tinham passado uma manha inteira a ver tudo o que de bom os autarcas faziam e tudo o que de mau o Governo não resolvia.

As Presidências Abertas de Mário Soares tinham sido uma das grandes invenções dos seus mandatos, com o Presidente a ir viver e trabalhar por uma semana ou duas para diferentes distritos do país. Na ressaca da apertada vitória sobre Freitas do Amaral, em 1986, esses programas tinham sido absolutamente fundamentais para a reconciliação de Soares com parte do país que não tinha votado nele e para a popularidade que não parava de crescer. Mas se era óbvio fazer uma Presidência Aberta em Bragança, Beja ou Castelo Branco, a ninguém ocorria fazer uma em Lisboa, onde o Presidente estava quase sempre.

Mas essa ideia contraintuitiva acabou por se transformar num exercício político impiedoso, quase de indignação social e de contrapoder permanente. Soares aproveitou muito bem a novidade das televisões privadas e a necessidade da RTP não se deixar ficar para trás. As imagens eram poderosas, os testemunhos dos populares ainda mais, os banhos de multidão faziam de Soares quase um monarca no meio de um distrito onde a miséria, as barracas e os problemas sociais não tinham desaparecido com os progressos mais que evidentes de oito anos de Governos liderados por Cavaco Silva.

A Presidência Aberta foi um exercício antipolítica de betão, com que muito simplificadamente se caracterizava os governos do PSD. O abanão foi tal, que Cavaco Silva levou o desafio de Mário Soares a sério. Na Presidência Aberta seguinte, dedicada ao Ambiente, esteve sempre pelo menos um ministro ao lado do Presidente. Normalmente era Teresa Patrício Gouveia, com quem Mário Soares se dava bem e que era amiga do Presidente há décadas. Por vezes juntava-se Valente de Oliveira. E sempre que necessário lá estava mais um ministro ou secretário de Estado para que o Presidente não ficasse à solta.

Mas isso foi uns meses depois da surpresa da Presidência Aberta de Lisboa. Em que ver um Presidente gritar a um polícia foi um pormenor inesperado e escusado numa torrente de momentos, discursos e críticas que pareciam uma avalanche política.

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