Portugal desce dois lugares no "clube" da bancarrota
A probabilidade de incumprimento (risco de default) da dívida portuguesa num horizonte de cinco anos desceu hoje para 47,93%, o que provocou uma descida de dois lugares no "clube" dos candidatos a uma bancarrota, segundo dados da CMA/S&P Capital IQ. Em relação ao nível de há uma semana ocorreu uma descida superior a 3,5 pontos percentuais.
Portugal desceu hoje de 4º para 6º lugar no TOP 10 mundial do risco de default, sendo hoje ultrapassado pelo Paquistão e pela Venezuela. Recorde-se que no início deste ano estava em 2º lugar, depois da Grécia com mais de 60% de probabilidade de incumprimento e que, aquando do pico do risco, a 30 de janeiro, chegara a 73,32%. Neste "clube" o aumento da probabilidade de incumprimento da dívida implica a subida na classificação.
O nível de risco atual da dívida portuguesa continua a ser muito alto, mais de dez pontos percentuais acima do da dívida espanhola e da dívida irlandesa e quase 15 pontos percentuais acima do da dívida italiana. No entanto, está numa curva descendente, como é também o caso da dívida irlandesa, ao contrário do que ocorre para Espanha e Itália, que têm estado em foco na crise das dívidas soberanas da zona euro.
Em contraste, o risco agravou-se hoje para Espanha (que ocupa o 9º lugar no referido "clube"), para a Irlanda (que está em 10º) e para Itália (que se mantém fora do "clube" desde final de junho).
Juros a dez anos abaixo de 10%
O mesmo movimento de desanuviamento se tem observado no mercado secundário da dívida. As yields das obrigações do Tesouro no prazo a 10 anos desceram abaixo dos 10%, fechando hoje em 9,978%, segundo dados da Bloomberg. Estas yields já haviam fechado abaixo de 10% durante três dias em finais de junho. Continua a ser um patamar bem acima da linha vermelha dos 7%.
Nos prazos mais curtos, as yields desceram nas maturidades a três e a cinco anos, e subiram ligeiramente na maturidade a dois anos. As yields das OT nos prazos a dois e a três anos encontram-se já em valores similares aos ocorridos em março de 2011, antes do pedido de resgate. No prazo a dois anos fecharam hoje em 5,745% e no prazo a três anos em 6,62%.
Também, as yields dos títulos irlandeses a dois anos desceram para 2,82%, um nível já abaixo dos 4% para as obrigações espanholas e dos 3,4% para os títulos do Tesouro italiano no mesmo prazo.
Portugal e Irlanda são os dois principais beneficiados pela atual conjuntura no mercado da dívida soberana.
Juros de Espanha e Itália fecham em alta
A pressão sobre as dívidas espanhola e italiana continua a verificar-se no mercado secundário da dívida. As yields em ambos os casos fecharam a subir em todos os prazos.
No caso do prazo a dez anos, as yields das obrigações espanholas fecharam em 6,907%, de novo próximo da linha vermelha dos 7%. Para os títulos italianos na mesma maturidade, as yields fecharam em 5,9%.
A "fragmentação" - usando o termo de Mário Draghi, o presidente do Banco Central Europeu - do mercado secundário da dívida foi, hoje, outra vez, evidente, com as yields dos título alemães (designados por Bunds) e das obrigações francesas em descida e em níveis muito baixos.
No caso dos Bunds, as yields nos prazos a dois e a três anos fecharam em valores negativos (ou seja, os detentores destes títulos pagam para os manter nas suas carteiras de títulos). No caso das obrigações francesas, as yields estão em valores próximos de zero nos prazos a dois e a três anos e abaixo de 0,9% no prazo a cinco anos. Nestes casos em que as yields estão abaixo de 2,1%, os custos de financiamento são, em termos reais, negativos, pois a inflação na zona euro rondará os 2,4% (valor de julho).
Na realidade, o que cada vez mais se verifica é que, nuns casos, os custos do endividamento estão próximos de mínimos históricos desde a criação da zona euro, e em outros estão em máximos históricos ou em níveis de qualquer modo insustentáveis. Uma diferença colossal que socava a sustentabilidade de uma zona monetária única. Esta discrepância tem gerado uma fuga de capitais dos países "periféricos". No caso de Espanha, nos primeiros cinco meses deste ano, a saída de capitais foi de 163 mil milhões de euros - 15% do PIB espanhol, quase tanto como a riqueza criada num ano em Portugal.
É significativa a diferença no prazo a dez anos entre as yields no caso dos Bunds ou das obrigações francesas e as dos países "periféricos". O prémio de risco em relação à dívida alemã está em 8,59 pontos percentuais para o caso português, em 5,52 para o caso espanhol e em 4,52 para o caso italiano. As yields dos Bunds a dez anos estão em 1,385% e das obrigações francesas no mesmo prazo em 2,076%.
Refira-se que yield é a taxa de rentabilidade anualizada que o investidor recebe por manter um título até ao seu vencimento; é vulgarmente designada por juros. O mercado secundário é o mercado onde os detentores de títulos soberanos (emitidos pelos Estados em leilões no designado mercado primário) vendem e compram esses ativos; não deve ser confundido com o mercado de emissão, chamado de mercado primário, onde os investidores adquirem dívida emitida pelos Estados. O prémio de risco é o diferencial, no prazo a dez anos, entre as yields verificadas para um dado país da zona euro em relação às yields dos títulos alemães. A probabilidade de incumprimento da dívida é calculada num horizonte de cinco anos com base em diversos indicadores, incluindo o preço dos credit default swaps a cinco anos, ou seja dos seguros financeiros contra o risco de default de uma dada dívida.



