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Perfil

Prémio Pessoa

Laureados

Laureado Prémio Pessoa 1999 - José Manuel Rodrigues

FORMAÇÃO

- Academia de Fotografia, Haia, Holanda, 1975-80
- Escola de Fotografia, Apeldoorn, Holanda, 1978-79

BOLSAS E PRÉMIOS

- Prémio Nacional de Fotografia, Amsterdams Fonds voor de Kunst, 1982
- Bolsa de trabalho, Fundação Calouste Gulbenkian, 1986-87
- Bolsa de trabalho, Mondriaan Stichting, Brasil, 1992
- Bolsa de trabalho, Fundação Calouste Gulbenkian,1996
- Bolsa de trabalho, Centro Nacional de Cultura, 1997
- Nomeação para o Prémio Bordalo Pinheiro, Casa da Imprensa, 1997
- Prémio Pessoa, 1999

ALGUMAS EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS

- Museu de Évora, 1981
- 3ºs Encontros de Fotografia de Coimbra, 1982
- Galerie Perspektief, Roterdão, 1983
- Casa de Bocage, Setúbal, 1983
- Galleria II Borgo, Caserta, Itália, 1984
- Galerie Makkom, Amesterdão, 1985
- Suzanne Biederberg Gallery, Amesterdão, 1993
- 13ºs Encontros de Fotografia de Coimbra, 1993
- Galeria Municipal, Montemor-o-Novo, 1994
- Galeria Municipal, Caldas da Rainha, 1995
- Centro Cultural Calouste Gulbenkian, Paris, 1995
- Museu de Évora, 1996
- Suzanne Biederberg Gallery, Amesterdão, 1997
- Centro de Arte, S. João da Madeira, 1997
- Palácio Anjos, Algés, 1998
- Retrospectiva 20 anos de fotografia, "Ofertório", Culturgest, Lisboa, 1999
- "Cabo Verde", Arquivo Fotográfico, Lisboa, 1999
- Palácio D. Manuel, Évora, 1999

ALGUMAS EXPOSIÇÕES COLECTIVAS
(Exposição com catálogo ou livro)

- Galeria Perspektief, Roterdão, 1980/82
- "Fotografia Porthogese", Biennale Internazionale di Fotografia, Caserta, Itália, 1982
- 4ºs Encontros de Fotografia de Coimbra, 1982/83
- Northeastern University Art Gallery, Boston, 1983
- Verlichette Fotografie, BBK, Roterdão, 1984
- Foto´84, Amesterdão, 1984
- Contemporary European Photography, Center for Photographic Studies, Los Angeles, 1984
- Museum of Photography Arts, San Diego, 1985
- Stedelijk Museum, GKF, Amesterdão, 1986/88/89
- Exemplos da Fotografia Portuguesa, Fotoporto, Fundação Serralves, Porto, 1988
- GKF Stedelijk Museum, Amesterdão, 1989
- Europália, Provinciaal Museum voor Fotografie, Antuérpia, 1991
- Canon Gallery, Amesterdão, 1992/93/94
- Olho por Olho, Uma História de Fotografia em Portugal 1839-1992, Ether, Lisboa, 1992
- 14ºs Encontros de Fotografia de Coimbra, 1994
- Alfândega Nova, Museu dos Transportes e Comunicações, Porto, 1995
- 10 Artistas do Alentejo, Pontedera, Itália, 1995
- Sul e Língua Franca, 16ºs Encontros de Fotografia de Coimbra, 1996
- Álvaro Siza Vieira "Obras e Projectos", CCB, Lisboa,1996
- Instituto Português Maputo, 1997
- Fotografia Portuguesa 1854-1997, Frankfurter Buchmesse, Alemanha, 1997
- ´A Prova da Água´, Centro Cultural de Belém, Lisboa, 1998
- Roteiro das Tabernas, Grândola, 1998
- Arqueologia Industrial, Fábrica Sanjo/Centro de Arte, S. João da Madeira, 1998
- Fotographie Portugaise Contemporaine, Galerie du Chateau D´Eau, Toulouse, 1998
- Identity and Environment, Cindwig Museum, Budapest, Hungria, 1998
- ´Portugal´, Centro Cultural Português, Macau, 1999
- Encontros de Imagem, Braga, 1999
- ´Ourivesaria´, Centro Cultural Júlio Resende, Valbom, 1999
- ´O Ar que corre, a Pedra, a Árvore - Ciganos, Fábrica Confiança, Braga, 1999
- ´O Século do Corpo`, Culturgest, Lisboa, 1999
- 'Trilogia' "O Profano e o Sagrado", Museu de Évora, 2000

BIBLIOGRAFIA (Outras Publicações)

- Jornal de Artes e Letras, 1981
- "A VIAGEM", livro, 1982
- Portfólio 12 fotografias e 12 Poemas Visuais (com Luís Carmelo), 1985
- Perspektief, magazine, 1986
- Cantadores de Alegrias, Mágoas e Mangações, Alandroal, 1993
- Carta Arqueológica do Alandroal, 1993
- Jornal Terras do Cante, 1992/94
- Évora e o Mais, 1994/95
- Antologia de Poesia Tradicional do Alentejo, 1996
- Monografia Igreja de Marco de Canaveses, 1997
- Agenda e Postais Álvaro Siza Vieira, 1997
- Portfólio, Colóquio ´Letras´, Fundação Calouste Gulbenkian, 1997
- Colecção de bilhetes postais ´Imagens do Alentejo`,1998

COLECÇÕES

- Dutch Art Foundation
- Van Reekum Galerie, Apeldoorn, Holanda
- Prentenkabinet, Leiden, Holanda
- La Bibliothèque Nationale, Paris
- Instituto Camões
- Centro Português de Fotografia
- Colecção Encontros de Fotografia de Coimbra e de Braga
- Culturgest
- Arquivo Fotográfico, Lisboa
- Vários Particulares

Entrevista ao Expresso

Boa parte da sua fotografia dos anos 70 leva a marca de uma nostalgia dos ritmos naturais, saciada nos jardins de Amsterdão ou no recorte silencioso de um jarro com flores

José Manuel Rodrigues, 47 anos, fotógrafo. Tem os olhos enormes e um modo lento de falar. Entre a infância pobre em Évora e a distinção do Prémio Pessoa, que recebeu na semana passada com Manuel Alegre, há um caminho longo, pontuado por inúmeras escalas: Paris, Antuérpia, Montreal, Amsterdão, Évora, de novo. Foram idas e regressos, enganos e desencontros atravessados pela fotografia, um modo de escutar o mundo e encontrar-se nele.

Em 1968, tinha apenas 17 anos, José Manuel Rodrigues decidiu partir, a salto, para Paris. A viagem chegou a ter outro destino: América do Sul. Alguns meses antes, a LUAR levara a cabo o famoso assalto ao banco da Figueira da Foz. Como havia membros daquela organização em Évora, a polícia alentejana chegou a pensar que o adolescente em fuga estava metido no caso. José Manuel Rodrigues ri-se disso quando recorda o momento em que se cruzou, em França, com alguns conterrâneos pertencentes à organização: "Foi uma pura coincidência, não sabia de nada, era muito ingénuo politicamente, e eles consideravam-me um puto". "E por essa altura que ouve falar pela primeira vez de Manuel Alegre: "Ele tem um sentido de liberdade e de luta que aprecio."

Em Paris, as coisas são difíceis e o dinheiro não chega para atravessar o Atlântico. "Rapei uma fome desgraçada nos primeiros meses. Finalmente, depois de algum tempo a dormir em parte incerta, consegue um emprego na Renault. É o tempo do cinema. Durante seis meses viu uma média de três filmes por dia. "É um momento muito importante na minha formação de fotógrafo o contacto com Buñuel, a Nouvelle Vague, John Ford, Cassavettes." Depois de uma reentrada em Portugal para resgatar documentos, regressa a Paris com novos planos de viagem. Com um grupo de amigos combina uma ida à Índia, com ponto de encontro em Antuérpia. Mas uma paixão vai inviabilizar a viajem e abrir uma estadia prolongada de Rodrigues na Holanda. Inscreve-se na Escola de Fotografia de Haia, no curso diurno, mas o ambiente juvenil desilude-o. Nesse período realiza uma viagem a Montreal, onde residia a mãe. Ali conhece o fotógrafo Jorge Guerra, a quem mostra uma série de fotografias. No regresso perde a mala onde transportava cinco mil negativos e uma boa parte do que havia fotografado até então. O desânimo quase toma conta dele "Estive para desistir de ser fotógrafo".

São tempos de desorientação. Vive agora em Amsterdão, num barco ancorado num canal em Pricesengracht. Em 1974 cai o regime marcelista e como muitos outros emigrantes, Rodrigues sente a tentação do regresso. Na noite de despedida, porém, conhece Geartrude, com quem viria a casar-se em Agosto desse ano. O regresso a Portugal não é adiado. As fotografias dessa altura (1972-1974) testemunham a actividade dos "happenings" e do teatro de rua, o encontro descomprometido com a animação de Amsterdão, mas também uma incontida melancolia: águas que morrem junto aos juncos; árvores que se curvam ao vento e ao tempo.

Boa parte da sua fotografia dos anos 70 leva a marca de uma nostalgia dos ritmos naturais, saciada nos jardins de Amsterdão ou no recorte silencioso dum jarro com flores. Recém-casado e cansado da vida instável que levara até então, adopta uma atitude mais construtiva. Volta a inscrever-se na Escola de Fotografia de Haia, que frequenta de 75 a 80, enquanto trabalha num laboratório de fotografia durante o dia. A escola servirá para lhe apurar a técnica. "Adoptei uma atitude quase purista, queria saber tudo. Tentar dominar a técnica sem ser dominado por ela".

Por essa altura trava contacto com um grupo de jovens holandeses de Haia e Roterdão, com quem partilha intenções e afinidades. O grupo, que dará origem a uma revista e a uma galeria, virá a revolucionar o meio da fotografia holandesa. Chamaram-lhe "Perspectief" e deixou uma marca indelével na fotografia europeia. O objectivo comum era a valorização do estatuto sócio-cultural da fotografia: "Estávamos mais interessados na aceitação da fotografia do que na nossa actividade fotográfica individual, trabalhávamos para o medium, para o colectivo".

Rodrigues ficaria responsável pela coordenação
da galeria. O grupo faz conferências escandalosas e anima o ambiente apaziguado das artes holandesas. Apesar de algum reconhecimento na Holanda, o fotógrafo nunca chegou a perder completamente os laços com o país de origem. Em 1981 realiza a sua primeira exposição em Portugal, no Museu de Évora. A mostra é notada por Paulo Nozolino e António Sena, dando este último notícia dela no "Jornal de Letras". Segue-se uma primeira participação nos Encontros de Fotografia de Coimbra, do ano seguinte. Na Holanda continua a expor regularmente, durante toda a década. Na obra de Rodrigues, os anos 80 correspondem a um período de intensa experimentação. A fotografia abandona a bidimensionalidade, recebe rasgões, é acoplada por objectos, encena-se como imagem imaginada ou erotização dos corpos.

No regresso a Portugal, em 1993, José Manuel Rodrigues fixa-se no Alentejo, onde cresceu. Évora é um refúgio, mas também é um reencontro. A paisagem alentejana passa a ser a matéria-prima preferencial do seu trabalho. Fotografa muros em ruínas, sombras e silhuetas do presente, projectadas sobre despojos do passado. Desvenda formas, confronta o elemento humano com espaços abissais. Tempo e espaço, matéria e forma, encontram-se numa mesma substância Em tudo isto há um efeito reflexo - a paisagem organiza-se como uma possibilidade de intimidade.

Por outro lado, os levantamentos paisagísticos, os trabalhos de carácter etnográfico que realiza junto do povo alentejano, encomendados por autarquias ou instituições nacionais, são não só uma possibilidade de redescoberta dos lugares da infância mas também uma importante fonte de sustento. O fotógrafo que até então utilizava a fotografia como resposta a uma necessidade de expressão imediata torna-se mais disciplinado quando se trata de estabelecer a cartografia duma região ou de surpreender o labor dos seus habitantes.

"Tabernas" (1998), é um exemplo possível entre os inúmeros trabalhos que realizou em livro sobre o Alentejo. Um retracto sensível de uma população (Grândola) observada num dos lugares mais importantes da sua sociabilidade. Os gestos, os jogos, os vincos que se abrem nos rostos formam um diário secreto da terra que nunca se vê, mas que tudo condiciona com seus ciclos. O fotógrafo tem, porém, a percepção de que o seu trabalho testemunha o fim de um certo mundo. "Há nestas pessoas uma sabedoria muito especial que se está a perder, algo que não se aprende nas escolas. Gente que trabalha na terra, à chuva, que tem uma visão peculiar do mundo e que faz parte de uma realidade que se encaminha para o fim. Se a sua fotografia possui, principalmente nos últimos tempos, um carácter antropológico de observação da realidade que o cerca, Rodrigues não é, no entanto, um fotógrafo de instântaneos. As suas imagens pressupõem um envolvimento com o que o rodeia, antes e depois da captação das imagens. "O trabalho na câmara escura é muito importante para mim, é como se estivesse a fotografar novamente. Trabalho muito a luz e com ela crio uma leitura do que fotografo, um ponto de vista".

Desde 1993 vem expondo quase sempre fora da capital. Évora, Montemor-o-Novo, Caldas da Rainha, S.João da Madeira, Algés. Tudo lugares periféricos à mediatização. Há uma desproporção entre o conhecimento que o público tem do seu trabalho e a atenção da crítica. "Tenho gerido mal o meu tempo, a adaptação a Portugal foi confusa. Além disso, tenho dado muito mais atenção ao acto de fotografar do que ao de mostrar". Já este ano, duas exposições na capital contribuíram de modo decisivo para o reconhecimento do seu trabalho e para atenuar esse estado de coisas.

"Ofertório", comissariada por Jorge Calado, apresentava na Culturgest uma selecção mais abangente dos seus vários momentos criativos entre 1972 e 1997. Cerca de 200 fotografias escolhidas dum total de 80 mil provas formavam a primeira retrospectiva de um fotógrafo português vivo. Para quem visitou a exposição ficou clara a diversidade de interesses e resoluções que o fotógrafo soube encontrar ao longo dos últimos 25 anos. O retrato intimista, a fotografia conceptual, a abstracção, o recenseamento da paisagem, a descoberta etnográfica.

Em Outubro deste ano, o Arquivo Municipal de Lisboa recebeu "Chorar por Água', uma mostra que reunia as imagens captadas durante uma visita a Cabo Verde em 1997. O seu olhar sobre o arquipélago é mais uma vez digressivo, deixa-se contaminar pelo que não compreende ou pelo que só com o enigma se revela. A objectiva fixa-se nas sucessões de planos que o relevo montanhoso corta; emerge o gigantismo das falésias, para descer depois à singularidade do fóssil de um peixe caído no chão, à vida difícil da população, sem miserabilismos, suficientemente perto para se envolver afectivamente, suficientemente longe para conservar o discernimento. Representado nas principais antologias da fotografia portuguesa, bem como nalgumas das mais representativas exposições de fotografia no nosso país ("Livro de Viagens, 1997, é um exemplo) e em mostras de fotografia internacional realizadas entre nós, como "À Prova d'água" ou "O Século do Corpo", Rodrigues não pretende descansar à sombra do prémio. Tem vários projectos: para além do anunciado livro com Manuel Alegre, está a preparar um levantamento urbanístico do concelho de Grândola e um levantamento da bacia do Alqueva encomendado pelo Centro Português de Fotografia. No seu monte alentejano, rodeado de livros de fotógrafos que admira - Weston, Sander, Alvarez Bravo, Ralph Meatyard-, vai continuar a fotografar: "É como se estivesse a lavrar".

* Publicado na edição
do Expresso de 18/12/99