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Laureado Prémio Pessoa 2012 - Richard Zenith

Richard Zenith tem 56 anos. Natural de Washington DC, vive em Portugal desde 1987 e é cidadão português há cinco anos. Licenciado em Letras na University of Virginia, viveu na Colômbia, no Brasil e em França antes de se radicar em Lisboa. Escritor, investigador e crítico é um dos maiores divulgadores e tradutores de autores da Literatura portuguesa.

A qualidade dos seus trabalhos de tradução de autores como Luis de Camões, Sophia de Mello Breyner ou Antonio Lobo Antunes valeram-lhe vários prémios. Entre eles, do Pen Club, da Gulbenkian ou da Academy of American Poets.

Mas foi com o trabalho de investigação, crítica e tradução da obra de Fernando Pessoa que Richard Zenith recebeu maiores distinções. Este ano, foi essa faceta do seu trabalho que lhe valeu a atribuição do Prémio Pessoa 2012. O júri destacou o esforço de uma vida, mas também o facto de Richard Zenith ter sido um dos curadores da exposição "Fernando Pessoa, Plural como o Universo", que decorreu na Fundação Calouste Gulbenkian, depois de ter passado antes pelo Rio de Janeiro e São Paulo.

Entrevista ao Expresso

Este é um prémio que te é concedido pelo teu trabalho sobre Pessoa. Como é que o descobriste, nos Estados Unidos, quando ele ainda não tinha ainda uma irradiação universal?

Conheci Pessoa através de uma amiga minha, americana, que tinha um namorado português. Ela passou-me a “Tabacaria” e alguns poemas de Alberto Caeiro. Fiquei fascinado. Lembro-me de que fui a uma biblioteca universitária à procura das traduções então existentes, da autoridade Jonathan Griffin.

Mas a paixão foi sobretudo depois de ter lido o “Livro do Desassossego”,quando já estava em Portugal. Tinhas estudado literatura?

O meu curso foi uma salada: religião, economia, literatura, grego, um pouco de chinês, teoria da música. Era um curso sem rumo. E nessa universidade onde estudei, em Virgínia, tive um semestre de português. E como sabia espanhol consegui ler esses poemas. Depois, fui para o Brasil e foi aí que aprendi mesmo português e comecei a ler mais Fernando Pessoa.

Eras um leitor de poesia moderna e contemporânea?

Cheguei tarde à poesia. Foi já no Brasil. Um dos primeiros poetas que li com muita paixão foi Yeats. Mas também gostei muito do João Cabral de Melo Neto, o primeiro poeta que traduzi para inglês.

Com que objetivo vieste para Portugal?

Vim com uma bolsa da Fundação Guggenheim para traduzir a poesia trovadoresca, que descobri noutra biblioteca universitária. No Brasil, já tinha traduzido poetas brasileiros, por exemplo João Cabral de Melo Neto. Foi nessa altura que o espólio do Pessoa começou mais sistematicamente a ser estudado.

Como foi o teu primeiro contacto com os originais?

Eu pretendia traduzir o “Livro do Desassossego” na íntegra e havia a primeira edição da Ática, de 1982.Depois, a Teresa Sobral Cunha, na sua edição, acrescentou uns cem inéditos, alguns dos quais me levantavam dúvidas se pertenciam ao “Livro”. E como queria fazer a tradução na íntegra comecei a fazer pesquisa no espólio para localizar os fragmentos, já que a Teresa Sobral Cunha não referia as cotas.

Tiveste, aliás, uma polémica com a Teresa Sobral Cunha, o que deu para perceber que a edição do Pessoa era um inevitável campo de batalha.

Sim, fiz uma recensão para a “Colóquio Letras” da edição da Teresa Sobral Cunha, reconhecendo que ela tinha melhorado sensivelmente as leituras e que tinha incluído alguns fragmentos atribuídos pelo próprio Pessoa ao “Livro” — por exemplo, os deliciosos “Conselhos às Mal-Casadas”. Mas achei duvidosa a inclusão de outros textos e sobretudo critiquei a falta de transparência. Ela não fornecia as cotas, mas podia pelo menos indicar que a maioria dos inéditos na sua edição só conjeturalmente pertencia ao “Livro”. Não gostou da crítica, dedicou--me duas páginas no “JL”, dizendo que a minha tradução para inglês plagiava a sua edição, etc. Respondi com uma página, e pronto, tive a minha iniciação ao universo das polémicas.

Sentiste alguma vez que o facto de seres estrangeiro provocou alguma resistência nos teus pares?

Nunca dei por isso. Nunca senti nenhum entrave por parte de outros investigadores por não ser de origem portuguesa. Os meus colegas que publicavam na Assírio & Alvim estavam sempre prontos para ajudar e colaborar. Houve e há, claro, as guerras pessoanas entre os vários grupos, mas isso não tem a ver com nacionalidades, apenas com a natureza humana.

Tens neste momento dupla nacionalidade. Pediste a nacionalidade portuguesa por razões burocráticas e pragmáticas?

O motivo era esse, sim. Não gosto de bandeiras nem de nacionalismos. Mas de cinco em cinco anos tinha de renovar a minha autorização de residência. Tornou-se uma coisa que me obrigava a operações burocráticas penosas. E então decidi pedir a nacionalidade. Mas depois de ela me ter sido concedida senti-me contente, fazia sentido, por uma questão afetiva e por ser uma realidade: Portugal, afinal, é o meu país de adoção.

As condições de trabalho têm-se tornado mais difíceis? Sentes que os meios são hoje mais escassos?

As condições de pesquisa melhoraram. As bibliotecas são mais eficientes e o trabalho de digitalização feito pela Biblioteca Nacional e pela Hemeroteca Municipal de Lisboa tem sido fantástico, considerando que os recursos são escassos. Quanto ao trabalho pago, a subida obscena dos impostos faz com que o trabalhador independente, que emite recibos verdes (é o meu caso), tenha ficado lixado.

Achas que a edição do Pessoa tem decorrido como seria de esperar, tendo em conta a dimensão do seu espólio e as dificuldades que ele apresenta?

Poderia ter corrido melhor, evidentemente. No início ninguém tinha noção do tesouro contido na mítica arca. Depois, as dificuldades práticas era me são enormes. A caligrafia do autor, para um investigador incipiente, é frequentemente ilegível. E o autor era capaz de redigir, na mesma folha, um poema de Caeiro num canto, um texto filosófico noutro canto, um poema do ortónimo no outro lado da folha e apontamentos avulsos nas margens. O espólio é um caos. Falta uma transcrição sistemática do espólio — peça por peça, desde o início até ao fim. A Equipa Pessoa, criada em 1988 para fazer uma edição crítica, começou este trabalho, mas foi abandonado, decerto por falta de recursos.

E o teu trabalho como editor do “Livro do Desassossego”começou quando?

Foi-me pedido pela Assírio & Alvim, uma vez que eu já conhecia a parte do espólio respeitante ao “Livro do Desassossego”.A primeira edição saiu em 1998. A décima, este ano. Há uma simbiose do trabalho de tradutor e de editor. A organização que fiz para a 1ª edição em inglês influiu na organização da edição portuguesa. Depois, quando voltei a fazer uma nova edição do livro em inglês, com base na minha edição em português, percebi que certas frases não me pareciam corresponder à linguagem de Fernando Pessoa. Isso fez-me voltar aos originais. E foi assim que cheguei a uma série de leituras novas.

Como é que foi a receção do “Livro do Desassossego”em língua inglesa?

Pegou mais lentamente do que em França ou na Alemanha, mas pegou. Fiquei desapontado com a primeira edição, não era um bom livro do ponto de vista gráfico nem era agradável de ler. Mas a segunda edição, já publicada pela Penguin, tem vendido muito. Um livro do tipo do diário íntimo não é um género muito do gosto da cultura literária anglo-saxónica.

E, além de trabalhares sobre Pessoa, fazias também outras coisas?

Fiz traduções: alguns romances de António Lobo Antunes, Luandino Vieira, textos para catálogos. Camões também te ocupou... A lírica de Camões, que foi uma experiência deslumbrante. Mas isso é mais recente. Traduzi também Sophia de Mello Breyner Andresen, Nuno Júdice e muito outros poetas, para antologias e revistas. Para alguém que vem de um universo anglo-saxónico e descobre a literatura de um pequeno país como Portugal é como quem descobre uma reserva exótica? Há algo de exótico, sobretudo no que diz respeito à poesia antiga, as cantigas medievais, Camões...

E quanto ao modernismo?

Mesmo excluindo Fernando Pessoa, a literatura portuguesa do século XX não sai nada mal. Temos de lembrar que Portugal é um país pequeno e na altura das vanguardas modernistas a taxa de alfabetização não era elevada. Pessoa, como Proust, faz parte do panorama do momento, mas ultrapassa-o. Concordo com Harold Bloom que o génio só pode ser explicado até certo ponto. Tem algo que nos abala, nos confunde, algo que sai do lugar onde nasce.

A ideia de literatura nacional, que herdámos do Romantismo, continua a ser uma ideia importante?

Claro que sim. Sobretudo a língua é algo muito unificador. Podíamos citar Pessoa: “A minha pátria é a língua portuguesa”. A língua está intimamente ligada à cultura.

Nos últimos tempos tens estado a trabalhar numa biografia do Pessoa. O que é que existe por investigar, em termos documentais, sobre a vida de Pessoa?

A primeira grande ferramenta é o espólio. Há muitas pequenas informações biográficas contidas nos documentos.

E isso dá para fazer uma narrativa biográfica?

Não dá. O que é muito complicado na elaboração de uma biografia de Fernando Pessoa é, precisamente, encontrar um fio narrativo. A sua vida essencial não é feita de factos, acontecimentos. É muito difícil escrever uma vida que era sobretudo interior. Pessoa vivia entre a terra e o Além. Para ele, a realidade era o potencial. E há muitas lendas em torno do poeta, é preciso ter muita cautela. Um tal Francisco Peixoto de Bourbon, que dizia ter pertencido a uma das últimas tertúlias em que Pessoa participou, começou nos inícios dos anos 70 a escrever uma crónica em jornais regionais com o título “Evocando Fernando Pessoa”. Dez anos e dezenas de crónicas depois da primeira que publicou, contou que algumas pessoas da tertúlia quiseram que Fernando Pessoa os acompanhasse a uma casa de passe, mas ele não foi. E descobriram, aparentemente, que Pessoa era cliente de uma certa rapariga na tal casa. Ter-se-ia recusado a acompanhá-los por causa dessa rapariga, porque tinha vergonha. É uma daquelas histórias que não têm credibilidade. Mais uma vez, é o enigma da sexualidade de Pessoa que se quer desvendar... Sim. Não ponho em dúvida que Francisco de Bourbon conheceu Fernando Pessoa, mas metia, entre algumas verdades, muita fantasia nas suas crónicas. Uma vez estive num jantar com um senhor chamado Luís Pedro Moitinho de Almeida, filho de um patrão de Pessoa, que publicou um livro de poesia prefaciado por Pessoa. Num livro de memórias e reflexões, de 1985, dedicou um capítulo às crónicas de Bourbon, onde citou a história da casa de passe. Em 1996 aproveitei um encontro casual com Moitinho de Almeida para lhe falar na história e perguntei-lhe se achava que era verdadeira. Olhou para mim, sorriu e disse. “Eu não acredito em nada disso”.

A tua decisão de escreveres uma biografia de Pessoa nasce do facto de achares que as biografias existentes não são satisfatórias?

A primeira biografia de Fernando Pessoa, a de Gaspar Simões, tem o grande mérito de ter sido escrita numa altura em que não era nada evidente que Pessoa mereci a uma tão grande atenção. O pecado dessa biografia, como muitos já observaram, é o de ser excessivamente freudiana. É uma pena que ele não tenha consultado mais pessoas que conheceram Fernando Pessoa e que na altura ainda estavam vivas. Gaspar Simões tinha uma tese sobre Pessoa e foi ajustando os dados à sua tese. Quanto às outras biografias, dependeram essencialmente da primeira pelos seus dados factuais, repetindo uma série de imprecisões, mas as abordagens eram diferentes. Angel Crespo substituiu a ótica freudiana por uma ótica mística. A biografia de Robert Bréchontem o mérito de confrontar Pessoa com vários outros escritores da literatura universal. José Paulo Cavalcanti Filho, para a sua biografia, fez pesquisa e fornece alguns dados novos, mas raramente cita as fontes — seguindo, nisso, uma infeliz tradição iniciada por Gaspar Simões.

Não achas que o nosso património literário está muito mal tratado, tanto no plano da edição como no plano dos meios de difusão?

É escandaloso que muitos clássicos portugueses não estejam disponíveis em boas edições para o leitor geral, normal. Ou há edições populares pouco cuidadas ou há edições críticas que são caras e destinam-se a especialistas. Ou então não há nem uma coisa nem outra.

Como é a experiência de fazer a iniciação ao conhecimento de outro país por mediação literária?

Não foi bem a minha experiência. Foi aqui em Portugal que mergulhei na sua literatura, ao mesmo tempo que me relacionava com portugueses, entrava nos costumes, na cultura. Conhecer um país apenas pela via da sua literatura — a “minha” Rússia, por exemplo, depende de Dostoievski, Mandelstam, Akhmatova — tem algo de fascinante, mas o contacto direto e íntimo com um país é uma enorme vantagem para estudar e sobretudo para traduzir a sua literatura.

É um projeto para a vida, trabalhar sobre a literatura portuguesa? E a tua criação literária?

Publiquei poemas meus em revistas americanas mas nunca em forma de livro. Publiquei aqui um livro de contos, traduzidos do inglês, e um ou outro conto que escrevi diretamente em português. E tenho dois romances inéditos — quem não tem um romance inédito? — e os começos de alguns romances abortados. A minha atividade como escritor criativo foi preterida graças a Fernando Pessoa. Não me sinto frustrado, pois adoro o meu trabalho enquanto tradutor, editor e investigador, sinto que há muita criatividade nestas atividades e sei que o mundo fica mais bem servido. Mas depois de acabar a biografia de Pessoa, se esta não acabar comigo primeiro, gostaria de me aposentar de Pessoa, pelo menos parcialmente, e voltar a escrever coisas minhas.