Siga-nos

Perfil

Prémio Pessoa

Laureados

Laureado Prémio Pessoa 1989 - Maria João Pires

Pianista, Maria João Pires nasceu em Lisboa, em 23 de Julho de 1944. A intuição e a aptidão para o piano revelaram-se ainda criança: tinha quatro anos, quando tocou pela primeira vez em público. Aos sete, já estava familiarizada com Mozart e aos nove recebeu o galardão mais importante para os jovens músicos portugueses. Estudou no Conservatório de Lisboa com o prof. Campos Coelho até 1960, ano em que prosseguiu os estudos na Alemanha - primeiro, no Musikakademie de Munique, depois em Hanover, com Karl Engel. Em 1970, ganhou o primeiro prémio do concurso Beethoven de Bruxelas, o que lhe conferiu uma projecção internacional.

No princípio dos anos 80, um acidente obrigou-a a interromper a actividade. Regressou aos concertos em 1986, exibindo o seu talento em todas as grandes capitais e em festivais como os de Schleswig-Hosltein, Tanglewood, Ravinia, Lucerna e Salzburgo, tocando com as melhores orquestras e os mais afamados regentes. Para além da carreira de solista, tem-se dedicado à música de câmara, frequentemente acompanhada pelo violinista Augustin Dumay. Desde 1989 que tem um contrato de exclusividade com a Deutsche Grammophon.

No ano seguinte, o primeiro disco da gravação integral das sonatas para piano de Mozart valeu-lhe o Grand Prix International du Disque, bem como o CD Compact Prize.

Schiubert, Schumman, Brahms e Chopin têm merecido igualmente a sua atenção. O CD duplo, com os Nocturnos de Chopin, gravado em 1996, vendeu cerca de trinta mil cópias em Portugal, um recorde absoluto na música clássica.

Desde há alguns anos que trocou Paris por uma quinta em Castelo Branco, onde se refugia durante os intervalos dos concertos e das gravações.

Entrevista ao Expresso

"Quando vivo sozinha é quando estou melhor
- porque posso viver plenamente a minha solidão"

A sala ampla e rodeada de quartos, está decorada com a austeridade desembaraçada de quem não gosta de viver no passado, nem ostenta os sinais de recordações dos dias de glória, mas antes prefere mensagens e recados. Do piano nem sinal, como se Maria João Pires o visse como um utensílio de salão feito para subjugar o visitante desprevenido. À medida que os concertos e as gravações se multiplicam, ela procura viver num lugar a que possa chamar seu. Encontrou-o em La Celle Saint-Cloud, uma prazenteira vila nos arredores de Paris para onde se mudou no Outono de 1989. Ali busca a tranquilidade possível.

Não seria fácil imaginar um melhor sítio que a compensasse das estadas irregulares em Portugal, na Suiça ou na Alemanha Federal, tentativas mal sucedidas de uma residência fixa que a sua carreira nunca chegou a permitir. Em Saint-Cloud nada acontece. Tem a pacatez daqueles lugares onde não há gente "malvada" que nos venha aborrecer com os seus feitos e intrigas. Os parisienses chamam-lhe o "bairro elegante" e, de facto, a tranquilidade das ruas e a discreta opulência das habitações parecem confirmar o prognóstico.

À primeira vista, a nova casa tem tanto de refúgio como de centro de operações. As traseiras dão acesso a um arremedo de bosque. As cores do Outono estão no ponto e o cheiro da terra também. O piano de cauda está na cave. Dão-se alvíssaras a quem perceber como é que ele ali entrou mas, de qualquer forma, foi o lugar escolhido por Maria João Pires para "estudar". Sabendo-se que a pianista não se tem na conta da maior das suas admiradoras, não é de pasmar que na sala não haja um único dos seus discos. No meio de pouco mais de uma centena de vinis e CD's, convivem Clara Haskill, Sviatoslav Richter ou Rudolf Serkin e Mstislav Rostropovitch em duo, felizes da vida. Dois telefones e uma televisão a que raramente se dá uso e está completo o cenário.

É aqui que Maria João Pires vive com a Ana e a Bárbara, duas das quatro filhas, com Sylvie, a implacável secretária a quem foi entregue a árdua tarefa de separar o trigo do joio entre quem a quer entrevistar ou, num acesso de fobia, confessar-lhe uma admiração incontrolada. Há ainda uma cozinheira talentosa, dois cães, o Noé (um setter consideravelmente mais lento do que a própria sombra) e o loshi, muitas vezes confundido com Maxime, o coelho que calmamente se passeia pelo soalho ou se esconde debaixo das mesas.

Não se pense que ela levou o campo para dentro de casa. A "austeridade doméstica" de Maria João é insuspeita. Claro que as suas "ordens" são soberanas mas, olhando nas filhas e no pessoal a reacção às suas indicações, dir-se-ia que nada nem ninguém é surpreendido. Há nela uma amálgama constante de contradições. Costuma dizer, por exemplo, que desconhece a imagem que os outros têm dela porque não lê jornais, não folheia revistas e não se interessa pelas críticas. Depois, em menos de meia hora, diz estar furiosa com um conhecido semanário português de espectáculos que publicou uma conversa que nunca aconteceu e onde nada era verdade, regozija-se ruidosamente com os dois diopasons d'or do número de Dezembro de uma revista musical e pergunta com avidez se a entrevista de Ana Carvalho (EXPRESSO de I de Dezembro de 1989) "era boa". As filhas escondem a alegria pelos triunfos da mãe, mostrando um desdém cauteloso. Maria João anuncia à família, com um orgulho sem pompa, a atribuição de mais um prémio e Ana, a mais nova, sentada no cimo da escada, vira a cara para o lado e sussurra:
"Bah, grande coisa!". Não é desdém. Há miúdas que se habituam a tudo.

Nesse dia, ao almoço, a pianista anda em bolandas numa corrida contra o tempo. Tem um encontro com Lídia, uma inglesa que trata de burocracias e contratos; como mulher simpática é um desastre e não faz furor na casa. Ao fim da tarde, virá um recital a duo com Augustin Dumay: "Daqui a meia hora vou meter-vos na rua", diz-nos em tom de brincadeira, que é como ela às vezes se vê forçada a falar a sério.

A refeição é frugal e o ambiente animado. Recordam-se histórias, contam-se casos divertidos e toda a gente ri, menos o coelho. "Vejam lá o que é que dizem, porque estes jornalistas são muito suspeitos!". O almoço é pontuado pelas desvairadas surtidas do pequeno loshi, que vai deixando nos tapetes o que ninguém gosta de limpar. No ar, nada de música. Só telefonemas. Sylvie mal consegue sentar-se: "Se for um jornalista, dê-lhe um tiro!", dizemos-lhe. Ela enruboresce como uma beirã e espera o assentimento de Maria João: "0 meu número de telefone não vem na lista porque tenho de me proteger. Por vezes, aparecem pessoas que dizem ser jornalistas e é gente tarada que só quer estar comigo ou ver-me. É muito complicado". Deve ser.

A mesa também serve para relembrar amizades, discutir a escola das crianças e falar de uns quantos íntimos que, para os outros, são tão alcançáveis como os deuses do Olimpo. Claudio Abbado, por exemplo, um dos grandes amigos da pianista e um homem "irresistível". Para Maria João, não se trata só do charme do maestro italiano. Diz que Abbado é "um especialista em anedotas sobre polícias". A pianista também e não resiste a contar uma, a que só a Lei de Imprensa não acharia graça...

Os repórteres sentam-se ao fundo, de frente um para o outro: "E para equilibrar", diz ela, "porque há gente que vem cá a casa e fica assustada por só encontrar mulheres". Não faz mal. A fome aperta mas a mesa é larga.

Os telefonemas não param. O assunto é o Natal e discute-se a melhor maneira de abrigar uma verdadeira embaixada de amigos, mais a família e bicharada. Conta-se o número de camas e cestas: "Todos os anos é a mesma coisa."

Na cozinha, Maria João, as filhas, Sylvie e a empregada atingem um nível olímpico na tentativa de se mexerem. A pianista diz-se uma cozinheira de mérito, o que até ajuda, já que a lida da casa tem uma importância fundamental na sua maneira de tocar: "Mesmo que não estude muito, estou sempre o tocar aqui dentro" - e aponta à cabeça. A passagem de uma sonata de Schubert, o problema interpretativo com um Rondó de Mozart, tudo é resolvido nas situações mais inesperadas: "Quando vou às compras, trato da roupa ou faço o jantar, estou sempre o resolver situações musicais". É bem capaz de ser verdade, tantas vezes aparenta estar com a cabeça noutro lugar.

É preciso estar com ela a fazer as vezes de um amigo chegado para não ver nos seus "processos" um mero capricho. A resposta é simples porque Maria João Pires é uma mulher simples. Quer o mesmo que toda a gente: fazer o que lhe apetece e ser chamada à atenção apenas por aqueles a quem ama. É nesse ponto que não é uma pessoa qualquer. A sua ambição só pode ser invalidada por ela própria. Na pianista parece haver uma personalidade repartida ou, se se quiser, duas máscaras. Muitas vezes dá a ideia, pelo que diz, que não suporta compromissos. Há um lado oficioso da sua carreira que lhe é particularmente penoso: "Nas recepções diplomáticas e coisas assim, às vezes cometo algumas 'gaffes'". Esses "deslizes", e uma noção muito pessoal (para dizer o mínimo) do que é o bom gosto no vestir, foram criando a imagem de uma pianista dada ao à-vontade e sem preconceitos. Afinal, sempre é verdade que a excentricidade não impressiona os excêntricos.

São tempos que estão a passar. A questão foi-lhe posta de forma muito clara: a alternativa a não tocar para um público que é, na sua maior parte, elitista, é não tocar sequer. Sobrevive ao susto, mas não deixa de pensar que o mundo musical é "morto e mafioso" e é evidente que não quer ter nada a ver com isso, mas o círculo fecha-se: "Se pudesse, dava dez concertos por ano, mas há sempre a questão do dinheiro. Tenho de pensar nas minhas filhas."

Os "compromissos" trazem à baila a questão da educação das miúdas: "Sei que ficaram marcadas por terem uma mãe que estava tão pouco em casa, sempre a viajar de um lado para o outro, mas tentei fazer com que esse lado negativo pesasse o menos possível na formação delas. Não sei se consegui". Barbara tem por solução não perder um concerto. "Ela é óptima a mudar as páginas da partitura", diz a mãe, enquanto a Ana não toma gosto a músicas "daquelas". Mostra-nos o seu quarto, com dezenas de "posters" de cães e cavalos. A decoração traz a marca inconfundível de Louis Braille...

Na educação de Maria João Pires tudo se passou de maneira diferente: "Fui muito influenciada pela minha mãe, que me ensinou o que era a disciplina. Ela queria que eu tocasse, mas nunca me empurrou para uma carreira como pianista. Digamos que, com ela, aprendi a trabalhar..." O sistema acabou por revelar os seus frutos. Aos quatro anos tocou pela primeira vez em público e aos nove ganhou o I ° prémio do concurso da juventude Musical Portuguesa. Até 1970 arrecadaria triunfos no Concurso Elisa Pedroso (1958), no Concurso Internacional das juventudes Musicais, em Berlim e no Concurso Franz Liszt, em Lisboa (1960). Aos 26 anos teve a grande consagração, o Concurso da UER, que celebrou o bicentenário do nascimento de Beethoven. O resto é história.

Nos primeiros anos trabalhava muito, mas era um pouco rebelde". É a maneira de acabar de vez com essa história da menina que passava o tempo agarrada ao piano: "Não me dava com outras raparigas e nunca brinquei com bonecas. 0 que eu gostava era de andar pelos telhados ou fazer coisas ainda mais malucas, como ir com uns miúdos para o meio de uma linha férrea, encontrar um buraco entre os carris onde me pudesse deitar e ficar a ver o comboio passar-me por cima. Era uma ideia doida mas eu era assim. Um bocadinho Maria-rapaz. la bem com o meu nome".

Sempre gostou de levar a sério as regras indo contra elas. Não tinha nada a ver com impor a sua personalidade aos outros (era antes "uma necessidade interior", como ela gosta de dizer), mas não havia modo de evitar o equívoco. De uma maneira ou de outra, ajudava à festa confessando que não era o tipo de pessoa capaz de se fixar na vida, de se acomodar ao que fazia. Aí, pouca coisa mudou. As provas estão nas suas tão discutidas (e aplaudidas) associações com músicos como Michel Portal, Burhan Oçal ou Huseyin Sermet.

A fronteira entre a rebeldia e o gosto pela abordagem de um novo repertório, utilizando a música de câmara para viver experiências diferentes com instrumentistas de formação diversa, só não existiria se ela não viesse depois dizer querer voltar-se para o repertório francês, num rol de gente onde cabem Cesar Franck, Claude Debussy ou Francis Poulenc.

Pode até ser uma contradição mas, ao contrário de que muita gente pensa, não é por Maria João não saber o que quer. Ela sabe-o muito bem. Como pianista, tem de suportar o peso imenso de não ter detractores. A admiração pelo seu trabalho é unânime, todos a reconhecem como uma artista genial... menos ela própria. É uma mulher que nunca se espanta com o seu sucesso mas que aparenta muitas vezes desconhecer-lhe as razões ou os contornos.

Não há nada mais desconfortável do que vê-Ia tentar confessar a opinião que tem sobre si mesma. Nunca quer tocar no assunto mas, ao mesmo tempo, está sempre a fazê-lo. Ser seu amigo é uma tarefa árdua, embora os que o conseguem digam tratar-se de uma experiência altamente recomendável. Talvez porque Maria João acredita em coisas que no universo musical internacional vão, aos poucos, caindo no esquecimento. Os aplausos incomodam-na mas a capacidade de maravilhar as pessoas e de as comover é-lhe gratifcante. Não conhece outro incentivo.

No trato, Maria João Pires mostra sempre nada ter a ver com esse mundo "duro e frio" da música: "Encontra-se ali gente muito intriguista, você nem imagina". Mais cedo ou mais tarde, porém, o cerco torna-se demasiado apertado e a eventualidade de se "instalar" transforma-se em necessidade. Agora, na paz de Saint-Clouci, procura um meio termo, essa linha de sombra entre a sua própria integridade e a influência na sua carreira artística das "negras forças" do mercado discográfico e dos concertos.

O contrato exclusivo celebrado com a Deutsche Grammophon veio, à partida, coroar de êxito essa ambição: "Vou poder fazer o que me apetece", diz. Mas, sem que isso seja um anseio, a ligação à DG funciona como a "consagração da consagração", até porque qualquer disco editado por aquele império discográfico alemão é, em princípio, comprado "por muito mais gente, em todo o mundo". Uma novidade para quem, como confessa, nunca ganhou dinheiro com discos.

Poucos se lhe comparam em anti-vedetismo, mesmo sem esquecer as histórias intermináveis dos seus recitais adiados por razões nem sempre pacíficas. Mas dá a impressão de dizer sobre si coisas diferentes, conforme o estado de espírito e a disposição em falar do que lhe é mais íntimo e inviolável. Nunca diz que gosta de si, apesar do ambiente familiar parecer confirmá-lo a todo o instante. Há dias em que não gosta, que é quando pensa em coisas brutais como a certeza na inexistência da felicidade, ou que o melhor que tem a fazer é não apostar demais na carreira ou procurar sem escrúpulos a celebridade, porque isso pode prejudicar a ligação afectiva que tem com os poucos amigos ("só existem dois ou três"), como se as suas amizades fossem, por fatalidade, frágeis. Só gosta dela quem a compreende e quem a compreende perdoa-lhe tudo. Os "dois ou três" não usam o perdão como um ardil para a deixar desprevenida e a apanhar com a boca na botija na ofensa seguinte.

Já se adivinha que ela recusa o rótulo de "estrela". As "prateleiras" são para as partituras. A popularidade traz desagrados, mas Maria João consegue encontrar nos seus ritos momentos reconfortantes e enriquecedores. As sessões fotográficas de promoção ou para as capas dos discos, por exemplo: "Ser fotografada pela Christion Steiner, da DG, é maravilhoso. Ele consegue reproduzir numa imagem a pessoa que eu sou, a minha personalidade está toda ali". Há dias assim.

Não contente por não gostar de se ver, também diz que não gosta de se ouvir. Aí começa a demarcar as fronteiras. Não pode sequer dizer-se que exista um projecto estabelecido de afastar as pessoas que, por, alguma razão nada evidente, se interessem por ela. E insegura e confessa ter medo de muitas coisas. A principal, e talvez a mais inquietante, é a de ser deixada entregue a si própria. Maria João é tendenciosa quando se autocrítica e essa tendência aponta para o descontentamento.

Já confessou que passa por grandes momentos de depressão e que é nessas alturas que os amigos e, principalmente, aqueles com quem toca, assumem uma importância fundamental. Portal, por exemplo, outro instrumentista que se autodefine como frágil e inseguro. Mas com Maria João Pires, as suas neuroses e medos conduzem os seus actos a dimensões dificilmente controláveis.

É visível que a solidão a deve apavorar mas, ao mesmo tempo, diz não desejar outra coisa, como recentemente confidenciou ao EXPRESSO: "No fundo, quando vivo sozinha é quando estou melhor; porque posso viver plenamente a minha solidão e dar largas aos meus sentimentos de medo. Em tudo isso há um certo sofrimento e, ao mesmo tempo, existe uma certa paz, uma aceitação das coisas."

De Portugal, só recorda momentos bons como pianista profissional a partir de 1974: "Antes do 25 de Abril não havia nada". A data define claramente os diferentes tipos de público que assistem aos seus recitais e concertos. Portugal foi, naturalmente, o lugar onde saiu do seu "refúgio", como chama ao piano, para assumir posições públicas de protesto e de intervenção. Juntou o seu nome ao protesto apresentado nas Nações Unidas condenando a sentença de morte proferida por Komheiny contra o escritor Salman Rushdie. Apoiou a luta dos músicos das orquestras da RDP contra as condições propostas pela Régie Cooperativa Sinfonia face à futura integração daqueles instrumentistas.

Se é verdade que tem, nos últimos tempos, aprendido a rejubilar-se com o que chama os seus "actos de egoísmo", recusando pactuar com as tradições, torna claro que voltará a apoiar uma causa que considere justa e onde veja que o seu contributo possa ser importante. É talvez apenas nesses casos que Maria João Pires faz uso do prestígio do seu nome. Sem um litígio onde se compreendesse a pertinência da sua colaboração, o mais provável é que preferisse que a deixassem em paz.

A refeição termina sem a presença da anfitriã. Depois do café, retira-se para a cave, onde exercita, mais uma vez, o seu Schubert favorito. Os seus sons ecoam pela casa e, à mesa, a conversa prossegue. Houve qualquer coisa que morreu naquele momento. Sem a frágil figura de Maria João Pires, abandonados pela sua imponência misteriosa, uns mais do que outros, entregamo-nos ao passar do tempo, esperando, unicamente, que ela volte. Quando o faz é para discutir com Lídia as tais aborrecidas burocracias. Parece sufocar, mas finge muito bem.

Antes de sair para o recital com Dumay, nalguma universidade parisiense, a casa acorda e dá ideia de andar às voltas num ritmo alucinante. A protagonista é, obviamente, a dona. Sem deixar de olhar para o relógio, Maria João procura as partituras, o chapéu de chuva ou a gabardina. Parece transfigurada com a ideia de não chegar a tempo. Sylvie, a fidelíssima, imita-lhe os gestos perante a tranquilidade inquebrantável das filhas, habituadas a estes "excessos". Encontra ainda tempo para se deixar fotografar ao piano, já que não admite "intrusos" enquanto trabalha, e para uma última imagem, à saída de casa, numa figura frágil e apressada. O público e os aplausos esperam-na. Ela conta os minutos até poder estar, mais uma vez, a sós com o seu "refúgio".


* Publicado na edição
do Expresso de 23/12/89