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Laureado Prémio Pessoa 1992 - António e Hanna Damásio

Investigadores, António e Hanna Damásio nasceram em Lisboa: ele, em 25 de Fevereiro de 1944, ela em 24 de Setembro de 1942.

Casados, cursaram ambos na Faculdade de Medicina de Lisboa. Em 1971 criaram o Centro de Estudos de Linguagem Egas Moniz. Pouco depois do 25 de Abril, foram convidados para organizar um departamento de investigação na Universidade Nova de Lisboa. A falta de financiamento impediu a concretização do projecto.

Em 1976, trocaram Portugal pelos Estados Unidos.

Especialistas na cartografia cerebral, iniciaram-se no domínio da investigação com o professor Norman Geschwind, da Universidade de Harvard. Acabaram por fixar-se em Iowa City, onde desenvolveram estudos absolutamente pioneiros, à frente de uma equipa de vinte cientistas. Professores de neurologia, António é o chefe do respectivo departamento da Universidade de Medicina de Iowa e Hanna dirige um laboratório da mesma escola. Ambos são professores adjuntos no Instituto Salk de Estudos Biológicos, em La Jolia, Califórnia.

Entre as várias distinções que António Damásio recebeu, contam-se o Prémio Beaumont (1990), o Golden Brain Award (1995) e o Prix de la Plasticité Neuronal (1997). É autor do livro O Erron de Descartes, um dos maiores best-sellers dos últimos anos, com 17 edições e mais de 60 mil exemplares vendidos, e que está traduzido em pelo menos nove línguas e vinte países.

Hanna, por sua vez, é a autora do primeiro atlas cerebral, elaborado a partir de imagens obtidas por ressonância magnética, com o título Human Brain Anatomy in Computerized Images.

Sócios da Associação Americana de Neurologia, foram eleitos em 1997 para a Academia Americana de Artes e Ciências, que conta entre os seus membros 168 laureados com o Prémio Nobel e 78 prémios Pulitzer.

Entrevista ao Expresso

"A cartografia cerebral vai permitir responder às clássicas perguntas: quem somos, de onde viemos, para onde vamos?"

O cidadão americano conhecido pelo pseudónimo de Boswell tem uma estranha forma de amnésia: é incapaz de reconhecer a senhora Boswell como a "sua" mulher, embora saiba tratar-se de uma mulher. Também não se lembra dos próprios filhos e não consegue formar novas memórias; nem apreender a informação que lhe é apresentada. A causa é uma lesão devida à encefalite herpética. Destruiu-lhe uma zona cerebral que ocupa o colo e a região mediana do lobo temporal, tanto do lado interno como externo.

O caso Boswell é um dos 1500 processos estudados por António e Hanna Damásio, no hospital da Universidade de lowa, nos Estados Unidos. Os Damásio, naturais de Lisboa, partiram em 1976 para aquela que é considerada a maior unidade hospitalar universitária norte-americana. Ocupam um lugar de destaque entre os cientistas de todo o mundo que se dedicam ao estudo do cérebro.
António Damásio é o chefe do departamento de neurologia do hospital. Recentemente, uma publicação editada nos EUA considerava-o um dos 300 melhores médicos dos 500 mil recenseados no país. O arquivo de lesões cerebrais que criou, com a mulher Hanna, é o maior do mundo. O casal faz parte de um grupo de investigadores apostados em ultrapassar a última fronteira do conhecimento humano: o cérebro. É o mapa desse pequeno mundo gelatinoso que António e Hanna pretendem fazer. Um mundo com peso inferior a um quilograma e meio e onde milhares de milhões de neurónios (de dez a cem, consoante as estimativas) se integram em redes que comandam toda a actividade humana.
Esse é, talvez, o maior objectivo da "Década do Cérebro" proclamada por George Bush e pelo Congresso norte-americano, sob intensa pressão dos homens da Ciência. Isso poderá ajudar a compreender o orçamento atribuído ao departamento dirigido por António Damásio: 12 milhões de dólares anuais (cerca de 1,7 milhões de contos).

"A primeira razão pela qual é importante fazer cartografia cerebral, conhecer a estrutura do cérebro e descobrir a arquitectura do sistema nervoso é que se trata da mais directa forma de compreendermos o mundo, o modo como recordamos as coisas, como alteramos esse mundo mediante as nossas decisões. No fundo, vai permitir responder à clássica pergunta: quem somos, de onde viemos, para onde vamos?" - disse ao EXPRESSO António Damásio. Sentado no seu gabinete, explica por que acha apaixonante o seu trabalho: "Há coisas muito semelhantes ao encanto que as pessoas sentiram nos anos 50 e 60, quando se começou a explorar o espaço. Sinto que tudo isto tem uma importância comparável à abertura dos caminhos marítimos pelos portugueses, no século XV".

Partiu para os EUA como professor associado da Universidade de lowa. Hoje, é chefe de departamento. Não esconde, no entanto, algum desencanto perante o alheamento a que o seu trabalho e o de Hanna têm sido votados em Portugal. Em 197 I , então com 28 anos, criara em Lisboa o Centro de Estudos de Linguagem Egas Moniz, que haveria de constituir o prenúncio de uma actividade de investigação hoje reconhecida mundialmente. Alguns meios científicos norte-americanos consideram que o método seguido pelos Damásio precisa de ser completado mediante a utilização de outros processos. Reconhecendo a validade desta crítica, lembram que a observação de doentes com lesões cerebrais tem dado um contributo decisivo para a compreensão daquele que continua a ser o menos conhecido dos órgãos humanos.

"Depois da Segunda Guerra Mundial, o estudo das lesões tornou-se, de facto, um método secundário, com o desenvolvimento do neurofisiologio, do neuroformacologia e do neuroquímica. A razão era muito simples: dependia, em praticamente todos os casos, do estudo do autópsia. Só se podia ter a confirmação do que se havia passado muitos anos depois, quando o paciente falecia", explica António Damásio.

Tudo isto veio a ser alterado, muito particularmente nas duas últimas décadas, a partir do desenvolvimento de tecnologias que permitem a observação do cérebro "in vivo". Na realidade, para além do estudo de lesões, o laboratório dos Damásio utiliza dois recentes métodos de "fotografia" e mapeamento cerebrais. Um deles, é a ressonância magnética (RM), que permite obter imagens precisas através da recolha e tratamento dos sinais eléctricos do córtex cerebral. O outro processo - que António Damásio acredita poder vir a ser, em breve, tão eficaz quanto o estudo das lesões - é a TEP, ou seja, a Tomografia por Emissão de Positrões (partículas análogas aos electrões mas com carga eléctrica positiva). A TEP permite, de modo simples, rápido e indolor, medir a actividade cerebral e seguir as suas modificações enquanto o cérebro trabalha, facilitando o respectivo conhecimento fisiológico. "Aquilo que se abriu nestes últimos anos - lembra António Damásio - foi o possibilidade de se olhar para o cérebro quando este está a executar uma série de funções."

As experiências com a TEP têm contribuído para a aquisição de novos conhecimentos sobre o funcionamento do cérebro. Os voluntários são colocados numa câmara ("scanner") e é-lhes injectado um líquido radioactivo (um composto semelhante à água em que o oxigénio é substituído pelo seu isótopo 15). Há um aumento de sinal nas zonas cerebrais mais activas, sendo possível reconstruir a imagem resultante de todos esses pontos radioactivos e correlacioná-la com um determinado local anatómico. Hoje, determinam-se já as partes do cérebro que são activadas quando alguém fixa uma fotografa a cores ou olha para objectos manipuláveis. Aproxima-se a altura em que os segredos do cérebro deixarão de ser insondáveis. O método de estudo de lesões permite ainda novos e sólidos conhecimentos. O exemplo de Boswell foi a pista para a teoria de que o cérebro faz uma distinção entre memórias de tipo único e genéricas. "Boswell trouxe-nos a ideia - e foi a primeira vez que tal nos ocorreu - de que o cérebro faz não só o distinção entre o informação nova e a que está armazenada, mas também entre informação de nível único e genérico", salienta António Damásio.

Para este neurologista, o caso Boswell abriu caminho para a formulação de uma teoria que seria confirmada pelo estudo de indivíduos com lesões semelhantes. O cérebro faz um armazenamento diferente para memórias referentes a categorias (as mulheres, por exemplo) e memórias referentes a exemplares únicos (como a mulher de Boswell). Este tratamento diferenciado permitiria explicar por que razão o doente, depois de contrair a lesão, sabia o que eram mulheres mas não era capaz de se recordar da sua própria mulher.

A partir desta pista, os Damásio têm vindo a construir o mapa das funções correspondentes às estruturas cerebrais afectadas. O seu maior contributo teórico foi a descoberta das chamadas "zonas de convergência". A partir da última década abandonou-se a ideia de que o cérebro funcionava em compartimentos estanques, relativamente descoordenados, cada um correspondendo a uma função complexa. Para António Damásio, o cérebro pode hoje ser encarado como uma verdadeira sociedade de especialistas: os diversos sistemas estão relacionados com diferentes tipos de estímulo e com determinados modos de acção.

"É uma associação em que há uma considerável independência dos sócios, mas também, a partir de determinada altura, uma considerável inter-acção, uma espécie de 'boardmeeting" (reunião do conselho de gerência), onde se decide, de uma forma relativamente automática, quem é que controla e quem é que vai ter prioridade num determinado processo." Para ele, o cérebro dos primatas está organizado num processo em que há constantemente uma convergência e uma divergência. "Existe a ideia de que cada neurónio (célula nervosa) tem de ser visto como um par: um neurónio de emissão e um neurónio de recepção de retorno."

As "zonas de convergência" são áreas de contacto dos neurónios de "emissão" e de "recepção de retorno". Constituem regiões cerebrais onde uns e outros podem ser postos em conjunto, permitindo mais tarde a sua reactivação simultânea. Tome-se o exemplo de uma uva. A representação da forma tem de acontecer num determinado córtex cerebral, e a da cor num outro. "No fundo, trata-se de um processo idêntico ao de um 'meccono' ou de um 'lego'.

Com os suas peças, pode construir-se uma forma oblonga e uma cor verde. No cérebro, em determinado ponto, confluem sinais de 'emissão'. vão combinar de tal maneira que, uma vez disparados, activam zonas diferentes por sinais de 'recepção de retomo'." Este é o princípio de funcionamento cerebral que António e Hanna Damásio propõem à comunidade científica internacional.

Uma das áreas de actividade cerebral mais apaixonantes é, certamente, a da aquisição do conhecimento. Como se processa esta função? Voltemos ao exemplo da uva. Perante o fruto, são activadas regiões cerebrais que têm a ver com a cor, a forma e o tacto. Os sinais visuais vão reunir-se com os que contêm a informação do sabor e do tacto. E se o bago tiver sido comido, pode juntar-se às informações anteriores a reacção que o próprio corpo teve, eventualmente de satisfação.

"O segredo consiste num funcionamento baseado em regiões diferentes e numa activação dessas regiões, mais ou menos ao mesmo tempo. No fundo, o conhecimento é uma distribuição, no cérebro, de partes de componentes que fazem, na sua totalidade, o mapa das relações que tivemos com certo objecto,"

Não há um local único onde esteja armazenado todo o conhecimento sobre a uva. Ele dispersa-se por muitos sítios, e a natureza deu ao homem a possibilidade de o juntar. Trata-se, no fundo, de um processo de agulhagem: "Suponhamos uma agulha. Quando vier um comboio, tanto o pode mandar para a esquerda como para a direita. Mas a partir da primeira passagem houve uma experiência, uma aprendizagem. O que acontece é que a agulha fica mudada e permanece na mesma posição."

Por isso, da próxima vez que este suposto comboio passar, irá para uma direcção determinada, para a direita ou para a esquerda. O processo de aquisição de conhecimentos iniciado em criança e continuado pela vida fora é o estabelecimento de agulhagens em circuitos cerebrais. "É simples: parte dessas agulhas é mudada, e parte fica permanentemente na mesma posição".
Mas nem sempre o conhecimento existente está disponível. É por isso que há dois tipos de amnésias: um, em que os sistemas detentores da sabedoria desapareceram completamente; outro, em que a informação existe mas não está acessível.

É o caso, nomeadamente, da impossibilidade (resultante de uma lesão) de reconhecer caras, mesmo as mais familiares. Trata-se de uma perturbação da memória, conhecida como prosopagnosia, que tem constituído uma das bases de trabalho dos Damásio. No entanto, as pessoas podem ser caracterizadas doutra forma, por exemplo, através da voz.

"O que acontece - refere António Damásio - é que no sistema visual se começam a processar os estímulos, mas há uma lesão, alguma coisa que está "partida" Não existe possibilidade de ter acesso à informação por essa via. Mas é possível, através do sistema auditivo, arranjar uma forma alternativa de comunicar com o sistema que tem aquilo o que podemos chamar a "ficha de identificação" da pessoa em causa."

A base do conhecimento resulta do reforço ou enfraquecimento das sinapses: o limiar de excitação da célula baixa com a aprendizagem. Isto explica a razão por que, num jogo de computador como o Tetris (que consiste na construção de "puzzles" com peças que vão surgindo no monitor), a actividade cerebral é mais intensa no primeiro contacto do que numa utilização posterior, mesmo que nesta se atinja um nível mais elevado e difícil. "Em certo sentido, pode dizer-se que o cérebro é preguiçoso", reconhece António Damásio.

Imagine-se uma melodia. Ela deixa um traço mnésico, isto é, um conjunto de mudanças que se produzem no sistema nervoso e que representam uma recordação. Perante a impossibilidade de lembrar essa melodia, pode pôr-se a seguinte questão: existe um verdadeiro esquecimento? O traço foi apagado ou está inacessível?

O trabalho sobre a memória é, certamente, um dos mais entusiasmantes da actividade de António e Hanna Damásio. Teorias mais clássicas imaginavam-na como um imenso arquivo, cheio de pastas e papéis. Rememorar uma pessoa significava ir a um determinado ponto do cérebro buscar a sua "fotografia".

"Não temos fichas com documentos fac-símile - explica António Damásio -. O que temos são códigos em neurónios que têm a possibilidade de reconstruir em parte a imagem de objectos e acontecimentos. Se houve uma zona do cérebro que esteve activa quando vimos uma certa cara, houve neurónios que registaram o código para essa actividade. Se voltarem a ser activados, todo o processo se restabelece e tudo se passa como se se estivesse a ver essa cara de novo."
Como se forma a memória? Por que existem factos de que nos lembramos melhor do que de outros? António e Hanna Damásio insistem na ideia de que, em primeiro lugar, existe uma distinção fundamental entre único e genérico. A esta segue-se uma outra, relacionada com o tipo de conhecimento: faces, música, sons verbais, coisas manipuláveis ou não, etc.

Outra distinção respeita ao tempo e à ordem pelas quais as coisas penetraram na nossa vida. "Existe uma sedimentação e uma "estratificação" das memórias, à medida que elas entram dentro do sistema, isto em função do tempo", salientam.

A exercitação desta capacidade é determinante: quando não estamos em contacto com alguma recordação durante muito tempo, é mais difícil a sua recuperação. É o que acontece, nomeadamente, com certos tipos de linguagem. Hoje sabe-se, com toda a certeza, que cada representação cerebral é dinâmica e fugaz. É mesmo a única maneira que o cérebro tem de poder manter uma enorme quantidade de informação. Se esta se organizasse sob a forma de fichas, como um arquivo numa biblioteca, não haveria espaço cerebral disponível para toda essa informação.

"Na realidade - confirma António Damásio -, cada representação é efémera. A minha representação de si está constantemente a mudar. Se eu virar os olhos para o lado, ela desaparece; se volto a olhar, é recriado. Se me telefonar daqui a oito dias, lembrar-me-ei de si quando ouvir a sua voz. Ela volta a ser efemeramente reconstruída e desaparece em meia dúzia de segundos."
No fundo, os córtices cerebrais são como pianos para os quais houvesse numerosas partituras. Se se muda de partitura, muda-se de melodia, ou seja, de representação. Mas os pianos, as suas teclas, são sempre os mesmos.

Pode a ideia de organização cerebral chocar com as ideias religiosas tradicionais? António Damásio afirma que as pessoas não imaginam que possamos ser um processo automatizado e autoorganizado. "Não parece que sejamos um sistema que foi criado, mas sim um em que a organização "aconteceu". E a organização que aconteceu e prevaleceu na evolução, segundo as regras darwinianas, é aparentemente tão estável que temos a ideia, possivelmente falsa, de que foi criada por alguém como nós e é comandada pelo nosso eu." Dito de outra forma, e segundo António Damásio, as pessoas estão convencidas de que há uma ideia de Criação porque acreditam, como pessoas, ser elas próprias quem comanda todo o sistema.

A palavra "sistema", aliás, parece ser a chave. O cientista português confirma-o: "O único facto de que há prova segura é de que somos um sistema em que certas acções provocam certas reacções". Isso explica a razão por que pensar numa coisa desagradável pode arrastar determinada contracção muscular. Do mesmo modo que se alguém pergunta, por exemplo, a propósito de uma pintura, "lembra-se daquele quadro?", inicia automaticamente uma cadeia de acontecimentos.

"Em Portugal - lembra António Damásio -, é costume dizer-se que as conversas são como as cerejas, uma leva a outra. É exactamente o que acontece no cérebro, uma coisa leva a outra, numa cadeia convergente, e a certa altura as coisas começam a voltar para trás e provocam outra coisa. É um processo de ricochete, é como bolas de bilhar."

O estudo da linguagem foi o ponto de partida para António e Hanna Damásio. Ainda hoje dedicam boa parte da sua actividade a esta área. Nela se levanta, de imediato, a questão de saber se chegará uma altura em que não haverá mais neurónios para armazenar mais palavras. "A capacidade das redes neuronais - respondem - é tão grande que é francamente improvável que a estejamos a utilizar por completo neste momento. Há certamente pessoas com mais capacidade do que outras, mas as capacidades, do ponto de vista prático, são ilimitadas. "

O que é que leva umas pessoas a ser mais capazes do que outras na aprendizagem de línguas, por exemplo? Para António Damásio, o cérebro pode ser menos dotado nas estruturas responsáveis pela linguagem, da mesma forma que há cérebros que, do ponto de vista do controlo auditivo, são completamente diferentes uns dos outros. Há pessoas que são incapazes de reproduzir qualquer melodia, enquanto Mozart, por exemplo, já tinha composto várias sinfonias aos dez anos de idade.
"As nossas personalidades dependem de sistemas cerebrais em parte determinados pela genética e em parte pelo ambiente. Por aquilo que está à nosso volta, pelo que nos foi dado ao longo das várias idades. Aquilo que somos resulta de um equilíbrio entre o que recebemos como "herança" genética e o que recebemos em interacções com outras pessoas e com o universo."

"A língua existe no exterior, como um sistema arbitrário; são os símbolos. Por outro lado, existem conceitos no cérebro que são as nossas ideias sobre as coisas. Imagine-se uma criança selvagem que nunca tivesse ouvido qualquer palavra. Se lhe apresentassem um copo, ela saberia do que se tratava ou rapidamente seria capaz de o descobrir." Não lhe chamaria copo, mas compreenderia estar em presença de um objecto que podia levar à boca e usar para beber.
Os mecanismos de aprendizagem da linguagem são hoje razoavelmente conhecidos. Sabe-se que o cérebro vem já equipado com uma tendência natural para formar linguagem. Vem equipado com uma tendência para detectar sons e linguagem, para perceber certos sinais.

Também no campo da linguagem, António e Hanna Damásio apresentaram à comunidade científica internacional uma teoria muito própria. Foi expressa na revista Scientific American, num número especial dedicado ao cérebro. Basicamente, chamam-lhe o "conceito de mediação".

"Peguemos no copo. Tudo o que constitui o conhecimento deste objecto, sem a palavra, é um conceito. Tudo o que o cérebro precisa de fazer é um mapa do conceito e, depois, elaborar o mapa do símbolo que o representa. Neste caso, é a palavra copo", explicam.
É então que surge a ideia da "mediação". Trata-se de uma espécie de "embaixador", uma estrutura que liga os diferentes mapas. "No fundo, o segredo de tudo isto é fazer o mapa dos conceitos, o das palavras e o da junção dos dois nas estruturas de mediação. É uma concepção muito interessante de convergência. Não se vai directamente das palavras para os conceitos. Não se trata de um voo "non-stop", temos de fazer escala numa cidade. E esta funciona como uma estrutura de embaixada ou um corretor da bolsa.".

É assim que a linguagem surge como o resultado de o cérebro ter estruturas ligadas aos conceitos. Estas estruturas representam palavras e ligações entre estas. Finalmente, há estruturas que asseguram as ligações entre umas e outras.

A aquisição da linguagem equivale à aprendizagem de que uma bolacha se designa pela palavra bolacha, um copo, pela palavra copo, ou uma uva, pela palavra uva. "São mudanças de sinopse, mudanças da força das sinopses. Estas ficam mais fortes quando se aprende qualquer coisa, o que significa que o limiar para serem disparadas é mais baixo,"

Pegue-se na palavra copo: esta grava-se no córtex auditivo, com os sons correspondentes à palavra. O conceito adquire-se no córtex visual e no córtex somatomotor, onde está o tacto. Na formação da linguagem nas crianças, o que se verifica é o registo de modificações, à medida que as diversas representações se vão formando. Aprendem conceitos que não são linguagem, e aprendem palavras. "Quando o conceito e a palavra aparecem ao mesmo tempo, o criança junta-os pelo sistema de mediação. 0 princípio é semelhante ao do condicionamento, embora seja aqui aplicado a um nível mais alto", conclui António Damásio.
Embora os avanços da tecnologia abram novas perspectivas à investigação, os Damásio estão seguros de que o estudo das lesões cerebrais é ainda um método fundamental nesta aventura de fim de século chamada cartografia cerebral.

O mundo dos Damásio

Viajar até Iowa City tem o seu quê de aventura. Os americanos desconfiam das partidas que o tempo prega na região do Midwest, onde se situa aquela cidade de menos de cem mil habitantes.
De Nova Iorque para o aeroporto de Cedar Rapids não há voos directos. É necessário ir a Chicago ou St. Louis apanhar um outro avião. No total, são duas horas e meia de viagem.

A cidade vive de e para a universidade. Por isso, a média etária da população ronda os 25 anos. Quem chega a Iowa City (no Estado de Iowa, de que não é a capital) depara com uma maioria de gente loura, fruto de forte colonização nórdica.
Apesar de ser uma cidade relativamente pequena - o centro organiza-se em redor de um hotel, tendo meia dúzia de restaurantes e bares -, possui o maior hospital universitário dos Estados Unidos. Precisamente aquele onde António Damásio chefia o departamento de Neurologia.

O "campus" universitário é enorme. O hospital - que, entre nós, só poderá ter algum paralelo com o da Universidade de Coimbra - mais parece um hotel acolhedor: dezenas de pessoas aguardam, em bons sofás, a sua vez de serem atendidas. A sala de espera de Pediatria parecerá mais entusiasmante para as crianças do que a maioria dos infantários portugueses.

Foi em 1976 que António e Hanna Damásio deixaram Portugal. A sua ascensão como investigadores não foi meteórica, mas hoje são reconhecidos internacionalmente. Estão na primeira linha do estudo do cérebro, tendo dezenas de artigos publicados em revistas científicas.
No hospital de lowa ocupam uma parte do segundo andar (o edifício tem oito). Ali têm os seus gabinetes, a partir dos quais dirigem uma equipa de vinte cientistas, que estuda a cartografia cerebral. São visitados por doentes de todo o mundo. Quem percorre as instalações que lhes estão atribuídas percebe que dificilmente voltarão para Portugal: nunca encontrariam, nem as condições de que usufruem, nem o dinheiro de que dispõem para a investigação.

Curiosamente, poderiam nunca ter emigrado. Logo depois do 25 de Abril foram convidados, juntamente com o seu colega Lopes da Silva (actualmente a trabalhar em Amsterdão), para montar um departamento de investigação na Universidade Nova, em Lisboa. O projecto falhou por falta de financiamento.

António e Hanna Damásio dizem que lowa City é uma boa cidade para morar, mas não para visitar. Pouco há para ver, com excepção de um dos museus de arte mais interessantes dos EUA. A escola local de literatura, fundada há 55 anos, é considerada das melhores, mas acaba por ser a presença da universidade que explica uma vida cultural inesperadamente intensa: lowa faz parte dos roteiros dos grandes solistas de música clássica, nomeadamente dos que se deslocam a Chicago, que dista meia hora de avião.

Os Damásio vivem numa zona elegante. Rodeada de bosques e com uma piscina no jardim, a casa tem dois andares. As divisões são amplas e decoradas com quadros de pintores americanos e de alguns portugueses, como é o caso de Vieira da Silva.

Parte da história do casal foi contada à mesa de jantar. Não perderam os velhos hábitos portugueses. Hanna, não é apenas uma cientista de renome mundial: revelou-se uma excelente cozinheira.

Apreciadores de bons vinhos, abriram duas garrafas de um branco californiano que não fica a dever aos melhores congéneres portugueses ou franceses.

Deitam-se cedo porque às oito e meia da manhã entram no hospital. As solicitações são muitas e obrigam-nos a viajar com frequência. Estão no "top" e são convidados para dar lições em variadíssimos locais - entre os quais a Biblioteca do Congresso, em Washington, e a Academia das Ciências norte-americana.
Portugal só agora os descobre.

* Publicado na edição do Expresso de 19/12/92