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Laureado Prémio Pessoa 2002 - Manuel Coimbra Sobrinho Simões

Manuel Coimbra Sobrinho Simões nasceu no Porto em Setembro de 1947.

Licenciou-se em Medicina na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto em 1971 com a classificação de 19 valores. Especializou-se em Anatomia Patológica cinco anos depois com a classificação de 20 valores. Doutorou-se em Patologia na Faculdade de Medicina do Porto em 1979. Fez o pós-doutoramento em 1979/1980 no Instituto de Cancro da Noruega.

É Professor Catedrático de Anatomia Patológica na Faculdade de Medicina do Porto e Chefe de Serviço no Hospital de S. João desde 1988. Dirige o Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (IPATIMUP) desde a sua criação em 1989. É, desde 1990, Professor Adjunto de Patologia e Biologia Celular do Jefferson Medical College da Universidade Thomas Jefferson de Filadélfia.

Colaborou na criação do Programa de Doutoramento em Biologia Básica e Aplicada da Universidade do Porto e dos Mestrados em Oncobiologia, Medicina Molecular e Oncologia Molecular da Faculdade de Medicina.

Foi Professor Visitante ou Cientista Convidado em cerca de 30 Universidades ou Institutos de Cancro da Europa, E.U.A., América Latina, Ásia e África.

Orientou mais de 20 Teses de Doutoramento em Medicina ou Biologia Humana realizadas em Portugal, em vários países europeus e no Brasil.

Foi autor ou co-autor de cerca de 300 artigos publicados em revistas científicas internacionais.

Foi co-autor de 20 livros entre os quais se salientam "Ultrastructural Pathology", publicado em 1990 pela Hemisphere e traduzido, em 1995, para japonês, pela Nishimura; o Handbook "Comprehensive Tumour Terminology" publicado pela União Internacional Contra o Cancro em 2000; e o WHO Blue Book sobre "Endocrine Tumours" a publicar pela Organização Mundial de Saúde em 2003.

Realiza trabalho de consultadoria diagnóstica para dezenas de Hospitais e Institutos de Cancro da Europa, E.U.A. e Brasil.

É membro do Conselho Editorial de 12 revistas internacionais de Oncologia e Patologia.

Desempenha cargos directivos na Socieda de Europeia de Patologia desde 1985. Na qualidade de Presidente da Sociedade criou a divisão de Moscovo da Escola Europeia de Patologia em 1999, organizou o 1º Congresso Intercontinental de Patologia em 2000, e presidiu ao XVIII Congresso Europeu de Patologia que se realizou em Berlim em Setembro de 2001.

É membro dos Conselhos Científicos da Escola Europeia de Patologia, do Curso Europeu de Patologia Celular e da Associação Europeia de Prevenção de Cancro. Pertence ao Comité Redactorial da Associação de Directores de Patologia Cirúrgica dos E.U.A. e tem servido como consultor de Patologia Molecular do American Board of Pathology.

É sócio honorário da Academia de Ciências Médicas da Catalunha, Sociedade Brasileira de Cancerologia, Sociedade Espanhola de Anatomia Patológica, Círculo Médico de Córdoba e Faculdade de Medicina da Universidade de Henan.

Representa ou representou Portugal em várias organizações científicas internacionais. É membro do Conselho Editorial do Boletim da Universidade do Porto desde a sua fundação. Foi membro do Conselho Consultivo da PORTO 2001 e co-organizou o Programa "Os Outros em Eu" no Porto - Capital Europeia da Cultura.

Recebeu ao longo da sua carreira diversos prémios nacionais e internacionais. Destaca o Prémio Bordalo de 1996, atribuído ao seu Grupo de Investigação, e o Prémio Seiva - 2002. Recebeu também algumas condecorações e a Medalha de Mérito da Cruz Vermelha Portuguesa.

Entrevista ao Expresso

"Sobrinho Simões é um homem torrencial. Fala mesmo como uma torrente, as ideias e as palavras brotam-lhe com facilidade e velocidade espantosas. Tem motivos para estar feliz quando olha à sua volta: tem uma obra feita e bem implantada no terreno."

Sexta-feira, 13, foi um dia bom para Manuel Sobrinho Simões! Nessa data soube-se que o patologista e especialista em cancro da tiróide ganhara o Prémio Pessoa 2002 pelo seu trabalho na prevenção do cancro e pelas suas qualidades humanas e de cidadania, nomeadamente no seu Porto de sempre. Ele teve de saborear o êxito sozinho no longo voo que o levou de Portugal à China com escala por Frankfurt. Com dois filhos no estrangeiro e a mulher de urgência no banco da Maternidade Júlio Dinis, Sobrinho Simões repartiu alegrias apenas com João, o filho do meio, o único que não é médico na família e também o único que não apoia o FC Porto, tendo virado para o lado da águia.

Nessa mesma Sexta-feira, o computador do seu gabinete do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (Ipatimup), que dirige, começou a ficar entupido com mensagens vindas dos Estados Unidos, onde a notícia correu célere.

Manuel Sobrinho Simões, nascido no Porto em Setembro de 1947, é, por certo, um dos mais reputados cientistas portugueses, mas gosta de corrigir: "Eu sou, sim, médico", para acabar por confessar que aquilo de que gosta mesmo é de dar aulas. Não haverá muitos professores catedráticos por esse país fora que leccionem as aulas teóricas e também as práticas. Mas Sobrinho Simões faz questão (e gala) disso mesmo.
"A investigação, para mim, é um meio de poder dar melhores aulas", explica ao telefone da cidade de Zheng Zhou, para onde viajou de Pequim - de que dista umas centenas de quilómetros - na noite de Domingo para Segunda-feira. Os alunos ocupam sempre um lugar muito especial no coração de um homem que só não lhes perdoa atrasos.

"Noutro dia chegaram dez minutos atrasados a uma aula porque tinham ido a uma comemoração e quando chegaram já ele se tinha ido embora", explica Fátima Magalhães.
E que faxes mandou dou Manuel Sobrinho Simões da China enquanto lá permaneceu? Sem surpresa, a secretária tinha um pedido urgente do professor na manhã de Segunda-feira. Ele pretendia saber que adversário tinha calhado ao FC Porto no sorteio da Taça UEFA. Futebol e ciência parecem não casar muito bem, mas Sobrinho Simões é a antítese dessa imagem. Temperamental, sente as coisas com paixão. Vive a vida de forma torrencial: chega do Brasil e vai para a China, dá aulas, investiga, dirige um instituto, participa em seminários, foi membro do Conselho Consultivo da Porto 2001 e consegue ter tempo para tudo. Exuberante e discreto, mantém laços de forte amizade com as pessoas de quem gosta e é incapaz de magoar alguém. Isso não o impede, como conta a sua secretária de há muitos anos, Fátima Magalhães, de ser carinhoso e também, noutro extremo, de gritar.

Inquieto? Talvez, admite Paula Soares, do seu grupo de investigação de cancro da tiróide: "Quer saber tudo, perceber tudo. Se lhe aparece, por exemplo, um gráfico que não entende inteiramente, não descansa enquanto o não conseguir. E isso motiva-nos".
Quem trabalha com ele, admira-o . As mensagens que o Sobrinho Simões já recebeu - e que irá ter tempo de ler e apreciar durante a próxima semana - atestam isso mesmo, como esta que lhe foi deixada no computador a propósito do prémio. "Uma ´Pessoa´ sabe que quando ocupa uma certa posição tem obrigação de se comportar como um Mestre! Uma ´Pessoa´ sabe que pode ser simples no tratamento sem deixar de ser quem é!"

De lá longe, de uma cidade metida no meio da China, confessa que o prémio não vai mudar nada na sua vida. "Há qualquer coisa no ´Pessoa´ que me agrada, talvez o facto de pessoas que eu estimo já o terem recebido", diz.
Faz sempre questão de frisar que a distinção abrange também o grupo com que trabalha, insiste em repartir uma felicidade que não ostenta mas também não esconde. "Isso foi muito bom!", exclamou apenas Augusta Areias, com ele casada há 30 anos, quando o professor Sobrinho Simões lhe comunicou o facto de ter sido o vencedor do Pessoa 2002.

A frase foi curta mas não era necessário falar mais. "Eu sei como ele estava contente", diz Augusta Areias, no meio de numerosos telefonemas que recebia e atestavam a popularidade de que o marido goza no seio da comunidade científica, da comunidade intelectual, no país e no estrangeiro. E, se não o confessa abertamente, percebe-se que também ela estava contente e mesmo orgulhosa.
"Curiosamente - salienta Manuel Sobrinho Simões - os dois "Pessoas" atribuídos a gente do Porto distinguem-se as duas áreas de que a cidade mais se pode orgulhar: arquitectura (Souto de Moura) e Ciências da Saúde".

Ele reconhece a importância que esta distinção tem para a Ciência numa altura em que algumas nuvens negras (leia-se cortes orçamentais) pairam sobre a mesma.

É ele quem diz, aliás que as histórias da Ciência são as mais bonitas do mundo embora reconheça que os cientistas, em regra, as não sabem contar.
Até atingir um lugar de relevo no panorama científico internacional - está a escrever a maior parte dos capítulos da terceira edição de um livro da Organização Mundial de Saúde sobre o cancro da tiróide a ser editado em Outubro próximo - passou por momentos delicados.

Tendo começado por se especializar precisamente na tiróide - iniciou mais tarde a investigação em cancro do estômago - teve de lutar para que os resultados do seu trabalho fossem reconhecidos.
Dividido entre a Faculdade de Medicina do Porto, que nunca abandonou, o Hospital de S. João e a sua investigação,
Manuel Sobrinho Simões foi evoluindo e, a partir da segunda metade da década de 80, começou a interessar-se também pela investigação do cancro do estômago.
Hoje, olhando para trás, ele sabe que tomou a decisão certa, quando jovem, ao não optar por exercer Medicina vendo doentes. Tinha todas as condições familiares para ser um médico tradicional, de clínica e consultório: o bisavô, o avô e o pai eram médicos e a tradição da casa "mandava" que os "maneis" seguissem a carreira. Ele gostava de investigar, de descobrir, mas sabia que não tinha características para os pacientes. Não era capaz de se distanciar - "tinha pena" - e chorava se preciso fosse.

Licenciou-se em 1971, seguindo-se o internato geral. Mal o concluiu, concorreu para Anatomia Patológica, especialidade que tirou em 1976. Cumpria-se o desígnio familiar e ele prosseguia a carreira sem precisar de ter pena de ninguém.
Filho de uma média burguesia por estatuto, que não por dinheiro - o pai comprou um carro novo uma única vez, recorrendo depois ao mercado dos usados -, foi sempre muito bom aluno e, por via desse facto, ganhou prémios que lhe permitem viajar numa altura em que para os portugueses as portas da Europa e do Mundo estavam fechadas.
Um ano depois de se ter especializado em Anatomia Patológica rumava a S. Francisco. Considerava ser importante perceber como os americanos faziam os registos de cancro. Regressado a Portugal, doutorou-se e partiu no ano de 1979 para a Noruega, onde fez a pós-graduação no Cancer Research Institute de Oslo. A ligação aos noruegueses foi tão forte que, na semana em que recebeu o Prémio Pessoa, 23 anos depois de lá ter estado a primeira vez, foi por eles convidado a ir à China como consultor de um projecto de cooperação entre os dois países.

Quando lançou o Ipatimup - que é hoje considerado um instituto de excelência a nível mundial, estávamos no final da década de 80 - sabia que ele poderia ser competitivo a nível internacional em duas vertentes: tiróide, pelo facto de a costa portuguesa ser muito iodada e o excesso de iodo ser um factor de risco, e estômago, dada a prevalência deste tipo de cancro em Portugal.
Sobrinho Simões é um homem torrencial. Fala mesmo como uma torrente, as ideias e as palavras brotam-lhe com facilidade e velocidade espantosas. Tem motivos para estar feliz quando olha à sua volta: tem uma obra feita e bem implantada no terreno. Ele não deixará por certo de sorrir quando ler uma das mensagens que lhe caiu no computador, de um amigo que, citando Séneca, dizia assim: "Os homens dividem-se em dois grupos - os que seguem em frente e deixam uma obra e os que vão atrás a criticar".