19 de abril de 2014 às 19:22
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Portugal 'new age'

Poderia Maui servir de exemplo para um turismo nacional mais genuíno?
Gonçalo Cadilhe

Ecology is economy, dizem os cartazes espalhados por Maui. Ecologia é economia. A mensagem é simples e directa: uma ilha bonita, limpa, verde, incontaminada, atrai turistas. E turistas trazem dinheiro.

Outras mensagens simples dos cartazes, autocolantes e t-shirts de Maui: Pack your trash, recolhe o teu lixo; Go Green, torna-te vegetariano; Eat local, come o que esta ilha produz; Keep the country country, manter o campo como campo - esta faz parte da campanha contra a construção de um hotel numa zona florestal. E parece um paradoxo: uma ilha que vive do turismo recusa construir mais hotéis. Não o é.

Hoje em dia, a atitude mais revolucionária que conheço é ser conservador. Não de ideias caducas ou moralismos impostos, mas de um modo de vida tradicional baseado numa estrutura regional que está ameaçado em todo o lado por um consumismo desenfreado de produtos globalizados. Escrito assim, são dois parágrafos de uma banalidade deprimente. Mas vamos ao caso concreto das opções de desenvolvimento de Maui e tentemos imaginar como funcionariam em Portugal.

Começo por visitar o posto de turismo e recolher as brochuras que publicam as actividades à disposição dos visitantes. Duas observações imediatas sobre as coisas que se fazem em Maui: quase todas fluem nessa ideia de paraíso ecológico; e quase todas são fornecidas por agências e empresas de serviços de pequena dimensão e capital regional.

Eis o que se faz em Maui: saídas em lancha para mergulho, snorkelling com tartarugas e mantas, observação de baleias e banhos com golfinhos; diferentes percursos de trekking, que demoram desde algumas horas a vários dias, pelos trilhos assinalados nas florestas pluviais, nas selvas de bambu, ao longo do litoral ou pela cratera imensa do vulcão Haleakala; visitas às plantações de fruta, café, flores ou participação no quotidiano das quintas de lacticínios.

Desportistas de todo o mundo chegam a Maui para se divertirem numa das mecas do windsurf, do kite, do surf e do bodyboard - actividades aparentemente marginais que fornecem uma das principais fontes de rendimento da ilha. O golfe, claro, tem aqui um dos seus campos mais prestigiados: o Plantation Course. Muitos ciclistas chegam à ilha para a percorrerem pedalando, apesar dos ventos constantes não lhes serem nada favoráveis. Mas eles chegam na mesma.

Encontro listas com os melhores lugares para 'adorar' o nascer ou o pôr-do-sol, como se essa fosse a mais importante e procurada experiência de quem visita Maui. E é, pelo menos para os visitantes que frequentam as várias ofertas de classes de ioga, aulas de meditação, sessões de massagens e aromaterapia, curas homeopáticas, livrarias esotéricas.

Maui soube promover-se como um lugar alternativo, imaculado, puro, new age - no sentido "regenerador do corpo e do espírito". Não sei como se espalham estas reputações, mas sabe-se que Maui é um lugar assim.

Quando comparo Portugal com os dias cinzentos de Londres, com a industrialização desenfreada da bacia do Rhur ou da planície Padana, com os invernos intermináveis da Escandinávia, com a densidade populacional de qualquer cidade dos Países Baixos ou com o desgaste de imagem da Provença ou da Toscana, entre tantos outros exemplos, gosto de pensar que também esta west coast da Europa podia promover-se como um dos últimos paraísos alternativos, genuínos, new age - no sentido "regenerador do corpo e do espírito" - do velho continente.

Não seria com o Algarve da classe popular inglesa nem com a grande mancha urbana da Grande Lisboa que tentaríamos emular o exemplo havaiano. Mas está em aberto o potencial da faixa interior do país, das ilhas, dos parques nacionais, da costa que se manteve costa, das linhas ferroviárias que resistem, dos produtos alimentares, dos festivais de música, da paisagem. Falta assinalar os percursos de trekking, definir ciclovias regionais, listar os melhores poentes, salvar o que se pode salvar dessa ideia de Portugal e acabar de vez com a publicidade enganosa do melhor destino balnear do continente, com banhos gelados e mar escuro e brutal, que só é verde e tranquilo naquela fotografia da falésia, mas rodeada de condomínios e parques de estacionamento que a foto já não mostra. Esconde. Engana. Não somos Maui.

Para desenvolver o turismo nacional nessas linhas teríamos antes de mais que criar uma comissão que atravessasse todo o espectro partidário, de algumas dezenas de membros com diferentes competências e vários sub-secretários sob a sua alçada, que se debruçassem sobre um assunto tão problemático e polémico e com resultados visíveis ainda tão longínquos no tempo. A primeira prioridade seria organizar uma viagem a Maui de estudo e contacto para procurar sinergias e dinâmicas entre as duas realidades. Uma viagem para toda a comissão, com as despesas todas pagas e já agora com stop-over em Nova Iorque, também incluído nas despesas. Por aqui certamente se começará.

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A nossa costa
Nada mais verdadeiro do que foi dito neste artigo! O nosso país precisa de uma nova política de turismo que se demarque de vez da construção de grandes empreendimentos turísticos cuja relacão custo-benefício no longo prazo é no mínimo questionável, e apostar no crescimento sustentável, em que as comunidades locais sejam as principais beneficiadas. Infelizmente a nossa costa Algarvia já terá atinigido o chamado ponto de não-retorno, todavia ainda muito pode ser feito para melhorar o litoral Alentejano e o litoral do Oeste.
Existe porém a ideia disseminada entre os nossos governantes de que o melhor a fazer para evitar repetir os erros do passada, é exactamente não fazer nada e deixar estes redutos inalterados. Nada mais errado porque tão grave é promover a construção desregrada e desenfreada nestas áreas como o é deixá-las com uma gritante falta de infrastruturas que lhes são essenciais para que todo o seu potencial turístico seja aproveitado. O governo deverá criar politícas para que estimulem a criação de mais camas para turistas sob a forma de aluguer de casas/quartos ou de pensões para que as comunidades locais possam aproveitar da melhor forma a riqueza que a sua região tem para lhes proporcionar e que há muito deixou de ser a agricultura ou a pesca.
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