"A batalha está longe de estar ganha e é necessária uma extraordinária determinação, mas também muita lucidez. O que Portugal não pode fazer é deixar tudo na mesma, manter todos os privilégios e todas as ineficiências e esperar sair-se bem deste combate sem quartel". Quem o diz é António Borges, diretor do departamento europeu do FMI.
Num ensaio publicado na Exame de outubro (nas bancas a partir de hoje), intitulado "Portugal - entre a Grécia e a Irlanda", o economista afirma que "não admira que, ao fim de uma década de erros acumulados, Portugal não tenha crescimento económico, a produtividade esteja estagnada, a competitividade comprometida e a dependência do financiamento exterior seja assustadora".
Segundo António Borges, para quem a crise atual resulta de uma "péssima gestão da integração no euro", não é possível deixar de apertar o cinto. "A redução do nosso nível de bem-estar resulta da impossibilidade absoluta de manter níveis de despesa muito acima do rendimento que o país gera. Esses níveis só se puderam manter enquanto os estrangeiros nos foram financiando. Agora que esse financiamento acabou, a despesa tem necessariamente de estar enquadrada com o rendimento que a atividade económica gera".
Bancos precisam de aumentos de capital
O economista aponta ainda o dedo à falta de crédito, caraterizando-a como "o principal e mais dramático obstáculo ao relançamento da economia". É, por isso, "fundamental que, em Portugal como por toda a Europa, os bancos aumentem o seu capital. Os banqueiros portugueses, como os franceses e outros, continuam a insistir que não é preciso mais capital para assegurarem um nível de atividade normal. Esta discussão é totalmente inútil. A opinião que conta não é a dos banqueiros portugueses, mas, sim, a dos mercados - se alguma vez quisermos regressar aos mercados - e a do Banco Central Europeu".
António Borges chama à atenção para o programa de ajustamento da economia, que prevê um aumento muito substancial do financiamento aos bancos portugueses por parte do BCE, dentro de determinadas condições. "É indispensável que os bancos o utilizem. Para isso, além de aumentarem o seu capital, têm de se libertar de objetivos de desalavancagem que são irrealistas nas atuais circunstâncias", defende.
Sobre a tão debatida taxa social única, António Borges argumenta: "Uma redução da taxa social única, compensada por um aumento dos impostos sobre o consumo ou sobre o sector não transacionável, é praticamente equivalente a uma desvalorização da moeda e conduz ao mesmo tipo de resultados - reequilibra o comércio externo, relança a economia pelas exportações e ajuda a travar a despesa interna, o que, a não ser feito por esta via, terá de ser feito por outra".