23 de abril de 2014 às 23:57
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Por que temos pavio curto?

Irascíveis e intempestivos. Há quem não consiga evitar reagir com explosões de raiva ao mínimo contratempo. Felizmente não somos todos assim
Vasco Pinhol (www.expresso.pt)
Por que temos pavio curto?

Pavio curto. É uma expressão universal, presente em quase todas as línguas. Remete para um imaginário de piratas e de guerrilhas antigas. Aquelas bombas que todos conhecemos e que vemos nos desenhos animados existiram mesmo, foram inventadas no século XV e eram utilizadas como granadas. As primeiras granadas de mão eram pequenas bolas de ferro em forma de romã (a palavra "granada" vem da palavra francesa para romã, pomegranate), cheias com pólvora e com um pavio como detonador. Era o comprimento dos pavios - cordas humedecidas e embebidas em pólvora - que determinava o tempo entre o acendimento e a detonação. O uso destas granadas requeria uma técnica perigosa e letal: era necessário que a granada fosse atirada antes de explodir na mão ou no ar, mas com um pavio suficientemente curto para que o inimigo não tivesse tempo de a... devolver. As granadas de pavio curto explodiam depressa, com grande violência e florida destruição. Deixavam atrás de si um rasto de miséria sangrenta, por vezes no inimigo, por vezes no próprio utilizador. O mesmo se passa, basicamente, com as pessoas de pavio curto.

Afinal, porque é que explodimos? Numa perspectiva evolutiva, as nossas crises de raiva são parentes próximas das reacções de fuga e luta que nos têm mantido vivos desde os primórdios da Humanidade. Numa situação de perigo, o corpo dispara mediadores neurológicos que multiplicam temporariamente a força muscular, a velocidade de reacção, a acuidade visual, a capacidade de concentração. Neste contexto, a explosão de raiva é como que um descontrolo destrutivo de um instinto de sobrevivência. Como tudo em excesso, o excesso de adrenalina contida ou o excesso de raiva contida são uma espécie de caruncho que vai comendo os nossos alicerces até pôr em perigo o edifício. É clássico: vamos nós muito bem no nosso carro, pensando com os nossos botões, quando de repente passa-nos um tipo à frente, quase provocando um acidente, e ainda por cima, quando apitamos, faz-nos um sinal feio com a mão; o sangue sobe-nos à guelra, o interior do nosso carro encolhe, porque crescemos quase até bater no tejadilho, tudo à volta fica desfocado e ao fundo de uma espécie de túnel colorido e difuso está o nosso "inimigo", que teremos impreterivelmente de erradicar da face do planeta ou a quem, no mínimo, devemos dar um ou dois valentes sopapos. E ao pequeno-almoço tínhamos acabado de conversar calmamente com o nosso filho sobre os benefícios da temperança e as subtilezas da interacção social... Que se terá passado?

Numa sociedade em que se multiplicam as interacções urbanas despersonalizadas, em que o espaço pessoal de cada um é constantemente agredido por intromissões de terceiros, multiplicam-se também os casos de gente de pavio curto. Para piorar a coisa, aquilo que chamamos "comportamento normal" é uma abstracção que só faz sentido em registos limitados: como diz a canção, "de perto ninguém é normal".

Coisa de vedetas 

Entre nós, as explosões de raiva são tradicionalmente associadas a um estatuto superior. Conforme a posição social, seremos tontinhos ou iconoclastas, malucos ou cheios de personalidade... É conhecida a tendência para o pavio curto entre as estrelas (de cinema, de teatro, de ópera, da política e, basicamente, de todas as actividades com uma face pública predominante). Os filmes de maior popularidade no cinema são os que rodam à volta do herói que, mais cedo ou mais tarde, elimina o mau da face da Terra. É como se, mesmo neste ponto mais alto que atingimos da nossa civilização, todos os argumentos racionais fossem apenas uma camadinha de verniz que estala alegremente à primeira provocação.

Esta noção de que o pavio curto anda de mãos dadas com o génio é tão antiga como o culto da personalidade na civilização ocidental, que é, por si só, bem antigo. Miguel Ângelo, artista genial, era na sua época tão conhecido pela majestade da sua obra como pelos seus acessos de pavio curto, explodindo à mínima contrariedade; a rainha mais popular da história de Inglaterra, Elizabeth I, tinha o pavio supercurto e deixou para os anais a famosa expressão "I will make you shorter by the head" (liberalmente, "o senhor vai ficar mais baixo porque vai ficar sem cabeça"); o nosso infante Dom Henrique era conhecido pelos seus acessos de mau feitio, que auxiliaram claramente as partidas para as grandes descobertas da navegação lusa; e, não esqueçamos, se não fosse o pavio curto do nosso querido Dom Afonso Henriques, que em 1122 se antecipou 700 anos ao gesto de Napoleão Bonaparte (também conhecido pelo seu pavio curto) e se autonomeou cavaleiro na Catedral de Zamora e em 1129 se autoproclamou soberano das cidades portuguesas, não existiria hoje em dia a bela nação de Portugal. Por outro lado, não se deve perder de vista que crescer numa casa com pais de pavio curto pode ser um grande deformador, como poderia atestar o senhor Alois - reputadamente de pavio curtíssimo - ao contemplar postumamente a obra do seu filho, Adolfo Hitler.

Educação anti-raiva?

A aceitação de que cada um de nós é mais importante do que todos os outros é apanágio da civilização ocidental; as sociedades orientais enfatizam o conformismo social e, para assegurar a boa integração da criança na sociedade, os pais ensinam que todas as expressões de raiva são proibidas e vergonhosas. As mesmas situações que entre nós conduzem a animados telefonemas e pancadinhas nas costas entre amigos, no Japão conduzem ao suicídio ritual com uma longa faca de sushi. A elegia do indivíduo não é fortemente conducente ao controlo dos instintos de agressão, mas que seria dos filmes de cowboys sem o pistoleiro de pavio curto?

O psicólogo Jacques Lacan costumava ensinar que, quando crianças, vivemos perdidos na selva da nossa biologia, sobre a qual não temos qualquer controlo; a nossa primeira tarefa na vida é criar uma identidade, que serve de âncora neste mar de fragmentadas confusões. Este primeiro simulacro de personalidade é a ferramenta que usamos para esconder a nossa vulnerabilidade e, quando alguém nos confronta, optamos facilmente pela defesa mais fácil e que nos devolve a ilusão de controlo: o pavio curto.

No ensurdecedor rebentamento, resolvem-se instantaneamente todos os conflitos internos. Noutros tempos, a vida era perigosa e os homens passeavam-se de espadas à cintura. As explosões de fúria eram a diferença entre mais um dia ou uma pedra sobre a campa. Nas sagas nórdicas, os guerreiros de pavio curto têm uma proeminência que deixou marcas na língua inglesa ("going berserk", cuja tradução livre será "passar-se da cabeça"). Berserk vem do norueguês antigo berserkr e queria dizer "vestir uma camisa de urso". Os guerreiros que de forma natural (pelo seu pavio curto) ou induzida (bebendo mjød med fluesopp, uma bebida cuja receita se perdeu nos tempos mas cuja memória continua bem viva na monumental cultura alcoólica dos países do Grande Norte) entravam no estado de berserk tornavam-se seres sobre-humanos capazes de erradicar aldeias inteiras do planeta ou, no mínimo, de distribuir valentes sopapos a grandes quantidades de inimigos. Era uma fórmula excelente. No final, o guerreiro podia "despir a camisa de urso" e sentar calmamente os filhotes ao colo, enquanto olhava enternecidamente para a sua valquíria.

O automóvel é claramente a "camisa de urso" dos nossos tempos. Da próxima vez que o seu pavio se acender, lembre-se dos seus filhotes e da sua valquíria; afinal, se tivesse nascido no Oriente, estas coisas nem lhe passavam pela cabeça...

Publicado na Revista Única do Expresso de 27 de Fevereiro de 2010

Comentários 10 Comentar
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Pavio curto
Eu já fui tido por ter pavio curto...
E admito que tenho pouca paciência para gente estúpida, ignorante ou maldosa - passe as redundâncias!
Mas acho que essas coisas dependem sempre do ponto de vista.
Como africano também tenho um pavio longo... so to speak...
: ))))))))
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sou a rosa sem pavio mas mesmo assim cuidado
eu fico uma fera e devido à falta de pavio é logo zás catrapáz e só que engulo a explosão e a única coisa que se nota é no bufar que é a saída dos gases da tal explosão e por exemplo começa tudo pela manhã e a minha patroa chatei-me e ponho logo raticida no café e o meu patrão arma-se em estúpido é logo ácido pela careca abaixo o gato fez as porcarias fora do caixote e agarro-o pelo rabo e janela fora com ele e a filinta do segundo falou mal de mim e vai de rasteira e escadas abaixo com ela e disseram-me que o cajó anda com deise que é a brasuca da pastelaria e vai de tesoura e corta-se o pavio e ufff ao fim da manhã estou cansada de tanta vigança e o que me safa é por enquanto a polícia só escutar os telefonemas e porque quando escutar os pensamentos estou feita
Pavio?? Ou será RASTILHO?
Lol ;-))
Não lhes peça tanto… Ver comentário
Parabéns
ao Vasco. É um texto bem feito, bem explicito e merece, certamente, comentários menos jocosos.
Uma coisa é certa : antigamente os pais ainda faziam apelo e, em última análise, até poderiam impôr alguma contenção aos filhos. Mesmo que os pais explicassem, a verdade é que para alguns filhos, sobretudo na fase do sangue na guelra, era dificil não sentir e agir com raiva, maus modos, com o pavio curto, em determinadas situações. Mas entroncava aqui uma outra coisa : a empatia, o respeito pelo outro, a interindividualidade. que ajudava a que a contenção fosse mais fácilmente gerida. É este conjunto de organização da personalidade que eu acho que se tem perdido. E a avaliar por muitas reacções que por aí se vêm - até em figuras públicas, feitas "stars" - às vezes dá a ideia de estarmos a criar uma sociedade psicopata...
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