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Por falar em bacalhau

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Natal: família, bacalhau com batatas e couves, o essencial, em suma. Assim: prosaico. Com algumas rabanadas e filhoses, um queijo, um bom vinho (do Douro, naturalmente), um porto velho e - tem que ser - dois ou três presentes para cada um. Para além disso, com sol, muito sol, o que, pelo menos para mim, se adequa mal à (como costuma chamar-se-lhe) "quadra". Porque preferiria neve, à lareira. Mas não houve, "tant pis". É assim a vida.

BITAITES


Por falar em bacalhau: anda a praça cheia de livros sobre cozinha, de cozinheiros transformados em espécie de vedetas (todos ou quase todos, de resto, aquilo a que chamo "nouvelle"-cozinheiros), o que é uma enorme estopada, e que só não o é mais porque não leio esses livros nem (aos ditos cozinheiros) lhes frequento os restaurantes. Tema embora que deixa uma aberta para (quando estiverem no Algarve) vos falar de cinco ou seis restaurantes - há mais - onde (sem mariquices) se pode comer uma cozinha portuguesa à maneira: o (com licença da palavra) "Faro e Benfica" em Faro, está bem de ver; o "Jacinto" (na Quarteira); a "Tasca do Manel", em Vilamoura (sobretudo peixe grelhado); o "Veneza", junto a Paderne (a melhor garrafeira do Algarve e não só); o "São Roque", na Meia Praia, junto a Lagos; o "Vilalisa", na Mexilhoeira Grande; e "A Charrete", em Monchique. Por hoje, basta. E não façam como o Michelin: mandem a "nouvelle-cuisine" à ... Quero dizer: dar uma volta ao bilhar grande. Pelo menos.

Colunistas em matéria de comes e bebes? Continuo a ler o Zé Quitério. Tal como, sobre outros temas (dizem que mais importantes) o Vasco Pulido Valente (se bem que, e parafraseando um famoso samba do Tom Jobim, ele seja frequentemente cronista de uma nota só); o Miguel Sousa Tavares; o professor Marcelo (cartesiano, como eu gosto); frei Bento Domingues, o Bruno Prata, e pouco mais. Na televisão (tal como aqui já disse) "niente": só filmes e jogos de bola, se bem que continue a não ter a mínima paciência para os comentadores, nem os desportivos, nem os económico-políticos, que tresandam por tudo quanto é canal: que os deuses os livrem de um qualquer inferno, é o que lhes desejo. Se bem que, chatos e presunçosos como são, bem o mereçam.

Quanto a futebol, uma nota: no Barcelona-Hospitalet (para a Taça do Rei), mesmo desfalcados de todos os seus estrangeiros (ausentes para férias), os catalães puseram em campo catorze jogadores espanhóis, em grande parte da própria cantera. Imaginem se isso tivesse acontecido com o FC Porto, Benfica ou Sporting: ou não deixavam o seu pessoal ir passar o Natal a casa, ou punham em campo apenas os três ou quatro craques que têm nascidos por cá.

Livros? Acabo de ler o último de Mário Soares (leiam), a biografia do Luiz Pacheco (por João Pedro George), vou a meio do "Henrique Galvão", do Francisco Teixeira da Mota e logo passarei para as "Memórias da II Guerra Mundial, do Churchill". Que devem ler também, porque não pode deixar de ser não só fascinante como instrutivo. E, agora e sempre, Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, com Lorca e O'Neill os meus poetas preferidos. Filmes? Visconti, sobretudo "O Leopardo" e "Os Malditos"; e uma das maiores comédias de sempre - "I soliti ignoti" (não me lembro do título em português), do Monicelli. Com (apenas) Totó, Gassman, Mastroianni, Carotenuto, Salvatore e, esplendorosa, embora na altura ainda uma "ragazzina", Claudia Cardinale.

PS. Dia 24, véspera de Natal - na RTP2 - finalmente um trabalho (do Francisco Manso) sobre Alves Redol. Que não esgota o tema (obviamente longe disso) mas contribui sem dúvida para que o nome do grande escritor de "Barranco de Cegos" tenha saído, ao menos por uma hora, do esquecimento a que tantas circunstâncias o votaram, e não só a ele: a gente como Aquilino Ribeiro, Manuel da Fonseca, o próprio Cardoso Pires, etc. etc. etc. Mas quando a bolsa passa a ser mais importante do que a vida, de que podemos estar à espera?


BICUAITES

Do "Expresso": "PCP sem pesar por Vaclav Havel".
Depois do grande pesar por Kim Jong-il, devem ter pensado que já era pesar a mais.

Luís Fazenda, em entrevista ao "Público": "A rua é o lugar nobre da contestação social".
Pelo que, a um trabalhador contestatário, poderia um patrão compreensivo literalmente dizer: seja nobre, meu caro amigo. Rua!

Título do "Público", ainda: "Endividamento das empresas do Estado derrapa 2 milhões".
Miguel Relvas deve ter ficado em brasa! Mas vai uma vez mais rectificar, com toda a certeza.

Newt Gingrich, candidato republicano à presidência dos Estados Unidos da América: "Os palestinianos são um povo inventado. Alguém tenha a coragem de dizer a verdade: são terroristas".
É, estão em estado de terrorismo, mas (grande desproporção) contra um terrorismo de Estado! De resto, o primeiro-ministro israelita já veio dizer: " Receio que a Primavera Árabe degenere num Inverno iraniano": está a afiar as facas, o fulano! Ou então, dito de outra maneira, a por os mísseis em alerta máximo.

E assim vai o Mundo.
Mais um Natal passado, em 2012 cá estaremos, Jesus Cristo a contar mais um ano e nós também, espero. Com, daqui até ao próximo, algum bacalhau, algumas batatas e algumas couves, se os houver. Porque, de outra forma, quem é que vai lá chegar? Mas chegaremos, assim a parca nos poupe.


António Tavares Teles escreve de acordo com a antiga ortografia


Opinião


Multimédia

Edwin. O rapaz que aprendeu a sonhar

O que Edwin sabia sobre a vida era sobreviver. Na cabeça dele não cabiam sonhos e os dias eram passados à procura de comida para ele e para a mãe e para o irmão. A fome espreitava nos cantos da barraca de palha no Quénia e ele escondia-se dela como podia - chupar as pedras era uma forma de a enganar. Mas a sorte dele mudou porque alguém viu nele outra coisa. E tudo começou numa dança. Agora, os mesmos dedos que agarravam as pedras tocam hoje teclas de um piano Bechstein. E os pés dele já não estão nus mas calçados. Com chuteiras. Primeiro no Benfica, agora no Estoril, o miúdo de 15 anos que fala como gente grande descobriu que tinha um sonho: ser futebolista. Como Drogba.

Em três quartos de hora não se esquece só a idade. "Esquece-se o mundo"

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Profissão: Sniper

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O que se passa dentro da cabeça dele

O que leva um tipo a quem iam amputando uma perna a regressar ao sítio onde os ossos se desfizeram, uma e outra vez, e testar os limites do seu corpo? Resposta: a busca pelo salto perfeito, que ele diz existir dentro dele e que ele encontrará mais dia menos dia. É a fé e a confiança que o movem e o levam a pular para lá do que é exigido a um campeão olímpico e mundial que não tem mais nada a provar a ninguém - a não ser a ele próprio. Este é um trabalho que publicámos em agosto de 2014, quando o saltador se preparava para os Europeus e falava das metas que tinha traçado para 2015 e 2016: mostrar que não estava acabado. Sete meses depois, provou-o no Europeu de pista coberta em Praga, onde venceu este fim de semana.

Amadeu, que aprendeu o mundo no campo e tinha o coração na ponta dos dedos

Em Portugal, a dedicação à língua mirandesa tem nome próprio: Amadeu Ferreira, o jurista da CMVM que - quando todos diziam que "era uma loucura impossível" - arranjou tempo para traduzir "Os Lusíadas", a "Mensagem", os quatro Evangelhos da Bíblia e ainda duas aventuras do Asterix para uma língua que pertence a um cantinho do nordeste português e é falada por menos de 15 mil pessoas. No final de 2014 deu ao Expresso aquela que viria a ser a sua última entrevista. Morreu no passado domingo e esta quinta-feira foi lançada a sua biografia, "O fio das lembranças", com quase 800 páginas.

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