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Laureado Prémio Pessoa 1991 - Cláudio Torres

Arqueólogo, Cláudio Torres nasceu em Tondela, em 11 de Janeiro de 1939. Trabalhou numa fábrica de azulejos, em Aveiro, antes de cursar escultura, na Escola de belas Artes do Porto. Militante do PCP, foi detido pela PIDE e condenado a sete meses de prisão. Com o início da guerra em Angola, refugiou-se em Marrocos. Trabalhou na rádio Bucareste e assistiu à "Primavera de Praga", onde vivia o pai, o historiador Flausino Torres. A invasão soviética levou-o a abandonar o PCP. De volta à Roménia, diplomou-se em História e Teoria da Arte, após o que se doutorou em Paris. Regressou a Portugal depois do 25 de Abril. Docente da Faculdade de Letras de Lisboa entre 1974 e 1986, ano em que o eixo da sua actividade se deslocou para Mértola. Durante dez anos, foi o Chefe da Divisão Sócio-Cultural da respectiva câmara.

É director do Campo Arqueológico de Mértola e do Parque Natural do Vale do Guadiana. Preside à Comissão Nacional Portuguesa dos Monumentos e Sítios e é vogal da Comissão de Arqueologia da Andaluzia. Fundador e director da revista Arqueologia Medieval, tem vários trabalhos publicados, entre os quais um estudo sobre "O Garb al-Andaluz" incluído na História de Portugal (dirigida por José Mattoso).

Entrevista ao Expresso

"O medieval é um mundo quase ainda em carne viva. São as mesmas caras, o mesmo espaço, a mesma forma de olhar, as mesmas ovelhas"

Cláudio Torres é daquelas pessoas que obriga quem o conhece a tomar posição: os que não gostam dele geralmente odeiam-no. Um hábito seu talvez ajude a entender essa ausência de indiferentes: recusa-se a apertar a mão àqueles que falam bem pela frente e fazem mal por trás.

Quando Mendes Atanásio, então coordenador do Departamento de História da Arte da Faculdade de Letras de Lisboa, se dirigiu a ele de mão estendida a cumprimentar, alguns minutos depois de ter recusado, na respectiva Comissão Científica, aceitar a tese de doutoramento que se propunha realizar sob a direcção de José Mattoso, olhou e respondeu, com a placidez costumeira: "Desculpe, mas acabei mesmo agora de lavar as mãos", deixando o futuro catedrático boquiaberto perante tão insólita franqueza; dezenas de pessoas testemunharam e o caso ficou na memória da Faculdade. O mesmo aconteceria a outros colegas seus, que considera falhos de franqueza ou frontalidade.

Filho de Flausino Torres, historiador e militante comunista de velha data, a influência dele foi profunda, não tanto na concepção da História como na formação do carácter. A ligação à sua memória continua viva: ao receber uma mensagem de felicitações de Mário Soares por ter recebido o Prémio Pessoa, comoveu-o a evocação do gosto que o pai teria em o acompanhar, se estivesse vivo: "A obra escrita foi uma parte pequenina da vida do meu pai. Era uma figura perfeitamente excepcional.
Nunca perdoei a forma feia como o partido tratou o meu pai: ele contava o que estava a acontecer na Checoslováquia, o que tinha acontecido e o que ia acontecer. Não se tinha a coragem de dizer aquelas coisas dos países do Leste, portanto foi acusado de louco. Assistiu ainda, felizmente, ao 25 de Abril. Para mim, ficou sempre o nosso pequeno deus, embora longínquo. A primeira vez que me abraçou na vida foi na prisão. Foi-me ver à prisão e nunca tinha tido um abraço dele, o que é realmente raro".

Estava-se em 1959, ano em que Cláudio Torres completava vinte anos. Há três anos já que fazia parte do Partido Comunista Português. Filiara-se logo que, chumbado o 7° ano, decidira não sobrecarregar a família e ir trabalhar. Saiu, assim, de Tondela, onde nascera e fora educado no colégio particular onde Flausino Torres - a quem a função pública estava vedada por motivos políticos, ensinava. Os professores tinham a benesse de inscrever os filhos de graça e, assim, o futuro arqueólogo fez o liceu entre os meninos ricos da Beira Alta. Em casa, não lhe davam lições de comunismo. Mas a atmosfera não era, evidentemente, favorável à ditadura salazarista. A maneira de encarar as colónias, por exemplo, era outra e marcou o jovem.

Em 1954, percebeu que era diferente dos colegas.
A União Indiana invadiu os pequenos enclaves de Dadrá e Nagar-Aveli, no Estado Português da índia, e em todo o país, "do Minho a Timor", organizaram-se manifestações de desagravo. Em Tondela também, claro. Enquanto os colegas se embandeiravam de Mocidade Portuguesa, achou que era seu dever não comparecer à manifestação diante da Câmara, nem gritar "Salazar, Salazar, Salazar". A partir daí, passaram a olhá-lo, e à família, doutro modo. O compromisso político viria apenas em Aveiro. Depois da pacatez de Tondela, descobria a cidade e a vida. Arranjou emprego numa fábrica de azulejos, o primeiro dos muitos trabalhos com que ganharia a vida. Filho de quem era, logo foi recrutado para o Partido - para a célula dos estudantes, não a dos operários. A célula era ele e mais outro, mas o mundo da dedicação e da militância fascinou-o. Tinha poucos contactos com o núcleo proletário e esses num bosque e sempre de noite, quando só se distinguiam os vultos e o reconhecimento se tornava impossível - exigências de segurança na clandestinidade.

Ainda hoje recorda com emoção a abnegação
do seu primeiro funcionário, o João Honrado, que vinha para essas reuniões a pé desde Coimbra, onde chegava com os pés em sangue (veio a reencontrá-lo no Alentejo). Quando foi a casa, ia outro, senhor de dar a grande novidade. O pai é que não achou grande graça a tão precoce compromisso para o futuro. Lá tinha as suas razões: o filho tornou a não fazer o 7° ano.
Foi para o Porto cursar escultura. Era o período áureo da Escola de Belas-Artes, alfobre de oposição à estética oficialona do regime. Para ele, o grande mestre será, porém, Júlio Resende. Conheceu por essa altura Maria Barroso, cuja dignidade e coragem em recitais de poesia contestatária, a que dava a sua voz, o impressionaram.

Foi então também que se enamorou de Manuela, sua companheira até hoje.

Continuou o trabalho partidário. Andavam dois grupos, compostos de comunistas e aliados, a fazer pichagens - "Amnistia! Amnistia!" - nas vésperas duma visita de Américo Thomaz, quando um deles é preso. Dias depois, era a vez de Cláudio Torres conhecer os métodos da PIDE. Mestre Resende foi depor em seu favor.
Conseguiu evitar o pior: a condenação como membro do PCP vinte anos à sombra. Safa-se com sete meses na prisão central do Norte. Só havia outro preso político, com quem enceta uma greve da fome exigindo um prato de conduto à refeição, cujo menu andava reduzido a uma raIa sopa de couves. Para grande espanto deles, ganham. Tornam-se os heróis dos outros detidos.
Saem para um país à beira de entrar na guerra. Quando os primeiros soldados partem para Angola, a palavra de ordem do partido é embarcar. Mas são os comunistas os primeiros a regressar - em caixões. A partir daí, começaram a preparar a fuga.

O "salto" para França era coisa de muitos contos de reis - hoje dava para comprar um andar. Eles não tinham. Adquiriram um barquito em mau estado, dos de motor fora de borda, e meteram-se a consertá-lo. Nenhum tinha andado no mar alto, à excepção de um estivador amigo, o Vaiadas, que aceitou acompanhá-los até Lisboa (confessou depois que nunca tinha passado da barra do Douro).

Cláudio Torres casou com a namorada. Ainda andaram nas folias do S. João; nessa noite, aproveitando o entusiasmo tripeiro e o fogo de artifício, saíram a barra. A sorte é que o mar estava chão. Seguiram aos bordos pela costa fora, Aveiro, Figueira da Foz, onde se iam afogando, sem saber onde eram os portos.

À chegada a Lisboa, azar: caíram direitinhos no meio do "chique porto" dos iates do Clube Naval de Cascais. Pior: putos, disseram que vinham do Porto. Naquilo? Promovidos a heróis dos iatistas, aprestou-se uma festa de homenagem para o dia seguinte. Escaparam-se à noite, passaram o dia a fugir do Cabo da Roca, a tentar passar o Espichel, que viam "ao fundo, a rugir". As ondas seriam pequenas, mas subiam mais alto que a proa minúscula. Tiveram de atirar fora bagagens, começaram a conhecer-se melhor.

Não repetiram o erro e, cada vez que iam a terra, diziam que vinham do porto logo acima. Lá chegaram à Arrifana, na costa vicentina. Tinha de ser a última escala: as águas algarvias andavam bem patrulhadas, a Marinha reforçara o número de vedetas de fiscalização. Terra pobre de pescadores de lagosta, só havia lagosta para comer. Adoptados pela comunidade, foram sete dias que deram para enjoar o crustáceo de luxo. Os homens da terra desconfiavam que o seu destino era Marrocos; a gasolina nunca daria para lá chegar; e a despedida, na praia, foi um enterro.

Na Arrifana, confirmam que o grupo era heterogéneo, Uns que já estavam ilegais, outros que só seriam chamados no ano seguinte. O perigo e a morte fizeram muita gente pensar duas vezes. Vai, não vai, lá seguiram todos para "uma última viagem". A gasolina acabou no meio do mar, como já esperavam. Para ali ficaram, a ver navios. Lá foram avistados, ao fim de três dias à espera da morte, por um petroleiro de bandeira liberiana que os encontrou convincentemente náufragos, pois o ácido duma pilha rebentada pusera-lhe as roupas em farrapos. O capitão não os deixou em Marrocos, levou-os para Gibraltar, donde conseguiram ser expulsos para Marrocos, em vez de devolvidos à procedência. Passaram lá um ano. Para pagar o nascimento da primeira filha, fez esculturas em ferro soldado, que estavam na moda. Desenhou no Ministério do Urbanismo, ganhou o concurso para um cartaz da Air France. Ia dando...

A chegada de Amílcar Cabral, Agostinho Neto e Marcelino dos Santos dá-lhe rumo à vida. Encarregam-no de organizar a recepção aos desertores do exército português, tanto aos poucos politizados como aos muitos assustados, que nunca tinham pensado ver-se em andanças de guerra e exílio, camponeses perfeitamente fora de tudo.

Envolveu-se na "operação Vagô", montada por Henrique Galvão com o fim de desviar um avião comercial marroquino. O avião foi desviado e despejou sobre o sul de Portugal a propaganda anti-salazarista de Galvão, mas Cláudio Torres não participou: os comunistas queriam distruir também a sua propaganda - para Galvão, anticomunista convicto, nem pensar nisso era bom. Com Humberto Delgado, pelo contrário, o entendimento terá sido bom. Segundo Cláudio Torres, foi ele o responsável pelo encontro com os líderes guerrilheiros africanos, que preludiou a primeira conferência de Imprensa em que o general admitiu a autodeterminação das colónias: "O Delgado veio ter connosco por causa do barco. Ele queria entrar em Portugal à viva força. Sabia que uns portugueses tinham chegado num barquito..."

A estada em Marrocos não se alongaria. O PCP
encarregou-os de reforçar as emissões em português dos países de Leste, mais para a s colónias que para o Continente. Berlim, Praga, Bucareste: na Roménia, era urgente assegurar substituições, e foi para lá que o Cláudio e a Manuela seguiram. Ninguém os esperava à chegada e tiveram alguma dificuldade em contactar alguém do partido. Por fim, lá ficaram registados, com nomes falsos de que, mais tarde, custaria livrarem-se.

As regras da clandestinidade não tinham cessado, antes pelo contrário: não só não existe nenhum documento que prove que um certo Cláudio Torres trabalhou na Rádio Bucareste, como poucos dos emigrados políticos poderão testemunhar terem travado conhecimento com o dito: Carlos Antunes, por exemplo, nunca se cruzou lá com o futuro arqueólogo. Os contactos entre eles eram severamente restringidos. Mesmo quando se encontravam, falavam uns com os outros em romeno, embora desconfiado do idioma pátrio a tremeluzir lá no fundo. A alegria da casa de Cláudio Torres, sempre cheia, levava alguns adolescentes, como Daniel Perdigão, a transgredir as regras. Às vezes, tinham os filhos na mesma creche, as mães percebiam.

Desse período, uma memória fundamental: as reportagens para a rádio da Primavera de Praga. "É inimaginável. Agora está toda a gente. É o banal. Nessa altura, era uma coisa política, muito profunda, muito política. E com uma alternativa lindíssima ao socialismo. Era diferente."

A presença dos pais, que tinham acabado por sair de Portugal em 1965, cobria as sucessivas estadas do filho na Checoslováquia. Aí criou uma nova cultura política, que viu ser esmagada pelos tanques russos. Reagiu contra a posição do PCP, como muitas dezenas de outros refugiados: ainda foi a Paris recolher assinaturas para o documento de contestação entregue. Era inútil, e no mesmo ano de 1968 abandonou o partido.

Livres agora das regras da clandestinidade (a mulher nunca fora filiada), trataram de recuperar os seus verdadeiros nomes para irem estudar - para que houvesse, nesse caso, documentos comprovando que se licenciaram, ele em História de Arte, ela em Linguística. Ficaram grandes amigos de Lindley Cintra, que por lá passou na ocasião dum congresso e lhes mandou os primeiros discos de Zeca Afonso.

Concluída a licenciatura, foi para Paris no princípio de 1973, à procura de ar livre e do doutoramento. A tese era sobre o desenho insculturado em pedra e madeira (que marcou um bocado o final do Baixo Império Romano e o nascimento do Islão), dirigida por Grodetsky, um importante medievalista da História de Arte.

A sobrevivência ia-se garantindo, trabalho aqui, trabalho ali: impressão de gravuras, feitura de chaminés chiques (estilo escultura no meio da sala, para casas do XVlème), electroencefalogramas num manicómio durante seis meses, com pseudónimo grego. "Não podia ser português, porque naqueles hospitais psiquiátricos qualquer francês que se prezasse não autorizava que as mãos dum português lhe tocassem. Comecei o apanhar montanhas de portugueses jovens perfeitamente liquidados, em estado terminal. Inevitavelmente, falava com eles, não aguentava. Quando ouviam um português a falar davam um salto na cama, coitadinhos - estavam ali, às vezes, há meses e meses, não tinham família, não tinham nada, apanhados nas valas, com depressões terríveis, daquelas de caixão à cova". Viveu numa mansarda do Marais, das pobres, com um talho judeu no rés-do-chão que sangrava os bichos segundo as normas rituais: não esqueceu o cheiro do sangue na escada.

25 de Abril veio encontrálo a pôr um mosaico de desenho seu num dos jardins suspensos dos prédios da margem esquerda, em frente à Défense. Nem esperou pela conclusão do mosaico de vidrinhos de Murano. A dona da casa compreendeu e pagou por inteiro - à justa para o bilhete de regresso. Voltou, por coincidência, no mesmo avião de Álvaro Cunhal. Como o passaporte ranhoso - roubado há anos pelo partido algures - já não servia, aproveitou o entusiasmo democrático para evitar os controlos. Apanhou um táxi: "Você veio neste avião? Sente-se aqui!" O motorista levou-o a Cascais, a todo o lado, convidou-o para almoçar, para jantar, para os copos. A mulher precedera-o quase um ano, sem escapar a uns tempos de prisão em Caxias, por causa da velha fuga do Porto, e só saíra em liberdade condicional devido a um movimento lançado por Linciley Cintra. Chegou a casa a tempo de viver o primeiro 1º Maio.
Uma amiga, Maria de Lurdes Belchior, põem-no em contacto com José-Augusto França e vai para o Instituto de História de Arte, criado por este na Universidade Nova de Lisboa: "Estávamos ali a olhar uns para os outros, numa sala alcatifada e o barulho estava lá fora". Foi para a Faculdade de Letras. "Se tivesse ficado na Nova tinha perdido completamente uma das fases mais bonitas da minha vida, que foram os meus dez anos naquela Faculdade.
Foi um virar de página absoluto. Esse novo teatro da liberdade foi espectacular".
A adaptação à docência foi difícil, mas obrigou-o a estudar ainda mais, para responder às perguntas, às dúvidas, às provocações até, dos alunos dessa altura, que o ensinaram "a viver o que é mesmo a democracia". Ainda vinha longe, em 1975, a docilidade que viria a caracterizar o princípio dos anos 80, quando novos e velhos catedráticos, de obra cientifica fraca ou falsa (com a excepção de Borges de Macedo), sem cultura nem criatividade, procuram isolar o Departamento de História da investigação que decorria noutras faculdades, depois de terem conseguido o afastamento, por falta de condições de trabalho, de professores eminentes como Joel Serrão e José Mattoso. O perfil de autonomia de Cláudio Torres, a autoridade crescente como especialista do período islâmico a nível internacional, granjeado pelas suas pesquisas em Mértola, não eram de molde a conquistar-lhes as graças, antes os inquietava. Recusaram aceitar a proposta de tese de doutoramento e viram-se livres duma presença independente e incómoda. Cláudio Torres estava, finalmente, livre para investigar.

Prémio Pessoa de 1991 afirmou-se no panorama relativamente parco das Ciências Sociais em Portugal através do seu trabalho em Mértola: melhor, do seu projecto para Mértola. O que deu à sua intervenção arqueológica um valor modelar foi a contínua articulação com as pessoas da terra, tornando-as no garante da conservação da memória do seu passado esquecido, ao mesmo tempo que procurava salvaguardar as tradições e os modos de vida tradicionais. Este estudo antropológico serve, por sua vez, para apoiar a interpretação dos restos arqueológicos, escavados com particular atenção aos traços da vida quotidiana conservados.

A este equilíbrio entre o presente vivido e a memória mais ou menos longínqua responde um outro, bem mais difícil, entre a preservação de saberes e caracteres e a sobrevivência material da própria comunidade, ameaçada pelas sucessivas retracções económicas: fim do papel de porto comercial entre o Baixo Alentejo e Lisboa, no princípio deste século; encerramento das minas de S. Domingos, mais recentemente. A saída óbvia, o turismo Guadiana acima, vindo do Algarve, é desejado, mas com distância. A proliferação de pequenos núcleos museológicos, dentro e fora da vila velha, assinala a recusa de estabelecer o grande edifício-resumo-daHistória à mão de vinte carradas diárias de turistas. As ruas estreitas e escarpadas por onde se chega ao Museu de Arte Sacra, na Misericórdia, ao núcleo romano, nos restos da "villa" conservada por baixo do município, ao criptopórtico de sustentação dó fórum, à torre de menagem que abriga as pedras visigóticas, assim como a distância relativa ao museu de sítio, em construção, que abriga as únicas sepulturas paleocristãs invioladas da Península, querem-se como outros tantos crivos que só deixem passar um turismo cultural de qualidade, que fique, que estude, que ame - e que tarda. A manutenção das antigas artes é dificultada pela sua idade: falham os cardadores; falham as rouparias. Falha, sobretudo, o dinheiro. Todo o projecto partiu do trabalho voluntário dos investigadores e, quando as condições apertam, regressa o voluntariado. Pelo caminho ficaram as ofertas de financiamento estrangeiro, que pareciam implicar uma dependência prioritária da Líbia, e por isso foram recusadas; e ficou, também, o apoio concedido a projectos vários pela JNICT (Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica) do tempo de Mariano Gago. Entre investigação científica e produção artesanal, o Campo Arqueológico de Mértola contribui decisivamente para que a câmara constitua o principal empregador do concelho. Entretanto, o exemplo vai alastrando, de Silves à Messejana, de Noudar a Viana do Alentejo.

Por que é que ganhou o Prémio Pessoa?
Há uma moda que passa por questões eco-ambientais ligadas à cidade e ao património deste tipo. Existe uma evidente apetência e aceitação do tipo de actuação que temos vindo a desenvolver em Mértola. O citadino precisa das suas ilhotas, mais ou menos mitificadas, espera que a sua terra de origem ainda se mantenha, com as suas alheiras, ou farinheiras...

Uma recuperação?
Não digo uma recuperação: espera que aguente, resista, não se destrua. Como uma espécie de pequeno bastião de sobrevivência.

Pode dizer-se que o projecto de Mértola é um projecto com um conteúdo político definido?
Desde o princípio, pela simples razão que há duas maneiras de intervir fora das áreas urbanas, no mundo dos outros: uma, é a recolha (respeitosa ou não) da imagem, que passa pelo folclore, pela etnologia; outra, que é intervir dentro, penetrar num meio para deixar algo. E isso é um acto político, uma opção. Muitas vezes acontece que os próprios que vão para recolher ficam enleados noutra cultura, noutro mundo pelo qual se cria uma certa paixão. Aqui, por causa da época que abordamos, o medieval, temos um mundo quase ainda em carne viva: não é uma pré-história longínqua, fria, gélida, metida esterilmente nos escaparates da Universidade, ou mesmo o período romano, em toda a sua monumentalidade morta. Estamos num mundo ainda muito próximo: são as mesmas caras, é o mesmo espaço, é a mesma forma de olhar, são as mesmas ovelhas. A intervenção arqueológica nesse mundo ainda a funcionar toca necessariamente nas gentes: o modo de entrar vai marcar o futuro de toda a intervenção e tem de ser muito, muito cuidadoso, porque garante, ou não, um trabalho em continuidade.

Já tinha essa noção quando veio para aqui?
Era uma coisa antiga, de contactos noutras ocasiões: ouvir implica aprender primeiro. Vir para cá implica uma aprendizagem prévia, e fiz isso todos os anos. Quando vinha um grupo para uma escavação, havia uma preparação prévia: como é que uma pessoa se comporta, como é que deve fazer um jovem que chega a um meio deste tipo, o respeito que deve ter, como falar. Isso foi sempre fundamental, e foi sempre feita uma selecção muito rigorosa. Quem vinha era preparado ao longo do ano para, nas férias, ter o direito de vir, porque era um trabalho muito importante. Daí que desde o princípio que as equipas foram espectaculares e houve uma participação grande: havia uma sintonia de interesses e um respeito pelas pessoas, um integrar lento e poderoso e um respeito mútuo.

Escolheu o mundo medieval por saber que ia encontrar um mundo "em carne viva" ou escolheu a época e deu-se depois conta que essa realidade existia?
já a minha tese de licenciatura tinha sido sobre a parte final do mundo antigo. Foi um período que sempre me fascinou: uma transição escura entre o mundo imperial e a Idade Média. Há ali um espaço negro, muito mal estudado e conhecido.

Não fez escavações na Roménia?
Perfeitamente escolar. Fui, como todos, a algumas pequenas campanhas. O principal já foi cá, com muitas asneiras ao princípio e muito esforço, mas já cá.

Essa ideia de devolver a uma população o controlo sobre o seu quotidiano e o seu passado tem muito a marca de Maio de 68.
Marcou-nos a todos, à minha geração, marcou-nos muito, muito e profundamente. Foi um percurso político que, fosse em Paris ou fosse, principalmente, em Praga, desabrochou e atingiu de certa forma uma compreensão política mais profunda. Saiu de um período de militância ainda estalinista, muito fechada, para, de repente, desabrochar para uma abertura para outros problemas da cultura política ou da política cultural. Foi a grande explosão, a grande novidade.

Onde estava nessa altura?
Estava em Bucareste, mas fui viver os acontecimentos todos a Praga, como jornalista da Rádio Bucareste, que fazia emissões para Portugal, para as colónias e Brasil. Na altura havia na Roménia um apoio quase completo para a cobertura que estávamos a fazer sobre a invasão de Praga. Tinha 27 anos. Estive sempre a trabalhar na rádio e só no período final é que comecei a fazer o curso.

Assistiu à invasão?
Estavam lá o meu pai e a minha mãe e consegui penetrar, com o pretexto de os ir ver. Depois, fiquei aquelas duas semanas fundamentais em Praga, a participar um pouco naquelas noites de rua, naquela festa triste que foi o final da Primavera de Praga. Os contactos com o Maio de 68 vieram mais tarde, quando fui fazer o doutoramento para Paris e frequentava os grupos sul-americanos.

Como é que descobriu Mértola?
Através do Serrão Martins, que foi meu aluno na Faculdade. Foi uma figura consensual: era um jovem professor, com prestígio enorme aqui na vila, toda a gente lhe passou pelas mãos. Tinha estado na fase principal de arranque do Comércio do Funchal. Era uma pessoa absolutamente fora do normal, com uma cultura e um humanismo espectaculares e que teve um papel fundamental aqui. A forma como conviveu com as pessoas, até morrer, ficou no imaginário daqui.

Por que é que fez daqui a sua base de trabalho?
Na altura, o Borges Coelho e eu andávamos a fazer uma espécie de grande circuito pelo Alentejo. No Castelo, vi uma série de cacos da época califal espalhados pelo chão. Havia um buraco donde os miúdos os tiravam. Saía de lá uma figueira e a gente conseguia entrar por entre as raízes e ver a abóbada do criptopórtico, que depois desentulhámos. Solicitei logo uma autorização de escavação e pedi apoio ao José Luís de Matos, o único arqueólogo medievista que na altura havia, e começámos os três a organizar uma ideia para Mértola.

Como é que as pessoas reagiram perante esse núcleo estranho que aparece assim de repente?
Aqui, o estrangeiro é recebido imediatamente, quase de olhos fechados. É como se fosse um agradecimento à pessoa que se digna parar para ver a sua terra. O primeiro grande grupo que trouxemos cá foi do curso de estrangeiros da Faculdade de Letras. Foi uma coisa... Toda a gente levou um para casa, empanturraram-nos... Era a primeira vez que vinha gente de propósito a Mértola. Isto era uma miséria muito grande.

Qual foi a primeira acção de sensibilização que fizeram?
Fizemos uma exposição razoável para os nossos tristes meios, com vitrinas feitas à mão e uma papelada, na Misericórdia. Com papéis e fotografias antigas, com objectos que as pessoas queriam dar. Havia fogões velhos, ferros de engomar, aqueles floreiras com anjinhos de porcelana dos anos 15 e 20 ainda a imitar o rococó, uma colecção espantosa de tudo - até pedras do mar que o avô de alguém tinha trazido, além das coisitas que nós já tínhamos das primeiras escavações. Do ponto de vista museológico era uma coisa sinistra. Veio cá na altura a Natália Correia Guedes, que olhava com uns olhos... Mas percebeu, comoveu-se: havia uma confusão, com todos a verem as suas fotografas, que são a grande arma do passado, a grande base do reconhecimento colectivo.

O primeiro núcleo museográfico foi, segundo creio, o ferreiro.
Logo a seguir. Começámos a ter boas relações com o ti 'Brito, a tentar que ele mantivesse aberta a forja e chegámos a um acordo. Serviu, na altura, para uma abordagem etno-arqueológica e começou a surgir a ligação à antropologia local - o que é a peça, o que é o objecto, qual a técnica de restauro.

E a oficina de tecelagem?
Começou a abrir-se o leque para actividades afins, não arqueológicas. A tecelagem continua. É muito difícil, por causa de questões técnicas. Esteve quase a acabar a cardação - uma operação difícil, feita por homens, aliás a única. As mãos ficam deformadas pela força. Tentámos fazer cursos de aprendizagem. Qual história! É um trabalho perfeitamente desqualificado socialmente. Mas voltou-se a conseguir.

A manutenção de técnicas tradicionais surge, no vosso caso, como resposta a uma situação dramática de sobrevivência da comunidade.
Há um aspecto muito importante, também, que é o aspecto científico. Esse processo da tecelagem levou-nos a fazer um levantamento alimentar, as várias receitas e comidas possíveis, através da equipa de etnoantropologia. Na escavação do bairro almóada do Castelo estamos a apanhar uma série de casas com restos alimentares. Temos uma equipa em Madrid, com quem estamos a trabalhar, que faz a análise completa deste espólio, a partir das escamas dos peixes, dos ossos. E fazemos a comparação com o que ainda hoje se come e como se come.

Com alguns resultados?
Muito interessantes. Estamos a encontrar provas evidentes de continuidade, não só de estruturas, o que seria normal, mas mesmo humanas - povoados desde a 2a Idade do Ferro chegaram quase até aos nossos dias no mundo da serra. É o caso de Alcaria Longa, que fomos escavar em colaboração com a Universidade do Novo México num programa comum. Está-nos a dar resultados muito interessantes na questão do habitat, na comparação de fenómenos de estrutura, dos fenómenos alimentares e da organização espacial da casa. O micromundo da mulher está a sair lentamente das hipóteses e a entrar no domínio do conhecimento seguro.

Uma das vossas características é a distância em relação ao poder central.
Só aparentemente, porque, no fim de contas, essa força institucional existiu: eu era um quadro universitário e vinha para aqui com alunos; por outro lado, houve sempre boas relações com o IPPC e uma integração no seu departamento de Arqueologia, porque desde há muitos anos que faço parte da própria Comissão Nacional de Arqueologia.

Como é que entrou para a Comissão Nacional de Arqueologia?
Fui escolhido pela Faculdade de Letras de Lisboa, numa altura em que ainda havia lá arqueólogos.

Já não há?
Há uns farrapos que vão ficando. Aqui, como em qualquer parte, é preciso o trabalho pequenino, miúdo e poeirento do rato cinzento, acumulando milhares de coisinhas pequeninas. Criar contra-poder é que não é fácil.

O desespero das pessoas, aqui, sem futuro, facilitou também a integração.
Até porque não houve, nem há, outra alternativa. Ninguém pensa montar aqui uma fábrica de plástico nem de pneus. Somos o segundo empregador, a seguir à câmara, com 50 a 70 pessoas - sem contar com as dezenas de jovens esporadicamente envolvidos todos os anos. Temos a oficina de ourivesaria, onde formámos cinco moços com um curso de quase três anos, o que é um luxo. Tivemos um bom curso de doçaria.

O que é que isso tem que ver com arqueologia?
Então não tem? Fizemos um levantamento de toda a maneira de fazer os doces de mel, a tradição alimentar do mel e a integração disso tudo. Hoje, conhece-se a doçaria que se fazia aqui, além de se fazer da outra, para viver.

O Campo Arqueológico de Mértola tem tendências para uma certa hegemonia regional?
Há uma influência indirecta; directa só em Noudar e Beja; há colaboração com Serpa e houve com Moura. O nosso objectivo é resistir às solicitações: é normal que a malta peça uma mão, mas não temos o papel de bombeiros regionais - isso é com o IPPC.

A mais vulgar acusação feita ao Campo Arqueológico é a curta obra publicada. Porquê?
Sim, é uma acusação com razão de ser. Temo-nos concentrado na sobrevivência e não na produção científica, que é cara e exclusiva - e nós não podemos dar-nos ao luxo de publicar umas coisinhas. Só podemos publicar ao nível da melhor qualidade científica e gráfica - e isso dificulta quando há problemas financeiros. Mas o projecto de publicações já está amadurecido: vai sair a Revista de Arqueologia Medieval, de âmbito nacional, com qualidade científica e técnica e onde vamos passar a publicar os nossos trabalhos, Contamos com colaborações desde a Universidade de Málaga e de Granada até Madrid e Sevilha.

E a Faculdade?
Letras está numa situação "medieval", no pior sentido da palavra. Não é como em Espanha, onde o doutoramento é um princípio e não um final de carreira. O arejamento, depois do 25 de Abril, acabou; os velhos bonzos voltaram e defendem-se como podem - não através da ciência e da investigação, mas através da repressão, evitando a presença de qualquer outro que os possa pôr em causa. São uns infelizes.

* Publicado na edição
do Expresso de 14/12/91