Siga-nos

Perfil

Prémio Pessoa

Laureados

Laureado Prémio Pessoa 1996 - João Lobo Antunes

João Lobo Antunes, 52 anos, neurocirurgião.

Licencia-se em Medicina em 1967, com a média mais elevada registada nos anais da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.
Ganha o Prémio Pfizer, o prémio para a investigação médica de maior prestígio entre nós, com a sua tese de licenciatura sobre "lesões difusas do interstício pulmonar".
Em 1971, parte para os Estados Unidos, como bolseiro Fulbright, onde se especializa. É nomeado em 1980 Professor de Neurocirurgia da Universidade de Columbia, Nova Iorque. Regressa a Portugal em 1984 como Professor Catedrático da Faculdade de Medicina de Lisboa e Director do Serviço de neurocirurgia do Hospital de Santa Maria. Exerce ainda actividade clínica em vários hospitais nacionais e estrangeiros - "Operar é como tocar violino. Não se vai lá sem exercício". Das várias sociedades científicas de que é membro, destaca a Society of Neurological Surgeons, a mais antiga de todas, de que é sócio honorário.
Apreciador de arte e melómano, conta com mais de 120 trabalhos publicados e três livros editados. Com o seu último livro - Um modo de ser -, publicado em 1996, é-lhe reconhecido o mérito de ser um "profissional e académico, renovador e intérprete da tradição médica humanista atenta às responsabilidades da ciência perante a condição humana e a sociedade", o que contribuíu para que fosse agraciado com o Prémio Pessoa 96.

Entrevista ao Expresso

"E há uma serenidade que só vem muito mais tarde. A serenidade de saber que se fez tudo, fez-se bem. Se não resultou, paciência."

Trabalha muito. Faz três centenas de operações por ano, tantas, que ganhou calos nas mãos pelas horas que passa no bloco operatório. Publicou um livro intitulado Modo de Ser. O neurologista João Lobo Antunes diz que já não tem ambições e que não se vai importar quando se reformar. Antes pelo contrário. Realização, prestígio, dinheiro, tudo isso já ele tem há muito. Mas continua, até porque, como diz, precisa de ensaiar. Para fazer bem tem de perder muito tempo nisso. Considera a neurologia uma profissão de risco e prefere nem tentar aventuras. Mas desenvolve toda uma ideia de performance em torno da operação. Descreve-a como um acto estético, para o qual já quase não necessita sentir os instrumentos. No seu discurso há uma permanente preocupação artística e literária, bem a condizer com os quadros que lhe enchem a luxuosa casa em Cascais - a mesma onde durante uns meses viveu Wallis Simpson com o homem que não abdicou dela - e com os seus muitos livros, na grande maioria em inglês. Entre esse ambiente e o dos hospitais onde trabalha (incluindo o muito menos confortável dito de Santa Maria), decorre grande parte da sua vida. Sempre foi assim. Em pequeno vivia com o seu irmão António e os outros numa vivenda em Benfica. Uma vida isolada, quase de redoma. E agora vive ali, fechado como antes. Fechado no trabalho, como o pai os habituou. Nos EUA, esteve doze anos e nunca foi ver o Grand Canyon. Aqui, sugere que nunca conheceu realmente Lisboa. É um "achiever", e tem evidente prazer em referir os vintes que teve na Faculdade, os quais foram muitos. É muito bom no que faz, tudo indica. Falta saber o que lhe ficou a faltar. Ele diz alguma coisa, mas não muito.

Nasceu em Lisboa, numa família tradicional portuguesa. Teve uma educação essencialmente conservadora.


Não diria isso. O meu pai é neurologista. A mãe estava em casa. Nós somos seis rapazes. O António é o mais velho. Depois sou eu, a seguir é o Pedro, que é arquitecto, depois o Miguel, que é advogado e administrador no CCB. Depois é o Nuno, neurologista infantil e que está em Nova Iorque. Por fim, o Manuel, que é diplomata. Era uma educação muito rigorosa, muito espartana. Vivíamos em Benfica, numa casa que ainda existe. Éramos uns privilegiados, da élite de Benfica. A minha mãe era Almeida Lima, ou seja, de outra família também ligada à Medicina. O pai era uma pessoa de grande severidade. Vivíamos uma vida bastante isolada.

Frequentaram sempre escolas públicas? O Liceu Camões...


Sim, havia dois grandes liceus em Lisboa. Um dos meninos finos, o Pedro Nunes, e o outro, que era o Camões.

A escolha dos estudos era condicionada por alguma pressão familiar? O pai era médico, tem três filhos médicos...


Não havia pressão. Pelo menos, nem eu nem os meus irmãos a sentíamos como tal. De resto, quando me formei, fui para os Estados Unidos completamente fora da família. Fiz toda a carreira sem influências nenhumas, sem protecções.

De qualquer modo, todos têm carreiras muito bem sucedidas.


Somos todos "achievers", se quiser. Isso somos. Acho que talvez valesse a pena estudar porquê.

Isso vinha mais do pai ou da mãe?


Quando foi anunciado o prémio, senti que já tinha tido uma sensação parecida, e não sabia o que era. Só depois descobri que foi da primeira vez que tive um vinte na faculdade. Era uma coisa excepcional, que nunca tinha acontecido naquela cadeira. Lembro de ter aberto a caderneta e ver lá um dois e um zero, uma coisa esquisita. Mas o meu pai, nesse aspecto, não pressionava. Não dizia que uma coisa era errada, mas sim que era estúpida. Era muito racional. A asneira era asneira não por ser má, mas por ir contra a razão das coisas.

No seu caso, o estímulo para estudar vinha de onde?


Era interior, era meu.

Não era para demonstrar nada a ninguém?


Todos queremos ser aprovados pelos pais...

E competição com os irmãos, não havia?


Acho que não. Os grandes momentos ainda são quando a gente se junta os seis. São todos pessoas em cuja companhia é interessante estar.

Em termos de formação política e religiosa, era-lhes passada alguma no ambiente familiar?


Não. Era uma família tradicionalmente católica. Fui presidente da JUC e director do jornal "Encontro"; era a única maneira de fazer política na universidade, com a protecção da Igreja. E era uma élite: o Vítor Constâncio, o Pinto Barbosa, o Sousa Franco... A crítica de cinema era feita pelo António Damásio.

Também fez programas de televisão.


Fui para a televisão com 15 anos para apresentador dos programas juvenis de sábado. Era um programa sobre tudo. Quem fazia o aeromodelismo era o Júlio Isidro, que era o campeão nacional. O programa durou uns cinco anos; depois, eu disse que não queria mais. Ia ser médico, achava que era altura de parar.

Quanto tempo durava o programa?


Uma hora. Começávamos com o ensaio geral, na presença da censura. Não é que eu seja um esquerdista, mas a censura era uma coisa que me dava repugnância... Estava lá um tipo, ainda estou a ver a cara dele, que censurava. Uma vez censurou-me a mim. Por causa de uma coisa qualquer sobre o Tintim, já não me lembro...

Como é que decidiu ir para Medicina?


Foi uma decisão de última hora. Eu tinha tido vinte a matemática e, por isso, todos pensavam que ia para Ciências, para Física ou Bioquímica .

A ligação da sua especialidade com a do seu irmão António (psiquiatria) é curiosa.


Com o António passou-se uma coisa engraçada. Ele entrou para a faculdade dois anos antes de mim e acabou um ano depois. Depois de eu o ultrapassar, nunca mais perdeu exame nenhum. Tem uma memória inacreditável.

De elefante...


Sim. Depois, ele foi para África e eu para os EUA. Estive lá 13 anos e, quando voltei, ele fazia psiquiatria, mas já não era a sua grande ocupação. Nunca chegámos a ter contactos profissionais.

Voltando à faculdade. Logo que entra, torna-se um brilhante aluno, enquadrou-se perfeitamente nos ritmos...


Não sei como foi. No primeiro ano tive um 17, e de repente disparo. Começo a dominar perfeitamente o método de estudar Medicina. Cheguei ao fim do curso com 19 vintes. No último ano, eram nove cadeiras e tive seis vintes.

O alvo foi sempre uma espécie de espírito de missão...


Não, o alvo era eu. Achava sempre que tinha de saber tudo. Como o Nemésio, que dizia: "Li muito, li tudo, para o que desse e viesse". Acho que é o meu mote.

Havia condições cá para adquirir uma preparação de nível internacional?


Quando cheguei aos EUA vi que a diferença entre os estudantes americanos e os portugueses não era assim tão grande a nível cognitivo. A nível prático é que sim.

Tinha contacto com doentes, quando estudava?

Sim. E trabalhávamos mais do que trabalham estes agora. Eu estava em Santa Maria, ia ao Júlio de Matos fazer neurocirurgia como voluntário, fazia uma consulta na Casa de Saúde dos Empregados do Comércio, depois ia à Casa de Saúde da Idanha. Hoje em dia, eles saem do hospital e querem é ir para casa. Comento isto com o caso de um médico chamado Merritt, o neurologista que veio cá ver o Salazar. Por que é que ele era o maior neurologista da sua geração? "He never missed a chance to see another patient".

Isso pressupõe um espírito de missão.


Não.

Obsessão, pelo menos.


Era obsessão. É uma coisa muito obsessiva. Leio revistas médicas continuamente, do princípio ao fim. É um ritual. Se não cumpro os rituais...

Mas isso é uma fase?


Não, é uma maldição.

Uma maldição dos médicos?


Não, uma maldição pessoal. É um traço da maior parte das pessoas que eu conheço bem sucedidas, particularmente na minha especialidade.

E o que é que se perde?


Não sei se perco. Há muita coisa que gostava de ver e não vi. Eu viajo muito mas viajo mal. Este mês, por exemplo, estive na Alemanha, em Bruxelas, não sei onde. Mas é sempre uma viagem relacionada com a profissão.

Como qualquer obsessão, alimenta-se de si mesma...


(sorrindo) Estão a fazer-me o diagnóstico?

Há pouco falou em rituais. É capaz que dar um exemplo?


Tanta coisa. Olhe, as gravatas. Durante toda a minha vida de estudante, usei sempre a mesma gravata para os exames. Uma gravata de seda, que depois começou a ficar fininha e já não se usava. Usei-a sempre até ao dia em que fui entrevistado e entrei para a Universidade de Columbia.

A gravata que leva para as operações, é um certo tipo de gravata ou é uma determinada?


Só ponho gravatas com motivos abstractos.

Isso implica alguma superstição?


Nós precisamos... É o nosso sustento psicológico.

Ouvir música clássica durante as operações também tem a ver com isso?


Ouvia muita música, mas agora já não. Estou a ficar surdo. Há uma surdez na família.

E que mais tem mudado?


Há uns tempos descobri que, nas operações, quase não sentia os instrumentos, tinha contacto directo com o tecido. É uma mudança qualitativa. Estou a trabalhar directamente, sem intermediários. Sabe, sou muito amigo da Tania Achot. Outro dia perguntei-lhe se ela alguma vez teve a sensação de que a música lhe saía quase sem o piano - isto é, se antes de tocar na nota já adivinhava o que vinha, qual era o som. Como se o instrumento fosse quase acessório da produção. É engraçado. Eu vou muito a concertos na Gulbenkian. Estou lá ao mesmo tempo a ver a performance, a vê-los fazer aquilo, e a comparar com o que eu faço.

No seu livro refere que, de início, o médico se preocupa com o erro e depois cresce na identificação com o doente. Não sente que a sua performance, ao longo da carreira, o tem aproximado mais do doente, da sua dor e do seu sofrimento?


Não sei dizer. Nós temos outras preocupações. A primeira, é que os doentes saiam vivos da operação. Já é um milagre, não é? A segunda preocupação é que eles não saiam pior do que estavam. Depois continuamos a avançar e vamos perdendo o medo. A gente sabe que, "whatever happens", eles vão sair dali bem. Há mais confiança. E há uma serenidade que só vem muito mais tarde. A serenidade de saber que se fez tudo, que se fez bem. Se não resultou, paciência.

E não há uma fase de culpa, de autocrítica?


Então não?! É fundamental.

E o que é que o aborrece mais?


A estupidez. Um dos meus mestres, um americano, nunca se metia por atalhos: "Never cut comers". Disse-me, uma vez: "Você não está aqui para repetir os erros que nós já fizemos" Numa profissão de risco como esta, não se justifica tentar aventuras quando há coisas provadas.

Mas esse espectro do erro não o assusta?


Olhe, eu digo assim aos doentes: "Eu não estou preocupado. E se eu não estou preocupado, não tem de estar preocupado".

Claro que eles podem pensar: se ele diz que não está preocupado, então temos razões para estar preocupados.
Também podem pensar dessa maneira. Mas admitindo que eu sou autoridade...

Quanto tempo leva uma operação, em média?


Hoje em dia, aquilo que eu faço não demora muito tempo. Quando eu era mais novo, a técnica era outra, levavam-se seis, sete horas. Hoje em dia, é raro passar das três horas.

Consegue fazer uma descrição mínima, para leigos, daquilo que se passa numa operação?


Hoje, já não faço os tempos iniciais da cirurgia. A neurocirurgia tem uma limitação. Não é como abrir a barriga. A cabeça é um osso. Serra-se um bocadinho. Obviamente, se se serra no sítio errado... Tem de se fazer uma cirurgia em que se toque o menos possível no cérebro. Logo, a posição do doente é fundamental e a marcação do sítio onde se vai fazer também. Isso sou eu que faço sempre. Tenho de ser responsável, porque depois não se pode emendar. Portanto, de um modo geral, quando entro, esses preliminares já estão executados por colaboradores, nos quais tenho uma grande confiança - e se calhar até fazem isso melhor do que eu. Depois, começo a trabalhar no tecido. Quando acabo a minha parte, eles fecham. Se não estou em boa forma física, há mesmo coisas que são muito difíceis de fazer e que deixo para outro.

Um cirurgião precisa de uma vida espartana?


Apesar de termos muitas conexões sociais, passo os fins-de-semana em casa.

As pessoas que têm uma variedade de interesses, como é o seu caso, muitas vezes começam a precisar de fazer uma síntese de tudo. Está a acontecer consigo?


Penso que a minha vida está cindida. Não entrei por aí. Tenho interesses que, sem serem propriamente antagónicos, são bastante separados. O que eu estou a fazer profissionalmente é uma coisa de certa gravidade.

Já fez investigação?


Passei dois anos em "full time" num laboratório. Depois, quando cheguei a Portugal, percebi que a minha grande aposta era técnica. Operar bem, pôr gente a operar bem, e, pouco a pouco, criar uma escola. Os biólogos estão a virar-se cada vez mais para as neurociências.

Por que é que isso se está a passar?


Porque o segredo fundamental é o sistema nervoso. Agora até há os chamados neuroflósofos. Eu nunca me meti nisso, por uma razão: tenho a sensação de que preciso de operar muito para operar bem. Logo, há muito tempo que perco a ensaiar. O meu repouso é a New York Review of Books. Para mim, é uma nutrição.

Ajuda a manter as condições da performance?


Acho que sim. Mas tenho pena de não ter mais tempo... Não se pode ser bom em tudo. Nunca consegui ter um "hobby" em que fosse tão bom como aquilo que faço na vida profissional. Era um bom jogador de bridge, não desenho mal, mas...

No seu livro, cita uma frase lindíssima da sua filha mais nova, que diz que o pai "opera a memória". É, ao mesmo tempo, fascinante e aterrador. Como é a sensação de mexer num cérebro vivo?


Uma das piores transformações que podemos causar a um doente com a nossa intervenção é a perda da memória. Há certas abordagens que, sabemos, podem dar um toque na memória do doente.

Pode-se apagar, alterar, modificar?


Por exemplo, o síndroma de Korsakoff faz com que a memória se associe a uma confabulação, em que a pessoa imagina...

Perante um caso absolutamente terrível, como é que comunica a situação ao doente? Ou não comunica?


Isso tem várias nuances. Há pessoas que precisam de saber. Têm uma vida complicada, têm negócios e explicam que precisam de saber quanto vão durar. Acho que isto tem de ser servido com uma grande prudência, um grande tacto. Aí entra a cultura, a percepção do que é a pessoa.

É mais difícil isso do que operar?


O mais difícil é ser perfeito nas duas coisas.

E é possível?


Não. Mas, tanto numa coisa como noutra, é preciso manter um nível de performance constante.

Alguma vez, por cansaço, disse uma coisa grave a um paciente de que se tenha arrependido?


Não lhe sei dizer. Aí, a minha memória, felizmente, é suficientemente boa para poder esquecer.

Disse que poucas pessoas precisam realmente de saber.


Não é isso. Muito poucas pessoas pedem, especificamente, para saber.

Então pergunto-lhe directamente: acha que só poucos precisam de saber?


Penso que muitas pessoas já sabem. Não perguntam porque já sabem. Aliás, isso está demonstrado. No fundo, é raro eu ter de dizer: "Olhe, é uma coisa maligna, vai morrer".

É uma questão de pudor?


Em parte. Noutra parte, é o último refúgio da esperança.

Se as pessoas não querem ouvir, o que é que diz?


Se há grandes riscos envolvidos, eu tenho de explicar. Curiosamente, as pessoas que perguntam mais coisas são as que vão ser operadas à coluna.
São operações com má reputação. Há sempre a história do vizinho que ficou paralisado, etc. A espinha é uma coisa que, no imaginário, tem uma conotação de grande ameaça.
Esses preocupam-se muito. Os outros, a maior parte das vezes, dizem: "Estou nas suas mãos".

É mesmo?


É. E é bom. Eu já conheci o sistema americano, o "signed consent", os pormenores todos a explicar, bla bla bla. O "estou nas suas mãos", dá-me muito maior liberdade de fazer bem.

Como é, em geral, a relação com os doentes? Calorosa?


Bem, há muita gente que me acha distante. Não percebo. Fico triste.

A julgar pela amostra, não é uma pessoa muito jovial...


Não sou jovial? Acho que sou normal. Vou-lhe contar uma história. Eu andei com o Eduardo Prado Coelho na mesma turma do liceu. No segundo ou terceiro ano, tínhamos de fazer um pequeno ensaio. O Prado Coelho fez sobre a psicologia. A certa altura, dentro dos vários tipos, o jovial, o colérico, etc., ele dizia: "0 Lobo Antunes é fleumático". Achei muita piada.

Quando se opera naquilo que as pessoas têm de mais essencial, o cérebro, a repetição não cria um cansaço e uma distância em relação às pessoas?


A maior parte das vezes que as pessoas acham que estou distante, estou é com a cabeça cheia. Muitas vezes, se há um doente meu que não está bem, é como se houvesse uma nuvem. Fico encoberto e não há nada a fazer. Aquilo volta, volta, volta. Como um refrão, está a ver?

Tornando um pouco atrás. Era diferente a relação de autoridade na América, quer entre médicos, quer entre eles e os doentes?


A relação entre médicos era diferente, porque nos internatos havia um sentido de hierarquia quase militar. Mas também havia a garantia de que, quando se atingia o nível, a igualdade entre os médicos passava a ser muito grande. Mudávamos de farda até, e passávamos a ser tratados pelo primeiro nome.

Como é aqui? Menos respeito e mais medo?


Acho que há um exercício natural de autoridade.

Quando voltou, foi complicada a relação com os seus pares?


Nalgumas coisas.

Por que era o estrangeirado?


Por isso e por outras razões... Em parte, porque era mais um elemento novo na competição. Tive algumas coisas, de facto. Mas não tenho o menor azedume.

Na América, em que era diferente a relação com os doentes?


Na responsabilidade. Do ponto de vista afectivo, penso que não havia uma grande diferença.

Não sente falta da diversidade que lá havia?


Há cá diversidade, muita. Entre o algarvio e o alentejano, entre o transmontano e o beirão... São completamente diferentes. Depois há uma massa cinzenta, da Grande Lisboa, Cruz de Pau...

Santa Maria é chocante, desumano, sujo...
Quando os próprios médicos atiram beatas para o chão, já vê...

Tudo aquilo é mau. As pessoas à espera de entrar para as visitas são encurraladas...
Mas visitar os doentes é uma actividade social portuguesa. Eu, às vezes, entro nos quartos dos doentes e estão para aí oito pessoas lá dentro, incluindo crianças recém-nascidas. Entro, vejo aquela gente, e digo a mesma piada: "Ah, é aqui que pára a camioneta". Quanto à sujidade, é evidente que tenho pena de trabalhar num sítio porco. Mas eu vejo as pessoas, os próprios médicos, a emporcalhar. Custa-me imenso, até porque tenho visitantes estrangeiros. Agora também acho que as pessoas são um pouco injustas na confusão que fazem entre os aspectos hoteleiros...

Hoteleiro é exagero, estamos mais a nível da pensão...


Sabe, eu às vezes tenho que me cingir. Não me meto em batalhas que não possa ganhar. Essa é uma batalha que eu não vou ganhar. Agora, na sala de operações é diferente. Tenho até muito menos infecções aqui do que tinha na América.

* Publicado na edição
do Expresso de 21/12/96