25 de maio de 2013 às 21:14
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Portugal e Irlanda beneficiam do "efeito Draghi"

Os juros da dívida irlandesa a dois anos fecharam hoje abaixo de 3%. O prémio de risco da dívida portuguesa baixou 1 ponto percentual desde 2 de agosto. Mas também Itália e Espanha ganharam desde a reunião do BCE ao verem o risco de incumprimento descer mais do que nos casos de Portugal e Irlanda.

 

Jorge Nascimento Rodrigues (www.expresso.pt)

O sentido de descida nas yields dos títulos soberanos continuou hoje a verificar-se no mercado secundário para Portugal, Irlanda, França e Alemanha em todas as maturidades. No caso de Itália, baixaram nos prazos a três, cinco e dez anos. Espanha continua a ser a exceção, com as yields a subirem em todas as maturidades e com o risco de voltar a atingir os 7% no prazo a dez anos, segundo dados da Bloomberg.

Desde as decisões da reunião do conselho de governadores do Banco Central Europeu (BCE) de dia 3 de agosto que os principais ganhadores no mercado secundário foram Portugal, cujo prémio de risco diminuiu 1 ponto percentual e as yields no prazo a dois anos desceram abaixo de 6% (o que já não se verificava desde o início de março de 2011, antes do pedido de resgate) e Irlanda, que fechou hoje com as yields dos títulos a dois anos abaixo dos 3%, um nível que já não se observava desde agosto de 2010 (Dublin foi resgatado em novembro de 2010).

Ganhos de Portugal e Irlanda no mercado secundário


A dívida portuguesa foi a principal beneficiada desde 2 de agosto. As yields das obrigações do Tesouro (OT) a dois e a três anos foram as que mais baixaram: passaram de 8,15% para 5,846% para o prazo a dois anos, entre 2 e 8 de agosto; e de 9,07% para 6,795%, no mesmo período, para o prazo a três anos. Nestes dois casos, as yields estão já ao nível do que se verificava em março de 2011 - antes do pedido de resgate a Bruxelas pelo anterior governo português. A descida foi menos significativa nos prazos a cinco e dez anos, mas as yields caíram de 10,43% para 8,845% no prazo a cinco anos, e de 11,04% para 10,01% no prazo a dez anos (que continua ainda muito acima da linha vermelha dos 7%).

No caso de Irlanda, ainda que a descida não tenha sido tão acentuada como a verificada para a dívida portuguesa, a queda das yields no prazo a dois anos de 3,55% para 2,8787%, entre 2 e 8 de agosto, colocou os custos do financiamento da dívida irlandesa claramente abaixo do que se verifica no fecho de hoje para a dívida italiana (3,196%) e espanhola (3,872%). O fecho abaixo de 3% coloca os custos da dívida irlandesa a dois anos no nível em que se encontrava em agosto de 2010, antes do resgate em novembro de 2010. O mesmo tipo de ganho ainda não se verifica nas yields dos títulos a 9 anos, que baixaram, apenas, de 6,05% para 6,04%, entre 2 e 8 de agosto; no entanto já abaixo da linha vermelha dos 7%.

Espanha e Itália sujeitas a volatilidade


As yields das obrigações espanholas (OE) e dos títulos do Tesouro italiano (BTP) também desceram entre 2 e 8 de agosto, apesar da volatilidade verificada, e particularmente nos prazos a dois e três anos. Mas, no prazo a dez anos, as yields das OE permanecem próximo da linha vermelha dos 7% - desceram de 7,165% a 2 de agosto para 6,87% no fecho de hoje. Maior descida verificou-se nas yields no prazo a 10 anos para os BTP, que caíram de 6,33% para 5,897% no mesmo período. Por essa razão, o prémio de risco da dívida italiana desceu mais do que o relativo à dívida espanhola. O primeiro fechou hoje em 4,48 pontos percentuais em relação à dívida alemã e o segundo em 5,45 pontos percentuais.

As yields das obrigações francesas e dos títulos alemães (conhecidos por Bunds) desceram hoje em todos os prazos e mantém-se em níveis muito baixos. Num dos casos, no prazo a dois anos, as yields dos Bunds continuam negativas (ou seja, os investidores na dívida alemã pagam para ter esses títulos nas suas carteiras).

Probabilidade de incumprimento desce mais para Itália e Espanha


No entanto, no mercado dos credit default swaps (seguros contra o risco de incumprimento, cds no acrónimo em inglês), no período entre 2 e 8 de agosto, a probabilidade de entrada em incumprimento da dívida soberana num prazo de cinco anos desceu mais acentuadamente para Itália (de 36,61% para 32,90%) e Espanha (de 39,75% para 36,09%) do que para Portugal (de 52,37% para 48,99%) e Irlanda (de 35,40% para 33,59%), segundo dados da CMA DataVision.

A Itália, em virtude dessa descida do risco, saiu do "clube" dos 10 candidatos a uma bancarrota, enquanto Portugal se mantém em 4º lugar (depois da Grécia, Chipre e Argentina), a Espanha em 9º e a Irlanda em 10º. O "efeito" das palavras do italiano Mário Draghi acabou por beneficiar mais Mário Monti, o primeiro-ministro italiano, no terreno dos cds.

Em suma, numa visão conjunta do mercado secundário e do mercado dos cds, os ganhos do "efeito Draghi" estão mais distribuídos entre os quatro países "periféricos" da zona euro do que à primeira vista poderia parecer.

"Efeito Draghi": um processo em várias "fases"


Mário Draghi, o presidente do BCE, declarou a 3 de agosto que as regras do programa de compra de títulos no mercado secundário pelo banco central foram alteradas (exigindo um resgate prévio por parte dos países interessados, o que se dirigia diretamente aos governos de Espanha e Itália) e que a intervenção do BCE, a ocorrer nos próximos meses, seria nos títulos com prazos mais curtos, o que abriu o apetite dos investidores por estes prazos. Piscou, também, o olho aos investidores privados na dívida soberana admitindo discutir uma revisão do estatuto de credor preferencial que o BCE e o seu sistema de bancos centrais da zona euro dispõe em caso de incumprimento de uma dívida soberana.

O "efeito Draghi" já passou por três "fases": a primeira reação dos investidores no dia da reunião do BCE foi de pânico (um tsunami que penalizou fortemente Espanha e Itália); depois os investidores descobriram "virtudes" nos anúncios feitos pelo presidente do BCE (nos dias 3 e 6 de agosto); e voltaram a desconfiar do seu efeito (nos dias 7 e 8, sobretudo em relação à dívida espanhola).

Refira-se que yield é a taxa de rentabilidade anualizada que o investidor recebe por manter um título até ao seu vencimento; é vulgarmente designada por juros. E que o mercado secundário é o mercado onde os detentores de títulos soberanos (emitidos pelos Estados em leilões no designado mercado primário) vendem e compram esses ativos. O prémio de risco é o diferencial, no prazo a dez anos, entre as yields verificadas para um dado país da zona euro em relação às yields dos títulos alemães.

 

 

Comentários 28 Comentar
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Esta tendência é meramente circunstancial
O BCE é um banco central não um mecanismo de resgate de governos de países em dificuldades como é obvio.
Estes altos e baixos nos yields da dívida de c/prazo são absolutamente normais.Qualquer análise de séria de Fernerbachi o demonstra. Por isso não faz sentido nenhum "embandeirar em arco" e jogar foguetes quando nem sequer há procissão, quanto mais festa no adro.
Se a situação de e Itália e Espanha não se inverter, com estes países a solcitarem resgate (a Espanha mais perto) países como Portugal vão levar com todas as consequências negativas daí decorrentes. PAra além disso Espanha é o principal cliente das exportações portuguesas e o principal investidor externo em Portugal.
Portanto todas as condições estão criadas para uma tempestade perfeita e não chega a Mario Draghi fazer declarações de intenções sem qualquer suporte viável.
Títulos como este «Portugal e Irlanda beneficiam do efeito Draghi» são para inglês ver.
Poupem-nos, please...
Com Sócrates Portugal só descia Ver comentário
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Quais fundamentais quais treta? Ver comentário
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Qual o problema?

Jorge Nascimento Rodrigues faz um apanhado das movimentações que se seguiram à reunião de 3 de agosto.
É objectivo, factual e quando introduz um ou outro ponto mais interpretativo enquadra-os sem extrapolações.

Claro que a tendência é circunstancial, mas a análise está limitada à semana que passou. JNR não faz futurismo financeiro.

Porque é que estão sempre a "bater no ceguinho", passe a expressão?
Re: Qual o problema? Ver comentário
"efeito Draghi", mas não só.
A minha interpretação, relativamente às causas da evolução das taxas de juros no mercado secundário, diferem um pouco das sugeridas pelo Jorge Nascimento Rodrigues, pois considero que é dada por este demasiada importância ao "efeito Draghi". Julgo que a evolução divergente entre as taxas dos títulos espanhóis, que subiram, enquanto que as dos restantes países referidos, incluindo Portugal, desceram, demonstra que factores relacionados com a confiança nas economias em causa foram prevalecentes na evolução verificada.
Re: Ver comentário
Caro Jorge Nascimento Rodrigues
Longe vão os tempos em que com os nossos depósitos (meus e seus) faziamos alterar as tendências dos "mercados". Agora não necessitamos disso pois "controlamos o défice" e as taxas de juro estão sempre a descer. Creio que os "mercados" vão continuar a perguntar-se: mas estes em recessão contínua como é que vão criar riqueza para nos pagar? Da "resposta" a essa pergunta surgirão motivos para novos artigos.

Cumprimentos e continuação de bom trabalho

(pelo sim pelo não arranje umas notinhas para ter debaixo do colchão para as eventuais necessidades imediatas)
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Mas por cá
Ainda continuamos a beneficiar a governação do socialista Sócrates, ou os seus resultados socialistas?
É tão cómodo ser político!
Re: Mas por cá Ver comentário
Jornalista armado em especulador...
Como já é costume, cá temos mais uma "análise" de um jornalista candidato a especulador no mercado de treasury bonds... Artigos cansativos, sempre com referência aos "candidatos a uma bancarrota". Pfff. Serrar presunto e encher chouriços...
Re: Jornalista armado em especulador... Ver comentário
Efeito Draghi ? Ou antes o mercado...
Diz a notícia que o "efeito Draghi" já passou por três "fases" em ca. duas semanas: pânico, descoberta de virtudes e finalmente desconfiança dos titulos soberanos.

Digo eu, e a seguir vai vir uma inusitada confiança, seguida de um marasmo, e a depois um forte terror, que acabará quando alguém falar que não vai deixar cair o Euro, provocando uma euforia. E assim continuaremos enquanto houver mercado e players.

A isto eu chamo "o normal funcionamento do mercado". Não é propriamente uma novidade. Ainda bem que funciona assim. Quando disfunciona é uma carga de trabalhos, veja-se a Grécia, não houve "confiança" que lhe valesse quando entrou pelos pinheirais adentro há dois anos.

Chamam-lhe especulação. Eu chamo-lhe "deixa-me cá apanhar as cenouras da horta, antes que venham os coelhos e comam tudo".
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