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Perfil

Prémio Pessoa

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Laureado Prémio Pessoa 1999 - Manuel Alegre

Nasceu a 12 de Maio de 1936, em Águeda, onde fez a instrução primária. Durante os estudos secundários, no liceu Alexandre Herculano, no Porto, fundou, com José Augusto Seabra, o jornal "Prelúdio".

Enquanto estudante universitário, em Coimbra, foi membro da Comissão da Academia que apoiou a candidatura do general Humberto Delgado, fundador do CITAC - Centro de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra, membro do TEUC - Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra, atleta internacional da AAC na modalidade de natação, director do jornal Académico "A Briosa", membro da redacção da revista "Vértice", colaborador de "Via Latina" e um dos mais destacados dirigentes do movimento estudantil.

Eleito em Outubro de 1964 membro dirigente da F.P.L.N. - Frente Patriótica de Libertação Nacional, presidida pelo General Humberto Delgado. Passa 10 anos no exílio em Argel. Regressa a Portugal a 2 de Maio de 1974.

Secretário de Estado da Comunicação Social e Porta Voz do 1º Governo Constitucional, Secretário de Estado Adjunto do Primeiro Ministro para os Assuntos Políticos.

Várias vezes Presidente e Vice-Presidente da Comissão Parlamentar dos Negócios Estrangeiros e da Delegação Parlamentar Portuguesa ao Conselho da Europa. Foi Vice-Presidente da Assembleia Parlamentar e do Grupo Socialista do Conselho da Europa.

Várias vezes Vice-Presidente do Grupo Parlamentar do Partido Socialista.
Membro da Comissão Nacional e do Secretariado Nacional do Partido Socialista.

Actualmente é Vice-Presidente da Assembleia da República; Membro do Conselho de Estado; Membro do Concelho das Ordens Nacionais; Membro do Conselho Social da Universidade de Coimbra.

Possui, entre outras condecorações, a Grã Cruz da Ordem da Liberdade, a Comenda da Ordem de Isabel a Católica e a Medalha de Mérito do Conselho da Europa. Foi o primeiro português a receber o diploma de "Membro Honorário do Conselho da Europa".

A sua obra literária tem sido objecto de estudos e teses de doutoramento e mestrado em várias Universidades estrangeiras e nacionais, nomeadamente Universidade Livre de Bruxelas, Instituto Orientale de Nápoles, Faculdade de Letras de Bolonha, Universidade Foscari de Veneza, Universidade Charles de Gaulle de Lille, - Faculdade de Letras de Coimbra, Universidade Nova de Lisboa e Faculdade de Letras da Universidade Católica de Viseu.

É considerado o poeta português mais musicado.

PRÉMIOS LITERÁRIOS:

1998 - Prémio de Literatura Infantil António Botto
1998 - Prémio da Crítica Literária
1998 - Grande Prémio de Poesia APE/CTT
1999 - Prémio Pessoa
1999 - Prémio Fernando Namora


OBRAS PUBLICADAS:

. PRAÇA DA CANÇÃO - 1965
. O CANTO E AS ARMAS - 1967
. LUSIADE EXILÉ - 1970
. UM BARCO PARA ÍTACA - 1971
. LETRAS - 1974
. COISAS AMAR, COISAS DO MAR - 1976
. NOVA DO ACHAMENTO - 1979
. ATLÂNTICO - 1981
. BABILÓNIA - 1983
. CHEGAR AQUI - 1984
. AICHA CONTICHA - 1984
. JORNADA DE ÁFRICA - 1989
. O HOMEM DO PAÍS AZUL - 1989
. OBRA POÉTICA

1ª Edição (1989)
Vol. 1 - O Canto e as Armas
Vol. 2 - Atlântico
2ª Ed. - Trinta Anos de Poesia (1995)
3ª Ed. - 1997
4ª Ed. - 1999

. RUA DE BAIXO - 1990
. COM QUE PENA/VINTE POEMAS PARA CAMÕES - 1992
. SONETOS DO OBSCURO QUÊ - 1993
. COIMBRA NUNCA VISTA - 1995
. ALMA (Romance) - Novembro 1995
. TÀRA DE APRIL/PAÍS DE ABRIL - 1996
. PORTUGAL À PARIS (França) - 1996
. AS NAUS DE VERDE PINHO - 1996
. ALENTEJO E NINGUÉM - Setembro 1996
. CONTRA A CORRENTE - Maio 1997
. CHE - Setembro 1997
. SENHORA DAS TEMPESTADES - Março 1998
. PICO - Junho 1998

. Rouxinol do Mundo (tradução para português de dezoito poemas franceses e um provençal) - 1998
. Gedicht und Prosa
Bilingue, Alemão - Português - 1998
. Canto Atlântico
Bilingue, Italiano - Português (Liv. bolso)
. A Terceira Rosa - Novembro 1998

Entrevista ao Expresso

"Quado escrevi a "Trova do Amor Lusíada" estava a pensar na Amália, e ela acabou por cantá-la".

"Ninguém volta completamente de um grande exílio, há a sensação de que se voltou a casa e se é estrangeiro"

Manuel Alegre foi, na juventude, um campeão de natação. Se tivermos em conta a sua capacidade de atravessar os momentos difíceis que afirmaram o seu itinerário político e poético, sem dúvida que foi uma figura que conseguiu defender-se de tormentas convulsivas, demonstrando um vigor assinalável. Num ano que começou com uma actividade política assombrada por questões que motivaram um amplo debate nos "media", na população e nas hostes políticas - a polémica em redor das co-incineradoras de Maceira e Souselas tornou-se um emblema da atitude crítica deste histórico deputado socialista, actual vice-presidente da Assembleia da República, e agora o mais recente galardoado com o Prémio Pessoa.

Mas não foi só empenhamento político a determinar o seu trajecto em 1999. De facto, foi um ano grande para o poeta cujo percurso literário completou 35 anos. Em Maio recebeu dois prémios: o Grande Prémio da Crítica APE/ CTT, pelo conjunto da obra, e o Prémio da Crítica de 98, atribuído anualmente pelo Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários pelo seu livro "Senhora das Tempestades".

Isto tudo distingue uma actuação prolífica em frentes que consolidaram o trabalho político e poético de Manuel Alegre como uma figura que participou das transformações que se passaram em Portugal a partir dos anos 60, década em que lançou o seu primeiro livro, "Praça da Canção".
Tendo estudado no Porto, em Coimbra e Lisboa, as memórias ficaram por conta do jovem marcado pela descoberta das imagens da infância em Águeda, onde fez a escola primária, e onde contactou pela primeira vez com a alma das coisas. "Ainda sou do tempo em que se ouvia histórias e dizia-se poesia. Tinha uma tia-avó que dizia muita poesia. Fiz a escola primária em Águeda. Lembro que os cegos cantavam na rua, as criadas contavam histórias de outro mundo, romances populares. Isto tudo acaba por ficar no ouvido. Mas depois tive um encontro importante com o professor António Robeira, que foi amigo do Pessoa e do Mário Sá Carneiro, ele revelou-me tanto um como o outro. Depois li o António Nobre, o Cesário Verde, o Guerra Junqueiro.

Sem nunca esquecer a sua génese, recorda-se de uma tradição que ficou impressa na sua memória:
"Isto tudo fica na memória, o próprio fado preencheu muito do meu imaginário, sou do tempo da Amália em discos de 78 rotações". Pergunto-lhe se esta admiração inicial não acabou por inspirar um pouco a sua escrita e a resposta é esclarecedora: "Há um pormenor que nunca disse. Quando escrevi uma das primeiras trovas - "Trova do Amor Lusíada" ("Praça da Canção", 1965) - que é para duas vozes, estava a pensar na Amália, pensei que ela gostaria de cantá-la. E ela acabou por cantar".

Estávamos em 1964, Manuel Alegre passara por Angola e participou num movimento de resistência no interior das Forças Armadas, para onde havia sido mobilizado. Foi preso pela PIDE, passando 6 meses na Fortaleza de São Paulo, em Luanda. Regressa a Coimbra e entra na clandestinidade; em seguida muda-se para Argel e começa a trabalhar na emissora Voz da Liberdade. Foi aqui que recebeu a carta de Alain Oulmain, que colaborava com Amália, a pedir autorização para cantar um texto seu: "Fiquei surpreendido, até porque, naquela altura, havia muita gente a cantar os meus poemas e ninguém pedia autorização. Na verdade, o pedido era para a "Trova do Vento que Passa", mas concluí que era um encontro do destino".

O encontro propriamente dito entre a fadista e o poeta concretizar-se-ia em Paris. "Ia um pouco apreensivo, mas descobri que ela era mais tímida do que eu. Estavam lá guitarristas, conversámos sobre fado e poesia. Ela tinha uma inteligência intuitiva rara, com uma percepção instintiva da poesia de Camões".

O poeta estivera em Angola. "A experiência foi muito dolorosa porque ideologicamente eu estava na guerra como muitos outros da minha geração. Não acreditávamos naquela guerra, mas fomos obrigados a combater contra pessoas que nós sabíamos que tinham razão em lutar pela sua própria liberdade". É neste sentido que as experiências daquele período vão selar uma mensagem impressa, tanto na poesia de Manuel Alegre, como em outros poetas portugueses que se opunham ao turbilhão alucinante em que se encontraram. "Perdi muitos amigos lá, outros ficaram estropiados, mas foi também um tempo de descobertas de outras coisas, de uma cer-
ta fraternidade que há na guerra, da solidariedade que pode ligar as pessoas. O René Char diz isso, que há guerras que não acabam nunca, ficam sempre dentro das pessoas. O livro "Praça da Canção" é lançado em 65, e a poesia de
Manuel Alegre penetra de forma secreta entre os opositores do antigo regime e circula de forma secreta entre os admiradores que até hoje surpreendem o próprio autor: "Tenho exemplares de livros meus que me foram oferecidos, ainda hoje, inteiramente copiados à mão. Esta é uma forma de prémio que ninguém pode criticar".

A experiência argelina lança o poeta no olho do furacão (os sonhos utópicos, daqueles que sonharam com uma revolução que não tinha sido feita, com as transformações que pudessem fortalecer os ideais. "Argel era uma espécie de capital da revolução mundial onde se encontravam todos, moçambicanos, guineenses, angolanos, brasileiros, os panteras negras. Foi lá que conheci Che Guevara. Queríamos que a revolução não degenerasse como a russa, que não fosse como a chinesa e melhor que a cubana. Embora os argelinos tivessem uma posição solidária, não se metiam nas nossas discussões, respeitavam a posição dos outros. Mas eles eram fechados, e os exilados viviam num território à parte".

Com o 25 de Abril, Manuel Alegre, tal um Ulisses de retorna a sua Ítaca natal, regressa a Lisboa, tendo Adriano Correia de Oliveira e Zeca Afonso à sua espera. "O regresso foi um encontro e um desencontro. Homero tinha razão quando Ulisses não é reconhecido. Ninguém volta completamente de um grande exílio. Há uma sensação de que se voltou à casa e se é estrangeiro, as coisas mudaram, os afectos mudaram. Percebi as diferenças, depois foram as separações políticas, algumas delas dolorosas". Caso para citar um verso do poeta que corrobora a sua visão: "E há uma parte de mim que não partiu. E há uma parte de mim que não voltou.

É o período de maior envolvimento político de Alegre, que reconhece a intromissão entre vida e arte, embora assuma a determinação das circunstâncias que se reflectiram na sua poesia. "Passei pela guerra, pelo exílio e pela cadeia. Esta mistura não foi desinspiradora, nem perturbou o trabalho poético; foi estimulante. Depois do 25 de Abril houve, talvez, um excesso de envolvimento meu na política. Hoje não. Estou mais desprendido.

Se observarmos que os livros publicados logo a seguir ao seu regresso, notámos que em "Um Barco para Ítaca" de 1974, Manuel Alegre faz uma releitura reflexiva do mito homérico; lança "Letras", de 1974, uma obra menor do seu aparatoso edifício literário, em seguida "Coisa de Amar", de 76, e "Novas do Achamento", em 79, onde apresenta de forma poética a "Carta de Pêro de Vaz Caminha a El-Rei D. Manuel" sobre a descoberta do Brasil. Nota-se que há, de facto, um hiato expressivo, distante da lírica sobejamente consagratória dos primeiros livros. A sua voz mais marcante volta a acentuar-se com "Atlântico", de 1981, quando promove e adensa a sua releitura histórica e poética do passado português com momentos de extrema condensação imagética e estilística.
Convém assinalar que a sua poesia não recebeu praticamente nenhum prémio durante um largo período, embora as reedições continuassem a consagrar o autor junto do público leitor. É com a edição de "30 Anos de Poesia", em 95, prefaciada por Eduardo Lourenço, que a obra de Manuel Alegre começa a amealhar inúmeros prémios. Estatisticamente o autor afirmou o seu timbre, sem abandonar a sua temática inicial, alargando um pouco o tom, embora procure se distanciar das características que alguns críticos notaram em sua poesia. "Acho que não tenho nada a ver com o neo-realismo do ponto de vista da linguagem, ou então a Sophia também seria neorealista por ter escrito alguns poemas políticos. O facto de ter tido um empenhamento cívico, de ter escrito poemas de resistência não significa que eu tenha sido neorealista".

O que conta a favor de Manuel Alegre é o livro "Senhora das Tempestades", lançado em 1998, que acabou por obter elogios de diversos pontos da crítica. A recepção unânime significa que se achou no livro uma imagética mística em que uma certa oratória sacra e panteísta assumia todos os dramas e reflexões do poeta que passara por problemas cardíacos, e em simultâneo adensava a percepção sobre o próprio destino da escrita e do homem. No fundo, as perguntas que sempre foram feitas de maneiras distintas, e que até hoje nos fazem pensar: o que somos, para que serve a escrita, o que é o mundo.

Com a edição da sua "Obra Poética", podemos averiguar o grau que a sua linguagem atingiu, as referências essenciais de uma expressão que celebrou a história, filtrando toda uma herança da poesia portuguesa que se inicia nos poetas trovadorescos, retoma Camões, resgata Pessoa e traduz isto tudo num embate entre a tradição e a contemporaneidade. "Gostaria que se lembrassem de mim como um poeta cuja poesia rimou com a vida, com a música da vida e da escrita. É isso que fica. A mim sensibiliza-me que haja muita gente que saiba versos meus de cor. Acredito que daquilo que se escreve não fica muita coisa, mas gostaria que alguns versos, não sei bem quais, continuassem na memória das pessoas". Só o tempo dirá.

* Publicado na edição do Expresso de 18/12/99