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Laureado Prémio Pessoa 1987 - José Mattoso

Historiador, José Mattoso nasceu em Leiria, em 22 de Janeiro de 1933. Entrou na Ordem dos beneditinos aos 17 anos, passando a viver no mosteiro de Singeverga. Licenciou-se e doutorou-se (1966) em Ciências Históricas na Universidade Católica de Lovaina. Deixou a ordem religiosa em 1968, passou ao estado laical mas nunca perdeu a vocação e o hábito da vida contemplativa.

Professor na Faculdade de Letras de Lisboa entre 1971 e 1977, transferiu-se no ano seguinte para a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, de que foi vice-reitor (1991/95). Especialista em História Medieval, presidiu à respectiva Associação Portuguesa, bem como à Associação de Professores de História. É membro das academias Portuguesa de História e de Ciências de Lisboa. Presidiu ao Instituto Português de Arquivos (1988/90).

Entre as obras mais importantes, contam-se A Nobreza medieval portuguesa, A família e o poder (1981), Fragmentos de uma Composição Medieval (1987) e, especialmente, Identificação de um país, Ensaio sobre as origens de Portugal, 1096-1325, o que lhe valeu o prémio Alfredo Pimenta de História Medieval de 1985. Recebeu ainda o prémio de Ensaio PEN Club (1986) e o prémio internacional de genealogia Bohüs Szögyeny (1991). Dirigiu e coordenou a História de Portugal, em oito volumes, editada pelo Círculo de Leitores e pela Estampa. Desde 1996 que é o director do Instituto dos Arquivos Nacionais - Torre do Tombo.

Entrevista ao Expresso

"A palavra recria o Mundo, tira-o do caos para o cosmos. A palavra tem essa força criadora porque não é senão a encarnação do Logos eterno no tempo"

Na aldeia, todos conhecem já "aquele senhor" que, desde o princípio de Dezembro, "está aí o escrever um livro". Para a pequena comunidade serrana, a presença nas Cercanias do forasteiro de barba e cabelos brancos não podia passar despercebida, mesmo que ele apenas desça ao povoado uma vez por outra para comprar pão. Os habitantes saúdam-no respeitosamente nas poucas ocasiões em que com ele se cruzam e não se interrogam sobre as razões que o levaram a refugiar-se num rude e solitário casebre de xisto, 500 metros para lá dos limites do burgo, e a prescindir das mais primárias comodidades da vida contemporânea, como a electricidade ou a água corrente, para dar origem ao tal livro.

Caso o fizessem, descobririam, através de uma elementar investigação, que José Mattoso não dedica à escrita um minuto do tempo que, serenamente, vai deixando escoar ao longo dos dias. A história do livro apenas existe para tranquilizar as gentes da terra. É que eles têm de possuir uma justificação para aquele insólito retiro em pleno apogeu invernal, e as autênticas explicações não só seriam demasiado complexas como desencadeariam não poucas manifestações de incompreensão. Na verdade, quando o júri da primeira edição do Prémio Pessoa decidiu atribuir o galardão a este historiador de 54 anos, José Mattoso encontrava-se numa fase crucial da sua vida. O ex-monge beneditino resolvera regressar por dois meses ao recolhimento, para passar em revista os últimos tempos da sua existência e decidir sobre os caminhos a percorrer no futuro. Em causa estavam opções tão fundamentais como prosseguir a via secular entretanto escolhida ou retornar de uma forma ou outra à postura monástica que desde a adolescência o cativou. Daí a peregrinação interior que se desenrola algures numa recôndita vertente do concelho de Arganil, em zona que Mattoso pretende não ver desvendada, para que nada mais nem ninguém - além de tudo o que rodeou a atribuição do prémio - o venha perturbar.

A própria comunicação da notícia ao laureado foi difícil e incerta, apenas se concretizando umas trinta horas depois da sua divulgação pública. Na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, de que José Mattoso foi até há poucos dias director, ninguém sabia do seu paradeiro. Em casa, a mulher apenas tinha um número de telefone através do qual seria possível fazer-lhe chegar uma mensagem urgente. Quando foram ter com Mattoso pedindo-lhe para ligar para casa, por causa de uma distinção qualquer recebida em Lisboa, ele dirigiu-se ao telefone da aldeia intrigado com o que podia ter sucedido. A mulher contou-lho numa tarde de sábado, mas a novidade não parece ter-lhe causado grande perturbação. Regressou à casa de xisto e retomou a rotina a que se obrigara. Nos seus planos havia apenas uma alteração: para além de ir passar o Natal com a família, teria de voltar uma segunda vez à capital, a 6 de janeiro, para receber os quatro mil contos e o diploma, que constituem o mais avultado prémio português no domínio da intervenção cultural ou científica.

Curiosamente, esta fase de meditação que, segundo o historiador, "corresponde a uma espécie de revisão de vida pessoal", abriu caminho à possibilidade de José Mattoso vencer o Prémio Pessoa. É que o seu êxito como investigador tinha-o levado a deixar-se envolver por compromissos que considerou excessivos: participação em instituições, preparação de conferências, multiplicação de contactos, etc. "Cheguei a um ponto de autêntica saturação, que estava a constituir uma espécie de" - considera. "Pareceu-me, por isso, que devia fazer uma paragem". Um dos convites que decidiu então rejeitar liminarmente foi o de integrar o júri do Prémio Pessoa, tornando-se assim potencial candidato (condição que desconhecia e que fez aumentar a surpresa com que recebeu a notícia da sua distinção). É que este historiador, aliando a paciente seriedade do erudito ao risco calculado do investigador, não andava "a escrever para o prémio", não só porque isso não quadra ao seu modo de ser, como pela elementar razão de que o Prémio Pessoa não existia enquanto ele ia redigindo a sua já numerosa bibliografia - uma obra que o júri veio reconhecer como importante contributo para a renovação da historiografia nacional e, em particular, "para o entendimento de elementos formadores da cultura portuguesa".

Para José Mattoso, o encontro com a História chegou apenas depois da manifestação de outras vocações. A primeira foi a religião, a ela não sendo estranho o ambiente familiar. O laureado do Prémio Pessoa nasceu em Leiria, a 22 de Janeiro de 1933, num meio conservador e católico. O pai, António Gonçalves Mattoso, monárquico convicto e admirador de Salazar, fora seminarista e tinha um irmão pároco e um tio bispo. Licenciara-se em Direito por Coimbra e, por influência de João Soares - o pai de Mário Soares -, obtivera em Leiria o primeiro emprego, como funcionário bancário. Nesta cidade casou e teve os seus oito filhos, com José ocupando lugar no meio da escala. Quando o futuro historiador surgiu, António G. Mattoso era professor na Escola Industrial de Leiria. Em 1946, a família mudou-se para a capital, onde o pai passou a trabalhar num projecto de escola experimental ligado ao Ministério da Educação. António Mattoso tornar-se-ia mais tarde bem conhecido por sucessivas gerações de estudantes portugueses, como autor dos três tomos do Compêndio de História Universal, livro único para o 2° ciclo liceal.

O sentimento religioso começou a dominar o espírito de José a partir dos oito anos. Mas é aos 12 ou 13 anos, quando se prepara para sair de Leiria, que a leitura de uma biografa de S. Francisco de Assis lhe provoca o primeiro apelo místico. A sua adesão à vida monástica deve ter ficado decidida a partir de então, apesar do interesse manifestado na adolescência pelas artes plásticas (sob a influência de um irmão da mãe, o pintor Lino António) e de os testes liceais de aptidão profissional o orientarem para a arquitectura.

O modo de vida dos franciscanos desilude, porém, o jovem devoto, que aí encontra discrepâncias com a biografa de S. Francisco. Uma obra sobre os monges beneditinos fá-lo então interessar-se por esta ordem. A visita ao mosteiro de Singeverga (Minho) é suficiente para o levar a escolher tal forma de sacerdócio. Tem 17 anos e o curso liceal ainda incompleto quando é recebido como irmão em Singeverga.

Talvez a actividade pedagógica do pai o tenha levado a aplicar-se particularmente nos exercícios da história eclesiástica. Alguns trabalhos escolares feitos nesse âmbito despertam a atenção dos superiores, menos de doze meses depois de ingressar no convento. É então que José Mattoso resolve dedicar-se à investigação histórica.

Aos 24 anos, após cursar Filosofia e Teologia no mosteiro, o jovem monge já evidenciou de tal modo os seus talentos que o abade de Singeverga lhe sugere a licenciatura em Ciências Históricas pela Universidade Católica de Lovaina (Bélgica). Ao regressar a Singeverga, três anos mais tarde, e com o curso tirado, José Mattoso já não mantém o mesmo tipo de relacionamento com a Comunidade. Algo mudara entretanto, não só porque os contactos exteriores abriram o seu campo de visão, mas também porque se empenhara num período de reflexão interior sobre o que devia ser a vida monástica. E essa - concluíra - não era seguramente a que se vivia em Singeverga.

Para José Mattoso, o recolhimento conventual implica uma atitude contemplativa, incompatível com as pregações e a actividade pastoral missionária a que os monges de Singeverga se entregavam. A estas ideias não eram estranhas as influências do Concílio Vaticano lI, que, por essa altura, faziam soprar um vento de renovação monacal em todo o mundo. O movimento ficou conhecido como "monaquismo simples" e reivindicava um regresso às origens, combinando a autenticidade das primeiras ordens religiosas com um esforço de percepção do que se passava para além das espessas paredes conventuais. Porém, Singeverga mantivera-se imune a toda esta onda reformista. Durante seis anos, Mattoso e alguns colegas tentam debalde persuadir o abade a autorizar a formação de uma pequena comunidade dedicada ao monaquismo simples. A sua ruptura com o mosteiro beneditino acaba por sobrevir em 1968.
De novo no exterior, ao cabo de quase duas décadas de reclusão religiosa, o historiador (que, entretanto, se doutorara em 1966) enfrenta um período confuso e indeciso. Com dois confrades, pratica por uns tempos, na capital, o "monaquismo urbano" (ou seja, o monaquismo simples transposto para a cidade), mas - concorda - não encontra resultados que correspondam ao seu ideal. Tenta uma estada no mosteiro de Montserrat (Espanha), igualmente votada ao fracasso. "Houve nessa altura uma série de falhanços sucessivos que me levaram a um beco sem saída", lembra. Segundo as suas próprias palavras, José Mattoso apercebera-se, entretanto, "da injustiça da guerra colonial", o que se traduz numa série de contactos com os meios católicos progressistas e com algumas das suas principais figuras - frei Bento Domingues (com quem estabelecerá uma sólida amizade), padres Felicidade Alves e Perestrelo, e Nuno Teotónio Pereira. Colabora então com o Graal, movimento em que uma das principais animadoras era Maria de Lourdes Pintasilgo, cuja candidatura à Presidência da República apoiará década e meia mais tarde.

Ao serviço do Graal, Mattoso dedica-se à alfabetização no distrito de Portalegre. É aí que conhece a sua mulher, uma educadora de infância entregue à mesma tarefa. Para se casar, pede à autoridade eclesiástica a passagem ao estado laical, que lhe será concedida sem grande dificuldade. A sua insatisfação leva-o então a projectar instalar-se na América do Sul. Salvador Allende estava no poder e a Igreja latino-americana, para a qual Mattoso tencionava trabalhar, despertava interesse e por vezes mesmo entusiasmo entre os sectores católicos europeus menos dependentes da hierarquia. Mas, a conselho de um bispo seu conhecido, que lhe sugere prolongar a experiência de casado em Portugal, acabará por permanecer no país.

Com diversos trabalhos publicados (incluindo as suas teses de licenciatura e doutoramento), José Mattoso é, em fins da década de 60, um autor já conhecido na historiografia portuguesa. No entanto, ele continua a encarar essa actividade como secundária. "A História era, para mim, um entretenimento, de modo a não me deixar obcecar por problemas que eram mais complicados", relata, Esses problemas tinham a ver com a sua relação com Deus e com a forma de executar a missão terrena.

Ainda em 1970, José Mattoso começa a reger cursos na Faculdade de Letras de Lisboa, a convite de Virgínia Rau, responsável pela cátedra de História Medieval. Como professor auxiliar contratado, passa a leccionar não só sobre a Idade Média mas também, nos primeiros tempos, sobre a Antiguidade Oriental. Nesta última disciplina introduz referências ao marxismo, que são vistas reprovadoramente pelos responsáveis da escola. "Isso era considerado um crime muito grave" - sustenta - "e, depois de desaparecida a protecção de Virgínia Rau, preparavam-se para me rescindir o contrato". Ainda chega a pensar mudar-se para a Universidade do Minho, então em processo de instalação, mas a irrupção do 25 de Abril fixa-o em Lisboa e catapulta-o como um dos principais responsáveis do departamento de História da Faculdade de Letras.

Não acabou aqui a instabilidade da sua carreira docente. Advertindo que não gosta de falar de "grupos políticos", Mattoso dispõe-se, porém, a abrir uma excepção para este episódio: "Não tendo eu colaborado activamente com o UEC (na altura, a organização estudantil do PCP) na tomada do poder no curso de História, acabei por ser hostilizado por eles". Acrescenta que, por se sentir cansado de sucessivas peripécias, pediu a equiparação a bolseiro em 1976, começando a preparar a edição crítica dos Livros de Linhagens. A sua opção pela História consolida-se assim progressivamente.

Em seguida recebe um convite para ingressar na Universidade Nova de Lisboa, pela mão do responsável do seu departamento de História, A. H. de Oliveira Marques. É aqui, como catedrático de História Medieval, que José Mattoso dá a conhecer a parte mais importante e substancial da sua obra.

Tendo consciência de que é hoje impossível ao historiador debruçar-se simultaneamente sobre diferentes períodos da civilização ("não gosto de falar do que não sei", acentua), o ex-beneditino escolheu, como objecto da sua inquestionável eleição, a Idade Média. "A época medieval é uma espécie de começo para o Ocidente" - justifica. "As coisas estão num certo estado de pureza. Confesso que a antiguidade clássica, por exemplo, não me interessa muito. Nem o racionalismo grego, nem o juridismo romano". Enquanto busca o princípio das coisas, Mattoso concilia o ciclo do historiador com as suas preocupações religiosas e com a sua visão do mundo. Rejeitando o entendimento vulgar da contemplação como "passividade" ou "irrealismo beatífico", oposto à realidade, acredita que o desafio posto ao homem pela totalidade só pode ser enfrentado através da atitude "contemplativa", observando atentamente "a espantosa realidade dos coisas (expressão de Alberto Caeiro que gosta de citar). Para Mattoso, "a totalidade do real só pode ser apreendida e transmitida por processos simbólicos ou por um tipo de linguagem cujo código é infinito nos suas expressões e recursos, como é a poesia" (conforme disse numa conferência em Outubro de 1986). A ordem cósmica, depois de ser apreendida pela observação, deve ser transformada em discurso; "a palavra, o texto, é que realmente a fundam, é que realmente a instauram. Como intuíram há muitos séculos os filósofos e dizem de muitas maneiras os poetas (os grandes), a palavra recrio o mundo, tira-o do caos paro o cosmos. A palavra tem essa força criadora porque não é senão a encarnação do Logos eterno no tempo".
Não se julgue que este tom aparentemente transcendentalista, no qual José Mattoso declara uma visão da História e uma "poética" do discurso histórico, reflecte o conteúdo dos seus livros e artigos. As obras de investigação de Mattoso cumprem todos os requisitos metodológicos da recolha dos testemunhos, da crítica das fontes, da interpretação dos documentos. Ele aprendeu na escola exigente de um Léopold Génicot (seu mestre belga) a análise meticulosa e erudita, o rigor crítico, o respeito pela cronologia. Recebeu o legado da história beneditina, na atenção a ciências auxiliares como a paleografia ou a diplomática. Trabalhou durante décadas em arquivos (no mosteiro, na Torre do Tombo, em Braga e outros). A sua obra passada - inúmeros artigos, livros, edições, críticas, como a reedição da História de Portugal, de Herculano - não oferece o flanco à suspeita dos historiadores tradicionalistas. Mas para ele, "os documentos só têm sentido quando inseridos numa totalidade, que é a existência do homem no tempo".

A busca de ocorrências mais vastas não podia submeter-se à escravidão de vistas curtas do documento no sentido positivista, nem à estreiteza de temas e problemas da história tradicional. A procura das categorias religiosas manifestadas na experiência do sagrado através dos tempos aproximava-o das propostas conceptuais da antropologia - do simbólico às estruturas de parentesco. O contacto com a "Nova História" reforçava a sua consciência da história social, das mentalidades e do imaginário, a par da ligação com outras ciências humanas. No seu último livro Fragmentos de Uma Composição Medieval, faz notar que as interpretações aliciantes da
"Nova História" são gratuitas se não assentarem numa crítica implacável, e - reciprocamente - a erudição será estéril se recusar "o alargamento das perspectivas trazidos pela interdisciplinaridade das ciências humanas".

Esta atitude de abertura teórico-metodológica (e correspondente rejeição de modelos em que a realidade tenha de se encaixar à força) tem vindo a revelar-se nos seus estudos sobre o Portugal medieval - culminando no ensaio Identificação de um País, ao mesmo tempo que problemas como o do feudalismo em Portugal são objecto de reexame. Mas seria injusto que essas últimas "árvores" ocultassem a floresta que José Mattoso cultivou durante muitos anos, sem pressa de reunir textos em volume. O que talvez se torne hoje fascinante é ver essa longa pesquisa frutificar em obras que reflectem as de mestres de várias disciplinas, de Orlando Ribeiro a Georges Duby, mas sobretudo o trabalho directo do próprio José Mattoso sobre as fontes e a reflexão que a experiência universitária permitiu.

Na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova, José Mattoso ascendeu sucessivamente aos cargos de presidente do Conselho Científico e de director. Mas nos últimos tempos manifestaram-se divergências entre ele e o Conselho Científico, O conflito teve a ver com "diferentes formas de conceber os órgãos institucionais", segundo afirma laconicamente e com alguma relutância José Mattoso, que tem horror à publicitação dos seus desentendimentos com pessoas do mesmo ofício. Apesar de reeleito, acabou por se demitir da direcção. "Pareceu-me preferível que escolhessem outro director, para que houvesse um mínimo de entendimento" - explica. "Além disso, eu detestava aquele cargo".

A sua temporária experiência como eremita já fora planeada antes - esclarece -, nada tenho a ver com esses eventos na Universidade Nova. Na serra, o seu dia-a-dia, para além das obrigações biológicas, é preenchido por três únicas actividades: "Rezo, medito e leio" , resume ele. Como livro de cabeceira, Mattoso levou a obra completa de Fernando Pessoa (para si "um dos génios mais espantosos da humanidade", a quem frequentemente invoca), a Bíblia e o Bhagavad Cita, o livro hindu de sabedoria oriental.

A área onde o historiador se aloja foi cenário de um dos mais calamitosos incêndios florestais do último Verão. A devastação rodeia a casa de xisto, de onde, até ao horizonte, apenas se distinguem troncos ardidos espetados como alfinetes numa serra calva. Mas, simultaneamente, brotam os sinais de renovação e optimismo. A hera recobriu pujantemente o solo de verde, e alguns frutos secos abriram-se para lançar sementes à terra. O ruído permanente da água a escorrer pela encosta é a melhor garantia do renascimento. A Natureza assegura vigorosamente o cumprimento dos seus ciclos.

O antigo monge de Singeverga ocupa apenas duas pequenas divisões da casa de xisto, que abriga um posto de observação meteorológica da Secretaria de Estado do Ambiente. Totalmente isolado do mundo, sem telefone, jornais, rádio ou televisão, o asceta procura não ceder um milímetro nas formas de austeridade que pratica. A cama é um colchão de espuma assente sobre tábuas. Os bancos são toros de madeira. As refeições resumem-se quase sempre a batatas, arroz e massa, cozidos ao fogo natural. Há dias, Mattoso atreveu-se a preparar um frango, mas lamentou-se do trabalho que lhe deu e regressou à sua dieta vegetal, "Dos maiores prazeres que há aqui é uma pessoa não ter de pensar no tempo que se demora o fazer as coisas", proclama como que aliviado, com a sua característica voz pausada e tranquila. Nem sequer fica com má consciência por dormir de mais (nove horas de sono diário, por vezes).

José Mattoso, que é pai de três filhos (o mais velho dos quais com 15 anos), admite que esta prova espartana seja "ensaio" para uma possível transformação na sua vida. No entanto, continua afectado por múltiplas dúvidas sobre as suas opções. "Gostava de saber qual é o caminho" - confessa. "Não sei ainda, mas gostaria de voltar às origens, de retomar a vida contemplativa".

No entanto, seja qual for o sentido da decisão final, ele garante que a sua actividade como historiador não se encontra de modo nenhum em causa. Aliás, Mattoso considera que "a Idade Média ainda tem muito para explorar" - tarefa que julga dever prosseguir. Mais do que isso: o galardoado com o Prémio Pessoa foi recentemente convidado por uma editora (o Círculo de Leitores) para dirigir um monumental projecto de História de Portugal, a publicar dentro de três ou quatro anos. José Mattoso aceitou o desafio, o que significa que, pelo menos temporariamente, deverá distanciar-se um pouco da Idade Média para consolidar uma perspectiva de toda a história da Nação. Talvez o seu voluntário exílio interior (e também exterior, afinal) constitua um primeiro passo nesse sentido.

* Publicado na edição
do Expresso de 19/12/87