26 de maio de 2013 às 0:00
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Presidenciais Egípcias. Uma dúzia de candidatos.

Raúl M. Braga Pires, em Rabat (www.expresso.pt)
Actual Parlamento Egípcio. A azul o Partido Liberdade e Justiça (Irm. Muç.) e a vermelho o Partido Al-Noor (salafista). O desafio nestas eleições presidenciais é não se colocarrem todos os ovos no mesmo cesto e eleger-se um candidato que contraponha o peso deste Parlamento, começando pela redacção da próxima Constituição, que definirá os poderes daquele que será agora eleito Presidente. Google Imagens Actual Parlamento Egípcio. A azul o Partido Liberdade e Justiça (Irm. Muç.) e a vermelho o Partido Al-Noor (salafista). O desafio nestas eleições presidenciais é não se colocarrem todos os ovos no mesmo cesto e eleger-se um candidato que contraponha o peso deste Parlamento, começando pela redacção da próxima Constituição, que definirá os poderes daquele que será agora eleito Presidente.

Após um processo selectivo, no qual foram eliminadas algumas candidaturas (ver artigo de 09.04), eis que se chega aos dias das primeiras eleições presidenciais do pós-regime Mubarak, 23 e 24 de Maio.

Da dúzia de candidatos, convém reter-se sobretudo os seguintes nomes:

Abdel Moneim Aboul Fotouh, candidato independente, médico, Secretário-Geral da União Médica Árabe, ex-membro do Gabinete d'Orientação da Irmandade Muçulmana (IM), tem como mote da sua campanha a educação e o facto de reservar 40% do orçamento egípcio para esta rúbrica. Pugna por um Islão moderado, tendo um discurso que tenta atingir o mainsteam egípcio e a verdade é que entre os 100.000 voluntários que tem a trabalharem na sua campanha, tem desde salafistas a laicos, passando por cristãos coptas, membros activos da IM e outros sectores da sociedade egípcia.

As razões pelas quais cindiu com a IM, devem-se sobretudo a dois factores. Defende que a Irmandade não deve ter um braço político, devendo dedicar-se em exclusivo à obra social. Por outro lado, também defende que a IM deverá legalizar-se e marcar assim uma ruptura com o passado e tornar-se uma organização transparente, sobretudo relativamente a quem é quem dentro da organização, bem como à gestão dos dinheiros.

Mohamed Morsy, Secretário-Geral do Partido Justiça e Liberdade, o braço político da Irmandade Muçulmana, é o candidato desta "confraria", da qual também já foi membro do Gabinete d'Orientação. Surge em substituição do Vice-Guia Supremo da Irmandade, Mohamed Khairat Saad El-Shater, aparentemente saneado desta eleição por não ter o cadastro limpo. Sujou-o nos tempos de Mubarak e certamente que muitos dos que o meteram na cadeia desde 2007 até Março de 2011, serão os mesmos que o impediram agora de se candidatar.

O mote da campanha de Morsy traduz-se por Ennahda, Renascimento, um conceito muito caro a todos aqueles que apelam a um regresso às raizes, para depois desabrocharem numa fonte de rejuvenescimento colectivo. Esta ideia da correcção, do processo de reacertar a mira, é muito querido a qualquer islamista, consciente da imperfeição do Homem e da necessidade da passagem por este processo, no caminho da "perfeição" e de uma maior proximidade entre a Criatura e o Criador.

Amr Mussa, candidato independente, ex-Secretário Geral da Liga Árabe de Junho de 2001 a Junho de 2011, ex-Ministro dos Negócios Estrangeiros de Hosni Mubarak de 1991 a 2001 e o homem que a 28 de Janeiro do ano passado, a Sexta-feira da Raiva, enfiou Mohamed El Baradei num chinelo, ao misturar-se com a multidão na Praça Tahrir, enquanto este falava às grandes cadeias televisivas internacionais, do conforto do jardim de sua casa, sobre as suas intenções em se candidatar a Presidente do Egipto. Baradei não chegou se quer a ser candidato.

É precisamente no ponto da experiência e prestigio internacionais, que acenta o mote da campanha de Mussa, o qual também diz que conseguirá reduzir drasticamente o desemprego.

Ahmed Shafik, candidato independente, Comandante da Força Aérea Egípcia e o último Primeiro-Ministro de Hosni Mubarak. Este candidato é claramente apoiado por figuras ligadas ao regime do "Último Faraó", o que levanta fortes resistências e desconfianças na população. O mote da sua campanha, neste momento de escatologia primaveril em que tudo se pode dizer, é um prático "Acções e Não Palavras!"

O próximo Presidente da República Árabe do Egipto, tem que garantir três coisas aos militares do Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA). Que a paz com os israelitas não será denunciada (Acordos de Camp David), em segundo garantir aos militares que hipotéticas futuras privatizações em vários sectores da economia não farão demasiadas interferências com os seus interesses pessoais e corporativos, já que os militares controlam cerca de 40% da economia do país. Por último, que o dossiê Processo de Paz Israelo-Palestiniano continurá a ser gerido pelo Serviço Geral de Inteligência do Egipto (SGIE).

O CSFA, por via das dúvidas, mantém a seguinte carta na manga. O Egipto, de momento, vive sem Constituição, pelo que aquele que virá em breve a ser eleito (2ª volta a 16 e 17 de Junho) Presidente, não faz ainda ideia de quais serão os seus poderes, nem qual será o sistema de governo, sendo que começa a ser consensual que o país rejeitará à partida um Presidencialismo rigido, como o que teve desde o Golpe d'Estado dos Oficiais Livres. Por outro lado, a Comissão da Constituinte, será constituida por 100 deputados no sentido proporcional ao peso de cada partido com assento parlamentar. Ora o Partido Justiça e Liberdade da IM e o Partido salafista Al-Noor, representam 70% da Assembleia. O que o CSFA quer evitar a todo o custo, é uma situação em que todos os ovos sejam colocados no mesmo cesto, pelo que o próximo Presidente egípcio terá de sair de um acordo entre votos, militares e o próprio candidato.

Pessoalmente, aposto numa segunda volta entre Abdel Moneim Aboul Fotouh e Amr Moussa, o que também garantirá logo à partida uma outra condição fundamental para a ruptura com uma prática já consuetudinária neste país. A de o próximo Presidente ser, pela primeira vez desde 1952, civil e não militar.

Restantes candidatos:

- Hamdeen Sabahi , Independente;

- Mohammad Salim Al-Awa , Independente;

- Khaled Ali , Independente;

- Hisham Bastawisy , Partido Unionista Nacional Progressivo (Tagammu);

- Abu Al-Izz Al-Hariri , Partido da Aliança Popular Socialista;

- Abdulla Alashaal , Partido Autenticidade;

- Mahmoud Houssam , Independente;

- Houssam Khairallah , Partido da Paz Democrática.

 

Raúl M. Braga Pires escreve de acordo com a antiga ortografia

 

N.B. Para aceder à Versão em Árabe, clique no título em português e depois desça até ao fim da nova página que entretanto abriu. Em "Relacionados" encontrará PDF Click to see Arabic Version (Versão Árabe).

 

ENGLISH VERSION

 

Egyptian Presidential Election. A dozen candidates.

After a selective process, in which a few candidates were eliminated (see April the 09th article), we arrive to May 23rd and 24th, the two days where the post-Mubarak Presidential Elections take place.

From the dozen candidates, we must pay attention especially to the following names:

Abdel Moneim Aboul Fotouh, independent candidate, medical doctor, general Secretary of the Arab Medical Union, former member of the Muslim's Brotherhood (MB) Guidance Cabinet, has for campaign motto Education, towards which will consider 40% of the nation's budget. Defends a moderate Islam, his speech goes directly towards the egyptian mainstream and the truth is that amongst the 100.000 volunteers working in his campaign, we can find salafists, laics, copts, even active members from the Brotherhood e from many other sectors of egyptian society.

The reasons for his cessation with the MB is based on two factors. He defends that the Brotherhood mustn't have a political party and should focus exclusively on the social work. On the other hand, also defends that the MB should get legal, specially now, after the fall of Mubarak's regime, stating a difference with the past, becoming more transparent, specially referring who's who in the organization, as well as with funds management.

Mohamed Morsy, Freedom and Justice Party's General-Secretary, is the Muslim's Brotherhood political party candidate, also a former member of its Guidance Cabinet. Morsy replaces the Brotherhood's Deputy Supreme Guide, Mohamed Khairat Saad El-Shater, who apparently was sanitized from this election, for not having a clean criminal record. He soiled it during Mubarak's days and certainly that many of those who got him in prison since 2007 until March 2011, are the same who now impeach him from running.

The motto for Morsy's campaign can be translated by Ennahda, Renaissance, a much appreciated concept by all those who appeal to a return to the roots in order to later blossom in a collective rebirth youth. This idea of correction, of a process of reasserting the aim, is highly considered by every islamist, conscious about Man's imperfection and the need to go through this process towards "perfection" and a closer relation between the Creature and the Creator.

Amr Mussa, independent candidate, former Arab League Secretary-General from June 2001 and June 2011, former Hosni Mubarak's Foreign Affairs Minister from 1991 to 2001 and the man who on last year's January 28th, the Friday of Rage, overshadowed Mohamed El Baradei by joining the crowd on Tahrir Square, while the latter spoke to the international media in the comfort of its home garden, saying he had intentions to run for President. Baradei, didn't even become a candidate.

That's precisely on the experience and international prestige, the focus of Mussa's campaign motto, who also says that will be able to reduce drastically the unemployment.

Ahmed Shafik, independent candidate, Egyptian Air Force Commander and Mubarak's last Prime-Minister. This candidate is clearly backed by personalities linked with the "Last Pharaoh's" regime, which creates strong resistances and distrust amongst the population. The motto for his campaign, during this spring scatological moment in which anything can be said, it's a practical "Actions and Not Woords!"

The next Arab Republic of Egypt's President must guaranty three things to the Supreme Council of the Armed Forces (SCAF). Firstly, that the peace with the israelis won't be denounced (Camp David Accords). Secondly, to guaranty to the military that hypothetical future privatizations won't interfere too much with their personal and corporative interests. The military control around 40% of the country's economy. Lastly, that the Israel-Palestine Peace Process folder, will be kept under the Egyptian General Intelligence Service's (EGIS) wing.

Just in case, the SCAF keeps one last card to play. Egypt lives this moment without a Constitution, whereby the one to be elected (runoff on June 16th and 17th) has no idea what kind of powers will hold, neither what will be the future government system. One thing is certain, it starts to be clear that the population will reject for granted, a rigid presidential system just like the one has been holding since the Free Officers' Coup. On the other hand, the Constituent Commission will be formed by 100 MP's in the proportional weight of their parliament representation. MB's Justice and Freedom Party and salafi Al-Noor Party, hold 70% of the People's Assembly. What the SCAF wants to avoid at all cost, is a situation where all the eggs will be placed in the same basket. The next egyptian President will emerge of a commitment between ballots, the military and the candidate itself.

Personally, I believe in a runoff between Abdel Moneim Aboul Fotouh and Amr Moussa, what will also guaranty another rupture in the egyptian political tradition since 1952, meaning, for the first time since then, the next President will be a civilian and not a military.

 

Other candidates:

- Hamdeen Sabahi , Independent;

- Mohammad Salim Al-Awa , Independent;

- Khaled Ali , Independent;

- Hisham Bastawisy , National Progressive Unionist Party (Tagammu);

- Abu Al-Izz Al-Hariri , Socialist Popular Alliance Party;

- Abdulla Alashaal , Authenticity Party;

- Mahmoud Houssam , Independent;

- Houssam Khairallah , Democratic Peace Party.

 

N.B. To access Arabic Version, please click on the portuguese title above and then scroll until the end the new opened page. In "Relacionados" you'll find PDF click to see Arabic Version (Versão Árabe).

 

 

 

Comentários 1 Comentar
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Caro Raul
De facto estas eleições no Egipto são extremamente curiosas porque ninguém faz ideia do que são as responsabilidade de cada um. Só assim é que os militares continuam a governar e vão continuar a fazê-lo de forma mais ou menos discreta. Pô-los na linha vai ser complicado.

As minhas apostas vão para os mesmos, embora eu preferisse ter lá um homem como Baradei. No entanto, não soube gerir o seu nome junto do povo e acaba por ficar sem hipóteses de competir.

Sobre Amr Moussa, tenho uma certa impressão de que é daqueles homens que consegue andar entre os pingos da chuva sem se molhar. Os regimes mudam e ele continua sempre a melhorar a sua posição. Espera até ao momento certo para escolher o lado vencedor. Embora cumpra alguns dos requisitos que eu gostaria de ver na presidência egípcia (nomeadamente o laicismo), não sei se um cínico será a melhor opção para fazer frente aos militares. O mais provável é conseguir acomodar-se.

Cmps,

António

oreivaivestido.blogspot.pt
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