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Prémio Pessoa

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Laureado Prémio Pessoa 2000 - Emmanuel Nunes

Nasceu a 12 de Agosto de 1941, em Lisboa.

Estudo de Harmonia, Contraponto e Fuga com Francine Benoit, na Academia de Amadores de Música de Lisboa (1959-1963)

Estudo de Composição com Fernando Lopes-Graça (1962-1964)

Frequência na Faculdade de Letras de Lisboa (1961-1963)

1964: fixa-se em Paris.

1963-1965: participa nos Cursos de Verão de Darmstadt (com Pierre Boulez e Henri Pousseur).

1965-67: frequenta o curso da Rheinische Musikschule de Colónia: estudos de Composição com Henri Pousseur e Karlheinz Stockhausen, de Música Electrónica com Jaap Spek e de Fonética com Georg Heike.

1970-74: bolseiro do Ministério da Educação Nacional de Portugal.
Começa, na Sorbonne, a sua tese sobre Anton Webern, ainda por finalizar.

1971: primeiro Prémio de Estética Musical no Conservatório Nacional Superior de Música de Paris (classe de Marcel Beaufils).

1976-77: bolsa da Fundação Gulbenkian; dirige cursos na Universidade de Pau.

1978-79: compositor residente em Berlim, a convite do DAAD.

1980: Journée Emmanuel Nunes em Paris, na Rádio-France. Bolsa para Criação do Ministério da Cultura de França.

Desde 1981, orienta seminários de Composição na Fundação Gulbenkian de Lisboa.

1982: conferência sobre a sua obra musical na Universidade de Harvard.

1985: Seminários no Atelier de Investigação Instrumental do IRCAM - Institut de Recherche et Coordination Acoustique/Musique.

1986: atelier nos Cursos de Verão de Darmstadt, em continuação do seminário do IRCAM. Condecorado Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras do Governo Francês.

1986 a 1992: Musikhochschule de Friburgo (Institut für Neue Musik), e convites regulares ao Conservatório Nacional Superior de Música de Paris

Desde 1992, colabora regularmente com o IRCAM

1991: condecorado Comendador da Ordem de Santiago de Espada pelo Presidente da República portuguesa.

1992: convidado principal no Festival de Outono em Paris.

Desde 1992, professor de Composição no Conservatório Nacional Superior de Música de Paris.

1995: curso na Academia de Verão do IRCAM

1995 e 1996: concertos do Festival de Edimburgo

1996: série de concertos na Cidade da Música (EIC, IRCAM, Festival de Outono). Doutorado honoris causa pela Universidade de Paris VIII

1998: convidado principal no Festival Ars Musica de Bruxelas.

1999: Prémio Conselho Internacional da Música - UNESCO

2000: Criação integral de Lichtung II (IC, IRCAM). Convidado principal nos Tage für Neue Musik de Zurich.

Entrevista ao Expresso

"Há estudantes que têm uma óptima relação comigo e há outros que me acham antipático, duro. Ambos têm razão."

Vai longa a tarde em Serralves. Respira-se cansaço. Ao começar o ensaio, após um curto intervalo, o maestro Peter Rundel pede silêncio. Explica ao Ictus Ensemble a presença constante e agitada de fotógrafos e câmaras de televisão na sala: Emmanuel Nunes acabara de ser distinguido com o Prémio Pessoa, "algo de muito importante em Portugal". Os músicos, todos estrangeiros, aplaudem. Os braços, enormes, do compositor rasgam a penumbra do auditório. O olhar tem a intensidade do fogo, mas esbate-se na doçura do rosto de Heléne Borel, sua discreta companheira, de nacionalidade francesa. Com voz grave, murmura um som ininteligível. É o seu jeito de abraçar a emoção.
Cai a noite Emmanuel Nunes está por fim livre. Para trás ficam as horas de um dia intenso de ensaios, com os ouvidos em permanente estado de alerta. Acompanha as indicações do director. Segue a interpretação de cada músico. Raras vezes interrompe. Raras vezes dá uma sugestão. Limita-se a escutar. Percebem-se-lhes ocasionais momentos de aprovação. Uma partitura é um poço de emoções. Um compasso desencadeia-lhe um sorriso breve. Outros despertam-lhe o irresistível desejo de desenhar no ar a cadência das notas. Deixa-se envolver pela aparente imprevisibilidade dos sons construídos no palco. Atinge um estado de concentração plena. Não desvia o olhar. Mantém-se hirto. Sentada ao lado, sempre silenciosa, Heléne guarda-lhe os comentários do momentâneo desassossego. Ou então abstrai-se na leitura de "Le Conteur de Cinéma", de Gert Hofmann.

O auditório ficou entretanto vazio de gente. A conversa pode começar numa sala ao lado. As regras são claras, determinadas, impositivas. O que pode ser perguntado e o que vai ser dito não deve entrar na esfera do privado. É uma condicionante em dado momento esquecida pelo jornalista, quando pretende saber como conheceu Heléne. Ela esboça um sorriso perturbado. Ele faz do olhar um vulcão prestes a explodir.

Percebe-se que a conversa pode estar na iminência de acabar ali. Uma providencial nova pergunta ultrapassa a tensão. Em tudo o mais o diálogo segue com fluência. Mesmo se Emmanuel, um compositor de quem se diz não facilitar a vida ao ouvinte, também não é, ele próprio, uma pessoa fácil. Depende dos ocasionais humores. O que o leva a ser desconcertante em algumas respostas.

Se, por razões diversas, fosse confrontado com a necessidade de ir durante algum tempo para um local onde ficaria isolado e sem comunicação com ninguém, quais seriam os compositores ou escritores que gostaria de ter consigo nesse momento?
Pausa longa.
- Não ia. Porque ia para lá fazer o mesmo que faria em casa. Então, não valia a pena ir.
- Como é que chegou ao processo de composição?
- Caminhando.

Há alunos que o acusam de ter mau feitio. Emmanuel não fica perturbado com a constatação da evidência. Não se rende. Aceita com naturalidade os diferentes modos como o olham. "Há estudantes que têm uma óptima relação comigo e há outros que me acham antipático, duro. Ambos têm razão. Há pessoas que me consideram extremamente simples, outras chamam-me arrogante, crítico, caústico. É tudo verdade, porque eu para umas coisas sou extremamente simples, para outras sou extremamente complexo e para outras ainda sou extremamente complicado."

Os mais dados a associações esotéricas poderiam relacionar o modo de ser do compositor com os tempos conturbados vividos por uma Europa em guerra à data do seu nascimento. Quando, a 31 de Agosto de 1941, Rosa Ricolca Nunes dá à luz em Lisboa uma criança a quem decide chamar Emma-nuel, só uns meses mais tarde se apercebe de uma deficiência física no bebé, eventualmente provoca-da por negligência médica durante o parto. Foi tirado a ferros, e isso ter-lhe-á afectado o sistema nervoso central. A doença, conhecida por atetose, é um problema com o qual Emmanuel passou a conviver, e ainda hoje lhe afecta alguma coordenação de movimentos e a articulação das palavras. É patente que convive bem com o problema, apesar da consciência de que foi e é ainda prejudicado. "Ainda hoje, se não brinco, não posso viver."

Às vezes perpassa a dor da solidão de quem se sente tratado de forma diferente. Entre 1965 e 67, Emmanuel frequentou estudos de composição com Karlheinz Stockhausen. Porém, não houve qualquer relação com aquele que é ainda hoje visto como um dos principais nomes da música contemporânea e de vanguarda. "Durante dois anos ouvi o que ele dizia, mas não houve comunicação. Por uma questão ideológica, ele pensou que fisicamente não se devia aproximar de mim. Fisicamente eu não correspondia ao seu ideal." Foi uma situação estranha, marcada pelo preconceito. Apesar do sucedido, assume ter aprendido muito com Stockhausen e garante ouvir sem rancor a sua música. "Anda hoje, se escutar uma obra dele que seja boa, tiro disso o máximo prazer."
Guarda imagens diferentes de outros compositores, em particular de Berio, com quem desenvolveu uma interessante e regular relação humana entre 1965 e 1971. Visto na actualidade como uma das referências absolutas da música contemporânea, alvo de admiração e homenagens várias na cena musical internacional, Emmanuel tem um trajecto que só poderia surpreender, se ainda por cá andasse, o jovem pescador italiano que um dia chegou de barco a Aveiro para se estabelecer em Ílhavo, onde conheceu aquela que viria a ser a bisavó materna do compositor. Ou então o avô paterno, moleiro, e o avô materno, padeiro. Ambos exerceram profissões complementares em Lisboa sem jamais se terem conhecido. Surpresa também para o pai, o dentista Manuel Francisco Nunes, que um dia teve de ser convencido por Rosa a deixar entrar um piano numa casa onde nunca houvera a mais remota tradição musical.

Emmanuel teria uns 11 anos e considerava-se virgem em termos musicais. Era incapaz de estabelecer a diferença entre música clássica e não clássica. Depois os critérios tornaram-se mais apertados. Nunca gostou muito de música rock, mas via os Beatles como um divertimento.

"Faço uma distinção muito rigorosa com a música clássica. Desse ponto de vista, sou muito reaccionário. Os Beatles são autores de música ligeira de grande qualidade. Há muito bom jazz, mas não é Debussy, Ravel ou Bártok".

Num percurso feito de muitas músicas, iniciado quando, ainda criança passava horas na cozinha a imaginar uma bateria materializada nos tachos e panelas amolgadas com uma colher de pau, Emmanuel teve um tempo durante o qual ouviu muito jazz clássico. Parou no BeBop. Interessou-se muito por Thelenious Monk, Bud Powell, Charles Mingus, Art Tatum, o jazz de Nova Orleães. Num outro momento, os gostos viraram-se para músicas étnicas, da Índia, árabes, japonesas. E tudo isso está presente no que hoje faz. "Desde que ouça, está cá".

Radicado em Paris há 36 anos, adora a cidade, mas não se sente um parisiense. Acompanha com curiosidade a vida cultural de Portugal, "que continua a ser o único país da Europa Ocidental sem um grupo de música contemporânea - a recente constituição do Remix Ensemble Casa da Música não conta, diz, por ser quase só constituído por estrangeiros -, não tem um único grupo com uma actividade internacional, não tem orquestras completas formadas por escolas de instrumentistas do país, não tem uma actividade de música de câmara equivalente a qualquer outro país europeu, contudo, o português não é mais estúpido que o espanhol ou o belga." Logo, é tudo uma questão de opções políticas. "Enquanto não houver uma vontade política sem qualquer pretexto de política-política, o problema manter-se-á, porque um instrumentista demora 15 anos a formar-se e cada ano que passa sem que eles se formem aumenta o fosso."
A irreverência é a mesma de sempre neste homem que dividiu a adolescência entre os primeiros contactos com o piano e a exploração de um amor antigo pelo pingue-pongue, jogado a um nível elevado. Em simultâneo, atirava-se ao bilhar, mas já deambulava pelos manuais de harmonia e solfejo. É um período que se situa entre os 11 e os 18 anos, altura em que ganha coragem para, por fim, contactar com Fernando Lopes-Graça. Manifesta o desejo de aprender música e é rigoroso na explicação do que deseja: música contemporânea, ou seja, Bela Bártok ou Stravinsky. Nada de mais para quem, perguntado pelo mestre acerca do que já sabia, responde: "Nada".

A ousadia sempre lhe foi uma companheira fiel. Como quando, no início dos anos 60, frequenta a faculdade de Letras de Lisboa, onde desenvolve actividade política até 1963. Secretário-geral das secções sociais na mesma altura em que Jorge Sampaio era secretário-geral das associações de estudantes, fica marcado pela greve estudantil de 62 e por uma viagem a Moscovo em Agosto desse mesmo ano. Militante do PCP entre 59 e 62, acaba por se demitir do partido por duas razões. Primeiro, por "não estar de acordo com a linha do PCP". Segundo, porque "filosoficamente, não se sentia mais identificado com o pensamento marxista. Saí por convicção e sem desejo de entrar para outro partido. Não saí para entrar no PS."

Aquela é, para Emmanuel Nunes, uma época de rupturas. Em Outubro de 63 parte definitivamente e fica sete anos consecutivos sem voltar a Portugal. "Precisava de aprender aqui. Era muito difícil constituir uma cultura pessoal como a entendia, fazendo face diariamente à vida cultural e pedagógica que aqui existia. Sabia exactamente o que queria aprender: a música que correspondia à época em que eu vivia. Ainda hoje é esse o sentimento que mais me anima."
Os pais aguentam-lhe os desafios. Pagam-lhe as estadias em terras distantes. Um ano em Paris, dois em Colónia, a seguir de novo Paris. Depois disso volta a viver na Alemanha, entre 1979 e 1995. Ensina no Conservatório de Música de Paris há oito anos e trabalha regularmente no Ircam, do Centro Georges Pompidou.

Agora tem uma vida mais tranquila. Reside a norte da capital francesa. É lá que mergulha no trabalho de composição. Basta-lhe papel, lápis e uma boa borracha. A gestação é demorada. A escrita é longa. Não quer revelar eventuais manias ou tiques associados ao acto de compor. No entanto sempre diz aos seus alunos que, "se não há manias, não pode haver consciência da personalidade que está a trabalhar. Há toda uma série de coisas que não podem ser sistematicamente conscientes".

Para trabalhar, não tem horas. Heléne já confidenciara durante a manhã que, caso esteja entusiasmado, pode ficar oito a dez horas à volta de uma partitura. Sem preocupações com o sono, a fome, a sede ou o mais que possa interferir com o processo criativo. Se pára, e quando pára, pode apetecer-lhe fazer o jantar.

Embora por princípio goste de ouvir música numa atitude contemplativa, admite a existência de algumas actividades susceptíveis de ser executadas enquanto ouve com consciência. É o caso de cozinhar. Liga o rádio numa estação de música clássica e aproveita para se informar da actividade musical. Se quer ouvir uma obra em concreto, então serve-se do CD. Não tem muitos discos. De resto, quase não compra discos, apesar de essa ser a alternativa que lhe permite escapar aos alçapões cegos da rádio. Porque aí não tem hipótese de escolha. E isso é decisivo para alguém que sempre se considerou um auditor de música.

Durante anos a fio ouviu música todos os dias. Polifónica. Dos sécs. XV e XVI. Barroca italiana. Bach, Beethoven, Schubert, Brahams, Wagner. Detesta as dicotomias, tantas vezes frequentes nos meios musicais. É incapaz de optar por Brahms ou Wagner. Cada um tem o seu espaço, mesmo se, em particular no séc. XX, há músicos que não lhe interessam. Como Milhaud ou Shostahovich, por exemplo. Ao contrário, Prokofiev, Stravinsky, a Escola de Viena aguçam-lhe a curiosidade e o desejo de escutar.

Passados os dias de agitação noticiosa provocada pela divulgação da conquista do Prémio Pessoa, Emmanuel está de novo na pacatez do seu refúgio. Sai pouco de casa. Apenas para ir dar aulas no conservatório ou para alimentar o renovado desejo de frequentar concertos. Uma das últimas experiências tornou-se inesquecível. Assistiu à versão integral de uma ópera tradicional chinesa. Foram três dias com 37 horas de espectáculo. No final, estava deliciado. Porventura inquieto pela proposta musical e estética com que se confrontara. Mas alegre e, sobretudo, feliz por ter decidido ouvir tudo. Porque ouvir é uma das suas formas de brincar. E se não brinca, não consegue viver.


* Publicado na edição do Expresso de 23/12/00