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Laureado Prémio Pessoa 1995 - Vasco Graça Moura

Ensaísta, Vasco Graça Moura nasceu no Porto, em 2 de Janeiro de 1942. Licenciado em Direito em Lisboa, exerceu a advocacia no Porto. Director, desde 1977, da Fundação da Casa de Mateus. Director de programas do primeiro canal da RTP em 1978, foi administrador da Imprensa Nacional - Casa da Moeda (1979/89). Comissário de Portugal para as exposições Universal de Sevilha e internacional de Génova, ambas em 1992. Foi comissário-geral para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses de 1988 a 1995 e director da revista Oceanos.

Militante do PPD em 1974/75, foi eleito deputado à Assembleia Constituinte, cargo que não exerceu, uma vez que foi nomeado secretário de Estado da Segurança Social (IV Governo Provisório) e secretário de Estado dos Retornados (VI Governo). Fez parte da comissão nacional de reeleição de Ramalho Eanes (1980) e da comissão política da candidatura de Cavaco Silva (1995).

Tem uma vastíssima obra literária, espalhada por géneros como a poesia (onde se estreou em 1963, com Modo mudando), o ensaio, a ficção, o teatro e a crónica. Traduziu para português a Divina Comédia e Vita Nuova, de Dante Alghieri.

Colaborador regular em jornais, revistas, rádio e televisão.
Entre os vários galardões literários que recebeu, contam-se: Prémio de Tradução da Academia das Ciências de Lisboa (1979), Prémio de Poesia Cidade do Porto (1982), Prémio Município de Lisboa (1986 e 1988), Prémio Jacinto do Prado Coelho, da Associação Internacional de Críticos Literários (1986) e Prémio da Poesia do PEN Club (1994).

Desde 1996 que dirige o Serviço de bibliotecas e Apoio à Literatura da Fundação Calouste Gulbenkian.

Entrevista ao Expresso

"Não acredito na inspiração. Sou um acérrimo defensor da técnica, do trabalho. Quando a técnica é boa consegue-se pensar que houve inspiração."

Escritor, tradutor, amante dos clássicos, não acredita em inspirações e aposta na técnica. Queixa-se de que responde torto porque o provocam e tem uma aversão genética à turba desenfreada. Intelectual do Renascimento, orientar os pintores sobre as poses e gestos dos modelos é o que o teria divertido realmente. Apreciar o "belo sexo" não lhe parece machismo, mas agradável propensão. Apesar das críticas a António Guterres, talvez lhe aceitasse um cargo, desde que não fosse de confiança política. Do que não restam dúvidas é que se considera um "bonus paterfamilias" bem comportado e não só em privado.

Acaba de lhe ser concedido o Prémio Pessoa. Qual pensa ser o domínio da sua intervenção em que o prémio incide preferencialmente?


Penso que incide preferencialmente na trajectória do poeta. Embora o comunicado do júri refira a carreira literária, julgo que teve em vista, sobretudo, o lado da poesia, que é o mais lindo na minha carreira e aquele que tem sido mais apreciado, em termos de crítica.

É então como poeta que gosta de se reconhecer?


Gosto de me reconhecer como escritor. O facto de me ter iniciado mais tarde noutros géneros, nomeadamente o romance, tem a ver com a evolução da minha vida e também a inovação dos computadores, que teve uma importância muito grande no acréscimo da minha produção literária.

Não acha que o prémio pode ser interpretado como um desagravo pelo facto de ter sido demitido da Comissão dos Descobrimentos?


Admito que em termos de opinião pública se estabeleça essa relação, mas penso que isso não pesou de todo na deliberação do júri.

O prémio do ano passado foi atribuído a Herberto Hélder, que o recusou. Você tem uma atitude completamente diferente.


Tenho uma atitude mais prática. O prémio deu-me muito prazer. Acho que a atitude de Herberto Hélder é de uma enorme dignidade, mas não é a única possível. Tanto assim que há mais sete premiados que o receberam. Os poucos prémios literários que me foram concedidos, sempre gostei muito de os receber, mesmo quando não tinham um significado monetário expressivo: é o caso do prémio pela tradução de Shakespeare. O prémio do PEN, no ano passado, e agora este são os dois prémios mais importantes que recebi, porque têm uma repercussão maior junto do universo dos leitores e do público em geral.

Gostava de ser um "best seller"?


Claro que sim. Para já, isso permite a profissionalização. O sonho da minha vida era ter condições materiais para ficar só a escrever.

Escrever é algo em que pensa dessa maneira, em abstracto?


Não tenho projectos à distância. O que existe à distância é uma longa ruminação, uma longa elaboração, não de uma ideia, não de um projecto, mas de algo que propicia o acontecer de certas coisas. Por exemplo, se não tivesse estado em Fevereiro a traduzir a Vita Nuova e isso não tivesse implicado mergulhar no universo de Dante, certamente que não me tinha ocorrido atirar-me à Divina Comédia.

E em relação à poesia, ela surge de maneira mais aleatória?


Estive muito tempo sem escrever poesia, depois de ter publicado A Furiosa Paixão Pelo Tangível, em 1987. Mas numa viagem de comboio de Frankfurt até Bona fui-me embalando num poema retomando alguns tópicos de Heine, e poucos meses depois já tinha uma série de poemas que deram 0Concerto Campestre. Mas também pode acontecer por razões mais estranhas. Em Agosto, estava eu com o Dante em plena efervescência e tinha de fazer um editorial para a revista Oceanos. Não tinha tempo nem condições para me atirar ao Camões e escrevi um longo poema que saiu como editorial, intitulado "Regresso de Camões a Lisboa", que se apoia factualmente numa peripécia biográfica: estava eu em Goa a ler as dez canções, e às tantas já não sou eu quem está ali, opera-se uma forma de despersonalização.

Camões é o único autor que o consegue pôr nesse estado...


Pelo menos para este efeito, o de escrever o editorial para a Oceanos, foi com certeza.

Terá sido uma inspiração, apesar do que diz num dos seus sonetos familiares: "Eu acredito/mas é na técnica. nunca a inspiração/ me deu fosse o que fosse. nem um grito."?


Não acredito na inspiração. Sou um acérrimo defensor da técnica, do trabalho, da capacidade de expressão através do esforço, da aprendizagem. Penso que quando a técnica é boa consegue-se fazer pensar que houve inspiração.

É a importância concedida ao aspecto técnico, ao trabalho, que o leva a fazer traduções que implicam grandes constrangimentos formais?


Talvez. Por exemplo, a língua que domino melhor é o francês, no entanto sempre me apeteceu foi traduzir de outras línguas, como o alemão ou o inglês, que têm para mim uma maior opacidade. Mas o verdadeiro impulso para a tradução vem de outra coisa: vem do facto de um verso ou uma sequência que me fascinavam me aparecer em português, como me aconteceu uma vez com um soneto de Shakespeare. Essa foi a origem da tradução dos sonetos de Shakespeare, e nas outras traduções foi muito parecido. No caso do Rilke, há um soneto que exercia sobre mim um fascínio especial. Tinha tentado traduzi-lo, mas não chegava a um resultado satisfatório. De repente encontrei a forma e atirei-me à tradução, como se tudo se tivesse tornado inteligível. A velocidade tem a ver com o facto de despertar para a compreensão, para a percepção da rede do próprio autor que está a ser traduzido. Chegado esse momento privilegiado, não posso fazer cortes ou interrupções. Concebo a tradução como uma incorporação no património literário português. A Sophia, pelo contrário, como tradutora, diz que devem ficar à vista as marcas de que se trata de um texto traduzido.

Por isso é que o seu nome aparece como se fosse o autor do livro que traduz?


Exactamente, o Jorge de Sena fazia o mesmo. Acho que há uma dimensão autoral, de apropriação, de plágio legitimado, na tradução literária, tal como a entendo.

Disse uma vez que gostaria que a Sophia ganhasse o Nobel.


Gostaria que qualquer escritor português ganhasse o Nobel. Com os problemas que temos de afirmação externa da nossa cultura, um Nobel para Portugal seria muito importante. Mesmo que fosse um autor de que eu não gostasse, saudaria o acontecimento com entusiasmo. No entanto, sem ignorar que o Eugênio de Andrade, o Ramos Rosa, a Agustina ou o Vergílio Ferreira são nomes perfeitamente nobelizáveis, parece-me que a Sophia consegue manter ao mesmo tempo um imperativo estético e um imperativo ético que ninguém mais consegue manter na literatura portuguesa.

Lendo os seus ensaios sobre literatura, vê-se que os seus interesses não incidem sobre autores recentes. Interessa-se pouco pela literatura mais contemporânea?


Como tenho geralmente agendas muito ocupadas, o pouco tempo de que disponho é para escrever e menos para ler, ou então é para fazer leituras de investigação, instrumentais. E reconheço também que o meu registo de escrita poética não é actualmente muito sintonizado com o que as novas gerações estão a fazer, nem penso que tivesse de ser.

O mesmo se passa na música, onde manifesta uma grande incompreensão pela música pop, e na pintura.


Aos 16 anos eu era mais ou menos parvo e não gostava de música ligeira, e nessa medida escapou-me muita coisa. Quanto à pintura, o único jovem pintor de que gosto muito é o Pedro Calapez. Mas a faixa que vai do Pomar a Paula Rego, passando pelo Resende, pelo Angelo e pelo José Rodrigues, é a que me diz mais, o que é natural, tenho 54 anos, não tenho 26. Tanto a minha escrita como as minhas preferências nas artes plásticas são muito marcadas pelo figurativo. Na música, parei talvez no Richard Strauss. Mas enquanto fazia a tradução da Divina Comédia dei comigo a ouvir grandes doses de Sofia Gubáidulina, que é um dos autores mais modernos que existem neste momento, talvez porque precisava de uma deriva musical mais áspera. Mas, de um modo geral, detesto coisas do tipo Pierre Boulez, Stockhausen, etc.

A sua relação privilegiada é com os clássicos. De algum modo, o trágico e a dilaceração próprios da modernidade são-lhe estranhos.


Todas as modernidades são relativamente precárias. Não tenho qualquer propósito de me opor à modernidade ou de dizer: "Vou escrever uma coisa estável, que vai ficar". Não me situo na intemporalidade. Procuro é escrever aquilo que escrevo como sinto mais autenticamente que o devo fazer. Seja como for, também tenho poemas com um "pathos" sombrio e dilacerado, por exemplo num livro chamado Nó Cego, O Regresso. O que não me preocupa é se o que estou a escrever é moderno ou "dépassé".

Evidentemente não estávamos a falar de "moderno" por oposição a "dépassé". Não se trata do moderno como uma espécie de programa a seguir...


É preciso ver que o Pessoa ortónimo recorre a processos que não são propriamente de vanguarda, e o mesmo se passa com o Nemésio, para falar de dois autores em relação aos quais tenho reacções diferentes: gosto muito do Nemésio e pouco do Pessoa.

O que é que lhe desagrada em Pessoa?


Desagrada-me muito um jogo de pronome reflexo que já vem do Cancioneiro de Resende, de alguma maneira, e é o prolongamento de uma tradição que começa em Santo Agostinho.

É curioso dizer que já vem tão de trás precisamente o que em Pessoa é considerado inaugural. Tratar-se-á exactamente da mesma coisa? No fundo, quando diz "desagrada-me um jogo de pronome reflexo", está a reduzir a questão da fragmentação a uma mera questão gramatical.


Uma vez fiz uma "boutade" sobre o Pessoa a que no jornal A Capital chamaram "o graça moura do ano": disse que Pessoa era o "poeta Aleixo do razão". E não consigo sair desta leitura. Mas se calhar isto diminui-me a mim, não diminui Pessoa.

Há uma certa discrição da sua actividade enquanto poeta que contrasta com a exuberância das suas outras actividades públicas.
Não apenas enquanto poeta, também enquanto autor em qualquer das áreas.

Nunca sentiu que as duas coisas entravam em conflito?


Acho que sou radicalmente um tímido, por estranho que pareça, e nas coisas que me tocam mais fundo sou ainda muito mais.

Mas isso nunca o impediu de ser bastante truculento e até de ultrapassar, nos seus comentários políticos, alguns limites razoáveis.


Não sou um caso único. O meu registo foi condicionado por registos alheios. Há comentadores afectos a outras áreas que levaram a veemência e a agressividade de expressão a registos semelhantes, senão mesmo mais excessivos. Em segundo lugar, as polémicas em que entrei nunca fui eu a iniciá-las. Quando todos gritam, quem gritar mais alto tem mais hipóteses de ser ouvido. Seja como for, não acho que a minha argumentação tenha tido algo de excessivo, nem sequer é verdade que eu tenha sido mais cavaquista que o próprio Cavaco Silva. Por vezes, também tive posições críticas em relação às posições do PSD.

Mas não seria de esperar, enquanto intelectual, que se pusesse acima, ou ao lado, dessa gritaria generalizada?


Foi o Dr. Soares quem falou da capacidade de indignação. A maior parte das vezes era um problema de indignação que se estava a exprimir por essa via. Era a minha forma de buzinar.

É isso que justifica a sua truculência, ou mesmo, permita-me dizê-lo sem ofensa, o seu aspecto um pouco arruaceiro?


Costumam-me chamar caceteiro, trauliteiro e arruaceiro. Acho espantosa a singularidade da adjectivação. Tenho colegas na matéria e nunca vi utilizar esses termos em relação a eles. O pior que utilizei em relação a um deles foi "almocreve", o que apesar de tudo é mais "soft".

Disse as piores coisas de António Guterres. Se ele viesse a oferecer-lhe um cargo político aceitaria?


Se fosse um cargo de confiança política não aceitaria, apenas por uma razão de coerência com a própria situação em que me encontrei, uma vez que foi por questões de confiança política que a minha posição na Comissão [para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses] terminou.

E um cargo que não fosse de confiança política?


Nunca pensei nisso. Se se tratasse de uma situação que não envolvesse qualquer perda de dignidade, se me fosse pedido por uma razão qualquer em que houvesse interesse em utilizar uma competência minha para um determinado objectivo, ponderaria a situação.

Se não estivesse ligado ao poder, se trabalhasse sem rede, também se permitia os mesmos excessos?


Mas eu trabalhei sempre sem rede! Estive no Governo em 1975, pedi a demissão. Estava na RTP e saí porque ousei reivindicar um estatuto de independência. Apoiei o general Eanes numa altura em que a AD estava no poder. Apoiei o PRD em 1985, numa altura em que o Bloco Central estava no poder. Saltei da Comissão dos Descobrimentos por motivos que não quero explorar, mas, pondo-se a questão da confiança política, isso significa que eu trabalhei sem rede ao longo de muito tempo. E na verdade não sou um político, nunca estive interessado na carreira política. Mesmo a minha intervenção como analista acontece inesperadamente, comecei-a por indignação. Depois foi prosseguindo com todos os riscos inerentes, numa tradição de polémica que faz parte da história político-literária portuguesa, se quiser. E uma intervenção que vem de trás, de 74 e 75, altura em que cheguei a ter um processo na 5' Divisão por ter pedido a extinção do Directório do MFA e do Conselho da Revolução. Fi-lo no dia 4 ou 5 de Setembro, poucas horas antes do general Vasco Gonçalves ter pedido a demissão. Naquela altura era não só um risco, até mesmo físico, mas um tipo de afrontamento radical, ainda mais do que as coisas que escrevi nos últimos anos, que têm sobretudo a ver com um ponto de vista que me parece inquestionável, o de que o combate político deve fazer-se no quadro das instituições democráticas. Não faz sentido aceitar, por um lado, as regras do jogo e, por outro, criarem-se mecanismos paralelos de sabotagem desses mecanismos. Aquilo a que temos assistido nos últimos oito anos é à tentativa de subverter a legitimidade decorrente das situações eleitorais e dos mecanismos constitucionais. Defendo que haja uma ordem
democrática, um exercício de autoridade democrática, um certo tipo de estabilidade...

Mas esses são os princípios defendidos por toda a gente...


Não sei. As vezes há quem faça o jogo e faça batota ao mesmo tempo.

As chamadas "forças de bloqueio".


As forças de bloqueio são apenas um exemplo, e a discussão sobre isso foi aliás distorcida e continua a sê-lo. A leitura que eu faço do que foi dito na altura pelo prof Cavaco Silva e por pessoas que lhe eram próximas não é que as forças de bloqueio fossem propriamente o Presidente da República, os tribunais, o Procurador-Geral da República, o Provedor ou o Parlamento, mas sim os interesses agrupados em "lobbies" ou noutro tipo de grupos que pretendiam transformar essas instituições em forças de bloqueio. E isto é bastante diferente. Eu não aceito a autoridade desregulada que se sobrepõe às regras do jogo aceites em eleições livres. Há uma conflitualidade legítima decorrente da diversidade partidária e da liberdade de expressão, mas o que se passou nos últimos oito anos foi uma distorção disso.

Relendo o conjunto das suas coisas nos jornais adivinha-se em si um medo quase genético da instabilidade.


Sim, tenho uma aversão visceral à instabilidade, gosto da ordem, da proporção, do peso e da medida. Sou absolutamente anti-Maio de 68, por exemplo, até escrevi "uma boa merda, os anos 60".

Gostaria, no fundo, de estar ao pé de um príncipe, como já disse numa entrevista.


O que eu de facto disse foi que gostaria de ter sido um desses intelectuais que forneciam programas aos pintores. Quando o Boticcelli pinta a Vénus ou a Primavera, cada gesto, cada posição, tem por detrás um texto que um humanista lhe forneceu. A iconologia veio demonstrar isso: não há praticamente nenhuma grande pintura do Renascimento que não tenha por trás um programa fornecido por um intelectual. E isso é o que me teria divertido imenso.

E se não houvesse príncipes?


Eu detesto a autoridade desregulada, a autoridade totalitária, a autoridade que se sobrepõe àquilo que eu considero, burguesmente, se quiser, o mecanismo democrático de que temos a experiência na sociedade ocidental.

E o que se passa agora em França?


É altamente preocupante, porque vai alastrar e qualquer dia teremos isso em Portugal. E se isso acontecer, o actual Governo corre o risco, com algumas atitudes que já tomou, de tornar inoperantes ou ineficazes determinadas estruturas encarregadas de manter a ordem. O meu receio é que situações do tipo da desautorização da hierarquia da PSP e outras que se lhe possam seguir venham criar a possibilidade de que isso aconteça. Na situação limite pode acontecer o caos, o "bouleversement". Por outro lado, a questão da segurança social e da impossibilidade de manutenção do Estado-providência, com a extensão e o tipo de regalias que tem nalguns países, a impossibilidade de o sistema dispor dos meios financeiros para fazer face àquilo com que os beneficiários contam, produziu uma ruptura. Mas essa questão, que é certamente muito complicada, não se resolve com gente na rua nem com greves. Também não sei como se resolve.

Não haverá aí uma certa incompreensão em relação ao seu próprio tempo, ao contrário do que seria de esperar de um intelectual?


O tempo é feito de teses, de antíteses, de interacções. O tempo é muito proudhoniano. Não sou hegeliano, nem muito menos marxista, mas a interacção sucessiva e simultânea de muitos factores, própria do nosso tempo, supõe que haja muitas atitudes diferentes. A minha é uma delas. E uma atitude que eu não chamaria tanto conservadora mas estabilizadora, no sentido clássico. Depois das grandes mutações, no caso de Portugal bastou o fim do império colonial para introduzir um grande sobressalto em todas as estruturas da vida portuguesa. Penso que chegou um tempo de normalização. Sou um defensor da razoabilidade, da sensatez, da ordem, não a imposta, mas a que nós aceitamos.

Deixe-me usar uma imagem embora a reconheça excessiva: é como se lá fora estivesse a multidão e o senhor com um pé na porta tentando impedir a entrada.


Mas eu tenho os meus direitos... Se o Estado me fornece um dispositivo de segurança que permite que o meu direito não seja lesado, encantado da vida, senão sou vítima da força. É tão totalitário um procedimento estaliniano como uma massa desencadeada. A pressão social torna-se intolerável quando degenera em massa à solta nas ruas.

Deixe-me ler-lhe uma passagem de uma crónica que publicou no Diário de Notícias em Julho de 94: "E hordas de estudantes... E mais camionistas. E ferroviários. E outros descontentes. E a imprensa cobre, cobre a escalada..."
Aí é inspirado em António Gedeão...

"... Hão-de vir os médicos. Os enfermeiros. Os funcionários. Os presos. Os polícias. Os sindicatos. E a rádio cobre, cobre a escalada. Há gente que não respeita nada nem ninguém..."
Não me enganei, não me enganei.

"... Virão ainda os carteiros, os estivadores, os dos estaleiros, os ecologistas, os criadores de gado. Virão metalúrgicos e operários do têxtil e da construção civil. Freguesias em pânico por questões de lixo e aterros. Bloquearão estradas e farão pior. Perturbações da ordem pública (...) gente ofegante."
Tudo isso que escrevi foi profético. E há o efeito mimético dessas situações, às tantas gera-se uma situação desregulada, imparável. Isso que leu tinha uma função panfletária, mas não me enganei. Só quanto aos resultados eleitorais é que me enganei três vezes sucessivas, quanto às europeias, quanto às autárquicas e quanto às legislativas.

Arriscar-se-ia a prever o resultado das eleições?


Espero que o Prof Cavaco Silva ganhe. Mas é um trabalho difícil, o grande problema é o momento tardio em que a candidatura arrancou, mas acho que tem grandes probabilidades de ganhar, e pela minha parte farei tudo por isso. Mas voltando atrás, a grande questão não é ter aversão à massa desencadeada. A grande questão é que eu sou um cidadão com direitos e obrigações e não há nenhum outro cidadão, nem muito menos um grupo de cidadãos, que tenha o direito de me impedir o uso dos meus direitos. É um princípio pelo qual me baterei até ao limite das minhas possibilidades.

Mas tem medo do seu tempo?


Não tenho medo do meu tempo. Procuro intervir nele, dentro de um quadro de valores que é o meu. Penso que o que põe as pessoas mais perplexas é a minha diversidade de registos de intervenção, a que hoje estamos pouco habituados, muito embora haja precedentes interessantes na cultura ocidental. É o caso de Garrett, por exemplo, que interveio simultaneamente no Parlamento e no plano da criação literária pura; é também o caso de Dante, que é um político, um panfletário, um guerreiro. De um modo geral, o que detesto são os extremismos, os radicalismos, sou um moderado.

Mas às vezes parece um radical.


Fui levado a isso pelo jogo de pingue-pongue que se jogava em Portugal. Mas no fundo, sou um moderado.

Com estes assomos, ninguém diria.


Mas esses assomos são suscitados. Se por hipótese vou a passar numa rua e se os outros se comportam da mesma maneira, não vem daí nenhum mal ao mundo; mas se vem um tipo e me dá uma bofetada, eu tenho de me defender.Terei provavelmente cometido excessos nas coisas que disse ou escrevi. Mas também como autor pago esse preço.

Que preço?


Penso que há muita gente que tem em relação a mim, como autor, preconceitos que derivam da minha imagem como comentador.

Se estivéssemos na América, voçê seria considerado politicamente incorrectíssimo: a favor da pena de morte e contra os homossexuais. Cito o que escreveu na revista Ler...
...Foi publicado na Ler, mas dizendo que era um fragmento de um romance, e depois entrou na Partida de Sofonisba...

..".Fomos educados num saudável desprezo por maricas, sindicalistas, e outras castas menores"


É uma personagem que diz isso, e é verdade. Mas vamos lá situar as coisas. Comecemos pela pena de morte. Eu disse sempre que há pelo menos três tipos de crimes para os quais não vejo meios de defesa social que não seja a pena de morte: os crimes sexuais contra crianças de tenra idade, seguidos de homicídio; os crimes de homicídio por razões étnicas; e os de terrorismo seguidos de homicídio. Mas também disse sempre que não fazia sentido um país instaurar a pena de morte, que era um problema que devia ser pensado no quadro de um conjunto de países, nomeadamente a União Europeia. Quanto à questão dos homossexuais: escrevi um artigo a gozar com o Clinton por admitir a entrada de homossexuais no exército americano. Assim como penso que não se dever pôr um alcoólico a guardar um armazém de vinhos, por exemplo. O que não tem nada a ver com a liberdade que eu reconheço a cada um de orientar a sua vida como quiser e de considerar que há direitos que daí devem decorrer, nomeadamente direitos de protecção social. Tal como isso não me impede de ter importantes relações de amizade e convívio cultural com muitos homossexuais. Mas é um facto que, nos anos 50, na minha adolescência, nos era incutido um certo tipo de distância e de desprezo em relação aos homossexuais. Mas quem fala, nessa citação, é uma personagem de um romance meu que, tal como eu, nasceu na Foz do Douro. O que se retrata nessa citação é a educação de uma geração, a minha, que foi assim. De resto, não tenho nenhum problema em relação aos homossexuais.
Recentemente, na campanha eleitoral, houve problemas muito mais agudizados, num sector que na América seria considerado politicamente correcto, com soluções que, a meu ver, não foram politicamente correctas. Eu escrevi uma "charge" contra o Clinton pela qual terei de pagar toda a vida. A citação da Ler, que pertence à Partida de Sofonisba, não tem relevãncia. O que teve foi o artigo na Sábado, "Uma Rumba para Rambo". De facto, penso que não se pode pôr um drogado a tomar conta de um armazém de drogas...

Mas não há qualquer analogia entre essas duas situações...


...Tem que ver com o pôr próximo...

...Da tentação...
...Da tentação, se quiser. Repare, o Dante diz que ao César na Bitínia chamavam-lhe rainha...

... Isso sim, à maneira da educação clássica...
Mas eu não pretendo ter absorvido a totalidade do mundo clássico e dos seus costumes. A questão dos homossexuais é muito delicada para uma sociedade como a nossa. E nesse aspecto a sociedade portuguesa evoluiu menos do que outras sociedades.

Seja como for, não deixa de haver aí uma nomeação que é, desde logo, discriminação.


O que eu discutia no artigo era o facto de Clinton defender a admissão dos homossexuais enquanto tais. Seria uma veleidade totalitária dizer assim: "Esse senhor é um homossexual, não pode ir para a tropa". Não é nada disso. O que eu discutia era que isso fosse uma medida política enquanto tal. Não tenho nada contra a situação individual; tratava-se de uma questão global, em relação ao corpo militar..

... Que seria desestabilizado...


Penso que sim. Mas não sou um especialista.

Também aí a sua personagem diz que nunca lhe passou pela cabeça matar o pai ou dormir com a mãe.


Era um gozo freudiano. É verdade, tive uma relação com os meus pais sem crises. Tive um crescimento tranquilo.

Apesar do tumulto que revela nas suas intervenções.


Os romanos tinham no direito o conceito de "bonus pater familias", o cidadão comum, mediano, que corresponde ao meu ideal de vida. Tomo-me por isso, e não só no plano familiar.

O que não impede que tenha fama de machista.


Não me considero minimamente machista. O que caracteriza o machismo é tomar a mulher como objecto. Toda a minha vida, incluindo o meu percurso sentimental, se caracterizou pela atitude oposta, considerar a mulher como um sujeito paritário em relação a mim. Sou de facto apreciador do belo sexo, mas isso não é machismo, é uma propensão.

Como é que consegue trabalhar tanto sem alguém que tome conta de si?


Tenho na minha mulher uma compreensão enorme e uma disponibilidade total. Se, por exemplo, gastei dinheiro a mais a comprar um livro, nunca lhe ouvi nenhuma censura. E a minha voracidade em matéria de livros criou-me por vezes gravíssimos problemas.

A sua tradução da Divina Comédia foi a causa imediata da atribuição do Prémio Pessoa. Já obteve reacções de especialistas, avaliando o seu trabalho?


A Luciana Stegagno Picchio, a quem fui mandando a pouco e pouco toda a tradução, já se pronunciou e fez, como sabe, a apresentação da obra. Quanto ao prémio, penso que não têm razão os que acham tratar-se de uma espécie de desagravo por eu ter sido demitido.


* Publicado na edição do Expresso de 30/12/95