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Laureado Prémio Pessoa 2010 - Maria do Carmo Fonseca

Maria do Carmo Fonseca é Professora Catedrática de Biologia Celular e Molecular na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e Directora Executiva do Instituto de Medicina Molecular. É ainda Directora do programa internacional de investigação translacional e clínica Harvard Medical School – Portugal. A Unidade de investigação que dirige no Instituto de Medicina Molecular dedica-se à compreensão da dinâmica nuclear e regulação da expressão genética, com o objectivo de melhor perceber as doenças causadas por defeitos nestes processos celulares.

Maria do Carmo Fonseca licenciou-se em Medicina (1983) e é doutorada em Biologia Celular (1988) pela Universidade de Lisboa. Posteriormente, fez um pós-doutoramento no European Molecular Biology Laboratory (Heidelberg, Alemanha). É autora de mais de mais de 92 artigos de investigação originais, 22 revisões e capítulos de livros, bem como de material didáctico em livros e revistas publicados em português. Recebeu numerosas distinções, entre elas o Prémio Pessoa (2010), o Prémio Gulbenkian de Ciência (2007), o prémio DuPont Ciência ibérico (2002) e a Comenda Ordem de Santiago de Espada Ilustres Carreira Prémio Nacional (2001).

Maria do Carmo Fonseca é editora do Journal of Cell Science e membro do Conselho Editorial da revista Transcription, sendo também regularmente revisora convidada das revistas Nature, Science, Cell, Nature Cell Biology, Molecular Cell, J. Cell Biology, EMBO Journal. É ainda membro eleito da European Molecular Biology Organization, da Sociedade Americana de Bioquímica e Biologia Molecular, da Academia das Ciências Portuguesa e da Academia Portuguesa de Medicina É ainda membro do Comité Científico Consultivo para as Ciências da Vida e da Saúde (Fundação para a Ciência e Tecnologia, Portugal) e do Institut Jacques Monod, em Paris. Regularmente actua como avaliadora para diversas agências internacionais tais como a Comissão Europeia, The Wellcome Trust, Human Frontier Science Program, Swedish Academy of Science, e United States-Israel Binational Science Foundation. Recentemente, Maria do Carmo Fonseca foi membro dos comités de avaliação científica do The EMBO Young Investigator Program (2000-2002), European Research Council Young Investigator Award Review Panel (2007-2009) e Agence d’évaluation de la recherché et de l’enseignement supérieur, França (2008-2009) .

Entrevista ao Expresso

Maria do Carmo Fonseca

“É uma completa surpresa, nunca me tinha passado pela cabeça ser escolhida para este prémio”. Foi com um sorriso largo, generoso e limpo que Maria do Carmo Fonseca contou ao Expresso o que sentiu quando foi informada por Francisco Pinto Balsemão, na quinta-feira, de que tinha ganho o Prémio Pessoa 2010, uma iniciativa do Expresso patrocinada pela Caixa Geral de Depósitos.
A cientista, de 51 anos, diretora executiva do Instituto de Medicina Molecular (IMM), em Lisboa, diz que o prémio lhe dá “uma enorme satisfação e orgulho, porque é uma ótima oportunidade para passar às gerações mais novas a ideia de que a aposta na ciência é uma aposta ganhadora para o desenvolvimento do país”. Em especial num momento de crise económica em que pairam ameaças de cortes nos financiamentos públicos às instituições científicas. E é também “o reconhecimento da sociedade civil, ao seu mais alto nível, da importância da ciência para Portugal”.

Ver o genoma em ação

Professora Catedrática de Biologia Celular e Molecular na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, Maria do Carmo Fonseca tem um pensamento muito claro e organizado. Para a sua carreira de investigadora, a grande ambição “é ser capaz de seguir, no espaço e no tempo real, o percurso de uma única molécula de RNA mensageiro produzida por umgene numa célula”, ou seja, “é ver o genoma em ação”.
Até agora, os cientistas têm baseado o seu conhecimento em olhar para a célula em termos globais, mas a evolução tecnológica já permite individualizar o estudo de uma molécula. “Só vamos conseguir entender a vida quando passarmos da biologia das multidões de moléculas (das médias) para a história individual de cada molécula”. E para o IMM, a cientista põe a fasquia bem elevada: “Quero que o instituto seja considerado um centro de excelência mundial em todas as áreas relacionadas com a investigação médica — imunologia, doenças infecciosas, biologia, oncologia e doenças neurológicas”. E fazer investigação de excelência mundial tem um significado bem claro: “Nem todos os cientistas podem trabalhar no IMM, e alguns dos que já trabalham no instituto não se podem manter”.
A investigadora foi selecionada entre dezenas de candidaturas que chegaram, este ano, à mesa do júri, 35 das quais apresentadas a título individual. A “contribuição original” dada pela premiada ao desenvolvimento científico em Portugal, assim como a sua capacidade de criar equipas e estimular jovens investigadores a prosseguir projetos de investigação, pesaram na escolha do júri. Essa contribuição original, que inclui cinco artigos publicados em 2010 em revistas científicas de grande prestígio internacional, “consiste na identificação dos mecanismos de transmissão de mensagens no interior da célula e tem como objetivo final a melhor compreensão de doenças causadas por erros da natureza que afetam esse processo”, diz o comunicado do júri do Prémio Pessoa. No fundo, a investigação de Maria do Carmo Fonseca é o estudo do genoma em ação, pela visualização de fenómenos biológicos através de técnicas muito sofisticadas de microscopia.
“Num país preocupado com a fuga de cérebros é de realçar a capacidade de alguém que consegue mantê-los cá, a trabalhar e a desenvolver projetos de enorme qualidade”, disse Maria de Sousa, cientista e um dos elementos do júri do Prémio Pessoa.
A equipa dirigida por Maria do Carmo Fonseca tem 350 pessoas repartidas por 30 unidades de investigação, incluindo 120 doutorados e 90 estudantes de doutoramento.
O facto de ser esta a primeira mulher cientista a ser distinguida, individualmente, por este prémio, não foi realçado pelos jurados. “O género não entra nesta apreciação”, disse Maria de Sousa, acrescentando que “em ciência não há Saramagos”, porque o valor do trabalho científico “só existe em contexto”. Nem “o facto de ser mulher” é um aspeto relevante.
Para a líder do IMM, “o que faz um bom instituto de investigação é o seu diretor ser um cientista reconhecido pelos colegas”. E a sua atividade como cientista “tem sido reconhecida como inovadora a nível internacional”.
“É uma pessoa muito inteligente, muito trabalhadora e determinada, mostrou desde sempre uma vocação para a ciência e tem feito um trabalho notável”, reconhece David Ferreira, professor catedrático jubilado da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, que a teve como aluna e mais tarde como monitora. A investigadora acompanhou depois o seu mentor científico no Instituto Gulbenkian de Ciência, onde fez carreira.
Recorde-se que o Prémio Pessoa já distinguiu os cientistas António e Hanna Damásio e Manuel Sobrinho Simões, diretor do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (Ipatimup).O médico João Lobo Antunes também recebeu o prémio em 1996, mas para destacar a publicação do seu primeiro livro “Um modo de ser”. António Câmara, professor da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e criador da empresa YDreams, foi premiado pelo seu trabalho no campo da inovação tecnológica.