Se alguém em Portugal, movido pela muito nacional febre do Guinness, se lembrasse de quebrar o recorde da maior concentração de pessoas em centros comerciais, o feito estaria assegurado à partida. Teria 'apenas' de conseguir mobilizar toda a população de Portugal: a área dos 105 centros comerciais actualmente existentes é suficiente para acolher o país inteiro.
Parece impossível, mas as contas são simples: no total, são mais de 3,4 milhões de metros quadrados de lojas - lojas, mais lojas e só lojas. Se em cada metro quadrado estiverem três pessoas, o número mínimo utilizado pela PSP para calcular manifestações pouco compactas, então são cerca de 10,2 milhões os que podem estar em simultâneo nestes espaços. E isto contando apenas com a área bruta locável (ABL), que não contempla corredores, parques de estacionamento ou armazéns.
O número impressiona, mas nem assim parece ser suficiente para travar os empresários do sector. "Ainda não atingimos o ponto de saturação. Há condições para crescer mais, nomeadamente com novas soluções e com projectos inovadores", assegura o presidente da Associação Portuguesa de Centros Comerciais, António Sampaio de Matos.
Apesar de Portugal estar acima da média europeia em termos de ABL por cada mil habitantes, até 2011 está prevista a abertura de mais doze centros comerciais em todo o país. As sucessivas inaugurações prometidas até lá vão fazer disparar ainda mais a área total actualmente ocupada e que já ascende aos 3,4 quilómetros quadrados, sem incluir sequer outro tipo de grandes superfícies, como os hipermercados. Ou seja, se não fossem construídos em altura mas apenas num único piso térreo, os shoppings actualmente existentes ocupariam uma área semelhante a 340 campos de futebol.
"Os centros comerciais são um conceito claramente vencedor em Portugal. Há regiões que já não têm espaço para mais, mas outras onde ainda há condições e faz sentido abrir", defende Artur Soutinho, administrador-executivo do grupo Chamartín, proprietário dos centros Dolce Vita. Até porque, adianta, os estudos indicam que por cada 190 mil habitantes há viabilidade para construir uma grande superfície comercial.
Em média, cada português não resiste a pelo menos uma ida semanal ao shopping. Em 2007, por exemplo, foram contabilizadas cerca de 500 milhões de visitas. O conforto, a enorme diversidade da oferta ou os horários alargados de funcionamento são algumas das principais razões do fascínio dos portugueses por estes espaços. A somar ao facto de o comércio tradicional não ter sabido adaptar-se e modernizar-se, considera Nuno Camilo, presidente da Associação de Comerciantes do Porto.
Ainda assim, o responsável acredita que já não há mercado para mais centros comerciais. "Embora se continuem a construir, assiste-se neste momento a um excesso de oferta, que é visível no facto de muitos terem bastantes lojas fechadas", diz.
Seja como for, a verdade é que o negócio continua a ser altamente lucrativo. E nem a crise parece suficiente para o afectar de forma significativa. "Pode dizer-se que este é um dos sectores menos afectados. Globalmente, as quebras nas vendas não chegam sequer aos 10%. E os níveis de lucro eram tão altos que havia margem para suportar este pequeno decréscimo", afiança o presidente da Associação Portuguesa de Centros Comerciais.
E eram mesmo: só no ano passado, a facturação rondou os 10 mil milhões de euros, mais do triplo do valor estimado para a construção do aeroporto de Alcochete.
Número
3,4
milhões de metros quadrados é a área ocupada pelos 105 centros comerciais actualmente existentes em Portugal
70
mil pessoas trabalham nos centros comerciais. O sector é ainda responsável por cerca de 200 mil postos de trabalho indirectos
10
mil milhões de euros foi quanto o sector facturou só no ano passado
500
milhões foi o número de visitas que os portugueses fizeram aos shoppings em 2007
*com Isabel Paulo
Texto publicado na edição do Expresso de 4 de Julho de 2009