Siga-nos

Perfil

Prémio Pessoa

Laureados

Laureado Prémio Pessoa 1988 - António Ramos Rosa

"Em 1987, dizem, esteve quase a ganhar o Prémio Pessoa. Mas não chegara ainda a hora da poesia. António Ramos Rosa, nascido em 1924, poeta, crítico, tradutor, autor de cerca de quarenta livros, por vezes premiados, viu agora reconhecida a sua obra por um júri que não pertence ao mundo das letras. Tendo publicado este ano "O Livro da Ignorância" (Signo) e esta semana "Autografias (Artis, com Carlos Moura), o ano passado "Incisões Oblíquas" (Caminho), "Calcanhar do Vento" (Centelha) e "A Mão de Água e a Mão de Fogo" (Fora do Texto), tem dado continuidade a uma obra que, iniciada há trinta anos, une o fulgor da palavra poética - 'linguagem de restituição' que procura num mundo devastado a reintegração nos equilíbrios primordiais ou o impulso para a plena 'liberdade-de-livre' - à alta qualidade de um ensaísmo literário dos mais sensíveis. António Ramos Rosa, ligado a um passado ilustre das revistas literárias ("Árvore", "Cassiopeia", "Cadernos do Meio-Dia") e colaborador de outras, é um dos críticos mais atentos aos poetas contemporâneos, e é um dos poetas a que os restantes críticos têm prestado uma atenção maior. Estética da nudez e da pobreza, poética de palavras 'apaixonadas pelo peso', que remete para as coisas necessárias ('elementares', caros Ramos Rosa...), mas é capaz de se evadir da prisão que seria incorrer num 'cliché' (ainda que o da privação pura), a obra de Ramos Rosa é igualmente lugar de alguns dos mais belos, graves e decisivos poemas da nossa língua. Neste momento, duas editoras disputam a edição da obra completa (por enquanto) do autor de "Boca Incompleta".

Francisco Belard, in "Revista" - 19/11/88

Entrevista ao Expresso

"A grande revolução seria aquela que fizesse com que a arte e a vida se interligassem de uma maneira muito forte."

Em 1987, dizem, esteve quase a ganhar o Prémio Pessoa. Mas não chegara ainda a hora da poesia. António Ramos Rosa, nascido em 1924, poeta, crítico, tradutor, autor de cerca de quarenta livros, por vezes premiados, viu agora reconhecida a sua obra por um júri que não pertence ao mundo das letras. Tendo publicado este ano o Livro da Ignorância (Signo) e esta semana Autografias (Artis, com Carlos Moura), o ano passado Incisões Oblíquas (Caminho), Calcanhar do Vento (Centelha) e A Mão de Agua e A Mão de Fogo (Fora do Texto), tem dado continuidade a uma obra que, iniciada há trinta anos, une o fulgor da palavra poética - "linguagem de restituição", que procura num mundo devastado a reintegração nos equilíbrios primordiais ou o impulso para a plena "liberdade livre" - à alta qualidade de um ensaísmo literário dos mais sensíveis. António Ramos Rosa, ligado a um passado ilustre das revistas literárias (Árvore, Cassiopeia, Cadernos do Meio-Dia) e colaborador de outras publicações, é um dos críticos mais atentos aos poetas contemporâneos, e é um dos poetas a que os restantes críticos têm prestado uma atenção maior. Estética da nudez e da pobreza, poética de palavras "apaixonada pelo seu peso", que remete para as poucas coisas necessárias ("elementares", caro Ramos Rosa...), mas é capaz de se evadir da prisão que seria incorrer num "cliché" (ainda que o da privação pura), a obra de Ramos Rosa é igualmente lugar de alguns dos mais belos, graves e decisivos poemas da nossa língua.

No dia em que foi anunciada a atribuição do Prémio Pessoa/88, perguntei a José Mattoso como se sentia neste novo papel: premiado em 1987, membro do júri em 1988. Disse-me que achava muito boa a escolha feita, tanto mais que se sentia próximo da atitude contemplativa que lhe parecia existir também na poesia de António Ramos Rosa. E observou que essa obra poética era marcada por uma "depuração sucessiva". Não sei se quer comentar isto, mas além do paralelismo entre duas formas de temperamento contemplativo, ocorre-me uma comparação mais arriscada: o seu trabalho poético será, num sentido metafórico, a tentativa de identificação de um território, de um país?


A poesia que tenho escrito é uma relação com a natureza e, portanto, é também uma forma - activa - da contemplação. No meu trabalho poético há duas fases. A primeira está mais ligada a certos condicionalismos sociopolíticos, que têm a ver com o regime repressivo da ditadura fascista. Numa segunda fase, aproximei-me mais de uma atitude contemplativa, de abertura ao mundo e à natureza. Penso que a minha poesia é, de certa maneira, a identificação de um país que por natureza está sempre submerso - um país latente e submerso.

É o país da poesia, o universo poético?


Sim. Mas é também o universo real. Identifico-me com o que Novalis dizia - "a poesia é o real absoluto"; penso que há uma relação profunda entre a arte e a literatura, por um lado, e o real, por outro.

Após mais de trinta anos de pesquisa e de escrita poética, e também de actividade crítica, conseguiu descobrir o que é a poesia? Ou é segredo?


Posso dizer que descobri a poesia como qualquer poeta descobre. No entanto, essa descoberta mantém em si um segredo. A poesia é iniciática...

Então é uma descoberta sem fim? Nessa perspectiva, não se pode dizer que hoje saiba mais sobre esse segredo do que no início...


Não sei mais; posso saber de outra maneira, mas não sei mais do que sabia quando escrevi o meu primeiro poema.

A necessidade da poesia demorou a expressar-se?


Quando era jovem escrevi centenas de poemas que queimei, e posso dizer-lhe que isso se devia, por um lado, a uma lucidez em relação à minha actividade poética, e, por outro, era uma descrença que sempre tive em relação a mim próprio.

Mas porquê?


Não queria falar muito de mim próprio como pessoa, queria falar mais de mim como poeta... Mas tenho de dizer que sou uma pessoa que, a respeito do seu próprio valor, tem uma tendência muito negativa.

Não é por falta de elogios por parte de muitos críticos literários e muitos escritores portugueses (sem falar no público)...
Esta minha tendência foi de certa maneira superada pelo reconhecimento da minha obra poética.

Evita falar de si como pessoa. É verdade que, conforme diz Octavio Paz no seu ensaio sobre Pessoa (Fernando Pessoa, neste caso...), "os poetas não têm biografia". Mas é inevitável que tenhamos interesse pela biografia de um poeta que gostamos de ler. Ora, o que é que vem nas suas biografias? Que nasceu em 1924, em Faro, que em Lisboa trabalhou num escritório comercial, foi professor e tradutor. Pouco mais sabemos.


Vim para Lisboa em 1945. Estive cá dois anos. Depois voltei para Faro. Integrei-me então no Movimento de Unidade Democrática - o MUD Juvenil, onde tive uma grande actividade militante, tendo por isso estado preso. Nessa altura estava, pois, no Algarve...

Como era o Algarve nessa altura?


Foi antes da vaga turística que transformou e deformou o Algarve. Convivia com pessoas de várias tendências e sentia-me particularmente comprimido, digamos assim, porque não era compreendido de maneira nenhuma por essas pessoas. Eu tinha uma grande paixão pela poesia e pela arte moderna, e não encontrava eco.
Voltei para Lisboa em 1947 ou 48, para me empregar de novo, e aqui encontrei então um grupo de poetas de quem me tornei amigo e que me deram um estímulo. Foram eles que leram a minha poesia e me disseram que ela tinha um valor que eu não conhecia. Esse encontro foi em 1949, creio (sou mau em datas...).

Foi a fase das revistas literárias, em cuja fundação e direcção tomou parte...?


A primeira delas foi a Árvore, e foi a mais importante. Foi proibida pela Censura, pela PIDE.

Quantos fascículos chegaram a sair?


Quatro, entre 1951 e 1954.

E quando é que foi preso por causa do MUD?


Tinha sido antes. Por volta de 1947.

O que é que fazia em Faro?


Não tinha uma ocupação, parece-me, não exercia nenhum trabalho profissional. Estava sem saber bem o que iria fazer...

Tinha já acabado os estudos secundários...
Tinha-os acabado muito antes. Acabado, não. Por doença, não concluí o liceu.

Como é que fazia a sua formação de autodidacta naquele meio? Era fácil?


Não era muito fácil, mas como eu tinha uma paixão muito grande de conhecimento, quanto à matéria poética e literária, e também política e social, conseguia arranjar Les Temps Modernes, a Esprit... Tinha uma fonte informativa bastante grande, mesmo em Faro.

Lia a poesia portuguesa?


Lia-a apaixonadamente. O primeiro poeta que descobri - aos 14 anos - foi José Régio. Tinha uma paixão pelos livros dele, que na altura eram uma linguagem nova, que abria perspectivas. A seguir, li com entusiasmo os poetas do Novo Cancioneiro. E também os surrealistas. E, já que estou a citar nomes de poetas que me entusiasmaram e marcaram a minha poesia, não posso deixar de citar a descoberta de Carlos Drummond de Andrade e de Paul Eluard. Um outro poeta que ainda hoje tem uma repercussão muito grande na minha poesia é um que descobri na minha adolescência, Juan Ramón Jiménez. Voltei para Faro pela segunda vez depois de estar em Lisboa, e aí procurei encontrar um modo de vida. Como não me sujeitava à vida de escritório comercial, que me esmagava por completo, procurei dar explicações. E foi assim que encontrei uma certa confiança em mim mesmo e uma certa liberdade para escrever e até para fazer outros trabalhos: comecei a traduzir para a Europa-América.

Em 1959, Viagem Através Duma Nebulosa (que era o seu segundo livro e incluía os poemas do primeiro, intitulado 0 Grito Claro) ficou em segundo lugar, "ex-aequo", num prémio que se chamava - esse sim - Fernando Pessoa, da Ática. Não o li nessa altura, mas em fins dos anos 60 encontrei em antologias alguns dos seus poemas mais célebres, como o que principia por "Não posso adiar o amor para outro século", ou "O Funcionário Cansado", "O Boi da Paciência" e o "Telegrama sem Classificação Especial". E, mesmo sabendo que poesia não é autobiografia, sempre pensei que por trás dela havia mesmo um funcionário cansado.
Era uma pessoa ligada aos tais condicionalismos sociopolíticos. É uma poesia de protesto, de revolta.

Por isso mesmo tendia-se a pensar que o poeta era mesmo um funcionário e sentia esses problemas pessoalmente: "Débito e Crédito, Débito e Crédito / a minha alma não dança com os números (...) o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente / e debitou-me na minha conta de empregado." Era, pois, o seu caso.
Essa poesia corresponde realmente a uma experiência de funcionário, de uma pessoa que vive numa condição muito opressiva. Poemas como "O Boi da Paciência" ou "O Funcionário Cansado" denunciam essa condição que era, para mim, insuportável.

Saiu desse emprego para dar explicações. De quê?


De Português, Francês e Inglês.

Falou de Carlos Drummond. No "Telegrama sem Classificação Especial", a certa altura, parece ressoar a voz de Drummond. É verdade?


É. Posso dizer que Drummond foi um encontro que me marcou para sempre. Talvez uma certa depuração da linguagem, uma certa nudez da palavra provenha desse encontro com um poeta para quem a palavra tinha uma força, digamos, uma força nua.

Há um poema dele em que isso é muito declarado, é uma espécie de poética e uma exposição da sua teoria da palavra - aquele em que se refere aos "poemas que esperam ser escritos": "Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário". Não me lembro como começa.


Começa por "Não faças versos sobre acontecimentos".

Precisamente.
Devo mencionar também a descoberta de Pessoa, quando eu ainda era adolescente. Depois, li pela primeira vez a obra completa dele. Foi um deslumbramento. Ainda que Pessoa não tenha marcado muito a minha poesia.

Nisso parece que toda a gente está de acordo.
A razão talvez seja a de que há um pessimismo radical na poesia do Pessoa. Eu tinha necessidade de outros horizontes, de uma poesia mais aberta...

De reconciliação com o mundo?


Mais aberto ao mundo, mais... digamos, com a palavra que eu gosto de empregar, mais elemental.

Embora haja uma grande evolução ao longo da sua obra poética, e nela você considere duas fases, esta atracção pelo elementar parece ser uma constante. Parece até ter-se acentuado. Há uma altura em que escreve que abandonou os atributos e ficou com o essencial.


Sim, sim, é num poema...

E há livros seus (por exemplo, Nos Seus Olhos de Silêncio, de 1970, ou O Calcanhar do Vento, de 1987) em que as palavras que correspondem aos quatro elementos estão presentes: terra, água, ar, fogo. Ou então pedra, mar, vento...


A minha poesia, nesta segunda fase, é realmente mais voltada para o mundo, para a natureza. Mas logo nos primeiros livros se podia notar a tendência para uma poesia cósmica, por exemplo em poemas como aquele que se chama "Viagem Através Duma Nebulosa" e vem no livro do mesmo nome.

Na fase inicial, está mais voltado para um mundo social, e mais tarde volta-se também para o mundo da natureza, o mundo cósmico, o mundo físico.


Sim. A minha poesia está muito ligada à terra. Como toda a poesia moderna, é menos a expressão de uma subjectividade do que uma tentativa de fazer com que a terra aflore à palavra.

Entre as duas fases houve um momento de ruptura ou, pelo menos, de viragem?


É muito difícil determinar o momento. Essa tendência cósmica já está na primeira fase.

Está inscrita desde o princípio. Não há, portanto, um livro que represente a mudança do rumo.
Eu tenho a impressão de que cada livro, embora dentro de uma certa tendência que é a de uma poesia elemental, manifesta uma grande disparidade. Há quem tenha dito que na minha poesia há muita repetição. E eu não tenho medo dessa repetição. Receio mais a disparidade que há entre alguns desses livros e que me dá a impressão de que não são do mesmo autor.

Receia mais a fragmentação do que ser considerado o autor de um único livro?


Exactamente.

Mas nunca sentiu a tentação de produzir heterónimos...?


Não, nunca me senti tentado... Além disso, a criação de heterónimos já não teria nenhuma originalidade...

Interessa-lhe, pois, recusar o estilhaçar da personalidade de poeta, de criador. Procurar as fontes da unidade e não da dispersão.
Acho que todo o poeta procura a unidade fundamental do ser.

O estado de vigília - em termos de criação poética - leva-o a um alheamento do que se passa à sua volta enquanto escreve? É uma concentração em que o resto do mundo se torna irrelevante?


O acto poético é, sem dúvida, um acto de concentração, porque o poema se separa do mundo quotidiano, do mundo objectivo, de um mundo que está dividido e, portanto, mutilado. O poema busca uma realidade perdida e a sua integração nas palavras e nos objectos que são sensibilizados pela impulsão poética.

"O acto poético é o empenho total do ser para a sua revelação". Lembra-se certamente desse texto belíssimo de Eugênio de Andrade, que prossegue: "Esse fogo de conhecimento, que é também fogo de amor..."
Lembro-me perfeitamente. Eu acho que é uma formulação exemplar, com a qual estou de acordo.

Concorda com o adjectivo "místico" aplicado à sua poesia?


Penso que a poesia se distingue da mística na medida em que constrói um corpo e reconstrói o ser na própria linguagem. A palavra do poeta é comparável à vida muscular na sua extrema intensidade. Ela é uma descida iniciática à matéria. Por isso podemos considerá-la uma espécie de densidade, de música. Não há diferença entre a criação do sentir poético e o amor à terra. No corpo da linguagem encontra-se a luz da terra.
A poesia é o retorno ao primordial, uma procura da mãe sob a figura da terra. Essa unidade entre a palavra e a terra é-lhe de certo modo impossível, e é esse o lugar submerso que move a escrita e religa o ser e o mundo, ligando assim a nostalgia e o desejo.

Voltemos aos seus anos de formação. Referiu-se a poetas que o influenciaram ou que o entusiasmaram desde muito cedo. Como é que depois foram evoluindo as suas leituras, a sua "recepção" dos poetas estrangeiros e portugueses?


Durante uma fase bastante longa fui dominado - como aliás acontece com quase todos os escritores portugueses - pela literatura francesa. Já citei Paul Eluard. Nesta segunda fase, houve outros poetas que me abriram novos caminhos. Entre eles, posso citar Jean Tortel, Edmond Jabès, Salah Stétié. O conhecimento deste último levou-me a escrever 0 Incêndio dos Aspectos, e Jabès influenciou-me em Quando o Inexorável.

E além dos poetas francófonos?


De há vinte anos a esta parte, houve uma mudança de horizontes. Voltei-me para a literatura espanhola (interesse que, aliás, já vinha de longe, de Juan Ramón Jiménez) e hispano-americana, e vim a descobrir grandes poetas que vieram dar uma nova feição à minha poesia.

Por exemplo?


Creio que não foi nenhum em especial, mas foi a linguagem poética da maioria desses poetas. Fui marcado pela geração de 27; depois de Jiménez e de Antonio Machado, interessaram-me muito Pedro Salinas, Vicente Aleixandre, Luis Cernuda.
Também me interessei muito pela literatura norteamericana. E há dois poetas que destaco: Wallace Stevens e Theodor Roethke. Ambos me marcaram, mas Roethke foi o que mais me interessou.

Interessa-lhe a poesia que se faz actualmente?


Portuguesa?

Portuguesa ou outra. Acha que a nossa tradição de uma grande poesia se mantém - se é que está de acordo com essa reputação...


Penso que não temos que recear qualquer confronto com a literatura estrangeira no domínio poético. Temos grandes poetas, não só o Pessoa mas poetas de várias gerações, alguns ainda desconhecidos e inéditos.

Nesse aspecto não vê, pois, nenhum declínio ou crise...


Não há qualquer declínio. Há continuidade. Pode é não haver grandes figuras, como Fernando Pessoa ou Mário de Sá Carneiro, que são realmente poetas geniais. Mas mesmo esta afirmação tem de ser ponderada, porque há também hoje grandes poetas portugueses. Talvez não devesse citar ninguém, para não omitir ninguém, mas queria destacar quatro poetas que considero grandes figuras da nossa poesia: Sophia de Mello Breyner, Eugênio de Andrade, Mário Cesariny, Herberto Helder. Tenho receio de estar a omitir alguns, mas estes quatro parecem-me evidentes.

E julgo que já escreveu sobre todos eles, além de escrever sobre outros mais novos. A sua actividade crítica é uma coisa que faz como quem exerce uma profissão, totalmente distinta da criação literária?


É um pouco diferente da actividade poética, mas intimamente ligada, porque um dos factores daquela é a leitura apaixonada dos poetas. Comecei por ser um leitor apaixonado da poesia, e continuo a sê-lo. Essa paixão pela poesia também faz parte da actividade crítica.

Em 1968, O Tempo e o Modo, num número especial, publicou uma entrevista com Jorge de Sena. O índice da revista diz que os entrevistadores foram António Ramos Rosa e Arnaldo Saraiva...


É possível, mas não me lembro. Só me lembro de ter escrito um depoimento sobre Sena.

Não importa. Queria era fazer-lhe, vinte anos depois a pergunta que nessa altura foi feita a Jorge de Sena, e que começava assim:" À sua "carreira literária" (passe a expressão), como à sua carreira docente, parece que não faz falta um curso superior de letras"... A si também não fez, pois não?


Bom, eu tentei pelo menos suprir essa falta, com múltiplas leituras, com uma grande atenção ao que se passava no domínio literário (sobretudo poético) contemporâneo, que é onde estou mais à vontade.

Contemporâneo, começa quando?


Talvez com o modernismo, aqui em Portugal com o Orpheu, com o surrealismo, que foi aqui mais tardio...

Como avalia hoje o surrealismo?


A contribuição do surrealismo para a linguagem moderna poética foi fundamental, e essa contribuição é para sempre. Mantém-se viva. O movimento surrealista é que parece que já não existe.

Vive rodeado de livros. Não lhe pergunto se concebe um mundo sem livros.
Mas pergunto-lhe se gostaria de uma cultura sem livro.


Não imagino uma cultura sem livro.

Não gostaria de viver, pois, num mundo em que o livro tivesse sido substituído por outro produto técnico?


Estou muito ligado ao livro como objecto que usamos, que amamos. Estou ligado ao livro tal como ele é, na sua realidade actual.

Disse recentemente que este prémio (com todas as solicitações dos "media" dele resultantes) o perturbou, abalou os seus hábitos. Conseguirá voltar à sua rotina que também nós viemos quebrar?


A vida não é feita só de rotina. É bom que haja de vez em quando perturbações que podem ter o seu lado nocivo, mas que são talvez o tributo necessário a pagar por esse acontecimento que é o prémio.

Como é que sente este final do século XX?


É difícil. É uma época de mudanças, e penso que as maiores estão para vir. Acho, como poeta (e todos os poetas dizem o mesmo), que a vida está voltada para a vida - digamos assim. A vida, na arte e na literatura, surge como uma totalidade muitas vezes fulgurante. E na realidade isso também se pode passar, em certos momentos de grande intensidade. Mas, de um modo geral, a sociedade não está voltada para as grandes realizações humanas; por isso há uma contradição entre a vida e a arte.
A grande revolução seria aquela que fizesse com que a arte e a vida se interligassem de uma maneira muito forte.
Penso também que toda a arte é revolucionária. As perspectivas que abre são as de um mundo inteiramente liberto. E a liberdade inteira do ser, a liberdade que cada um de nós aspira, não é realizada, não é possível de um modo geral na nossa sociedade. Por isso creio que haverá, dentro de não sei quanto tempo, mudanças radicais na vida da sociedade, e que talvez essas mudanças se operem no sentido de uma aproximação fecunda e libertadora entre a vida e a arte, entre a vida e a literatura.

É optimista?


Optimista...? O mundo da arte é um mundo que nos basta, que basta para vivermos: quando lemos um poema, vemos um quadro ou ouvimos uma peça musical, podemos estar a viver um momento de intensidade muito grande. Esta sociedade permite-nos isso. Mas o sentido que há na arte requer uma realização humana integral, que deverá ser realizada na própria sociedade. Por isso eu sou um democrata, mas sou ao mesmo tempo um revolucionário radical.


* Publicado na edição
do Expresso de 19/11/88