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Laureado Prémio Pessoa 2008 - João Luís Carrilho da Graça

João Luís Carrilho da Graça, nasceu em 1952, em Portalegre. Licenciado pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, em 1977, foi assistente na faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa entre 1977 e 1992.

Desde 2001, é professor convidado no Departamento de Arquitectura da Universidade Autónoma de Lisboa e na Universidade de Évora a partir de 2005. Tem desenvolvido actividade pedagógica em seminários, conferências e semestres de docência em inúmeras escolas.

Recebeu o prémio da Associação Internacional dos Críticos de Arte em 1992 pelo conjunto da sua obra e por ocasião da execução da Escola Superior de Comunicação Social. Foi ainda distinguido com o prémio “relação com o sítio”, menção honrosa ( da Associação dos Arquitectos Portugueses), pelo projecto da piscina de Campo Maior, em 1993. Em 1994, recebeu o prémio Secil pela Escola de Comunicação Social, em Lisboa. Foi galardoado com o Prémio Valmor 1998 e com o grande prémio do júri “FAD” 1999, pelo projecto do Pavilhão do Conhecimento dos Mares, na Expo 98 de Lisboa. Foi ainda distinguido com o prémio “Luzboa 2004” da primeira Bienal Internacional de Arte em Lisboa e nomeado inúmeras vezes para o Prémio Mies Van der Rohe, Prémio Europeu de Arquitectura e recentemente candidato proposto pela Ordem dos Arquitectos portuguesa para o prémio Auguste Perret.

Publicado extensamente em inúmeros livros e revistas da especialidade, incluindo as monografias “Carrilho da Graça”, editorial Gustavo Gili, 1995; “João Luís Carrilho da Graça, opere e progetti”, Electa, 2003; “João Luís Carrilho da Graça, arquitecturas de autor 31”, t6 Ediciones, 2004; “João Luís Carrilho da Graça, documentação e arquivo, Palácio de Belém”, Caleidoscópio, 2005; “João Luís Carrilho da Graça, candidaturas aos prémios UIA 2005, prémio Auguste Perret”, Ordem dos Arquitectos, 2005.

Carrilho da Graça foi distinguido com a Ordem de Mérito da República Portuguesa, em 1999.

Entrevista ao Expresso


CARRILHO DA GRAÇA
«Nunca abandonei as minhas obras»
Prémio Pessoa

Carrilho da Graça, prémio pessoa 2008, tem 56 anos e mais de 30 de carreira como arquitecto. pragmático, deita por terra a ideia romântica da arquitectura. insiste que ela é uma responsabilidade social. existe para servir o homem

Um papel e uma esferográfica acompanharam João Luís Carrilho da Graça durante as duas horas de entrevista no seu ateliê em Santos. Sem um risco, o papel ficou em branco.

Como é que alguém nos anos 60,emPortalegre, decide tornar-se arquitecto?

É difícil explicar. Só sei que, desde que me lembro, queria ser arquitecto.

Por influência directa de alguém?

Talvez mais pelo impacto que algumas obras de arquitectura em Portalegre produziram em mim: o Colégio de Santo António, onde andei, e a sede do Clube de Ténis, na serra de São Mamede. Fascinava-me aquela forma estranhíssima em betão, uma forma escultórica no meio da serra. É uma obra de Teixeira Guerra e Cruz Homem, dois arquitectos do Crato.

Houve alguma oposição à sua escolha?

Não. Lembro-me de Siza Vieira dizer que queria ser escultor e o pai não ter achado graça. Quando decidi ser arquitecto, a profissão tinha mais solidez do que hoje, a figura do arquitecto tinha uma certa importância.

A presença do arquitecto na obra era mais regular...

Talvez. Mas, na minha cabeça, eu não comecei assim há tanto tempo.

Vem para Lisboa estudar. Como é que foi o embate com a Escola de Arquitectura?

Não era uma grande escola, não era grande espingarda. Até por razões políticas, havia uma grande cisão entre os professores e os alunos. Até ao 25 de Abril, estava eu no 4º ano, não havia respeito pela escola.

Era empenhado politicamente?

Não em excesso. Tive sempre uma posição de esquerda desde os tempos do liceu, mas a minha militância não era muito intensa.

Pensou seguir uma carreira académica?

Assim que acabei o curso, fui convidado para dar aulas, e comecei imediatamente.

O sistema ainda era pouco organizado.

Não tínhamos sequer catedráticos ou coordenadores.

Fiquei responsável por uma turma do último ano, com alunos que tinham sido meus colegas, o que foi uma experiência fantástica e muito interessante.

Porque é que não continuou e não fez o doutoramento?

Era difícil de compatibilizar com o trabalho de ateliê. Em Portugal, não existe uma adequação entre a prática e o ensino da arquitectura.

Fico arrepiado quando constato que, em muitas escolas, o ensino se torna muito abstracto, porque os professores não fazem projectos e se fazem são pouco significativos.

O ensino da arquitectura devia ser mais teórico do que o da engenharia civil? O da engenharia civil devia ser mais prático do que o da arquitectura?

A resposta mais comum é sim. Mas é precisamente o contrário.

Foi por essa prática que optou assim que acabou o curso e montou um ateliê?

Não tinha outra alternativa. Montei o ateliê já neste prédio, numa sala mais ou menos emprestada. O primeiro trabalho foi o Plano Geral de Urbanização de Portalegre.

Convidei João Paciência e Gonçalo Byrne para concorrerem comigo e ganhámos.

Foi uma revolução. Comecei imediatamente a trabalhar, um pouco como se para aprender a nadar me atirassem para um tanque para ver se conseguia vir à tona. Bebi muita água, mas acabei por conseguir.

O Alentejo marcou-o muito em termos de traço, de luz, de dimensão?

Tenho dificuldade em responder, estou a ver de dentro. O território e as cidades no Alentejo são arquitectonicamente fortíssimas.

É quase inevitável que essa força marque a minha maneira de olhar.

O arquitecto Belo Rodeia diz que o seu traço é do Sul...

Acho que sim. Gosto imenso da ideia de Sul. E Lisboa também é Sul.

Para um arquitecto, o que é isso do traço?

Li há pouco um artigo em que Souto Moura diz que eu tenho uma maneira própria de fazer arquitectura, facilmente reconhecível.

Como ele diz, não tenho escola, tenho obra.

Faz sentido falar em características próprias da arquitectura portuguesa?

Faz-me confusão ver as coisas nesses termos.

É difícil que qualquer artista em Portugal aceite que há uma arte portuguesa, como se essa arte fosse uma espécie de artesanato.

Mas admito que a arquitectura portuguesa tem coerência e identidade.

O que vê na sua arquitectura?

Uma grande importância ao território, que é uma espécie de estrutura de suporte inicial de tudo o que é construído. Não faço arquitectura para mim próprio. Um sítio tem particularidades, vento, sol, vista...

A Cova da Moura é um território estimulante?

Por todas as razões e mais algumas! Há ali uma situação social interessantíssima para um arquitecto, há um território construído de uma forma que pode parecer desequilibrada mas que obedecerá a uma série de regras mais humanas do que podemos imaginar à partida. A essência da arquitectura é servir o homem.

Onde é que fica a criatividade?

Tento sempre pensar sobre o real, racionalizar, se possível, quantificar... O arquitecto tem de responder a problemas colocados pela sociedade. Mesmo que se trate de uma casa privada, há sempreuma presença no território que não deixa de ser um acontecimento público. Isso pressupõe um conjunto de responsabilidades. Depois, há um momento em que tudo faz clique. Se ainda por cima é belo, não posso pô-lo de lado e dizer que o inconsciente e a imaginação não existiram.

É mais importante responder à sociedade do que ao seu próprio rasgo criativo?

É uma exigência! Não sei trabalhar de outra maneira. Não faço arquitectura por fazer.

Não tem projectos na gaveta?

Só tenho um. É um projecto trabalhado até ao último detalhe mas que por ironias do destino não se concretizou: o Museu de Setúbal, no Convento de Jesus.

A Igreja de Santo António, em Portalegre, agora inaugurada, é um projecto que tinha necessidade de fazer?

Gosto imenso da obra. Costumo dizer que, como é uma igreja, foi um milagre. E sou sincero se disser que o resultado me surpreendeu. A reacção da população foi mais do que gratificante. Quando se fez um projecto radical, com liberdade criativa e sem grandes concessões, não posso deixar de me sentir feliz por esta comunhão com a população que a obra veio servir.

Ao longo da carreira, sentiu-se obrigado a aceitar projectos para pagar contas?

Isso é quase todos os dias. Os arquitectos não podem ter uma posição individual e romântica, porque estão inseridos num sistema de produção poderosíssimo, que envolve muitos milhões e que tem uma legislação feroz. Temos de antecipar tudo, de estar em ligação permanente com advogados, com várias especialidades. Não dá para falhar. O ateliê é uma empresa.

Qual é a sua relação com as obras? É um pai-galinha ou abandona-as?

Nunca as abandonei. Visito-as a uma cadência de uma vez por mês.

Visita os projectos que acaba?

Sim, o criminoso volta sempre ao local do crime...

Há alguma obra a que goste, particularmente, de voltar?

Não tenho preferências. São como os filhos: gosta-se de todos, por razões diferentes.

Tem filhos?

Três, e nenhum deles é arquitecto. O mais velho é engenheiro físico, especializou-se em ventilação natural e trabalha muito comigo. A segunda é advogada. E o mais novo formou-se em Economia e está agora a estudar Design.

É interessante falar em ventilação, numa época em que se fala em edifícios inteligentes, ecológicos, climatizados...

Isso lembra-me uma vez que estava em Madrid, com o Paulo Mendes da Rocha, a assistir a uma conferência onde se falava de edifícios inteligentes. E ele virou-se para mim e perguntou: «Você acredita?» Eu acho que, se o edifício fosse mesmo inteligente, estava quieto.

Mas essa ideia dos edifícios faz sentido?

A preocupação ambiental é fundamental e incontornável.

Como é que faz um projecto? Ainda risca no papel?

Ainda. Mas agora, com os computadores e os sistemas de simulação, faz-se uma análise das situações muito mais sofisticada, rápida e rigorosa.

O que aprendeu na escola é arqueologia?

De maneira alguma. Mas, ao contrário da escola do Porto, que defendia o desenho e o esquiço, acho que há uma enormemitificação desse processo. O desenho até pode ser o maior inimigo da arquitectura.

Não tem angústia de criação?

Nunca tive. Tenho um sistema muito pragmático: se não sei o que vou fazer, não fico parado a olhar para o papel. Faço uma maqueta do sítio e, a partir dela, vou pondo sucessivos objectos a ocupar o espaço, experimentando hipóteses de volumes ou presenças.

Se estivéssemos aqui, usaria o cinzeiro, os gravadores, o maço de tabaco...

Olhamos de uma forma mais romântica para o arquitecto do que o próprio...

A ideia de que estamos sozinhos a desenhar sentados ao estirador não é real! Perante um projecto, não fico parado, nem vou para Sintra pensar. Nada disso.

Alguma vez lhe passou pela cabeça ganhar o Prémio Pessoa?

Nunca me fixo nesse tipo de possibilidades.

Por acaso, quando o Souto Moura ganhou, encontrei a mulher dele e disse-lhe: «Dá-lhe os parabéns e diz-lhe que tenho inveja.»

Autor: Alexandra Carita - ACRosa Pedroso Lima - RPL