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Presidenciais 2016

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Quando Soares dissolveu Cavaco à mesa do Aviz

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Mário Soares, Rosalina Machado, Almeida Santos e Maria Barroso, num jantar de soaristas em 1994

Rui Ochôa

Em junho de 1993, precisamente a meio da segunda maioria absoluta de Cavaco Silva, uma manchete do Expresso fez tocar as campainhas em S. Bento e deixou o país político de boca aberta. No arranque da campanha das presidenciais, recordamos alguns dos momentos mais importantes do Palácio de Belém, desde Spínola até aos dois mandatos de Jorge Sampaio. Este é o primeiro episódio desta série de artigos

Se costuma ter dúvidas sobre o real poder do Presidente da República no sistema português, vale a pena revisitar alguns episódios do soarismo em Belém. Em junho de 1993, precisamente a meio da segunda maioria absoluta de Cavaco Silva, uma manchete do Expresso fez tocar as campainhas em S. Bento e deixou o país político de boca aberta. "Presidente discutiu dissolução com núcleo duro do ex-MASP - soaristas formulam três condições para eleições antecipadas", titulava o semanário na primeira página. Cavaco engoliu em seco mas a coabitação, que já era um inferno, nunca mais se recompôs.

A história é simples. Farto da governação cavaquista, cujo estilo começara a combater ativamente no seu segundo mandato, Mário Soares decidiu convidar para um jantar restrito 13 das mais eminentes figuras do ex-MASP - o movimento que o apoiara na candidatura à Presidência. O local escolhido foi o restaurante Aviz, ao Chiado, propriedade de Carlos Monjardino, um dos soaristas da primeira hora. E entre os presentes estiveram, entre outros e além do Presidente, Jorge Sampaio, Almeida Santos, Jaime Gama, Vítor Cunha Rêgo, Manuel Alegre, António Campos, Gomes Mota e o dissidente do PCP Veiga de Oliveira. O pretexto era absolutamente pacífico -apresentar o novo livro de Soares, Intervenções VII, a um número restrito de amigos. Mas o resultado revelou-se explosivo: analisar a hipótese de dissolução do Parlamento antes do fim da legislatura, o que implicaria a queda automática do Governo.

Mário Soares fez a introdução inicial, muito crítica do programa económico levado a cabo pelo Executivo de Cavaco, e cujo ritmo Soares considerou ser muito difícil suportar em termos sociais. Mas este foi apenas um aperitivo de uma refeição que se revelaria absolutamente indigesta para o cavaquismo. Em cima da mesa estiveram as três condições consideradas suficientes para justificar a dissolução do Parlamento: a degradação acelerada da situação económica e social, uma derrota significativa do PSD nas eleições autárquicas que se seguiriam, e a existência de uma alternativa política clara. A conspiração foi tal que chegou a ser ventilada entre os soaristas a hipótese de o próprio Mário Soares renunciar ao cargo em 1995 para se disponibilizar para um ajuste de contas final com Cavaco Silva nas eleições legislativas.

Jaime Gama foi uma voz do contra neste jantar que o Expresso dizia recheado de intervenções talhadas para "dar cabo de Cavaco a todo o custo". Gama lembrou que a dissolução da Assembleia da República é "uma arma a usar em último recurso" e não existe para ser usada como "um fim em si". E aconselhou prudência para não se repetir "o disparate de 1987, quando o PS apoiou a moção de censura do PRD e abriu caminho à primeira maioria absoluta de Cavaco. Soares insurgiu-se: "Afinal, estás connosco ou estás com eles?". À época, a coabitação Belém/ S.Bento era uma guerra entre dois campos sem lugar para brincadeiras.

Cavaco Silva havia de facilitar a vida a Mário Soares - saíu pelo seu pé e desistiu de se candidatar nas legislativas de 1995. Mas o Presidente não se deixou abalar pelo facto de nunca ter feito o gosto ao dedo, demitindo o primeiro-ministro que nos bastidores do soarismo chegava a ser tratado por "o gajo".

Em 1996, já com Cavaco fora de cena e com António Guterres a governar o país, Soares decidiu revisitar um dos episódios que maior gozo lhe deve ter dado nos anos de brasa do cavaquismo. E dois dias antes de deixar Belém, em março de 1996, repetiu o jantar no Aviz que quatro anos antes tinha gerado a grande conspiração. O pretexto voltou a ser o lançamento de mais um volume das suas Intervenções. E o resultado, desta vez, foi bastante mais pacífico - não consta que tenham intrigado por aí além contra o guterrismo.

Prestes a saír de cena, Soares -que tinha confessado estar a sentir uma espécie de "volúpia" na hora da despedida -, quis sobretudo mostrar que, consigo, a política se fazia com muito gozo e muito humor. No final do almoço, quando confrontado com os jornalistas sobre as razões deste remake à mesa, o ainda Presidente respondeu que "o bom criminoso volta sempre ao local do crime". Foi a sua última gargalhada antes de deixar Belém.