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Laureado Prémio Pessoa 2007 - Irene Flunser Pimentel

Irene Flunser Pimentel nasceu em 2 de Maio de 1950 em Lisboa. Licenciou-se em História pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, em 1984. Fez o Mestrado em História Contemporânea (variante século XX) na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, em Julho de 1997, com a tese Contributos para a História das Mulheres no Estado Novo. As organizações femininas do Estado Novo (Obra das Mães pela Educação Nacional e Mocidade Portuguesa Feminina), 1936-1966, que obteve a classificação de Muito Bom, Doutorou-se, em, 23 de Janeiro de 2007, em História Institucional e Política Contemporânea pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, com a tese A Polícia Internacional de Defesa do Estado. Direcção-Geral-de-Segurança (PIDE/DGS). História da Polícia Política do estado Novo. 1945-1974, com a classificação Muito Bom com Distinção e Louvor por unanimidade,

Depois de ter trabalhado no campo editorial e livreiro, dedicou-se à investigação historiográfica, além de ter sido editora da revista História. Publicou diversos artigos em jornais e revistas de História, sobre vários temas: o nacionalismo, os refugiados em Portugal durante a II Guerra Mundial, o Fascismo italiano e o nacional-socialismo; o anti-semitismo e o Holocausto; as organizações femininas e a política relativa às mulheres, bem com o a política assistencial e eugénica do Estado Novo. Ultimamente tem-se dedicado ao estudo da PIDE/DGS, polícia política da ditadura portuguesa.
Colaborou em enciclopédias, dicionários e obras conjuntas, a última das quais é um estudos colectivo sobre os Tribunais Militares e os Tribunais Plenários do Estado Novo, a pedido do Ministério da Justiça, no âmbito do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa.
Interveio em colóquios, conferências e seminários, em Portugal, na Alemanha, Grã-Bretanha e Espanha e foi consultora e colaboradora de programas de rádio e televisão. Ultimamente tem sido consultora de documentários e filmes, entre os quais se conta Os Anos de Brasa, RTP, de Inês de Medeiros, além de ser co-autora de uma série de documentários para a RTP sobre a PIDE/DGS.
É autora dos livros História das Organizações Femininas do Estado Novo, Lisboa Círculo de Leitores, 2000 e Lisboa, Temas & Debates, 2001; Textos relativos a Portugal, in Contai aos Vossos Filhos. Um Livro sobre o Holocausto na Europa, 1933-1945, de Stéphane Bruchfeld e Paul A. Levine, Lisboa, Gótica, 2001; Fotobiografia de Manuel Gonçalves Cerejeira, Lisboa, Círculo de Leitores, Junho de 2002, Os Judeus em Portugal durante a Segunda Guerra Mundial. Em fuga a Hitler e ao Holocausto, Lisboa, Esfera dos Livros, Maio de 2006; Vítimas de Salazar. Estado Novbo e Violência Política, em co-autoria com João Madeira, coordenador e Luís Farinha; A História da PIDE, Lisboa, Círculo de Leitores e Temas & Debates Editora, 2007 e Mocidade Portuguesa Feminina, Lisboa, Esfera dos Livros, 2007.
No prelo, estão os seguintes livros: Biografia de um Inspector da PIDE, Esfera dos Livros, 2008; Portugal, Um País de Refúgio. Os Refugiados em Portugal. 1933/1945, em colaboração com Christa Heinrich, a sair em 2008 ou 2009, na Alemanha e-Fotobiografia de José Afonso, Lisboa, Círculo de Leitores, a sair em 2008 ou 2009.

Recebeu o prémio Carolina Michaelis, atribuído pelas Organizações não Governamentais da Comissão para a Igualdade dos Direitos das Mulheres, em 1999, pelo livro História das Organizações Femininas do Estado Novo, bem como o prémio ex-aequo Adérito Sedas Nunes, atribuído pelo Instituto de Ciências Sociais, em 2007, pelo livro Judeus em Portugal durante a Segunda Guerra Mundial. Em Fuga de Hitler e do Holocausto.


Entrevista ao Expresso


IRENE PIMENTEL
«O HISTORIADOR NAO É JUÍZ NEM MILITANTE»

A vencedora do Prémio Pessoa fala da PIDE, das organizações femininas do Estado Novo e da maneira como a História (não) é ensinada aos mais novos

A tese de mestrado de Irene Flunser Pimentel, 57 anos, foi sobre as organizações femininas do Estado Novo e a de doutoramento sobre a PIDE. Dessa investigação universitária sobre a história recente viriam a nascer diversos livros de divulgação, com destaque para Mocidade Portuguesa Feminina e História da PIDE, para além de outros trabalhos como Judeus em Portugal durante a II Guerra Mundial. Se este último livro lhe valeu, ex-aequo, o Prémio Sedas Nunes, em Outubro passado, o conjunto da obra e a sua acção no campo da divulgação histórica foram razões mais que suficientes para ser distinguida com o Prémio Pessoa deste ano. Iniciativa conjunta do «Expresso» e da Unisys, vai já no seu 20º ano e Irene Pimentel torna-se na terceira historiadora a ser distinguida, juntando-se a José Mattoso (1987) e Cláudio Torres (1991).
Uma vez que boa parte do que tem publicado anda à volta de um passado, ainda fresco, e sobre o qual «toda a gente acha que tem ideias e juízos de valor», a premiada deixa claro que sabe distinguir o seu empenho em causas cívicas, do seu trabalho como investigadora. Nem a história se escreve a preto e branco nem «o historiador é juiz» e, muito menos, «militante». De resto, considera «inqualificável usar a História para fazer política». Esta postura foi reconhecida na declaração final do júri, lida sexta-feira da semana passada pelo respectivo presidente, Francisco Pinto Balsemão, presidente do grupo Impresa: «Os seus livros, que nunca negam a sua adesão à causa das liberdades e dos direitos humanos, revelem um notável esforço de rigor intelectual e objectividade académica.»
Como explica Irene Pimentel, se há tema que ponha em causa uma visão do mundo a preto e branco é a história das organizações femininas do Estado Novo. Por um lado, é óbvia a influência das organizações da juventude, tanto hitlerianas como fascistas, na génese da Mocidade Portuguesa. Por outro, a resultante final foi tudo menos um decalque dos modelos alemão e italiano. Em 1936, o então ministro da Educação, Carneiro Pacheco, quis acabar com o escutismo e outras organizações juvenis, maioritariamente de inspiração católica. Se havia partido único, porque não deveria haver organização juvenil também única? A reacção do cardeal Cerejeira foi imediata. Escreve a Salazar, alertando-o: «Estás a ir pelo caminho do totalitarismo…» A extinção nunca passará da ameaça, mas, ostensivamente, Cerejeira recusar-se-á a visitar, em 1938, o Primeiro Acampamento da Mocidade Portuguesa.
Entretanto, havia um outro lado da propaganda juvenil hitleriana que levantava problemas: a exaltação do corpo perfeito. Ainda recentemente Cláudio Torres evocava, em conversa, as suas recordações sobre a diferença abissal entre os folhetos nazis do tempo da II Guerra Mundial, mostrando fotos de raparigas bem constituídas, em calções, a fazerem ginástica e os panfletos britânicos, com meninas de saia até aos pés, a jogarem críquete nos colégios vitorianos. «Uns estavam cheios de força e soavam a modernidade, enquanto os outros pareciam aos rapazes do meu tempo uma chatice e um bafio sem graça nenhuma.» Na época, Nobre Guedes, avô do ex-dirigente do CDS, era comissário nacional da Mocidade Portuguesa. Embora germanófilo, explicou numa entrevista a O Século de então que lhe desagradava a vertente militarista das juventudes hitlerianas, já para não falar do lado pagão das valquírias em trajes pouco decentes…
Tudo acabou por se resolver à portuguesa: enquanto à Mocidade Feminina foi imposta uma matriz católica, reforçada pela nomeação de dirigentes com essa orientação (Guardiola e outras), a masculina manteve alguma ligação ao Exército, com aulas de instrução paramilitar dadas por oficiais. Embora formalmente obrigatória, a Mocidade Portuguesa nunca o foi a cem por cento. Havia liceus onde não era levada muito a sério, outros onde a farda não era obrigatória e outros onde, pura e simplesmente, não funcionava pelas mais diversas razões.
A realidade prega partidas. E uma das piores é não se encaixar nos discursos primários, nem nas visões fundamentalistas. «Olhando para as leis em vigor na época, nem um só refugiado poderia ter entrado em Portugal durante a II Guerra Mundial». Na prática passou-se o contrário, desde o «beau geste» de Aristides Sousa Mendes e outros diplomatas, até à condescendência de guardas e funcionários, fosse por razões humanitárias, falta de empenho ou permeabilidade ao suborno…
Isto também é válido para a história da PIDE. Escrita uma tese e um livro para o grande público, uma das coisas que mais impressionou a autora foi a questão dos informadores. «Havia muito mais pessoas a oferecerem-se à PIDE do que aquelas que a polícia política alguma vez poderia utilizar.» Por um lado, isto desmente uma visão do último meio século, muito viva entre os comunistas portugueses e segundo a qual houve sempre uma imensa maioria de «povo» a opor-se activamente ao Estado Novo. Seria caso para perguntar, se assim era como é que Salazar esteve tantos anos no poder… Por outro lado, as razões que levavam alguém a oferecer-se como informador ficam claras: desejo de poder, inveja, às vezes dirigida contra pessoas de um nível social tido como superior. É o diálogo clássico entre o pide e o prisioneiro: «Então senhor doutor? O senhor que é educado e bem nascido anda a dar cabo da sua vida com as políticas e eu, que vim da aldeia e de pais pobres, é que estou a defender o regime…»
Irene Pimentel conclui que, por comparação com outras polícias políticas contemporâneas, da DGS espanhola à Gestapo alemã, a PIDE matou relativamente pouco – menos de uma morte por ano, de 1945 a 1974. Isto em Portugal Continental, porque em África a situação era outra. Há mortes aparentemente resultantes de mau uso de armas de fogo em situações tensas (Dias Coelho, Ribeiro Santos). Outras provavelmente deliberadas, como a de Humberto Delgado, ainda que Pereira de Carvalho, director do Serviço de Informação entre 1962 e 1974, tenha escrito: «Qual era o nosso (da PIDE e do regime) interesse em matá-lo?»
Não matar, não significa não torturar. «A PIDE utilizou com grande eficácia a tortura do sono.» É uma técnica quase infalível e que não deixa marcas, pelo menos físicas. O historiador vê-se perante uma perplexidade: «Praticamente não há documentos que provem que eles torturavam.» Há um calendário com datas e uma anotação manuscrita: «Fulano não dorme» e pouco mais. A reconstituição só pode ser feita a partir dos depoimentos das vítimas. O que leva à questão crucial para todo um imaginário da esquerda que é a do «falar na prisão». Os elementos recolhidos levam a desmistificar muita coisa: «Há supostos heróis que, afinal, não o são e pessoas injustamente estigmatizadas como traidoras.» Há quem não tenha falado por ter uma vontade de ferro. Como há quem não tenha aberto a boca por, a partir de um certo limiar de privação do sono, em vez de sofrer, ter entrado num estado de indiferença ou de beatitude. Muitos cederam por não aguentar tanto sofrimento. Mas há diferença entre ceder sob tortura e passar-se para o lado contrário.
Para a PIDE, o valor intrínseco da informação arrancada sob tortura «era, muitas vezes, diminuto». Eventualmente confirmava suspeitas já bem documentadas por outras vias. Mas, para o torcionário, poder quebrar psicologicamente o preso constituía um triunfo, tanto pessoal como político. Nada melhor para confundir os círculos da oposição que pôr a correr, como tantas vezes a própria PIDE o fez, que «fulano traiu na prisão…»
A partir de 1969 a tarefa da PIDE vai complicar-se. A juntar aos resistentes comunistas, principais alvos de repressão, começam a juntar-se novas correntes de oposicionistas: católicos progressistas, estudantes inspirados pelo Maio de 68, pequenos grupos advogando a luta armada, etc. O que só fez agravar o fosso entre as duas correntes que sempre se confrontaram na PIDE e que, de resto, tinham diferenciação orgânica: mera polícia do regime ou agência de informações ou de contra-espionagem? «O maior peso da primeira vertente ainda hoje explica a relativa fraqueza dos serviços de informações portugueses.»
Tendo estudado no Liceu Francês, em Lisboa, nos anos 60, Irene Pimentel, como muitos outros da sua geração, desenvolveu uma aversão à História decorada, feita de nomes e datas. Contudo, hoje é a primeira a reconhecer que entre nós (e não só) o ensino da História caiu no descalabro. Por um lado, os jovens rejeitam o que lhes parece ser uma chatice. Por outro, vivemos numa sociedade que parece decorrer num eterno presente, com exaltação do valor da eterna juventude e desprezo pelo «velho». Não há noção se o 25 de Abril foi antes ou depois da Revolução Francesa. Realidade e ficção confundem-se na cabeça da geração com 20 anos, como tão bem se mostra no filme de Gus van Sant (ainda em exibição) Paranoid Park. Saber datas e factos, afinal, tem a sua importância. E talvez os estudantes deixem de achar a História uma seca «se perceberem que é feita de histórias de pessoas como eles».
Mesmo antes de saber que tinha sido premiada, Irene Pimentel estava já a desenvolver um novo projecto, este na área do documentário: uma série sobre a história da PIDE, para a RTP, feita com Jacinto Godinho. «É um novo desafio, porque obriga a ir investigar mais, tanto para trás como para a frente (a tese original vai de 1945 a 1974) e a lidar com o problema da imagem e do som.» Não é simples, até porque o arquivo da RTP, embora precioso, começa em 1957 e «a PIDE não gravava para a posteridade os seus interrogatórios…» É um trabalho que se prolongará, pelo menos, até fins de 2008, mas, como se tem visto pela série de Joaquim Furtado sobre a guerra colonial, «há coisas que exigem anos para serem bem feitas».


REENCONTRO À BEIRA-TEJO

O encontro com Irene Pimentel decorre perto de sua casa, num café vizinho do Jardim das Amoreiras, em Lisboa. Chega com um minuto de atraso, vinda de uma entrevista na rádio. O que mais a surpreendeu não foi tanto o frenesim dos meios de comunicação na sexta-feira (da semana passada), mal se soube que tinha ganho o Prémio Pessoa. Frenesim que passou por uma revista cor-de-rosa ter inventado uma outra Irene Pimentel, com um percurso de vida completamente diferente que até incluía militância no PCP. «É o que acontece quando se tiram coisas da Net sem reflectir…» A surpresa foi que, com o fim-de-semana, o circo mediático entrou de férias, para recomeçar, freneticamente, segunda logo de manhã.
A caminho do local de almoço, Irene confessa a sua predilecção pelo romance policial. «Há qualquer coisa de parecido com o trabalho do historiador: ouvir diferentes versões, deduzir a partir de indícios…» Quando, há poucas semanas, ganhou ex-aequo o Prémio Sedas Nunes com Judeus em Portugal durante a II Guerra Mundial, parte do dinheiro foi para comprar colecções de séries policiais da BBC e DVD. «Agora, descubro que não tenho tempo para as ver…» Mas sempre promete que, quando tudo acalmar, vai ler AS Benevolentes, de Jonathan Littell, Prémio Goncourt de 2006, cujo tema, como se sabe, também anda à volta da história recente ou, melhor dizendo, das memórias imaginadas de um dirigente nazi.
O almoço é perto do Cais do Sodré. Se Irene tem um percurso invulgar, de militante da esquerda de base estudantil a historiadora premiada, passando por dez anos ao balcão da Livraria Buchholz, o do dono do restaurante não é menos. Pedro Rodrigues é doutorado em finanças públicas, criou o Vírgula, um dos melhores restaurantes de Lisboa e participou nas greves e nos cursos livres do Instituto Superior de Economia no princípio dos anos 70. A quarta pessoa à mesa, é Jorge Simão que ao talento como repórter fotográfico junta a queda pela gastronomia.
Com o Tejo ao fundo, desfiam-se recordações, evocam-se amigos comuns, alguns já desaparecidos, como César Oliveira. É uma «jam session» histórica, tendo como tema geral o Portugal (ainda) recente. De um entrelaçado de episódios, perfis e citações emerge uma Lisboa que ainda não sabe que o 25 de Abril vem aí mas que, de alguma forma, o presente: as invasões policiais do Técnico e de Económicas (1972); as greves a exames no Técnico em 72/73; os «gorilas» em Direito e em Letras (1973), o assassínio de Ribeiro dos Santos (1972). Como pano de fundo, um movimento estudantil que vai pregar um dos últimos pregos no caixão da ditadura. E que, sendo influenciado por correntes de pensamento nem sempre democrático, era, na sua resultante prática, genuinamente democrático, fraternal e participado. Uma intervenção emocionada feita de cima de uma cadeira podia potenciar ou negar o produto de horas de conspiração de pequenos grupos. Ou não fosse uma das palavras de ordem desse tempo «todo o poder aos cursos».
Dessa espécie de «grafitti» evocativo, sobressaem algumas imagens mais coloridas. Ficou a saber-se que João Cravinho piscava um olho cúmplice quando os activistas de económicas pediam para ir à noite ao GEBEI (serviço estatal de que era responsável) «imprimir uns papéis». Que Francisco Cordovil inventou uma forma genial de distribuir comunicados à população: deixá-los nos escaparates das igrejas, pouco antes da missa. Sem esquecer o delírio maoísta de um cartaz relatando a fuga a um cerco policial e cujo autor se descrevia a si próprio como «o heróico camarada fulano de tal…»
O almoço, regado com Herdade dos Grous, branco, e Anima, tinto, termina quase ao pôr-do-sol, Jorge Simão, que não perdeu um segundo da conversa, pega na máquina fotográfica e põe ponto final nas evocações: «Eu cá nasci em 1969 e tinha cinco anos quando foi o 25 de Abril. Já viram como lá fora a luz está tão bonita?». R.C.

in, Actual (Expresso) – 22 de Dezembro de 2007