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Laureado Prémio Pessoa 2011 - Eduardo Lourenço de Faria

Eduardo Lourenço de Faria nasceu em S. Pedro de Rio Seco, Almeida, em 1923, e é administrador não-executivo da Fundação Calouste Gulbenkian desde Setembro de 2002. Ensaísta e crítico literário, licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas na Universidade de Coimbra (1946), instituição na qual se manteve, como professor assistente de Filosofia, de 1947 a 1953. Em 1954 saiu do país, passando a leccionar Língua e Cultura Portuguesas, como leitor do governo português, em várias universidades: Hamburgo, Heidelberg, Montpellier. Foi depois regente da cadeira de Filosofia na Universidade da Bahia (1958-59). Voltando a França, tornou-se leitor a cargo do governo francês nas universidades de Grenoble (1960-65) e de Nice, tendo-se fixado nesta última, onde se manteve desde 1969, como maître-assistant e professor associado, até à jubilação (1988).

Na sua vasta obra, encontramos títulos como Heterodoxia I (Coimbra Ed.; 1949), Fernando Pessoa Revisitado: Leitura Estruturante do Drama em Gente (Inova; 1973), Tempo e Poesia (Inova; 1974), O Labirinto da Saudade - Psicanálise Mítica do Destino Português (D. Quixote; 1978), O Espelho Imaginário (Imprensa Nacional; 1981). A Europa Desencantada: para uma Mitologia Europeia (Visão; 1994), O Esplendor do Caos (Gradiva; 1998) ou A Nau de Ícaro, seguido de Imagem e Miragem da lusofonia (Gradiva; 1999). A esta obra, pela importância e qualidade literária que se lhe reconhece, têm sido atribuídos variadíssimos prémios, entre os quais se destacam o Prémio Europeu de Ensaio Charles Veillon (Lausanne; 1988) e o Prémio Camões (1996). Recentemente, o autor recebeu o título de Doutor honoris causa pelas universidades Federal do Rio de Janeiro (1995) e Coimbra (1996) e o Prémio da Latinidade (2003). Foi ainda condecorado, pelo governo português, com as ordens de Sant'Iago e Espada (1981), do Infante D. Henrique (1992) e com a Grã Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (2003), e, pelo governo francês, com a Medalha de Mérito Cultural (1996) e o grau de Oficial da Legião de Honra. Em 2003 recebeu a Grã-Cruz da Ordem da Torre e Espada.

Entrevista ao Expresso

Há nele a convicção de que o tempo é uma constelação infinita de ideias onde se misturam as glórias e misérias do passado, as fragilidades do presente e a tentação de a partir destes olhares cruzados sentir palpitar o futuro. Diz ser possível estar neste século e já não estar nele. Escreve à mão, em português ou em francês, com uma letra por vezes ilegível para si próprio, raras vezes utilizou a máquina de escrever, já não irá apanhar o ritmo dos computadores, usa muito o telefone e ainda escreve cartas. Escrever é, para Eduardo Lourenço, uma forma de viver. Tal como respirar. Tal como pensar e conhecer. Sempre. Até ao fim.

Quando se recebe um Prémio Pessoa aos 88 anos, ainda há lugar para a emoção?

Primeiro há a surpresa. Depois vem a emoção, mas num segundo grau. Na minha idade provecta já não se têm esses reflexos tão passionais e tão adolescentes. Este prémio é diferente de todos os outros, porque tem uma relação intrínseca com aquilo que foi um dos polos do meu projeto cultural e das minhas ambições culturais. A partir de 1942/43, com a saída do primeiro volume das obras de Pessoa, dedicado ao Pessoa ortónimo, e com a publicação da antologia de Adolfo Casais Monteiro, foi a revelação. Encontrei uma espécie de galáxia.


Logo aí sentiu-se abismado?

Sim. Não sei por que motivos. Na verdade, somos criados pelas nossas próprias leituras. A leitura que fazemos já tem alguma coisa a ver com aquilo que inconscientemente procurávamos. Naquela altura, eu tinha ido para a faculdade estudar Histórico-Filosóficas e acho que se dá uma descoberta quase simultânea do Kierkegaard e do Pessoa. Há uma espécie de harmonia preestabelecida entre estes dois encontros.

Sente que este prémio é um reconhecimento da luz que trouxe à obra de Pessoa?

Certamente. Comecei a escrever cedo sobre Pessoa, sob um aspecto puramente polémico. Tinha saído um artigo de Mário Dionísio intitulado “Fernando Pessoa, Poeta de Classe”. Isso fez-me reagir. Era muito jovem, e talvez o tenha feito de uma maneira excessiva. Mas aquele artiguinho (“Crítica sem Classe contra Fernando Pessoa”, de 1952) fala de um poeta que não podia ser compreendido dentro desse esquema marxista tão maniqueísta. Não se tem ideia de como, nos anos 40 e 50, Pessoa se tornou um fenómeno cultural de revelação da ordem poética, mas também o centro de uma visão cultural que ultrapassava o poético. Ele problematizava todas as opções fáceis, que se tem sobretudo quando se é muito jovem. Deixava-nos desamparados. Foi o que me aconteceu. Esse desamparo produtivo obrigava a rever a minha própria bagagem cultural, os meus próprios mitos. O encontro com Pessoa foi uma assombração que, ao fim de tantos anos, permanece. Depois da primeira insolação pessoana, o Pessoa não só continuou cada vez mais a ser comentado como teve uma espécie de segunda vida, mesmo para mim. O “Livro do Desassossego” tornou- se um ícone da cultura do século XX. Pessoa nos anos 40 estava longe de ser consensual. Também as suas análises suscitaram muitas divisões. Hoje, ambos estabelecem o consenso.


Isso preocupa-o?

Quando se diz de alguém que é muito consensual, na minha modesta maneira de ver, não é verdadeiramente um elogio. A partir de um certo momento, quando o tempo passa, as coisas são perspetivadas de outra maneira. Ao mesmo tempo, quer dizer que o nosso tempo passou. Fernando Pessoa diria que se morre dentro da vida. É um morrer suave. Mas é melhor que o assassinato em vida. Ou que a recusa.

No final da “Mensagem”, Pessoa constata que o presente de Portugal é o presente da Hora Zero. Há necessidade de uma permanente reinvenção de Portugal?

Hora Zero, mas ao mesmo tempo a hora da ressurreição. Toda a “Mensagem” é construída sob esta ideia de que Portugal é aquele país pequeno que historicamente construiu um império porque numa certa altura foi descobridor de mares que não eram conhecidos. Quando ele diz “é a hora” é porque já estávamos muito baixo. Há uma frase de Nietzsche que gosto de recordar porque é muito crística e que diz que “só os túmulos
conhecem a ressurreição”. Portugal desceu ao túmulo. A história de Portugal é muito curiosa. Aí se vê a nossa tendência milagrenta. De que Portugal assenta num milagre. Pessoa não tinha preocupações estéticas. Tinha preocupações metafísicas, religiosas, de um tipo novo. Queria uma nova religiosidade no mundo. Isso é o Quinto Império, um mundo onde se realizasse uma espécie de harmonia entre o sonho e a realidade, que é a essência do ser poético de todos os tempos. Pensava que Portugal, pela sua história, por ter sido o túmulo, merecia essa ressurreição. Merecia essa segunda vida. A “Mensagem”, no fundo, é isso.

Acredita na viabilidade do projeto português?

Não enquanto projeto português específico. A Humanidade tem muitas maneiras de se definir. Ninguém pode viver sem esperança. A esperança é uma componente do que é cada ser humano. Sempre tivemos uma visão muito eurocêntrica, mas agora estamos a entrar num pessimismo em relação à Europa. É a famosa crise. Todo o discurso, na componente económica ou financeira, é da ordem do apocalíptico. Estamos à beira do abismo. É verdade que a situação não é boa, mas este continente ainda hoje é o de maior bem-estar em todo o globo. Não há razão para que os europeus desatem a autoflagelar se.


Diz que ninguém pode viver sem esperança. Mas que esperança pode haver quando o Governo aponta como caminho o empobrecimento?

É um discurso que, do ponto de vista ideológico, me parece muito de circunstância. Quer dizer, a pessoa não sabe o que há de fazer. Efetivamente, uma parte da Europa tem de passar por uma cura de emagrecimento para pagar as dívidas e fazer um novo
recomeço. A tutela alemã é o fantasma renascente. Um país que esteve para ser riscado do mapa da Europa e do mundo, ao fim de 50 anos, é outra vez o organizado que sempre foi, que produz coisas que pode vender aos outros. Até ver.

O que aconteceu aos políticos europeus para serem apanhados nisto?

Não há nenhum pensamento sobre a Europa. A Europa comunitária foi construída sob pressupostos negativos: a ideia de servir de tampão entre os EUA e o Bloco de Leste. Uma ideia dos EUA que nos deixou entre parêntesis. No dia em que o Muro de Berlim saltou, a Europa ficou sem projeto. Lembro-me de na altura ter pensado que o muro não tinha caído só para um lado.


Não vislumbra na Europa sementes de revolução para defesa do que era?

Revolução é uma palavra relativamente recente na história. Revolução a sério, no Ocidente, só houve uma: a francesa. Normalmente, as revoluções mais importantes que existem não são as revoluções no seu aspeto político. São provocadas pelas transformações da vida —os teares, os vapores, a eletricidade... Como revolução, sem ser sangrenta, e que se pode chamar cultural, só assisti — e participei alegremente — a uma, durante um mês, chamada maio de 68. O resultado foi que as pessoas não se deram conta que as coisas já vinham todas importadas dos EUA. Os pensadores estavam todos lá. Não foi o Cohn-Bendit. A Europa não tem nenhuma espécie de ideologia que a mova para que lhe possa fornecer um sentido do seu próprio projeto. Enganámo-nos. Fizemos da exceção a regra. A exceção é a França. Só a França quis construir, conscientemente ou não, uma civilização totalmente laica. Um lugar onde a religião é discutida. Agora nem se discute nem se deixa de discutir. O que triunfou foi uma espécie de indiferença.


A sociedade tornou-se indiferente?

A prática humana encontrou dentro dela cada vez mais razões para não recorrer a esses auxílios, a essas referências de tipo transcendente. A confiança dos homens no domínio do seu próprio destino foi aumentando cada vez mais. A Igreja ficou como uma referência ideal, e isso contribuiu para acentuar a contradição entre as duas coisas. Nem sequer há consciência do afastamento. Há indiferença.

Isso é um bem ou um mal?

O homem é uma realidade religiosa. O problema é que essa referência possa aparecer como objeto, como se Deus fosse manipulador ou manipulável. Uma espécie de ser mágico de que todas as coisas dependem. Outra coisa é ser algo de que o homem se serve para dominar. A maioria das religiões são máscaras dessa vontade de poder, de dominar os outros, de os subordinar, de os humilhar. Aquilo que é o seu impulso mais puro, libertador, transforma-se no seu contrário. O que o cristianismo trouxe foi que Deus não é poder. É o não-poder. Mas não foi assim que a coisa foi traduzida. Pela primeira vez, vivemos num mundo ao mesmo tempo mais materialista no sentido antigo do termo e mais virtual. A novidade, agora, é que a virtualidade é mais importante que a materialidade. Nesse capítulo, continua a ser um mundo humano. Só os homens são
capazes de inventar algo que não existe. Desde a Revolução Francesa sempre tivemos no Ocidente utopias que prometiam mundos melhores.


Há agora uma falta de utopia?

Durante dois séculos fez-se no Ocidente tudo o que era possível para encarnar uma parte dessa utopia. Não sei se neste momento há algum sítio com um projeto utópico desse género. Mesmo o utopismo americano, agora, é vivido na defensiva, como se estivesse à espera de um fim. Neste momento, o problema crucial do mundo é que uma parte da juventude, pela primeira vez, não tem esperança. Não chega a entrar na vida. Pode sair dela sem ter entrado na vida. Isto é novo no Ocidente. Isto é espantoso.

Nunca tanto como agora aparece gente a questionar-se sobre o futuro das democracias. Porquê?


Porque nós pensávamos que, depois de tudo o que aconteceu no mundo no século XX, tínhamos o quadro e a crença que sustentava um certo tipo de sociedade e que as coisas até corriam relativamente bem, sobretudo nas sociedades mais favorecidas. Depois, essas próprias democracias começaram a conhecer problemas e vieram as tentações totalitárias do século XX aqui na Europa. Foram precisas duas guerras para que conquistássemos outro horizonte. Depois da II Guerra Mundial, as democracias ganharam. Foi uma coisa estranhíssima, com a ‘democracia real’ da União Soviética e a democracia formal das outras. Nós por cá não era nem uma coisa nem outra...

Era orgânica...

Isso, e assim se viveu. Depois veio a revolução de abril e entrámos na era democrática, coisa que era uma novidade para Portugal. Entrámos numa normalidade democrática. E temos vivido muito bem com ela. Não imaginava era que ao fim de trinta anos deste viver com um mínimo de consenso político iríamos conhecer o que estamos a viver. E não há discursos, teorias, conhecidos que proponham — como foi o caso do século XIX depois da Revolução Francesa — um projeto do tipo utópico, mesmo com o conhecimento das limitações das utopias que já conhecemos. Portanto, a resposta que está a ser dada é uma resposta semelhante à da Humanidade quando está em estado de desespero, em que os grandes movimentos coletivos, os povos esfomeados provocavam revoltas. Seria agora a versão Indignados. É interessante pensar que este novo modelo ético, moral e político vem de um homem de 93 anos!

Há pouco, num aparte, dizia que não trocava Portugal por nada. O que é que ainda mantém de português?


Há um conto de Tolstoi que diz que o homem só precisa de sete palmos de terra para se cobrir. Precisa dessa terra, que é a sua inscrição. O acaso do nascimento, que é pura contingência, é qualquer coisa que nos adjetiva. Uma pessoa que nasce num país, que tem uma língua secular, que tem uma história singular, tem uma segunda ou uma primeira natureza, na qual se define ou ela nos define a nós. E mesmo quando se tem, como eu, uma grande permanência num país que não é o nosso, há um momento ou outro em que uma palavra que não se percebeu permite saber que não estamos em nossa casa. O que define realmente as pessoas é o não-dito. Tudo o que é explícito pertence à ordem do que é intercomunicável.

A Gulbenkian começou a reeditar as suas obras. O primeiro volume chama-se “Heterodoxias”. Um plural que permite várias leituras...

Mas, sabe, esse título não é meu. O jovem filósofo que se encarregou desta edição dá a isso uma interpretação da minha mudança, da pluralidade de heterodoxias. Ou seja, de uma certa incoerência ou equivocidade do meu próprio conceito de heterodoxia. Eu não disse heterodoxias. Porque cela va de soi, no sentido em que heterodoxia é a exigência do discurso da diferença.

Poderia ser um plural destinado a lançar um olhar irónico sobre a sua própria criação original...

Tem razão. Porque eu, com a “Heterodoxia”, não pretendo dizer que ela é a única. Tem um sentido negativo. São os discursos da liberdade de discordar. Não só dos outros como de si mesmo.


Eduardo Lourenço, 88 anos, um rapaz nascido numa remota aldeia. Como é que se movimenta naquela que é a sua aldeia do mundo?

Só há aldeias. Porque mesmo as pessoas que vivem nos grandes meios escolhem sempre um canto que lhes serve de aldeia. A aldeia é um conjunto de casas. E no meio das casas há a casa. E nós só precisamos de viver numa casa. O problema é aqueles que sabem isso e que não têm casa. Que a tiveram e deixaram de a ter. É um pouco o meu caso.

Deixou de ter casa?...

A minha casa é uma casa perdida. É o título que eu queria dar a um diário. Mas acho que ele já não existe. Acho que ele foi perdido.


Vamos ter uma redição pessoana? Vai ser encontrada a arca dos escritos de Eduardo Lourenço?


[risos] Eu sou muito imitativo, mas, nesse capítulo, não faço de propósito.

Perdeu o seu diário?

Eu acho que sim. Mas há escritos por aí, há agendas que não sou capaz de decifrar e que tinham reflexões, sem propósito nenhum.


E são diários de que anos?

A primeira versão começava antes de mim. Antes de mim como autor, antes da “Heterodoxia”. Inventava uma espécie de genealogia imaginária, com a minha aldeia e tudo isso. Era uma espécie de romance, de outro género. É ficção pura. Mas eu não tenho constância nenhuma. Nem nisso. Portanto, acabou. A minha mulher dizia que era um exercício de narcisismo e logo me cortou as vazas