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Laureado Prémio Pessoa 2001 - João Bénard da Costa

João Bénard da Costa, de seu nome completo JOÃO PEDRO BÉNARD DA COSTA, nasceu a 7 de Fevereiro de 1935, em Lisboa.

Licenciado com distinção em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa em 1959, com uma tese intitulada Do Tema do "Outro" no Personalismo de Emmanuel Mounier. Convidado pelo Prof. Delfim Santos para seu Assistente naquela faculdade, foi-lhe impedida a carreira universitária por informação desfavorável da PIDE.

Ingressou no ensino liceal, tendo sido Professor de História e Filosofia no Seminário Menor de Almada, no Externato Frei Luís de Sousa da mesma cidade, no Liceu Camões e no Colégio Moderno, entre 1959 e 1965.

Foi Presidente-Geral da Juventude Universitária Católica (1957/1958) e dirigente cineclubista (1957/1960). Bolseiro da Fundação Gulbenkian entre 1960 e 1963.

Em 1963 foi um dos fundadores da Revista O Tempo e o Modo, de que foi Chefe de Redacção e, depois, Director, entre 1963 e 1970. De 1964 e 1966, foi investigador no Centro de Investigação Pedagógica da Fundação Calouste Gulbenkian e de 1966 a 1974 foi Secretário Executivo da Comissão Portuguesa da Associação Internacional para a Liberdade da Cultura.

Em 1969 assumiu funções como Responsável pelo Sector de Cinema do Serviço de Belas-Artes da Fundação Calouste Gulbenkian, ao tempo da criação deste Sector. Exerceu essas funções até 1991.

De 1973 a 1980, voltou ao ensino como Professor de História do Cinema da Escola Superior de Cinema do Conservatório Nacional.

Em 1980, foi nomeado Subdirector da Cinemateca Portuguesa, de que actualmente e desde 1991, é Director.

Para além de colaboração dispersa por vários jornais e revistas, publicou várias obras de filosofia, pedagogia e história do cinema. Entre estes últimos avultam as suas monografias sobre Alfred Hitchcock (1982), Luis Buñuel (1982), Fritz Lang (1983), John Ford (1983), Josef Von Sternberg (1984), Nicholas Ray (1984), ou Howard Hawks (1988). São também de referir os volumes O Musical (1987), Os Filmes da Minha Vida (1990), Histórias do Cinema Português (1991), Muito Lá de Casa (1993) e O Cinema Português Nunca Existiu (1996). O livro Histórias do Cinema Português foi também editado em versões francesa e inglesa (1991) e alemã (1997). Entre 1990 e 1995, foi Presidente da Comissão de Programação da Federação Internacional de Arquivos de Filmes (FIAF). Em 2000 foi responsável pelo capítulo Cinema Português da enciclopédia Einaudi, incluído na História do Cinema Mundial, coordenada por Gian-Piero Brunetta e colaborou ainda com ensaios sobre o cinema português em obras colectivas sobre a arte do século XX, editadas pelo Centro Nacional de Cultura (1998) ou pelo AR.CO (1999).

Em 1997, foi nomeado pelo Presidente da República, Presidente da Comissão do Dia de Portugal de Camões e das Comunidades Portuguesas, cargo que continua a ocupar até ao presente.

Possui as comendas de Officier des Arts et des Lettres de França e a Ordem do Infante D. Henrique, com que foi agraciado pelo Presidente Mário Soares em 1990. Em 1995, a Universidade de Coimbra concedeu-lhe o Prémio de Estudos Filmicos, por ocasião da primeira atribuição deste prémio.

Entrevista ao Expresso

"Enquanto contava a história da Arrábida a Catherine Deneuve, num filme de Oliveira, sentiu que estava a viver um sonho"

"Sou um privilegiado". A felicidade está estampada num imenso sorriso, transborda para as mãos, por aquela voz rouca que ao princípio assusta mas acaba por acolher. "Sou um privilegiado". E isto, na sua boca, é o mesmo que dizer que se sente vivo como num filme, como em todos os filmes que viveu ou que há-de viver. João Bénard da Costa é, definitivamente, um homem privilegiado. Porque ama o que faz, escreve com paixão, partilha, com cada imagem da película de um filme, numa cumplicidade rara e intensa.

A sua história é também a do cinema, numa mistura ao mesmo tempo estranha e tão natural. Para cada minuto da sua vida parece haver um actor a dizer uma frase de um guião, um enquadramento, um toque da luz de um estúdio. Já o escreveu, e por isso é que sabemos como essa mistura é forte e particular. E já escreveu tanto sobre cinema que acabou a dizer sempre imenso sobre si próprio. Ele não é só um cinéfilo. É, como gosta de se chamar, um "cinefilho", "alguém que vem do cinema, que é filho do cinema, que vive de uma paixão pelo cinema".

Mas Bénard é mais que isso. "Quando digo que a minha vida é como um filme, que a vivo mesmo como se estivesse num filme, é porque tenho experimentado coisas que nunca imaginei viver. No cinema não há limites. Na vida, só é impossível aquilo que nós não queremos que aconteça. É isso que eu tenho aprendido - com o cinema e com a minha vida".

Desde criança que vai passar férias à Arrábida. Conhece a serra como a palma das suas mãos. Um dia, Manoel de Oliveira, quando preparava o filme "O Convento", pediu-lhe ajuda para fazer um levantamento dos lugares e das histórias da Arrábida. E depois acabou a convidá-lo para participar no filme. "Numa das cenas, eu devia contar à Catherine Deneuve a história do Convento Velho, que eu contei tantas vezes a tanta gente ao longo da minha vida. Lembro-me perfeitamente de ter pensado, naquele momento, que sentia estar a viver um sonho. Um ano antes, naquele mesmo sítio onde vou tantas vezes, até poderia ter imaginado esta cena, rido com ela e pensado que ela era um sonho. Mas não. Estava ali, com a Catherine Deneuve, a contar uma história da Arrábida", lembra. "A verdade é que tenho vivido coisas que nunca pensei viver, que parecem fazer parte da dimensão do sonho, da dimensão do cinema. Percebe o que eu quero dizer? E nesse sentido, sou um homem privilegiado".
São raras, com certeza, as pessoas assim, que experimentam estes sonhos e que conseguem tirar deles um pedacinho de vida. A riqueza de Bénard está aqui, está, afinal, em ter conseguido fazer de uma paixão a sua vida, em saber continuar a crescer com ela.

No dia em que recebeu a notícia do Prémio Pessoa, estava em Paris, participando numa homenagem a um dos seus "eleitos": precisamente, Manoel de Oliveira. "Estava numa sala enorme, lindíssima. Disseram-me que eu ganhara o prémio, eu olhei à volta e senti-me também como se estivesse num filme, envolvido por aquele ambiente especial, por aquele momento tão importante. Fiquei muito emocionado, muito surpreendido". E, claro, até é capaz de ter-se lembrado imediatamente da imagem de um dos filmes da sua vida, da expressão de um dos actores "lá de casa", de um momento do olhar de um dos seus realizadores preferidos. Partilhar a vida com o cinema é o seu privilégio.

Parece que tudo começou com "Pinóquio", que viu ainda muito criança. Lembra-se que chorou convulsivamente, que pediu para sair da sala, que insistiu para voltar a entrar, sucessivamente durante as três horas que terá durado a sessão. Lembra-se dessa vertigem, de toda a emoção, dessa coisa entre a atracção e a repulsa, entre o sofrimento do pecado e do castigo e a alegria da recompensa. Pinóquio sofria horrores no filme. E o pequeno João dessa época sentiu-os também na pele, enquanto assistia ao caminho do boneco de madeira. O que lhe aconteceu a si, que cresceu com o cinema, aconteceu a uma geração inteira. As salas de Lisboa eram o lugar dos encontros, das emoções, da vida social, da identificação com valores, heróis, amigos. Bénard cresceu com o cinema como todos os meninos da sua idade. Aos 8, 9 anos já ia sozinho ver filmes de piratas e aventuras, sempre sob supervisão do pai, engenheiro civil, e da mãe, dedicada à família. E, já adolescente, juntava-se ao seu grupo, e ia às "matinées" de sábado no S. Jorge, tantas vezes para ver o filme, quantas para namorar.

Nessa altura, recorda que racionava na qualidade da cadeira para poder ir mais que uma vez ao cinema por semana. Um bilhete de segundo balcão sempre era metade do preço que o de um primeiro - de quatro para oito escudos a diferença era substancial. Estavam a terminar os anos 40 e os jornais relatavam com pormenor as presenças nas estreias da melhor sociedade lisboeta. "O acontecimento era de tal modo importante que ninguém queria ficar de fora. Nos dias seguintes, aparecia sempre uma série de cartas nos jornais, de leitores a queixar-se que também tinham lá estado e não tinham sido referidos na notícia", lembra. Desses tempos, também recorda as músicas dos filmes populares cantados pelos ceguinhos das ruas de Lisboa. E o facto de, mesmo sendo um enorme sucesso, cada filme não estar em exibição mais de três, quatro semanas. O que significava, então, que não podia perder-se nenhum, sob pena de o perder para a vida. Chegam os anos 50 e, na universidade, misturam-se a paixão pelo cinema, a educação católica e o contacto com a política. Bénard liga-se, primeiro ao Cineclube Universitário, mas depois muda-se para o Centro Cultural de Cinema, o
célebre CCC, católico, com gente progressista, onde alicerça a sua paixão na escrita (regular) sobre filmes, na discussão e pesquisa sobre o cinema como arte.

É desta altura, aliás, que guarda um grupo especial de amigos, como Pedro Tamen, Nuno Bragança, José Escada, Nuno Portas, Manuel Lourenço, Manuel Lucena - "uma geração de pessoas muito cinéfila, que escreveu muito sobre cinema", precisa, e com quem se identificava pelos valores da cultura mas também pelos da política.
Na mesma época, enquanto frequentava o curso de Histórico-Filosóficas, torna-se presidente da Juventude Universitária Católica (JUC), onde enfrenta as primeiras polémicas políticas, à custa de incompreensões da hierarquia da Igreja, tradicionalista, cúmplice do Regime, calada perante o sofrimento do povo português. São, aliás, as eleições onde participa Humberto Delgado, em 1958 - por causa de ordens superiores para não tomar posição, mas que acabam por não ser respeitadas por quem as deu -, que provocam a sua ruptura com a Igreja. Mas não com Deus nem com a sua fé.

Já disse muitas vezes que tem "saudades" da Igreja. E com Deus, de Quem não se consegue "falar nada que faça sentido, Bénard vai-se cruzando às vezes nas telas do cinema. "Assisti a um milagre num filme de Dreyer, de uma mulher que morre e ressuscita. Vivi-o com muita intensidade, no momento em que vi o filme. Mais tarde - lembra, com alguma emoção - experimentei a mesma sensação, quando alguém muito próximo esteve a morrer e acabou por salvar-se". Entra, então, em ruptura com a Igreja, afastando-se da JUC. E, na passagem para os anos 60, muda-se também, com o mesmo grupo de amigos, para um novo projecto, a revista "O Tempo e o Modo", dirigida então por Alçada Baptista.

Um dos primeiros números em que participa discute a "verdade prática" da arte. Vivia-se a época do empenhamento, que transformava tudo em instrumento de mudança.

"Eu sempre recusei essa visão da arte, essa ideia de que o cinema, por exemplo, é um instrumento da batalha das ideias, do despertar para as injustiças do mundo". E isso envolveu-o - como aos seus amigos - em polémicas delicadas no seio da "O Tempo e o Modo". A arte "não serve, é!", defende, como o fez então. Lembra-se de se ter batido acaloradamente por autores considerados conservadores, como Hitchcock ou Samuel Füller, e ter negado classificar como arte filmes que todos, na altura, elegiam à categoria máxima. "Havia um filme espanhol, muito mau, que era uma parábola política da época. Contava a história de um casal burguês e da sua crescente consciencializa-ção política e, por isso, foi muito bem recebido. Já 'A Cortina Rasgada', do Hitchcock, que era passado na Alemanha de Leste, não escondia a antipatia anticomunista do realizador. Foi considerado abominável pela esquerda e eu defendi-o como um filme genial", recorda.

Quando a cultura, a política e a arte estavam mais envolvidas que nunca, João Bénard da Costa assume a direcção da revista. Mas o final dos anos 60 foi internamente demasiado agitado nas frentes estudantis e políticas da oposição. Da agitação saiu vencedor quem melhor estava organizado. Por isso, em 1970, Bénard corta com a CDE, depois de descobrir que era "uma organização comunista encapotada". E, logo a seguir, afasta-se de "O Tempo e o Modo", à conta da tomada do poder dos maoísta na revista.

A década de 70 volta a ser superiormente marcada na sua vida pelo cinema. Está na Fundação Calouste Gulbenkian, no departamento de cinema, e lança-se na organização de ciclos de cinema que ainda hoje cinéfilos, críticos, simples espectadores recordam com intensidade. Tantas vezes contra a própria censura, trouxe a Lisboa obras até aí negadas aos espectadores, sempre com a mesma preocupação: partilhar uma paixão, ensinando e ao mesmo tempo dando a descobrir. Rossellini, o cinema americano dos anos 30 e 40 estão associados a alguns dos momentos inesquecíveis vividos tantas vezes nas salas sempre esgotadas do Grande Auditório da Fundação.

É aqui que, para lá do circuito quase fechado dos leitores de revistas de elite ou dos frequentadores de cineclubes e da Cinemateca , inaugura uma nova forma de falar de cinema. Em cada sessão, os espectadores tinham à sua espera um "policopiado" sobre o filme, o autor, os actores, o tema, o estilo. A novidade tornou-se um vício. E por conta destes "policopiados" nasce uma nova geração de cinéfilos, críticos, amantes do cinema, espectadores informados e preparados.

Quando, nos anos 80, se muda para a Cinemateca, naturalmente segue-o esta maneira de divulgar o cinema. Nunca deixou de dar aos espectadores aquilo que os pode ajudar a ver um filme - e é precisamente isto que torna única no Mundo a Cinemateca Portuguesa. Desde meados dos anos 70, de qualquer modo, o cinema é definitivamente central na sua vida.

A política deixara-a para trás com a revolução de Abril de 1974: " Sempre disse que, assim que vivêssemos em democracia, abandonaria a actividade política". Escreve obras magistrais sobre autores, actores e filmes. E representa, como actor, papéis em que se sente outra pessoa - e só em filmes de realizadores muito especiais. "Descobri noutro dia que já tinha entrado em 23 filmes", afirma, com uma gargalhada.

É claro que não se considera um actor - e, por isso, tem um pseudónimo para desempenhar essa função -, nem um crítico - apesar de escrever tanto sobre o que lhe dizem os filmes -, nem tão pouco um historiador de cinema - ainda que todos lhe reconheçam a qualidade superior de algumas das suas obras sobre essa matéria. João Bénard da Costa só ama o cinema. Talvez por isso tenha criado tanto sobre ele, mesmo sem ter realizado filmes ou escrito guiões.

Hoje, como quando entrou na sala do Tivoli para ver "Pinóquio", não consegue deixar de experimentar as mesmas emoções fortes perante um filme esmagador. "Sou mais selectivo, é verdade. E evito ir a salas onde haja pipocas e telemóveis. Mas nunca vejo um obra original sem ser numa sala de cinema, às escuras". A não ser que seja alguma daquelas coisas de que se fala muito mas em relação à qual não espera grande coisa. "Aí, vejo em casa, no vídeo ou no DVD".
É verdade. João Bénard da Costa também se rendeu às novas tecnologias. Mas só por causa da sua utilidade no estudo e no acesso a algumas obras. "Evidentemente, há filmes de alguns autores cuja reprodução para estes meios afecta substancialmente valores fundamentais da obra" justifica.

Bénard da Costa carrega o peso de um consenso quase absoluto no meio cinéfilo, como se tivesse tornado num daqueles que ele ama através da tela de um filme. O crítico, o actor, o historiador que prefere ser "cinefilho" sorri: "Mas não se pense que estou instalado na vida ou num qualquer cargo. Tenho consciência de que fiz já muitas coisas. Mas tenho ainda muitas mais para fazer". A próxima será ir ver "Fantasmas de Marte", de John Carpenter. Mais um filme para a sua vida.

* Publicado na edição do Expresso de 22/12/01