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Laureado Prémio Pessoa 2006 - António S. Câmara

Presidente Conselho de Administração da YDreams S.A. Professor Catedrático na Faculdade de Ciência e Tecnologia, Universidade Nova de Lisboa

No início dos anos 90, António Câmara liderava o Grupo de Análise e Sistemas Ambientais (GASA) da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, onde também leccionava no curso de Engenharia do Ambiente. A investigação e a carreira académica eram o seguimento lógico de um percurso universitário que começara em 1977 com a obtenção de licenciatura em Engenharia Civil no Instituto Superior Técnico a que se seguiram algumas temporadas nos Estados Unidos. Num dos momentos de regresso a Portugal, António Câmara encontrou uma geração de alunos onde reconheceu a criatividade e qualidade para competir a nível internacional. No GASA desenvolveram-se vários projectos de vanguarda na área da simulação ambiental, sistemas multimédia e realidade virtual, e o grupo estava ligado a programas de financiamento que chegaram a envolver países de três continentes.

Entre 1998-99 voltou aos EUA para dar aulas durante um ano no MIT. Regressa determinado a criar um laboratório voltado para a indústria. A inspiração materializava-se na famosa máxima do CEO da Apple, Steve Jobs – “os verdadeiros artistas concebem produtos”. Em conjunto com quatro outros investigadores (Eduardo Dias, José Miguel Remédio, Edmundo Nobre e Nuno Correia), decide ir mais longe e criar uma empresa que concebesse produtos inovadores em computação móvel e invisível para o mercado global – nascia a YDreams.

A dedicação, o optimismo e a inspiração são marcas fortes na personalidade de António Câmara. Nascido a 13 de Maio de 1954, em Lisboa, cresceu num ambiente familiar estimulante, numa casa onde a leitura dos clássicos e os últimos exemplares de revistas como a Time ou a Scientific American estavam sempre presentes. Outro pilar importante na sua formação foi a prática do desporto. A dedicação ao ténis de competição chegou a rivalizar com os estudos no Técnico mas uma lesão grave afastou a possibilidade de uma carreira profissional. A consequente aplicação nos estudos da licenciatura de Engenharia Civil valeu-lhe uma bolsa para estudar nos Estado Unidos. Em 1982 completava o doutoramento em Engenharia de Sistemas Ambientais na universidade de Virgina Tech e iniciou a relação que ainda hoje mantém com a Faculdade de Ciência e Tecnologia, onde é Professor Catedrático. Voltou aos Estados Unidos noutros momentos para fazer um pós-Doutoramento no MIT e dar aulas em Cornell University.

Como investigador foi pioneiro na área de sistemas de informação geográfica e é referenciado como um dos mais proeminentes inovadores da área num dos mais reputados manuais sobre o assunto. Tem mais de 150 publicações internacionais incluindo os livros Spatial Multimedia (Taylor & Francis, 1999) e Environmental Systems (Oxford University Press, 2002). Já foi convidado para dar palestras nas universidades de Harvard, Johns Hopkins, Geórgia Tech, Imperial College, Cambridge, Amesterdão entre muitas outras, e orador principal em mais de quarenta conferências internacionais. Orientou vinte e cinco doutoramentos e trinta e cinco mestrados no âmbito de projectos de investigação na área da informação geográfica. Liderou três dezenas de projectos de investigação científica financiados pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, National Science Foundation, NATO e União Europeia. Foi ainda Consultor Sénior no projecto da renovação ambiental para os terrenos da Expo98 e no desenvolvimento da primeira infra-estrutura de informação espacial para o Sistema Nacional de Informação Geográfica. Esteve também envolvido no Estudo de Impacto Ambiental do Alqueva.

António Câmara fundou a YDreams em Junho de 2000. Ocupa o cargo de “Chief Executive Officer” da empresa desde o seu início. A YDreams desenvolve produtos e soluções tecnológicas em computação de proximidade e actua globalmente nas áreas do entretenimento, publicidade, educação e cultura, e qualidade de vida. Clientes da empresa incluem a Nokia, Vodafone, Adidas, Portugal Telecom e China Mobile, entre muitos outros. O percurso de António Câmara e da empresa já foram referenciado em mais 200 artigos nacionais e internacionais, em publicações como o Expresso, Público, Diário de Notícias, New York Times, Libération, e El País e revistas como a Wired e Business Week, entre muitos outros. Foram ainda alvo de reportagens televisivas nos quatro canais portugueses e na CNBC Europe, TVE e EuroNews. A YDreams está em pleno processo de expansão a nível de recursos e mercados de actuação, com uma presença internacional consolidada através de escritórios em Espanha, Brasil, Estados Unidos da América e na China.

Entre as obrigações profissionais de empresário e professor universitário, António Câmara continua a ser visto com regularidade no Estádio Nacional a dedicar-se a uma das suas grandes paixões – o ténis, que jogou a nível internacional nas selecções nacionais de sub-18 e sub-21.

Entrevista ao Expresso

António Câmara
A imaginação ao poder

1988 mudou de vez a vida de António Câmara. Dez anos antes chegara aos Estados Unidos para se doutorar e descobrira, na Virgínia, uma universidade diferente, sem formalismos e cheia de projectos aliciantes. Seguira-se a pós-graduação no famoso MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e, por fim, um ano sabático. De licença na Universidade de Cornell, a família permaneceu na Virgínia e, pela primeira vez em muitos anos, voltou a ter tempo para os livros. A leitura das Memórias de um Revolucionário, de Kropoktine, teve o efeito de revelação: “Descobri que a anarquia era o sistema pelo qual se devia reger um grupo de investigação científica.” Uma tese que, passados quase 20 anos e transformado em empresário de sucesso na área das tecnologias da informação, não renega. “Todos iguais, todos responsáveis e, sobretudo, todos longe da burocracia.” Ainda hoje conserva a secretária contratada há muitos anos. Mudou o contexto empresarial mas não a missão de Conceição Capelo: “manter o mundo burocrático lá longe.”

Mas a América de finais dos anos 80 já não era a mesma. Reagan sucedera a Carter e a “Guerra das Estrelas” enterrara a “détente” e, com ela o ambiente de optimismo encontrado na Virgínia. No MIT, ao mesmo tempo que descobrira uma investigação de ponta sempre em contacto com a realidade industrial, percebeu, pela primeira vez, que não queria viver nos EUA para sempre. “Se lá ficasse, a trabalhar diariamente das sete da manhã à meia-noite e sempre preocupado com mo financiamento dos projectos, nunca teria podido arriscar em novas ideias.” É certo que “muitas se revelaram irrelevantes”, mas outras, “ainda hoje as aplicamos”.

De regresso a Portugal, em paralelo com a docência na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova, constituiu um grupo informal no Campus do Monte da Caparica que tanto levava a cabo projectos exteriores de prestação de serviços (estudos de impactos ambientais do Tejo ou do Alqueva) como desenvolvia “as ideias mais loucas, da linguística à inteligência artificial.” Pelo GASA (Grupo de Análise de Sistemas Ambientais) passou “uma geração de estudantes idealistas aos quais me afeiçoei e que também contribuiu par ao meu desejo de regressar.” Actuais ou antigos dirigentes ambientalistas, como Joana de Melo ou Francisco Ferreira passaram por ali e, com eles, um engenheiro hidráulico vindo do Técnico: Carmona Rodrigues, actual Presidente da Câmara de Lisboa.

Eram tempos de mudança a vários níveis em Portugal. A passagem de Mariano Gago (actual Ministro da Ciência) pela então Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT) não só revolucionara as formas de financiar e avaliar a investigação científica como gerara uma mobilização sem precedentes. Outra lufada de ar fresco fora a passagem de Carlos Pimenta pela Secretaria de Estado do Ambiente.

Dos Estados Unidos e do doutoramento com Donald Drew, o criador do conceito das faixas exclusivas para transportes públicos (BUS), António Câmara trouxera novas ideias sobre a forma como os mapas representados em computador podiam ser utilizados , nomeadamente em processos que implicassem consulta e participação popular (como a construção de linhas de alta tensão, auto-estradas e outras infra-estruturas). Daí à colaboração num projecto inovador a nível mundial, o do Serviço Nacional de Informação Geográfica, foi um passo. “Era um projecto concebido para a Internet, numa altura em que esta ainda nem existia como tal.” Representava a concretização de um ideal de cidadania: disponibilizar informação geográfica livre e gratuita a qualquer pessoa. “Perante um mapa em formato digital, bastaria carregar num ponto para aceder a toda a informação referente a esse local.” Em 1995, Portugal tornava-se num dos primeiros países a pôr a informação geográfica na rede. Mais tarde, o Centro Nacional de Informação Geográfica acabaria por ser ingloriamente absorvido pelo Instituto Geográfico Português, desaparecendo como pólo de inovação.

Entretanto, a equipa não parava. No contexto da Expo-98 era produzido o voo virtual sobre Portugal, concebido por João Pedro Silva, e que constituiu uma das atracções do Pavilhão do Território. “Era, nem mais nem menos, a tecnologia que viria a servir de base ao Google Earth, só que posta em prática oito anos antes.”

Durante a Exposição Internacional, David Marks, que fora mentor de António Câmara no MIT, veio a Lisboa e convidou-o a voltar aos EUA. Foi um novo choque, porque, entretanto, “o mundo tinha voltado a mudar radicalmente”. Era uma revolução comparável à sofrida pelo ténis, onde fizera alta competição nos anos 70, no tempo em que o regime ainda era de semiamadorismo. Por um lado, a Internet tinha democratizado o acesso à informação. Mas, por outro, o conhecimento tornara-se numa arma de utilização decisiva e instantânea.

Convidado por Kevin Teixeira, um investigador norte-americano de origem portuguesa, para intervir numa apresentação pública da visualização do impacto nos fogos na selva amazónica, teve um dos choques da sua vida. O seu trabalho foi completamente ofuscado pela apresentação feita pelo Media Lab do MIT. Esta recorria à empresa que fizera os efeitos especiais do filme Titanic. “A minha apresentação, embora semiacadémica, era rigorosa e bem fundamentada mas a deles é que teve todo o impacto.” Seguiu-se uma constatação: “Temos que ser capazes de fazer disto em Portugal.”

Semanas depois, o assunto era discutido numa reunião com António Mega Ferreira, então ainda administrador da Expo-98. O conselho foi claro: “porque não criam uma empresa?” Esta viria a nascer em Junho de 2000, chamando-se, então, Ideias Interactivas. “Não sabíamos nada de gestão mas tivemos a sorte de ganhar um concurso da Telecel para desenhar mapas para o portal NETC.” A este começo atípico seguiram-se tempos mais difíceis, durante os quais fizeram de tudo. Até o filtro de palavrões para o fórum do Big Brother da TVI…

Foram quatro anos durante os quais a Ideias Interactivas funcionou, mais como um laboratório privado de investigação e desenvolvimento, que como uma empresa. “Nem director financeiro tínhamos, só um contabilista.” O ponto de viragem veio com os jogos de telemóveis. “Percebemos que a nossa única hipótese era apostar num jogo tecnologicamente evoluído.” Nascia o Undercover, primeiro jogo multiutilizadores baseado em tecnologias de localização e com interface visual. “Estava muitos anos à frente do tempo.” O sucesso deste enredo de espionagem, em que o jogador tenta localizar e neutralizar grupos de terroristas algures no mundo, foi imediato. Acabou por ser seleccionado pela Vodafone para testar a eficácia dos sistemas de posicionamento global associados aos telefones celulares.

Com a internacionalização veio a necessidade de mudar o nome. “ Pensámos em XY Dreams, mas rapidamente verificámos que correspondia a uma legião de sítios pornográficos. Por isso ficou apenas YDreams.” A actividade passou a desdobrar-se pelo entretenimento, pela análise ambiental, pela componente educativa e, ainda, pela parte de publicidade. Exemplos de projectos bem sucedidos foram o Cubo da Vodafone (para o qual o telemóvel funciona como um telecomando), a Bola da Adidas para o Mundial de Futebol (com diversos tipos de interactividade) ou um novo jogo, o Spooks, correspondente à série de espionagem homónima da BBC. Surgiram, também, os primeiros miradouros virtuais, herdeiros da experiência do Pavilhão do Território. A ideia é tão simples como aliciante: colocar num monumento um sistema de observação comandado por computador que permita visualizar todos os pormenores do local para onde se está a apontar a objectiva. Para o utilizador funciona como um telescópio óptico, mas fornece muito mais informação com todo o conforto. Testados no castelo de Pinhel, passaram para o Pão de Açúcar do Rio de Janeiro e, em breve, para a Muralha da China.

E o futuro? António Câmara rejeita os triunfalismos, tanto mais que se houve coisa que o desporto lhe ensinou, “foi saber perder”. Fora de questão está tentar concorrer com os grandes potentados, tentando criar sistemas operativos ou motores de busca. A Microsoft ou o Google “apostam em sistemas onde a distância para o utilizador tende para o infinito.” Com um computador ligado á rede pode, hoje em dia, ter-se acesso à informação em qualquer parte do mundo. Por isso, onde vale a pena investir é no oposto, ou seja, “na computação em que a distância entre o utilizador e o sistema tende para zero.” Por outras palavras, o paradigma do novo mundo será o de as pessoas, além de estarem ligadas à rede, “poderem também comunicar com os objectos em casa, nas lojas e por aí fora.”

Isso pode nem sequer implicar o processamento electrónico da informação. “Há novas superfícies interactivas surpreendentes, desde o papel, aos tecidos ou ao vidro. E nestas tudo se pode resolver através de reacções químicas, em vez de ligações eléctricas. Poderemos, assim, ter roupas que mudam de cor ou de padrão consoante a vontade do utilizador, ou que, no caso de bombeiros, soldados ou desportistas transmitam os sinais vitais para um centro de controlo. Para não falar de paredes, móveis ou quadros cujo aspecto possa mudar de um momento para o outro, ou de quadros de sala de aula que se possam apagar ou encher de desenhos instantaneamente.

Embora a YDreams tenha implantação internacional, o desenvolvimento destas novas ideias far-se-á, fundamentalmente, com parceiros portugueses, sejam outros grupos universitários de investigação sejam as empresas industriais como a Renova (papéis), a Filobranca (têxteis) ou a Bisilque (quadros escolares). “há muito boas empresas em Portugal, e algumas aqui bem perto de nós, na Margem Sul do Tejo.”

Isso só é possível, nomeadamente no decisivo campo das patentes e registos internacionais de ideias, porque desde há um ano houve entrada de duas sociedades de capital de risco na empresa, uma portuguesa e outra estrangeira. A futura cotação internacional em bolsa “é uma hipótese”, mas sempre salvaguardando a independência do núcleo central da YDreams.

Neste longo percurso houve, pelo menos, uma coisa que não mudou: o ambiente de trabalho. Nas instalações do Monte da Caparica reina a informalidade: há bicicletas, patins ou skates junto aos computadores e os horários são tudo menos formais, ao ponto de ser admissível sair para ir aproveitar as ondas da praia ou ensaiar com uma banda de rock. O que se pretende é que das cabeças das pessoas saiam boas ideias e, para isso, é preciso haver um ambiente que estimule a criatividade. “quase toda a gente é daqui, da Margem sul. Se lhes falássemos em mudar para Lisboa haveria um levantamento de rancho, pois esta liberdade e esta gestão do seu próprio tempo deixariam de ser possíveis.”

O colosso anarquista que é a YDreams assenta numa cultura de responsabilidade, ela própria apoiada nas tecnologias de informação. “A nossa rede interna permite fazer uma gestão profissional dos projectos, não deixando perder de vista o cumprimentos dos prazos e suportando um controlo constante da qualidade.”

É preciso saber perder

Embora lidere uma das mais bem sucedidas empresas portuguesas de tecnologias de informação, António Câmara, de 51 anos, casado e com dois filhos, confessa que a última coisa que alguma vez teria querido ser era empresário. “Por mim, teria continuado toda a vida professor universitário.” Gosta da relação com os estudantes e do ambiente criativo e informal que sempre prevaleceu na Faculdade de Ciências e Tecnologia do Monte da Caparica (Universidade Nova). Não obstante, o seu primeiro grupo de investigação, embrião da futura YDreams, teve de ser criado à margem das estruturas universitárias existentes. “Como era uma estrutura não oficial, não podia ser asfixiada por via burocrática e muito menos destruída.”

Das cadeiras do Instituto Superior Técnico, onde se formou com 15 valores em 1977, não guarda grandes recordações. “Aquilo foi uma espécie de óleo de fígado de bacalhau.” Únicas excepções, as aulas de investigação operacional com Valadares Tavares e as de planeamento urbano com Costa Lobo.

Já a Margem Sul, onde viveu, primeiro em Sesimbra e depois uma dúzia de anos no Meco, é vista com outros olhos. Nessa altura não se importava de fazer 100 quilómetros por dia para levar de carro o filho mais velho que, na altura, jogava basquetebol no Barreirense. “Era uma escola fantástica de companheirismo e de desporto.” Ele próprio, que chegou, na juventude, a ser jogador internacional de ténis, trouxe do desporto uma lição fundamental para vida, nomeadamente a empresarial: “É fundamental saber perder.”


in, Actual (Expresso) – 23 de Dezembro de 2006