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Laureado Prémio Pessoa 2009 - Manuel José Macário do Nascimento Clemente

Manuel José Macário do Nascimento Clemente nasceu em 1948, em S. Pedro e S. Tiago, no concelho de Torres Vedras.

Licenciado em História pela Faculdade de Letras de Lisboa, ingressou, em 1973, no Seminário Maior dos Olivais. Em 1979, licenciou-se em Teologia pela Universidade Católica Portuguesa e doutorou-se em Teologia Histórica, em 1992, com uma tese intitulada "Nas Origens do Apostolado Contemporâneo em Portugal. A Sociedade Católica (1843-1853)".

Desde 1975 lecciona História da Igreja na Universidade Católica Portuguesa, actualmente no Centro Regional do Porto e, desde a sua ordenação como Sacerdote - em Junho de 1979 -, foi Coadjutor das Paróquias de Torres Vedras e Runa. Membro da equipa formadora do Seminário Maior dos Olivais, seu Vice-reitor e, posteriormente, Reitor, entre 1980 e 2006. Foi, ainda, Cónego da Sé Patriarcal (1990/1999) e Director do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa.

Nomeado Bispo Titular de Pinhel e Auxiliar do Patriarcado de Lisboa a 6 de Novembro de 1999, recebeu a Sagração Episcopal nos Jerónimos, no dia 22 de Janeiro de 2000, sendo Bispo Auxiliar do Patriarcado de Lisboa até 2006.

No âmbito da Conferência Episcopal Portuguesa, D. Manuel Clemente foi Promotor da Pastoral da Cultura, desde 11 de Abril de 2002, Membro da Comissão Episcopal de Comunicações Sociais, desde 20 de Junho de 2002, e actualmente é Presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais, eleito em 5 de Abril de 2005.

Colabora habitualmente nos pro- gramas "Ecclesia" (RTP2) e “Dia do Senhor”, na Rádio Renascença. Como autor, D. Manuel Clemente tem já uma vasta bibliografia
sobre temas das áreas da História, Teologia e Pastoral.

Como autor, D. Manuel Clemente tem uma vasta bibliografia sobre temas das áreas da História, Teologia e Pastoral. Entre eles, "A Igreja no tempo". Lisboa, Grifo, 2010; "1810-1910-2010: Datas e Desafios", Lisboa, Assírio & Alvim, 2009; "Um Só Propósito. Homilias e Escritos Pastorais", Lisboa, Pedra Angular, 2009; "Portugal e os Portugueses", Lisboa, Assírio & Alvim, 2008; "Os Papas do séc. XX", Lisboa, Paulus, 2007; "Igreja e Sociedade Portuguesa do Liberalismo à República", Lisboa, Grifo, 2002; "A Igreja no tempo", Lisboa, Grifo, 2000.

Entrevista ao Expresso

Inquieto, disponível para o debate, D. Manuel Clemente, Prémio Pessoa 2009, contraria a imagem do Bispo fechado na redoma. Frequenta as livrarias, circula de metro pela cidade e cultiva o prazer de estar com os outros

CANSADO, com a voz a denunciar a iminência de um resfriado, D. Manuel Clemente recebe-nos numa tarde de domingo, no final de uma visita pastoral de três dias. Dali a algumas horas vai partir para Torres Vedras, sua terra natal. Pelo meio, ainda tem tempo para falar de Portugal como um país crítico, das questões de Deus e da Igreja e do impacto da crise social na sua diocese.

Pode ser feliz uma sociedade onde não há emprego?

Não, não pode. Na nossa concepção cristã, o trabalho não é algo exterior à pessoa.

Não é um simples meio ou expediente de sobrevivência.A realização de uma sociedade feliz é a realização de uma sociedade com trabalho. Não tenho dúvidas nenhumas de que a infelicidade que muita gente sente na sociedade portuguesa passa muito pelas dificuldades na obtenção de trabalho.

Por outro lado, há um problema conexo, que tem a ver com o desejo, com as ambições e asmotivações. Às vezes, parece que a ideia da fruição pela fruição, do lazer pelo lazer permanece mais como ideal de vida do que propriamente o trabalho.

Resulta daí que a Igreja Católica convive mal com a ideia de prazer?

Não. Diria que, numa perspectiva cristã, a vida não se pode definir em termos de prazer. Define-se em termos da tal realização em que cada um cumpre aquilo que pode cumprir. Temos a parábola dos talentos, com a visão evangélica da vida segundo a qual cada um de nós deve realizar aquilo que pode, em benefício não só pessoal mas colectivo. Esta lógica é fundamental.

Não digo que demita a ideia do prazer, mas transforma-a.

Como é que se manifestam as novas situações de pobreza na diocese do Porto?

De imensas maneiras. Há pessoas que deixaram de conseguir ter omínimo para o seu agregado familiar. Há pessoas que, devido a diversas circunstâncias negativas, acabaram na marginalidade social. E depois há outras formas de pobreza que nos devem preocupar particularmente. É o caso da chamada terceira idade. Sobretudo esses estão agora num mundo diferente daquele emque aprenderam a viver e a sobreviver.

Muitos deles estão sós. Morrem sós, sem ninguém dar por isso.

Tem quem o informe das reais dimensões do desemprego?

Em relação à Região Norte, temos muitos dados, que nos são fornecidos por economistas.

Dizem que os dados oficiais são o que são e têm a ver com as estatísticas do Estado, mas podem referir-se a coisas diferentes.

Por exemplo, à falta de um trabalho estável, a trabalhos episódicos e pouco garantidos e, por isso, a desempregos adiados.

Seja como for, a sua expressão é muito grande em termos da tal felicidade pública a que me referi.

Há algum devir histórico nesta espécie de casamento sem divórcio entre Portugal, os portugueses e a crise?

É uma pergunta bem posta, porque abre um filão. Portugal é um país crítico. Não tem nenhuma razão de auto-suficiência e, no entanto, é o país com fronteiras definidas mais antigo da Europa. Mas nunca teve possibilidade de se sustentar sozinho.

As nossas crises cerealíferas na Idade Média são endémicas. Nunca teve possibilidades, até humanas, quando foi da expansão ultramarina, de garantir uma imensidão como aquela por onde se espraiou. Não tinha possibilidade, no século XVII, de garantir, só por si, a sua independência. Depois do ouro do Brasil, o país fica destroçado. Demorou 50 anos a recompor-se, quando grande parte da Europa já estava mais à frente. Mesmo no século XX tivemos situações de pobreza muito difíceis de ultrapassar em todos os campos. Portugal, como estudo de caso, é uma coisa apaixonante, porque é um país que não tinha nenhuma razão para subsistir e subsiste. Os portugueses subsistem apesar de Portugal.

Faz visitas pastorais numa época em que a laicidade ganha terreno. É o maior desafio que a Igreja jamais teve de enfrentar?

Talvez o surpreenda, mas acho que a laicidade é o terreno onde a Igreja Católica deve estar, porque é o terreno em que Jesus Cristo nos coloca. Quando faz a distinção entre Deus e César, Jesus introduz na história religiosa da Humanidade uma distinção tão grande que só agora estamos a apanhá-la. Contraria a pulsão humana de unificar tudo rapidamente. Qualquer um de nós, seja religioso, agnóstico ou ateu, tem a tendência de não conviver com a distinção, até por uma questão de segurança.

A distinção que Jesus põe e pratica levou-o a ir por outro caminho. Por isso, julgo que este campo da laicidade é o que se harmoniza melhor com a proposta cristã. Nas visitas pastorais, vou como representante da mais antiga instituição social e cultural presente no território português, anterior ao próprio Estado e que, melhor ou pior, ao longo de muitos séculos, tem estado presente na educação, na assistência, na música, na arte, na literatura... Portanto, acho que tem interesse este diálogo.

Nesse diálogo entra um dos debates do momento: o casamento de pessoas do mesmo sexo. A opção religiosa fundamenta a oposição a este casamento?

Não. Para quem entende o casamento como um sacramento, as coisas têm outro significado.

Sou cristão, mas em relação ao casamento abordo-o numa perspectiva humana.

E, neste campo, a Humanidade escolheu.

Desde que o homem tem consciência de si próprio, com uma enorme variedade, desde as grandes famílias de clãs até à família nuclear dos nossos dias, desde as famílias poligâmicas até às monogâmicas, há sempre um ou dois factores comuns: homem e mulher. A complementaridade masculino e feminino, bem como a possibilidade e a previsão da geração e da educação da prole. As sociedades depois constituídas como Estado reconheceram a família como factor básico de sociabilidade, de educação, de geração... Outras realidades que as pessoas livremente queiram ter e que até possam ser institucionalizadas terão outro nome, porque são realmente diferentes.

Outra coisa é outra coisa.

Não lhe podemos chamar casamento porque as palavras têm dono?

As palavras têm a sua semântica. Aquilo a que, desde a Pré-História até aos nossos dias, chamamos família e aquilo a que chamamos casamento está sempre ligado à constituição de família e assenta na alteridade homem/mulher.

Um casal de pessoas do mesmo sexo está diminuído na sua capacidade de transmitir valores universais?

Alguns sim, outros não. E certamente não da mesma maneira. A psicologia diz que a primeira consciência que temos da nossa limitação é verificarmos que o pai e a mãe não são iguais. Se duas pessoas do mesmo sexo são apaixonadas pela música, ou pela literatura, transmitem isso. Porém, as questões da complementaridade, fundamentais para o género humano, não poderão transmitir, porque são parecidas, são homólogas. Adiro e integro-me na sociedade liberal contemporânea que desde o final do século XVIII se tem sedimentado entre nós e que se conjuga em termos de liberdade.

Isto é, da disponibilidade de cada um em levar a sua vida por diante de acordo com o seu próprio projecto. Mas não extravaso para a deriva libertária a que temos assistido desde a última guerra mundial, em que basta eu desejar para isso ser razão suficiente para avançar, independentemente do que os outros pensam ou do que as instituições me peçam.

Nas 477 paróquias da sua diocese tem pouco mais de 300 padres no activo. Não é um sinal de que a proposta cristã tem cada vez menos aderentes?

Realmente, são poucos padres. É preocupante e é desafiante. Não nos permite ter o tipo de assistência sacerdotal às comunidades própria doutros tempos. Cada vez será mais impossível, até porque a média etária dos padres é superior a 60 anos. Vejo aqui sobretudo um desafio para que ultrapassemos o tipo de implantação eclesial quase baseada na presença do padre. Deverá haver uma participação activa dos cristãos de cada comunidade no conjunto do trabalho pastoral. Depois há o factor ambiental. Isto é: o significado religioso, logo confessional, da existência ligado à Igreja Católica concretamente não é hoje tão patente.

Entronca aí o recente apelo do Papa para o reencontro da Igreja com os criadores culturais?

Até ao século XVIII, na Europa, eram as instituições eclesiásticas que encomendavam arte. E por isso os artistas faziam arte sobre motivos religiosos. Isto deixou de ser assim com a implantação do Estado moderno e a laicização dos serviços públicos. Muita da secularização da sociedade aconteceu com a expropriação de bens que estavam ligados a instituições religiosas produtoras de cultura. Por outro lado há o aspecto da representação. Representar Deus é, no século XXI, mais complexo do que nos séculos XVIII ou XIX, em termos de cultura erudita, que se afastou muito daquela cultura popular que subsiste nas paróquias e está ligada amodelos e a formas que foram estandardizadas uns séculos atrás. Há a figura de Jesus, da mãe de Jesus, ou dos santos, que quando andavam neste mundo não tinham propriamente uma auréola na cabeça. Depois temos aquelas realidades que estão para além da nossa observação imediata e a que geralmente chamamos o céu ou a vida eterna. Não são realidades materializáveis.

Dificilmente a Igreja recuperará o estatuto que teve?

Espero firmemente que não volte uma outra Idade Média, em que, pela ausência de estruturas e instituições, a Igreja tivesse de fazer tudo, mesmo aquilo que, segundo Jesus, não lhe pertence.

Sendo uma pessoa que muito se questiona, debate-se com alguma pergunta para a qual gostaria de encontrar resposta?

Sim. Gostaria de perceber a relação da religião, e concretamente do cristianismo, com dois sentimentos básicos e dificilmente conjugáveis, na Humanidade e na Igreja, que são a segurança e a liberdade. Vou chegando a algumas conclusões, mas sobretudo concluo que é muito difícil.