Siga-nos

Perfil

Prémio Pessoa

Laureados

Laureado Prémio Pessoa 1998 - Eduardo Souto de Moura

Eduardo Souto de Moura, 46 anos, arquitecto.
Entre 1974 e 1979, colabora com o arquitecto Álvaro Siza Vieira.
Em 1980, licencia-se em Arquitectura pela Escola Superior de Belas Artes do Porto e inicia a actividade como profissional liberal, sendo convidado, em 1981, para Assistente do curso de Arquitectura, na FAUP.
Nos anos de 1988 a 1994, Souto de Moura é Professor Convidado em diversas Universidades Internacionais: Paris-Belleville (1988), Harvard e Dublin (1989), ETH de Zurique (1990-91) e Lausanne (1994).
Tem realizado várias Exposições e proferido Conferências em Portugal e no Estrangeiro.
Dos inúmeros projectos da sua autoria, são de referir: o Mercado Municipal de Braga, Casa das Artes (Porto), Pousada de Santa Maria do Bouro (Amares), Burgo Fundiarios (Av. da Boavista, Porto) e Casa no Bom Jesus (Braga).

De entre os muitos prémios com que foi agraciado, destacam-se:

1980 Prémio Fundação António de Almeida.
1981 Prémio Fundação Antero de Quental.
1982 1º Pémio no concurso para a restauração da Praça Giraldo, Évora.
1984 1º Pémio no concurso para o Centro Cultural da S.E.C., Porto.
1986 1º Pémio no concurso para os Pavilhões C.I.A.C.
1987 1º Pémio no concurso para um Hotel, Salzburg.
1990 1º Pémio no concurso "IN/ARCH 1990 para a Sicília".
1992 Prémio SECIL de Arquitectura.
1995 Prémio Internacional da Pedra na Arquitectura para a Casa em Braga, Feira de
Verona.
1996 Prémio Anual da Secção Portuguesa da Associação Internacional de Críticos de
Arte.
Nomeação para o Prémio Europeu de Arquitectura Pabellón Mies van der Rohe.
1998 Finalista do Prémio IBERFAD com a Pousada de Santa Maria do Bouro.
1º Prémio I Bienal IberoAmericana com a Pousada de Santa Maria do Bouro.

Entrevista ao Expresso

"As minhas casas no Norte são mais simples. No Algarve são brancas e mais plásticas".
"Gosto do Porto e do Benfica. É esquisito. Por causa disso toda a gente diz que sou mal acabado"

Eduardo Souto de Moura, arquitecto, 46 anos, Prémio Pessoa 98, revela em entrevista muito do seu pensamento e parte da sua intimidade - os gostos pessoais, as leituras, os "hobbies".
É a sua interpretação da vida e da arquitectura, o modo de estar e de ver o mundo. Uma vida que os pais não queriam para ele porque consideravam um arquitecto vizinho um "esquisito" que trabalhava noite fora. Fala ainda da Escola do Porto e dos seus protagonistas, os amigos Fernando Távora, Siza Vieira, Alcino Soutinho, entre outros, e também das diferenças de luz que existem em Portugal.

O ARQUITECTO e a obra, as relações entre o autor e o cliente, o Norte e o Sul de Portugal com culturas e luzes diferentes que inspiram soluções adequadas ao meio. E os tempos livres necessários à reflexão e à observação dos espaços envolventes. Souto de Moura fala de si, dos outros e da profissão.

Quando lhe perguntaram o que vai fazer com o dinheiro do Prémio Pessoa, respondeu que ia juntá-lo ao do Prémio Secil e fazer uma casa. Mas num projecto seu, só dá para as portas e puxadores...


O Graça Dias ouviu essa resposta e telefonou-me a encomendar uma casa por 13 mil contos... E claro que com esse dinheiro não faço a casa que quero.

Já tem sítio?


Tenho um terreno em Matosinhos, que recebi como honorários por um projecto de nove moradias - a minha é a décima.

É bom negócio projectar moradias?


Não. Perco dinheiro. Só as faço por gosto. É uma espécie de "hobby". Se formos a ver, as casas que fiz demoraram quatro a cinco anos. Como os clientes normalmente são meus amigos, os meus honorários andam entre os 1800 e os 2000 contos. A dividir por cinco anos dá 30 contos por mês. Não chega para a gasolina.

É por isso que tem poucas casas?


Até tenho muitas. Cerca de 15. Há arquitectos que não fazem casas e não é que não gostem.

Onde vive?


Num andar dos anos 60, na rua de Gondarém. Foi desenhado pelo José da Costa, que interrompeu os estudos de arquitectura para substituir o pai na Soares da Costa.

Ao desenhar uma casa para si há uma curiosa fusão entre cliente e arquitecto. Como resolve isso?


O cliente é meu heterónimo. Tem sido difícil esse jogo de heterónimos. De vez em quando chamo um colega meu para me ajudar e desfazer as contradições.

As pessoas usam as casas de diferentes maneiras. Faz sentido aplicar o mesmo padrão a utilizações diversas?


Os tipos de casa são muito poucos. A casa-pátio mediterrânica, que se usa no Sul existe desde a Mesopotâmia. As casas minhotas são todas viradas a sul com corredor nas traseiras. Os tipos de casa não variam muito porque a cultura dos povos também não varia muito.

O sítio é que determina a casa?


O sítio, o orçamento e o gosto. Não me preocupa que a mesma casa possa ser usada por duas pessoas diferentes. Se decido fazer uma casa igual a outra, não é por comodidade. É porque acredito que há formas que correspondem a funções e a maneiras de viver muito semelhantes. Porque as coisas não mudam assim tanto. As cadeiras, por exemplo, são todas iguais. O "design", agora, é que inventou as cadeiras complicadas, mas, se formos ver, há dois mil anos que a cadeira não mexe.

O mesmo se passa com a casa, que tem quatro paredes, uma cobertura, portas e janelas. Mas olha-se para as suas casas de Tavira e da Quinta do Lago e, se as comparamos com a de Moledo e a Pousada do Bouro, vemos linguagens diferentes, quer ao nível dos materiais, quer das formas...


É. O Sul é diferente do Norte. As culturas são diferentes e por isso deve fazer-se de maneira diferente. O Orlando Ribeiro tinha razão quando falava do país do granito e do país mais mole, o do calcário. Todos os dias no boletim meteorológico confirmamos que Portugal está cortado a meio. Chegamos ao aeroporto de Lisboa e temos logo de tirar o casaco. E não são só os dois ou três graus de diferença. É toda uma luz e uma atmosfera. Na maneira como se trabalha e constrói. Lisboa é um mundo muito diferente. Não estou a dizer se é melhor ou pior. É diferente. Eu noto que os meus trabalhos no Porto e no Norte são mais simples. As casas são quase todas de um só volume. Não há variações. São um paralelepípedo ou um cubo. No Algarve sou influenciado pela cultura mediterrânea e as casas são brancas, mais plásticas, mais escultó-ricas. A arquitectura reflecte os locais.

O cliente tem o direito de modificar a obra?


A casa ou a arquitectura, além da arte, envolvem pessoas. O cliente pode alterar. Quando experimento um casaco digo ao alfaiate se ele me aperta na barriga ou me incomoda nos ombros. E peço-lhe para o modificar. Não sou eu que vou fazer esse arranjos. O cliente tem todo o direito a querer fazer modificações. Ou porque não gosta, ou porque o agregado familiar aumentou.
O que me faz impressão é quando alteram sem dizer nada, com o maior dos à vontades. Há que conciliar a posse física com a posse intelectual. Noutro dia uns estudantes arquitectura tocaram a uma campainha a perguntar se a casa era do Siza. A senhora respondeu, indignada, que era dela.

A confusão entre posse física e intelectual só acontece com os clientes individuais?


Não. Instituições públicas, com grandes responsabilidades, também actuam com o maior dos despudores. Na Casa das Artes, um projecto meu premiado, foi o ministro Carrilho a impedir que avançassem com adaptações sem me dizerem nada.

Ainda não fez a sua casa porque não tem tempo ou dinheiro? Um arquitecto premiado e famoso não é rico?


Não estou a dizer que sou pobre. Mas não sou rico. O dinheiro que poupei apliquei-o a comprar este escritório e a minha casa. Acredita que algum arquitecto fica rico à custa da arquitectura, só porque ganha o Prémio Pessoa?

Porque não?


Porque para ficar rico teve de ceder muito. Teve de trabalhar muito em muito pouco tempo, para ganhar muito dinheiro. Eu recuso muita obra. Sou abordado por pessoas que dizem gostar muito do meu trabalho. Pedem-me para desenhar uma casa, porque dizem que tenho "muito jeito" e fica muito bem. E eu explico-lhes porque é que ficou bem. Um projecto tem cinco fases: programa base, estudo prévio, anteprojecto, projecto de execução e assistência técnica. Se em cada fase fizer quatro maquetas, no final são 20. Depois, durante a construção vou lá todas as semanas. E há um colaborador que é destacado para cada obra. Para a coisa ficar bem sai-nos do pêlo.

A habitação em Portugal é cara.


Os preços da construção no Porto são um roubo. Vendem-se andares na Foz pelo preço que custariam dois em Nova Iorque. Chego a ter clientes que vendem os andares comprados naquela zona quando casaram, para construírem boas vivendas. Repare-se que é possível fazer uma casa por um custo final que pode andar entre os 110 e os 150 contos por metro quadrado. Um andar na Foz pode custar 300 contos por metro quadrado.

Qual é a explicação?


Constrói-se muito mal. O cimento que se gasta para deitar fora, porque as paredes estão tortas ou por outro motivo similar, quase que dava para fazer um prédio inteiro. Os construtores evitam, por exemplo, ter engenheiros à frente da obra, porque acham que isso lhes fica caro. Não querem, sequer, pensar um pouco no dinheiro que eles, técnicos, lhes poderiam fazer poupar, ao fazerem uma vigilância correcta da obra.

Onde passa as férias?


Todos os anos aproveito os feriados de Dezembro para ir ao estrangeiro, com um grupo de 10 a 15 pessoas, entre eles os Távoras, os Siza e os Soutinho.

É uma viagem de estudo?


Há um tema. Este ano fomos aos EUA. Estivemos em Marfa, no Texas, numa aldeia junto à fronteira com o México comprada pelo Donald Judd, um dos artistas contemporâneos de que mais gosto. Transformou a aldeia e uma antiga base do exército norte-americano numa espécie de museu que reúne o que há de melhor da vanguarda americana. É curioso, que o Judd deixou de ser escultor e passou a ser arquitecto. É uma coisa raríssima. Normalmente é ao contrário. Os arquitectos fartam-se de aturar clientes e dedicam-se à pintura ou a outras coisas. Há imensos arquitectos que não fazem arquitectura: os Pink Floyd, o Karl Lagarfeld, o Visconti. Agora o Siza também está a fazer escultura.

Gosta muito da sua profissão?


Sim, mas às vezes fico muito aborrecido. Digo que vou deixar de ser arquitecto e passar a ser fotógrafo.

A fotografia é um "hobby"?


Não. Faço umas fotografias de vez em quando. A arquitectura apaixona-me. Só que tenho muitos ataques de irritação e desespero com algumas injustiças que se cometem. Veja-se o caso da Alfândega, onde estou a trabalhar há mais de dez anos. Aparece a Cimeira lbero-Americana e, no final, reparo que uma obra minha vai ficar ocupada com uma série de tralhas com as quais não concordo e que foram pensadas e feitas para durarem dois dias - não para serem perenes. Não pode ser assim. Um centro de congressos não é feito com cadeiras de plástico.
Fico desgostoso e acaba por ser uma humilhação para mim após dez anos de trabalho.

Lê coisas fora da arquitectura? Tem sempre um livro na mesinha de cabeceira?


Não, quando chego à cama estou tão cansado que durmo. Leio bastante nos aviões e nos comboios.

Lê o quê?


Leio poucos romances. Leio poesia e coisas curtas. Contos e imensas coisas de autores da América Latina. Uma das viagens que fizemos foi ao Peru e comprei um livro muito bonito do Vargas Llosa, chamado Cartas a um jovem Escritor. lnteressa-me muito saber como é que os outros trabalham e ele explica como escreve. Leio o Borges, porque é curto e incisivo.
O meu escritor preferido é o austríaco Thomas Bernhard. Cheguei a ele devido aos problemas que tive com um projecto de hotel em Salzburgo. Um amigo recomendou-mo para que percebesse melhor os austríacos e a embrulhada em que estava metido.
Num dos seus livros, um dos personagens centrais é o pianista Glenn Gould, que também adoro.

Ouve música quando trabalha?


Depende. Ouço, se estou sozinho, ao fim-de-semana ou à noite. Durante o dia não, porque fica uma sobreposição de ruídos.

O que compra?


Essencialmente clássicos. Tenho o Glenn Gould todo. Muita coisa do Miles Davis. E adoro Bach.

Liga a futebol?


Ligo. E tenho uma coisa que ninguém tem. Por causa disso, toda a gente me diz que não sou bem acabado. Gosto do Benfica e do Porto. Sei que é uma coisa esquisitíssima. Gosto do Porto porque é a minha terra. Gosto do Benfica porque cresci em frente à televisão a ver o Eusébio, e quando se é miudo tem-se aquela imagem dos heróis portugueses.

Qual é a sua relação com a cidade?


Gosto imenso disto. De estar e sair. Da alternância. Ao fim de uns tempos começo a ficar com claustrofobia. O Porto é muito apertadinho, muito mesquinho. Nessa altura são providenciais aquelas saídas de dois ou três dias para dar umas aulas ou conferências. Gosto de sair, de ir ver outros sítios, estar sozinho. Preciso de estar só num quarto de hotel, ir às livrarias. Quando dava aulas na Suíça, era porreiro. Organizavam aquilo na perfeição.
Entregavam-me o bilhete de avião no escritório e viajava em primeira. Chegava lá e tinha os "slides" e tudo pronto no hotel à minha espera. Mas ao fim de dois dias estava cheio de dores de cabeça. Não se pode fumar. Queria uma cerveja e não se podia beber álcool - era só "croissants" e laranjadas. Depois voltava, apanhava um táxi e ao descer a Circunvalação começava a sentir o cheiro a mar e animava, pensando que ia comer um arroz de polvo à Casa Ribeiro, porque já estava farto de tostas mistas. A vida é feita de dicotomias.

Quais são as coisas de que gosta, que o emocionam, que gostava de ter feito?


Por vezes há criações que quase nos esmagam. Não há muitas na arquitectura, mas uma delas é, por exemplo o templo de Segesta, na Sicília. Não é só o templo, é também o sítio que nos faz interrogar e tentar perceber como é possível algo como aquilo. Uma vez dormi em La Tourette, um convento de Le Corbusier, que agora é uma casa. Também é impressionante. A casa de Mies van der Rohe, em Chicago, nos Estados Unidos da América, e a igreja do Marco, do Siza, são outras duas referências.

E o Guggenheim, em Bilbao? Gostou?


Gostei, embora não seja o meu género. Aprecio aquele sentido plástico. Conheço bem a obra de Frank Ghery em Los Angeles e admito que se vivesse e trabalhasse lá também aderisse àquele tipo de linguagem. Tudo isso me fazia pensar que não iria gostar. Aquilo que parece que é formalismo, arbitrário, plasticidade, o prazer só da forma, tem um sentido muito claro, que eu percebi perfeitamente. Nas fotografias pretende-se dar uma imagem um tanto esquisita do edifício, quando ele possui uma grande naturalidade no sítio e evidencia uma óptima leitura da cidade, da parte baixa, do rio. lnteriormente, o edifício é espectacular. Como museu faz-me alguma impressão, mas isso já é outra discussão.

O Guggenheim teve a particularidade de arrastar multidões para Bilbao. O que acha da arquitectura como motivo de peregrinação?


Há uma tradição que desapareceu, mas a arquitectura foi sempre um dos grandes eventos da cultura. Os papas chamavam os melhores artistas. Os reis usaram sempre a arquitectura como instrumento de poder cultural. Isso desapareceu, mas está a voltar com os grandes projectos, como os lançados em Paris - as Pirâmides do Louvre ou a Biblioteca. Aparece a obra de autor. De repente há meia dúzia de figuras emblemáticas que pontuam as cidades. Hoje, os museus transformaram-se em catedrais. Como agora há uma certa crise de fé, as cidades degla-diam-se para terem um grande museu. Veja-se o caso da Galiza. Engatam-se três museus - o Museu do Homem, na Corunha, do japonês lsosaky, em Vigo há o do italiano Aldo Rossi, e em Santiago temos o Siza, tal como em Serralves. Ou seja, em 300 quilómetros temos quatro museus projectados por grandes arquitectos.

O Centro Cultural de Belém entra nessa rota. Gosta do edifício?


Gosto. É bem feito, inteligente. Tem piada, a princípio achava-o pouco elegante. Depois passei uma semana a trabalhar lá dentro e comecei a perceber que é muitíssimo bem proporcionado. É muito difícil fazer grande. Os portugueses não sabem fazer grande. A arquitectura pública portuguesa tem uma escala pequena. Para tudo o que foi grande teve-se de chamar os de fora. Veja-se o caso de Queluz, o palácio do rei mais rico do mundo, que em qualquer sítio não passa de uma maquete.

Quais são as suas referências internacionais?


O arquitecto de que mais gosto é um amigo meu, o suíço Jacques Herzog, que projectou a ampliação da Tate Gallery. Demos ambos aulas em Harvard, nos EUA. Agora deve ser dos arquitectos mais conhecidos do mundo.

A vossa geração dá continuidade à chamada Escola do Porto. Foram discípulos de alguns mestres que nos anos 50 arrasaram com muitas das certezas do mundo modernista. Isso influenciou muito o desenvolvimento do vosso trabalho?


Claro que influenciou. Se a Escola do Porto é isto - a oportunidade de ter bons professores e trabalhar em escritórios bons e ter acesso a muita informação - então foi importante. Na arquitectura portuguesa tudo era desfasado e importado.
A elite intelectual ia lá fora, depois voltava e fazia parecido. Portugal não era um país produtor de vanguardas. As pessoas formavam-se, iam para Paris. Então o Távara fez uma coisa extraordinária e revolucionária. Fez tudo ao contrário do que os outros andavam a fazer.
Foi para os Estados Unidos e para o Japão, porque sabia que as soluções não passavam pelos modernistas ou pelos neo-modernistas franceses. Participa nos Ciam, com outros estrangeiros, convive com gente muito importante que está a fazer uma arquitectura nova em relação à produção europeia.
O que o Távora faz aqui é perfeitamente contemporâneo. Depois o Siza trabalha com o Távora. Foi aluno dele. Ao que parece nem era grande aluno. Terá sido um aluno fraco, nas notas. Só que o Távora reparou nele e convidou-o para o escritório dele. O Siza apanha não só esse legado do Távora como ele próprio faz uma vanguarda, com uma linguagem própria. Eu e outros que trabalhámos com o Siza, apanhámos este legado de informação e de experiências.

Costuma estabelecer-se uma relação íntima entre cinema e arquitectura. Vai ao cinema?


Vou pouco. Vejo filmes na televisão. Houve uma altura em que comprava vídeos. Um dia estava sozinho e apetecia-me ver os Padrinhos todos. Estive a vê-los até às cinco da manhã. Vi sete ou oito vezes o Taxi Driver. Gosto muito do Scorsese. O Visconti é bonito, mas é um bocado chique.

Já viu algum filme de Manoel de Oliveira?


Já, mas não vou dizer que é um realizador das minhas preferências.

E o Saramago?


E muito grande. Os Cadernos de Lanzarote já têm aquela dimensão que permite uma leitura mais cruzada. No entanto, li O Memorial do Convento e gostei. Não posso dizer que seja dos escritores de que mais gosto. Quando era mais novo li o Urbano Tavares Rodrigues e achava muita graça. Gosto muito do Cardoso Pires, em particular do Delfim. Até quis fazer um filme. O livro era dedicado a um tio meu por afinidade, o Salgado Zenha. E tenho a paixão do Herberto Helder.

Como situa o Siza no âmbito da cultura portuguesa?


O Siza é o que há de melhor em Portugal. Ganhou todos os prémios do Mundo, só lhe falta um, atribuído na Dinamarca. O Priska, o Alvar Aalto, e por aí fora. Em nenhum outro campo artístico temos alguém com uma projecção destas. Ele ganhou em todo o mundo, em todos os sítios. O Siza funda uma linguagem nova. Houve o modernismo, depois o pós-modernismo, a seguir o regionalismo, e ele cria uma linguagem, uma arquitectura, que concilia as duas. Faz uma arquitectura com os valores culturais e regionais portugueses e interfere com os nórdicos, o Alvar Aalto, com os alemães, com o Corbusier. Até certo ponto é um arquitecto eclético, que está a elaborar uma linguagem que é alternativa às escolas anteriores. Nenhum livro da história da arquitectura pode ignorar o Siza. Há muito bons poetas, e há o Pessoa. Há muito bons arquitectos, e há o Siza.

* Publicado na edição
do Expresso de 24/12/98