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Laureado Prémio Pessoa 1994 - Herberto Helder

Poeta, Herberto Helder nasceu no Funchal, em 23 de Novembro de 1930. Veio para Lisboa aos 15 anos. Em Coimbra, estudou Direito e Filologia Românica.

Viu publicados os primeiros poemas na colectânea Arquipélago, em 1952. Integrou o grupo do Café Gelo, juntamente com Mário Cesariny, Luís Pacheco, António fortes, e outros.

Publicou o seu primeiro livro, O Amor em visita, em 1958, ano em que partiu para França, com posterior passagem pela Bélgica, Holanda e Dinamarca. Em 1959, estreou-se na prosa, com Os Passos em Volta. O regresso a Portugal deu-se em 1960, passando a trabalhar nas bibliotecas Itinerantes da Fundação Gulbenkian. Esta foi uma das suas múltiplas profissões, entre as quais as de empregado bancário, angariador de publicidade, delegado de propaganda médica e redactor da Emissora Nacional. O volume Apresentação do Rosto foi apreendido pela censura em 1968, na mesma altura em que foi condenado, com pena suspensa, pela colaboração na edição de Filosofia na Alcova, de Sade. Director literário da editorial Estampa em 1969, viajou por Angola em 1971, tendo assinado com pseudónimo várias reportagens na revista Notícias, de Luanda.

Em 1973, publicou Poesia Toda, que viria a ser objecto de várias edições corrigidas e aumentadas. A Última Ciência foi editada em 1988. O mais recente volume é de 1994 e tem o título Do Mundo. Recusou o prémio de poesia do PEN Club de 1983.

Alguns dos livros mais significativos estão traduzidos em espanhol, francês e italiano.

Coerente com toda a sua conduta pessoal e literária, Herberto Helder não aceitou o prémio; ao ser informado da decisão do júri, comentou: "não digam a ninguém e dêem o prémio a outro".

Entrevista ao Expresso

O olhar é um pensamento. Tudo assalta tudo, e eu sou a imagem de tudo. O dia roda o dorso e mostra as queimaduras, a luz cambaleia, a beleza é ameaçadora.
Transmitem-se, interiores, as formas.
- Não posso escrever mais alto.
Do Mundo (1994)

A obra contra a vida

Seria um protocolo simples e um facto quase inócuo -fornecer alguns dados biográficos de Herberto Helder se o poeta não se tivesse encarregado de fazer da sua obra uma experiência de dissipação da vida, em favor da soberania absoluta da sua arte: a poesia..

Seria fácil acompanhar o percurso do cidadão Herberto inscrever as datas obrigatórias da sua história soal, esboçar em traços largos a "Vida e Obra de ...", se a única maneira de ler a sua obra não fosse a que apreende uma radical não contemporaneidade do poeta em relação à História, uma não coincidência da voz poética em relação a todos os factos e contingências de uma identidade civil.

Cumpra-se o protocolo, mas na condição de termos esta lição bem presente: falando do homem, justapondo as datas e os acontecimentos da sua biografia, corremos o risco de nos desviarmos do princípio assim formulado: "Tenho de inventar a minha vida verdadeira".

Apenas alguns dados mais significativos. Nasce no Funchal, em 1930. Parte para Lisboa, em 1946, onde faz o 6° e o 7° anos do Liceu. Em 1948, matricula-se na Faculdade de Direito de Coimbra e, em 1949, muda para Letras, onde frequenta, durante três anos, o curso de Filologia Românica. Quando, em 1955, regressa a Lisboa, frequenta o grupo do Café Gelo, de que fazem parte nomes como Mário Cesariny, Luiz Pacheco, António José Forte, João Vieira e Hélder Macedo. Trabalha então como delegado de propaganda médica.

Em 1958, publica o seu primeiro livro, 0 Amor em Visita, e parte para França, que será um destino tão provisório quanto os que lhe seguiram nos dois anos imediatos: Bélgica, Holanda e Dinamarca . Durante esse tempo, vive de empregos vários (criado de cervejaria, carregador de camiões, guia de marinheiros em bairros de prostituição, etc.), até regressar de novo a Portugal, em 1960, começando por trabalhar nas bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, de onde passou para a Emissora Nacional, como redactor de noticiário internacional.

Em 1961, publica A Colher na Boca e Poemacto e, em 1963, a sua primeira obra em prosa, Os Passos em Volta. Em 197 I , quando parte para Angola, a sua obra já conta com novos títulos: Electronicolírica (alterado, na sua Poesia Toda, para a Máquina Lírica), Húmus e 0 Bebedor Nocturno. Em 1972, regressa novamente a Portugal (dados retirados do livro de Maria de Fátima Marinho, Herberto Helder, o Homem e a Obra).

Nessa altura, a sua obra é já uma referência importantíssima na poesia portuguesa, passando Herberto Helder a ser um poeta tão incontornável, e de uma força tão difícil de a ela não se sucumbir, quanto o fora Fernando Pessoa para a chamada segunda geração modernista.

Podemos procurar nos seus textos os vestígios destes dados biográficos. Mas só os podemos encontrar para reconhecer a alteridade e a anterioridade do poético em relação a eles, uma forma de memória que assume a imemorialidade e em que "a escrita afasta concretamente do mundo". Todos os protocolos de identificação referencial são perturbados e, em última instância, é sempre para um tempo sem datas e para uma topografia não localizável que remete a sua poesia. Ela obriga-nos, de uma maneira radical, a esquecer a longa história de rivalidades e conivências, de aproximações e diferenças, entre as palavras e o mundo. A esquecer, em suma, todas as formas de identificação entre a linguagem e a vida.

Uma poesia que "não é feita de sentimentos e pensamentos, mas de energia e do sentido dos seus ritmos" (Photomaton & Vox), só pode falar um idioma que não releva do código que assegura a comunicação, e a verdade terrível que traz consigo - a sua capacidade para converter todas as formas em intensidades que nenhuma outra linguagem pode nomear- não pode ser redutível ao prazer estético ou tornar-se um auxiliar da cultura.

Uma obra deste tipo afirma a absoluta soberania da palavra poética. Em relação a ela, aquele que a criou encontra-se de certo modo injustificado. Por isso, a constante atitude de retirada de Herberto Helder é um gesto coerente que não se faz contra nada nem contra ninguém, é a afirmação radical de uma experiência que não responde a mais nada senão a ela própria.

Desviando-se de todos os cerimoniais públicos que reclamam a presença do poeta na sua identidade civil e como imagem na qual a sociedade e as suas instituições se podem representar na sua generosidade mecenática, Herberto Helder não recusa nada nem lança declarações de guerra. Nele, e isto é fundamental para perceber a sua obra, há apenas a vontade de reduzir a poesia - a sua arte - ao que lhe é essencial, fazendo ver (para quem queira perceber) que tudo o que é exterior a ela constitui um ruído que a desvia do seu lugar próprio e nos impede de aceder à nudez obscura de uma palavra nula, nua e estranha. Como Herberto Helder escreveu em Poemacto (1961):

Eu penso mudar estes campos deitados, criar um nome para as coisas.

Onde era estábulo, na doce morfologia,
fazer com que as estrelas mugissem
e as poeiras ressuscitassem.

Dizer: rebentem os taludes, enlouqueçam as
vacas, que minha inteligência se torne terrífica.

Unir a ferocidade da noite ao inebriado movimento da terra.

Posso mudar a arquitectura de uma palavra.

Fazer explodir o descido coração das coisas.

Posso meter um nome na intimidade de uma coisa e recomeçar o talento de existir.

Meto na palavra o coração carregado de uma coisa.

Eu posso modificar-me.

Ser mais alto que a corrupção.


"Não digam a ninguém"

Texto de António Alçada Baptista

Foi assim: ninguém tinha o telefone do Herberto Helder, eu só sabia o nome da rua porque tenho muita dificuldade em decorar números. Foi então que a Clara propôs irmos à procura do poeta na rua que eu tinha. Só havia dois prédios de habitação. Um deles, era quase uma torre e tinha um painel de campainhas. A Clara tocou uma delas, ao acaso. Daquela gradinha de rede veio uma voz. "Quem é?". A Clara perguntou se era da casa do poeta Herberto Helder. "Mas quem é?". Ela disse o seu nome. Então a porta abriu-se e nós subimos. A Olga estava à entrada da casa. Eu gosto muito da Olga, primeiro por ela e depois porque nos toma conta do Herberto. Digamos que ele faz parte do nosso Património e ela é a Conservadora. Eu disse-lhe baixinho: "Olga, o Herberto ganhou o Prémio Pessoa, são sete mil contos.

Como é que isto vai ser?"
Ela fez-me uma cara de conformação e só com um gesto de cabeça fiquei a saber que não iria aceitar.

O Herberto estava na sala. Falou à Clara e depois a mim.

Eu disse, meio a brincar meio a sério: "Vimos numa difícil missão..."

Ele, com toda a simplicidade dele, disse-me logo que não, calculando que era um prémio.

Não foi possível demovê-lo e sentimos que aquilo era tão fundo e tão importante que não devíamos insistir. Ele disse:

"Vocês não digam a ninguém e dêem o prémio a outro... "

"Não pode ser, o júri escolheu-te a ti, a decisão está tomada; respeitamos que digas que não... "

Ele ainda acrescentou:

"Peço que vocês sejam meus mandatários e digam ao júri que eu agradeço mas não posso aceitar"
Eu queria transmitir bem que não havia aqui nenhuma arrogância: a sua recusa não era contra ninguém. Era uma decisão do seu mais íntimo, que logo nos mereceu o maior respeito. Eu só lhe disse: "Eu já gostava de ti e vi agora que é possível ainda gostar mais..."

A Clara falou muito com ele porque ambos gostavam de se conhecer. Ela sabe fazer conversas inteligentes como se fossem banais. A certa altura viemos embora com alguma comoção por dentro e desabafámos no carro.

"Já ninguém faz isto... "

"Todos ganhámos este prémio. Quando a regra é a procura de dinheiro, é bonito que um homem pobre dê exemplos assim. "
Eu, confesso que passou pela cabeça de um bocadinho de mim que ele pudesse aceitar o prémio. Sempre eram sete mil contos. Talvez uma segurança até ao fim da vida. A verdade é que quase me apeteceu voltar atrás e pedir-lhe desculpa por este "mau pensamento". Mas eu era um homem feliz: o Herberto não nos deixou ficar mal...


Louvor e simplificação de Herberto Hélder

Texto de Clara Ferreira Alves

O dinheiro "fazia-me jeito, estou a precisar de um helicóptero", diz o Herberto. Para as viagens ele utiliza - que seria de nós sem um cómico "cliché"? - as asas do poema. E no passeio em frente à casa, onde o António Alçada e eu medimos os passos em volta do poeta, é proibido aterrar. É não. Por razões pessoais e secretas, a pessoa recusa o Prémio Pessoa.

Há uma regra de senso nestas coisas da literatura. Nunca conhecer de perto quem se admira muito. Nos idos de 60, este senhor publicou Os Passos em Volta, que é uma prosa de diamante, clara e dura, eterna. E havia a poesia, ouro garimpado com esforço, separando as palavras da terra que as enlameia, da pedra que as confunde, da corrente que as arrasta. Quase ninguém tem paciência e braço para tal trabalho de homem, a tempo inteiro, mal remunerado. Como diz o António. "Tem um preço, ser o Herberto Helder".

Sete mil contos não chegam.

A casa é pobre, de quem cuida mais dos versos que de si mesmo. O monte de papéis, os livros à beira do abismo, os desenhos na parede, o costume. Os escritores ora são desabridos ora desarrumados. O que não são é desprendidos. O escritor respira a contemporaneidade e aspira à posteridade, sabendo que para ter a segunda precisa da primeira.
Este senhor desprendeu-se. Os elogios caem-lhe das mãos, a notoriedade explode-lhe na cabeça. Enfim, "não quer dormir sobre o assunto? Este prémio não é um prémio literário, etcétera".
Ele quer falar de tudo menos de prémios. Ou de dinheiro. "Seria vil eu aceitar por causa do dinheiro". Diz as palavras como se estivesse a compô-las, Vil é uma palavra escolhida, serve para a ironia e a seriedade, embora o substantivo seja a especialidade do Herberto.

O António Alçada e eu demos mais uns passinhos em volta... Não? NÃO.

Partíramos de Seteais buscando um homem, como Diógenes, e tínhamo-lo encontrado. O António arrumou as emoções e, composto na frase: "Sabes que te digo? Ainda gosto mais de ti por causa disto."

Batemos para Sintra, por uma estrada sem mistério, ruminando o mistério das palavras e dos que ainda as escrevem.

Foi um prazer conhecer a pessoa do Herberto.

* Publicado na edição
do Expresso de 17/12/94