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Prémio Pessoa

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Laureado Prémio Pessoa 1997 - José Cardoso Pires

José Cardoso Pires, 72 anos, romancista.
Considerado "um dos nomes mais importantes na ficção portuguesa dos últimos 50 anos" (The Times, Literary Supplement, 29 Janeiro 1980).
Cardoso Pires frequentou o curso de Matemáticas Superiores na Faculdade de Ciências. Porém, seria em torno da literatura e do jornalismo cultural que a sua actividade profissional viria a centrar-se.
Foi director literário de várias editoras, director da revista Almanaque, que fundou em 1959, e director adjunto do Diário de Lisboa (1974-75).
Entre 1969 e 1971, foi Leitor de Literatura Portuguesa no King's College de Londres, para onde voltou em 1979-80 como "Resident Writer", a convite da Universidade de Londres.
Desde 1974 que se dedica exclusivamente à escrita.
Cronologicamente, esteve ligado à geração neo-realista com a qual partilhou preocupações sociais e resistência à ditadura do Estado Novo, rejeitando porém o populismo romântico que essa corrente seguia. A temática neo-realista está presente na sua obra através da subtil análise psicológica com que retrata os seus personagens e do seu peculiar tom satírico.
Cardoso Pires é um dos melhores contadores de histórias da literatura portuguesa actual, cujos romances primam pelo rigor da prosa e pela imposição de um cativante ritmo cinematográfico, não surpreendendo pois que vários dos seus contos tenham sido adaptados para televisão e cinema.
A sua obra encontra-se traduzida em várias línguas, tendo sido objecto de teses universitárias em vários países.

Entrevista ao Expresso

"Quando se começa, tem de se pensar que se vai fazer uma obra - prima. Se não é uma aldrabice: só um estúpido ou um gajo sem vergonha é que faz uma coisa dessas "

Quando lhe comunicaram que era o vencedor do Prémio Pessoa, José Cardoso Pires telefonou ao seu grande amigo Júlio Pomar e disse-lhe: "Olha, é para te dar os parabéns, porque ganhei o Prémio Pessoa. "Sabe que o que fica destas alegrias inesperadas - tão voláteis, afinal - é o prazer íntimo da partilha com os que vivem os nossos sucessos como se fossem deles. Depois, os jornalistas começaram a telefonar, perguntando-lhe sempre o que ia fazer aos oito mil contos do prémio. Benemérito,o escritor pôs-se a dar tratos à imaginação, lembrando-se dos seus tempos de jornais, da premência dos títulos estapafúrdios: a uns declarou que ia salvar o futebol português, a outros que ia comprar um arranha-céus ou jogar no Casino para ficar ainda mais rico. Agora abre-nos a porta todo de ganga vestido e diz, prazenteiro, que podia citar-nos de um jacto vinte nomes tão ou mais aptos para esta honra: "O Álvaro Siza, por exemplo. Ou acha que alguém pode dizer que os meus romances são melhores do que a arquitectura dele?"

Percebe-se, é claro, que o facto de este prémio abranger todas as artes e ciências, e não particularmente a literatura, lhe dará um sabor especial. Mas não se deixa deslumbrar, nunca. Já viu muito mundo. Até já esteve do lado de lá, fora da vida, longe de toda a humanidade, e regressou. Ganhou nessas viagens o luxo da lucidez. "Também tenho levado muita porrada, e em coisas injustas, penso eu. Mas quando levo uma grande porrada é que começo a escrever mais". Então agora está tramado, digo-lhe, já ninguém lhe bate, atingiu a planura do consenso. "Pois. Mas não se esqueça que nós somos animais de curta duração. De dois em dois anos há um que morre, outro que se levanta. Em Portugal, então, isso é muito evidente. Um gajo não vive a pensar nos prémios. Quem corre atrás dos prémios acaba a levar pedradas, como quem corre atrás do público..." habituou-se desde miúdo a frequentar com o mesmo desembaraço as capelas da cultura e da má vida, o que lhe apurou a sentido da relatividade e lhe permitiu escapar a todas as ratoeiras da literatura. " Não sou um bicho do mato, mas não tenho paciência para a vida literária, nunca tive. Nunca fui tipo de tertúlias, por exemplo. Cansava-me. O O`Neill era capaz de estar 14 dias e 14 noites sentado num café, mas eu não. Ia às tertúlias de tempos a tempos e bebia lá umas coisas que de modo geral ninguém bebia - a não ser o Manuel da Fonseca, que bebia bagaços comigo.
Era tudo gente como deve ser, que bebiam um cafézinho e falavam de coisas sérias.
Não se contava uma anedota, era tudo: já o Dostoievski dizia... como eu não tinha aquela formação sentia-me na escola. Era o Abelira, o Carlos de Oliveira, o Mário Dionísio, que era a austeridade em pessoa - "O mundo é uma alta responsabilidade" -, e o Cochfel, sempre entre o Lopes Graça, a última coisa do Rachmaninoff e os coros de Viena. Ao fim de meia hora eu estava saturado de erudição."

Os reles e os outros

Lisboeta de corpo e alma (embora nascido, a 2 de Outubro de 1925, em São João do Peso, Beira Baixa), cresceu em Arroios, mais exactamente a faltar tanto quanto podia à Escola Primária nº 14, no Largo do Leão: "Fazíamos manhãs gloriosas a apanhar eléctricos a nove pontos, que deve corresponder aí a trezentos mil quilómetros à hora. Chegávamos a fazer manhãs de gazeteiro que iam até Algés." No Liceu Camões continuou a somar pontos ao seu currículo de "bom vivant": Conseguia ser aluno de liceu e andar com a choldra da Almirante Reis. Era o desejo de libertar de uma classe a que tive sempre um nojo muito grande, a pequena burguesia, a que eu pertencia. Irritava-me o que ouvia na minha casa: o que se deve e não deve fazer, o que é próprio e impróprio." Por reacção, cultivava meliantes e gabirus, fazia vida de rua, de pancadaria.
No sexto ano dá-lhe um ataque súbito de paixão pela História das Ciências, que lhe compõe as notas e o leva ao curso de Matemática. Ao terceiro ano farta-se, embirra com um professor sebentoso de Química e acaba na Marinha Mercante. Torna-se depois intérprete de inglês numa companhia de aviação e começa a traduzir livros policiais. Pelo caminho ficava o primeiro sonho (que viria a cumprir mais tarde, primeiro na revista "Alamanaque", depois no "Diário Popular" e no "Diário de Lisboa"): o jornalismo. O pai era concunhado de Joaquim Manso, fundador do "Diário de Lisboa", mas recusou-se a pedir-lhe que desse uma oportunidade ao filho.

"Um belo dia, aos 17 anos, perdi a cabeça e fui apresentar-me. Olhou para mim e com um ar paternal disse-me: "Não te metas nisso. O jornalismo é uma troca de favores. "Passei a vida toda a ouvir dizer que o Joaquim Manso era uma figura impoluta, um grande jornalista. E o puro dos puros dá-me esta definição de jornalismo. A verdade é que naquele tempo, antes do 25 de Abril, havia muita porcaria no jornalismo e ninguém falava nela. Com raríssimas excepções, o jornalismo era nessa altura péssimo. O jornalismo de hoje é incomparavelmente mais culto. As grandes vedetas do jornalismo desse tempo, leia-as e aprecie. Uma miséria. O Joaquim Manso escrevia uns editoriais sob o pseudónimo de Gláucias. Só este pseudónimo já define como é que um tipo escreve. Acima de tudo, o que se queria no jornalismo era camaradagem, não era talento. Falava-se do "camarada-jornalista". Ainda apanhei muitos no "Diário de Lisboa" (de que foi director-adjunto) depois do 25 de Abril, em grandes dificuldades para subsistirem com os defeitos todos que vinham de trás. A maior parte da redacção tinha essa dificuldade. Eram pessoas sérias, que tinham sido castigadas pela ditadura e que de repente se viam em liberdade e então apoiavam-se ou num partido político ou nos tais valores que fizeram escola durante dezenas de anos, os valores do "nosso camarada de Redacção". Tudo funcionava por recomendações: lembro-me de uma jornalista muito má que foi admitida no jornal pelo telefone."

Hemingway foi a sua primeira referência, sobretudo por causa do discurso directo, que estava quase morto na literatura portuguesa. Recorda como preciosidades literárias algumas reportagens do Hemingway-jornalista e volta a subscrever o que disse a Artur Portela, no livro Cardoso Pires por Cardos Pires. D. Quixote, 1991: "A separação académica jornalismo-literatura só convém aos jornalistas que escrevem mal e aos escritores que escrevem ainda pior. Os tais que ordenam a fauna literária em Escritores, Jornalistas e Homens de Letras." Separa no entanto a imprensa da televisão: "Não "apanho" bem um jornalista de televisão, porque tem um anonimato de espectáculo. Ninguém sabe quem escreveu uma boa notícia: sabe-se quem a diz e como é que a diz." E, embora tenha pó a saudosismos e lamúrias (só os atura no fado castiço, que guarda o timbre dos pregões e arruaças de Lisboa), esconjura a actualidade pimba: "No tempo da censura - e Deus me livre que alguém pense que estou a fazer um elogio da censura, que é a coisa mais reles que há no mundo; sou o único escritor português que escreveu um ensaio sobre a censura, que está publicado em outros três países - havia o medo e a vergonha de funcionar para o mercado reles. Hoje essa vergonha desapareceu e passou a ser um oportunismo sarcástico: "Isto é pimba, mas o povo gosta, e nós, que somos diferentes, temos que fazer isto para o povo. "O indivíduo que fala assim é igual ao censor de antigamente. A lei de Gershan diz: A cultura de massas é tão inimiga da alta cultura como da cultura verdadeiramente popular."

"Sempre pensei que, com a idade, podia acabar por me circunscrever a uma repetição de leituras. Mas continuo a gostar de ler tudo, vou acompanhando o que se publica. Confesso que leio com mais urgência escritores novos do que consagrados. Esses já os conheço. Canso-me muito a ler jornais diários - leio-os por alto, a correr. Faço muitos recortes. Gosto de ler semanários, os clássicos: "Expresso", "Visão", "O Independente". Felizmente, parte deles deito logo fora. Economia, não abro. Emprego, também não. Os suplementos literários leio-os hoje com muito prazer, porque são mais bem escritos."
Embora torça o nariz a certa crítica: "Às vezes há um exibicionismo chocante; certa crítica está muito carregada de informação universitária e adopta uma ingénua petulância de quem está a ensinar ao escritor. Esse tipo de crítica perde a força, porque se torna monótona e elitista. Esse sonho de elite é muito provinciano. Por outro lado, lemos certos livros e percebemos que detrás daquele aparato não está mais do que preten-siosismo. Tems de ser justos: há casos que diminuem a "classe", como diriam os jornalistas. Mas um crítico que não tenha um sedimento profundo de ficcionista ou de poeta nunca pode entender um romance. Nunca vi críticos com o alcance que encontro a discutir com dois ou três amigos íntimos escritores - o Carlos de Oliveira ou o Lobo Antunes, por exemplo.

Tenho a dedicatória mais bonita que algum escritor teve na vida, escrita pelo Redol, no Barranco de Cegos: "Oxalá desta vez não tenhas que te zangar comigo." É que eu estava sempre a chateá-lo, porque era amigo dele e gostava que escrevesse um bom livro. E ele sentia isso. Considero-me um leitor suspeito de ficção, porque leio com um interesse egoísta. Tenho alegria se pressinto que há ali qualquer coisa que não sou capaz de fazer. Agrada-me encontrar num livro uma frescura que eu já não tenha - e sobretudo humor. Acho até que para fazer amor é preciso ter humor. Estou sempre a ver que portas é que as coisas me abrem. Nunca tive um sentimento de impotência perante um livro. Quando leio um livro muito bom não tenho só admiração; tenho é inveja. Evito dizer que não sou capaz de fazer. Um livro bom engata-me."

Experiência Limite

Dois excelentíssimos livros o galardoaram agora em Pessoa: De Profundis - Valsa Lenta e Lisboa - Livro de Bordo. Neste último desenha, mais do que a sintaxe, a voz da cidade que tão violentamente tem amado na sua ficção - particularmente em Alexandra Alpha (1987), romance a que vai pescar a personagem sombria de Sebastião Opus Night para que lhe sirva de contraponto à deambulação pela luz secreta da cidade.

Nunca parte dos monumentos. Aliás, diz que, à parte o Mosteiro dos Jerónimos e o Aqueduto das Águas Livres, a sua amada Lisboa não tem monumentos, "só "bibelots" de trampa, como a Torre de Belém".

Escreve com a mão de um Christian Barnard e a precisão cromática de um Caravaggio, escapando ao logro infinitamente contido emqualquer ideia geral. É um Naboov em versão politizada, sempre à caça do "pormenor divino". Há neste homem de modo rude a original gula infantil que transforma qualquer papel apanhado do chão em apetitoso caramelo. Iniciou cedo a sua demanda de bus-cador do coração do tempo. Em O delfim (1968), o narrador era escritor e caçador e acertava em cheio no retrato de um país suspenso. Das balas do medo teceu mais tarde Balada da Praia dos Cães (1982), premiado e filmado (por Fonseca e Costa). Em Alexandra Alpha, a mão que aperta o gatilho é a mesma de que escorre o sangue; Cardoso Pires foge do gelo alegre dos retratos de Eça e magoa-se, personagem a personagem, no gume da faca com que corta, desmontando os mecanismos de corrosão que definem os traços mínimos do rosto de uma geração - a do pré 25 de Abril.

Entre os romances que já escreveu, o seu favorito é Alexandra Alpha: "Justamente aquele que o público não percebeu." Mas o livro que mais lhe ensinou foi o pessoalíssimo De profundis - Valsa Lenta, onde narra a travessia da "morte branca", que, na sequência de um acidente vascular cerebral, o deixou "pessoa de coisíssima nenhuma". No prefácio, João Lobo Antunes, o seu médico, escreve: "Penso que o pudor de narrar toda a intensidade do sofrimento ou o bálsamo do esquecimento inconscientemente aplicado suavizaram a sua descrição da angústia da perda de identidade." José Cardoso Pires abana a cabeça, talvez pudico: ´"É que eu não tinha identidade mas também não identificava os outros. Só a Edite (a mulher), e mal. Sentia-me bem ao pé dela e tinha a certeza de que a conhecia. Lembro-me que existia, que via pessoas que morriam assim que passavam por mim - porque eu não tinha memória - e, isso não me preocupava." Nunca sentiu a asa sôfrega da morte - só uma luminosidade branca, uma ausência, uma estranheza. Uma muito vaga consciência de estar fora de um possível mapa: "Quem morreu ali foi a minha mulher, as minhas filhas e os meus maiores amigos. Se eu tiver aquela morte, estou porreiro." Tem muito medo de dissertar sobre o que se terá passado realmente na sua cabeça para não ofender os especialistas. Por isso fez o livro tão pequeno.

Esta Valsa Lenta aproximou-o do público de uma forma cúmplice, às vezes dolorosa. Um homem de 30 e poucos anos, pai de uma criança de 4, bonito e bem sucedido, de quem a mulher se divorciou após um acidente vascular cerebral profundo, procurou-o para lhe dizer (através do teclado do computador, que lhe substitui a voz): "O senhor ensinou-me uma coisa muito importante. Ensinou-me a retardar a morte". E depois entregou-lhe uma resma de folhas onde, inspirado pelo escritor, relatara a sua própria experiência. Sucedem-lhe também episódios mais leves, como o da senhora que, depois de o felicitar, lhe pergunta se é religioso e lhe vira as costas, ofendida, quando o escritor lhe revela ser agnóstico: "Parece impossível!". Além de agóstico, quer-se pessimista: "Não é glória nenhuma, é um acto manhoso. E é também uma defesa fácil, porque se eu futurar em negativo, e se o negativo acontecer, estou mais preparado par encarar a desgraça. Digo: "Perdi tudo, mas ao menos sou um rapaz inteligente, porque já o tinha previsto. "Guarda o optimismo todo para o arranque de um livro: "Quando se começa tem de se pensar que se vai fazer uma obra-prima. Se não, é uma aldrabice: só um estúpido ou um gajo sem vergonha é que faz uma coisa dessas. Depois é claro, não tenho outro remédio se não ir aceitando que não é bem assim. Então faço contas, digo: "Apesar de tudo, isto, em algumas coisas, é melhor do que o que se tem escrito para aí neste assunto. Mas não tenho a certeza de que seja bom." Por isso, nunca se preocupa com o tempo que lhe resta de vida. Há dias, assanhou-se com umas declarações do seu amigo António Lobo Antunes, segundo as quais um escritor, depois dos 70 anos, está liquidado. "Disse-lhe: "Tu estás velho, tu é que tens necessidade de escrever rapidamente. Eu não. "Um dia chego ali à porta, escorrego, parto uma unha e morro. É assim que eu vou morrer. Se calhar daqui a bocado ou daqui a 50 anos. Se fosse pensar nisso, era o que os meus inimigos queriam. Acabava no Hospital Júlio de Matos." E os olhos riem-se-lhe com aquela ternura ferozmente cáustica que trouxe das aventuras dos eléctricos a nove pontos para a literatura.


* Publicado na edição
do Expresso de 20/12/97