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'Pontas de lança' premiados

Prémios de inovação e empreendedorismo são rampa de lançamento para jovens empresários. Uns ficam pelo caminho, outros (a maioria) são casos de sucesso.

João Ramos e Margarida Fiúza (www.expresso.pt)
14:56 Terça feira, 28 de dezembro de 2010
'Pontas de lança' premiados
O número de prémios e galardões de fomento ao empreendedorismo empresarial não tem parado de aumentar nos últimos anos. Respondem à convicção generalizada de que as novas empresas inovadoras e criativas são a melhor forma de gerar riqueza e criar empregos.

Será que a maioria frutifica? O Expresso fez um levantamento de alguns dos vencedores dos principais prémios de empreendedorismo dos últimos anos e constatou que a taxa de sobrevivência é significativa (ver texto ao lado).

Mas a regra, segundo Eurico Neves, presidente executivo da consultora Inovamais e especialista em empreendedorismo, é que haja uma taxa elevada de mortalidade dos projetos.

"Para haver um pequeno grupo de empresas inovadoras de sucesso há sempre um número muito maior que não vinga", concretiza. Mas a taxa de sucesso será maior na medida em que a envolvente for mais favorável, nomeadamente existência de mentores (business angels), existência de financiamento (capital semente ou de risco) e interação menos burocrática com o Estado e com programas comunitários.

"A atual crise custou à Europa seis milhões de empregos. Muitos desses postos de trabalho não vão voltar, pelo que é indispensável criar novas fontes de crescimento", diz Diogo Vasconcelos, consultor da Cisco e coordenador do documento "Reinventar a Europa para a Inovação", que servirá de base à estratégia da União Europeia "Innovation Union" e deverá ser aprovado em fevereiro.

"A Europa tem um grande défice de empresas inovadoras jovens e de crescimento rápido. Ao contrário do que sucede nos EUA, poucas pequenas e médias empresas conseguem atingir o estatuto de grande empresa. Estudos recentes mostram que nos EUA, entre 1992 e 2005, 64% dos empregos foram criados por novas empresas", acrescenta Diogo Vasconcelos.

Por áreas de atividade, segundo Eurico Neves, as tecnologias de informação continuam a ser as que têm mais projetos de empreendedorismo, tanto mais que o investimento inicial é geralmente baixo. Biotecnologia, energias renováveis e serviços também têm procura - e espaço para crescer.

Curiosamente, a crise económica parece estar a jogar a favor do empreendedorismo porque, como 'a necessidade aguça o engenho', há cada vez mais jovens recém-licenciados a criar o seu projeto, ao contrário das gerações anteriores que sonhavam ter um emprego para toda a vida. Mas há também os casos de quadros qualificados que abdicaram (ou foram forçados a sair) de empregos estáveis e arriscaram criar os seus próprios negócios.

Mais do que a recompensa monetária, os prémios de empreendedorismo acabam por ser importantes para os jovens empresários pela notoriedade que proporcionam.

Gonçalo Quadros, presidente executivo da Critical Software, que beneficiou de um prémio da Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE) no arranque da atividade em 1998, fala da dimensão emotiva destes galardões. "Permitem aumentar a autoestima da equipa e criam um compromisso de responsabilidade em relação a quem nos premiou e à sociedade".

Opinião idêntica tem Paulo Malo, fundador da Malo Clinic, que recebeu o Prémio INSEAD de Entrepreneurship para Portugal, em 2007.Um reconhecimento que ajudou à visibilidade que hoje a sua rede de clínicas tem.

"Este tipo de prémios é uma motivação extra para a nossa equipa. E uma equipa motivada faz a diferença entre vencer e perder", afirma o cirurgião dentário.

Malo diz que foi aquele galardão que acelerou a internacionalização e atraiu investidores, como a Espírito Santo Capital. A sociedade de capital de risco do grupo Espírito Santo chegou a ter cerca de 20% da Malo Clinic, mas está agora vendedora da sua posição.

"Foi um investimento em troca de ações colaterais, que chegou ao fim", explica Paulo Malo.

Também António Quina, fundador de A Vida é Bela, acredita que o Prémio Gesventure, que recebeu em 2005, deu visibilidade à empresa junto dos bancos, dos clientes e dos fornecedores.

É o tipo de reconhecimento que serve para dar ânimo e "dizer-nos que estamos a ir no caminho certo".

Ajudar os mais novos Para que os projetos deem certo, Eurico Neves diz ser conveniente que haja um mentor que ajude a desbravar terreno, dar conselhos e apoio financeiro e abrir portas em termos de negócio.

"Francisco Banha é um mentor com quem ainda hoje falo quando preciso", refere António Quina, referindo-se ao sócio principal da Gesventure.

Para Paulo Malo, estes prémios são "elevadores que aproximam as pessoas que têm as ideias e a energia, mas estão descapitalizadas, das que têm os contactos e o capital". Foi precisamente através do prémio INSEAD que o cirurgião conheceu os gestores e empresários Belmiro de Azevedo, António Borges e Paulo Teixeira Pinto, a quem ainda hoje recorre quando precisa de ajuda e conselhos. Mas é o próprio, enquanto empreendedor, quem dá agora conselhos aos jovens que iniciam um negócio por conta própria: "Ter um plano bem articulado, mas sempre com uma hipótese B, crescer no exterior com parceiros locais, que também participem no capital, avançar com a certeza de que o produto ou serviço lançado é melhor do que o que já existe no mercado e, por fim, garantir financiamento acima do necessário".

António Quina recomenda que se trabalhe arduamente, que não se desmotive, que se acredite muito no projeto, mas que se evite o deslumbramento.

Por sua vez, Gonçalo Quadros aconselha os novos empreendedores a "serem ambiciosos", a "terem uma ideia de negócio" e, sobretudo, a "escolherem a equipa certa composta de pessoas com atitude". Outra das regras que explica o sucesso da Critical Software, é ter uma cultura espartana, mas "mantendo a equipa motivada através de um sistema justo de recompensas".

 

TRÊS PERGUNTAS A


Diogo Vasconcelos Coordenador do relatório 'Reinventar Europa Através da Inovação'

Como é que a estratégia Innovation Union, que será aprovada em fevereiro, pode ajudar Portugal a ultrapassar a crise?

A crise só se ultrapassa com crescimento económico sustentado. Isso implica libertar a capacidade empreendedora, não proteger os interesses instalados e dar espaço a empresas com vocação global. Significa também melhorar as condições de acesso a financiamento para investigação e inovação e assegurar que as novas ideias possam ser rapidamente transformadas em novos produtos e serviços geradores de crescimento e emprego. Para isso é preciso reduzir a complexidade e custo das patentes, que na União Europeia é 15 vezes mais caro que nos EUA. E há que inovar no sector público e no social porque cria novas necessidades e novos mercados.

Como pode esta estratégia fomentar o empreendedorismo?

A Europa e Portugal precisam de uma política de inovação diferente, muito mais ambiciosa e radical. O ingrediente essencial dessa política é o da criação de espaço para os novos empreendedores e, em especial, para os mais radicais. Para isso estamos a propor o novo indicador de output - o 'Young Innovative Companies' (jovens companhias inovadoras) - que evidencia as condições de contexto, por exemplo, os mercados financeiros, educação e concorrência.

O que deverá mudar nos instrumentos de financiamento da inovação?

Deve ser usado o poder aquisitivo do Estado.

Deve aumentar o investimento em capital de risco com a participação do Banco Europeu de Investimentos. E deve ser simplificado o acesso a fundos europeus do Programa Quadro de investigação, sobretudo às pequenas e médias empresas.

 

GONÇALO QUADROS


Critical Software

Chegar, ver e vencer. Foi assim que se iniciou há 12 anos a história de sucesso da Critical Software. Criou formalmente a empresa em outubro de 1998 para atuar no mercado de sistemas críticos e conseguiu em dezembro do mesmo ano o primeiro contrato com a NASA (agência espacial dos EUA). Ganhou a primeira edição do Prémio Jovem Empreendedor da ANJE - Associação Nacional de Jovens Empresários, uma distinção que a Critical, fundada por três jovens investigadores da Faculdade de Engenharia da Universidade de Coimbra- Gonçalo Quadros, Diamantino Costa e João Carreira -, não desmereceu porque, nos anos seguintes, manteve uma consistente trajetória de crescimento. Hoje, dá emprego a 400 colaboradores e deverá registar este ano um volume de negócios de €25 milhões. E conseguiu provar às empresas nacionais que é possível entrar em mercados exigentes e com tecnologia de vanguarda onde Portugal não tem tradições, como são o caso das áreas aeroespacial, aeronáutica e de defesa. Para suportar a expansão a nível internacional, a empresa abriu escritórios nos Estados Unidos, Reino Unido, Brasil, Moçambique e Roménia. E adotou nos últimos anos uma estratégia de crescimento assente na autonomização (spin-off) de algumas áreas de produto. Foi assim que nasceram a Critical Links, a Critical Materials (aeroespacial, defesa e segurança), a Critical Manufacturing (manufatura de semicondutores, solar e eletrónica), a Critical Health (saúde), a Critical Move (transportes) e IT Growth (formação de recém-licenciados em tecnologias de informação). "Fomentamos o espírito empreendedor dos nossos colaboradores", afirma Gonçalo Quadros, presidente executivo do grupo Critical, sublinhando que a estratégia de crescimento, além da área de serviços, passa pela criação de produtos para o mercado mundial.

 

ANTÓNIO QUINA


A Vida é Bela

Foi através da empresa que António Quina fundou em 2002 que o mercado dos presentes-experiências começou a dar os primeiros passos. O segmento empresarial era o alvo e a oferta da empresa misturava diferentes experiências e conceitos numa só caixa-oferta.

Logo no início, "a resposta à procura de alternativas de reconhecimento inovadoras no mercado corporate, nomeadamente a nível de promoções e programas de incentivos, foi muito bem-vinda", recorda António Quina, 43 anos. Com a entrada de concorrência no mercado, em 2007, o mercado de particulares foi ganhando peso e "é hoje um segmento crucial da empresa, que apresenta um crescimento exponencial", afirma. Crescimento esse que tem sido alavancado, sobretudo pelo crescimento da marca na grande distribuição. "Passámos de uma marca online no início de A Vida é Bela para uma marca de grande consumo", sublinha o empresário. Com mais de 2500 parceiros e 500 pontos de venda em Portugal, A Vida é Bela é hoje líder deste negócio no mercado nacional, através de uma faturação de cerca de €50 milhões.

António Quina estima ter vendido, desde que a empresa foi lançada, cerca de 1,8 milhões de experiências, das quais 1,4 milhões este ano. "Alcançámos uma quota de mercado de 60% em 2010, com €12 milhões em vouchers emitidos. Somos líderes em Portugal, ocupamos o segundo lugar em Espanha e no Brasil, e o terceiro no ranking mundial", revela o empresário. A previsão agora é alcançar uma faturação de €200 milhões em 2013, com a seguinte divisão: €50 milhões em Portugal, €90 milhões em Espanha e €60 milhões no Brasil. Há cinco anos, antes de receber o prémio Inovação da Gesventure, em 2005, a empresa faturava €2 milhões, não tinha entrado no mercado espanhol e vendera um total de 20 mil vouchers em Portugal.

 

PAULO MALÓ


Malo Clinic

"Não há dentista no mundo que não conheça o meu nome". É sem falsas modéstias que o cirurgião dentário Paulo Maló, 49 anos, empresário que ganhou o Prémio INSEAD de Entrepreneurship, em 2007, fala da evolução do grupo que criou há 15 anos. A descoberta da técnica All-on-4 (processo de reabilitação oral rápido), em 1995, que ganhou este ano o prémio Produto Inovação Cotec/Unicer, foi o ponto de partida de um percurso empreendedor. Com mais de 16 patentes registadas, Paulo Maló é hoje proprietário da maior clínica do mundo de reabilitação dentária, em Lisboa. Antes de receber o prémio do INSEAD, as suas duas clínicas faturavam €20 milhões e tinham 300 empregados. Já em 2009, a faturação do grupo, com 1500 funcionários, ascendeu a €54 milhões, devido à operação de 24 clínicas e spa, em 10 países (Portugal, Brasil, Marrocos, China, Japão, Espanha, Itália, Israel, Estados Unidos e Polónia). Em 2008, "dois meses antes de ter começado a crise, apresentámos o projeto de expansão ao BES, que queria apoiar-nos na internacionalização.

Com a crise, e porque deixou de ser possível contar com a angariação de fundos locais, travámos a abertura de algumas clínicas e canalizámos o dinheiro para as que estavam já a ser construídas", conta Paulo Maló, acrescentando que "os bancos hoje não arriscam e não emprestam dinheiro com facilidade". É assim que justifica as dificuldades de pagamento aos fornecedores. No total, o grupo contabiliza €3 milhões de dívidas. "Mas também temos cerca de €8 milhões por receber", salienta.

Ainda assim, em 2010, quinze anos depois de ter aberto a primeira clínica e com um crescimento anual médio de 33%, a Malo Clinic espera faturar €100 milhões e está a negociar a abertura de mais unidades em África, Reino Unido, Austrália, Índia, Espanha, Roménia, França e Arábia Saudita. Com parceiros locais, sempre.

 

CASOS QUE VINGARAM


Crioestaminal (Jovem Empreendedor ANJE-2003)

É a segunda empresa de criopreservação de células estaminais do cordão umbilical da Península Ibérica, depois de ter adquirido, este ano, o laboratório espanhol Celvitae. O objetivo é aumentar para 100 mil as amostras recolhidas até 2015.

Outsystems (Prémio Gesventure Inovação-2003)

Criada em 2001, quando a 'bolha' da Internet estava a rebentar, a empresa especialista no desenvolvimento ágil de software ganhou o prémio Gesventure Inovação em 2003.

Central Casa (ANJE -2004)

Empresa que desenvolve soluções para o controlo de domótica, através da Internet e do telemóvel.

O seu portal, o EuroX10, é o maior da Europa dedicado à temática da domótica. A PT e a Sonaecom são alguns dos seus principais clientes.

NewVision (Gesventure-2004)

Foi distinguida em 2004 pela Gesventure com o Prémio Inovação BPN. Desenvolveu tecnologia própria e hoje é uma das principais empresas nacionais de sistemas de atendimento ao público.

Está presente em mais de 300 clientes em 20 países.

Biosurfit (ANJE- 2005)

Utilizando apenas uma gota de sangue, a tecnologia criada pela Biosurfit oferece resultados precisos de deteção de diversos marcadores clínicos em apenas 15 minutos. Depois de cinco anos de investigação e desenvolvimento, o primeiro produto a ser lançado será o teste de Proteína C-Reactiva.

Atlanti.Co (Concurso Inovação BES- 2005)

Criou um conceito inovador em Portugal-a comercialização de peixe fresco em cuvetes, pronto a cozinhar -, tendo investido ¤3 milhões numa fábrica em Lanheses, em Viana do Castelo, que funciona desde 2007. A faturação em 2009 foi de €1,4 milhões.

Active Space Technologies (ANJE -2006)

Esta fornecedora de serviços de engenharia mecânica e eletrónica e tecnologia de ponta para o sector aeroespacial, automóvel, defesa e energia nasceu na incubadora da Agência Espacial Europeia, emprega 23 pessoas, faturou cerca de €281,5 mil em 2009 e está presente na Alemanha e na Holanda.

Algafuel (Concurso Inovação BES -2006)

Produz biocombustíveis a partir de microalgas e tem como principais clientes indústrias com grandes quantidades de CO2 (resultante de gases de combustão). A Secil, por exemplo, é um deles.

WS Energia (BES Inovação-2006)

A tecnologia DoubleSun, definida como a melhor inovação em Portugal no sector das energias renováveis em 2006, também valeu à WS Energia o título de empresa NEOTEC (Novas Empresas de Base Tecnológica) pela Agência da Inovação. Com produtos instalados em Portugal, Espanha, Suíça e Itália, a WS Energia assinou, no ano passado, uma parceria com a norte-americana Solar Monkey.

Master Blank (ANJE -2007)

Criada em 2007, esta empresa produz espumas rígidas de baixa densidade à base de poliuretano, para fabrico de pranchas de surf. Esta técnica inovadora foi desenvolvida em conjunto com o Pólo de Inovação em Engenharia de Polímeros da Universidade do Minho.

Creativebitbox (ANJE -2008)

'Incubada' em 2008 no INOVAGAIA-Centro Tecnológico de São Félix da Marinha, Vila Nova de Gaia, por dois jovens empreendedores para atuar no mercado da multimédia interativa, a Creativebitbox já fornece grandes empresas nacionais e estrangeiras. Em 2009 obteve o galardão máximo da 10ª edição do Prémio Nacional de Jovem Empreendedor.

Science4You (IAPMEI/FINICIA- 2009)

Miguel Pina Martins, fundador desta empresa de brinquedos didáticos, foi distinguido como 'Empreendedor do Ano 2010' pela Comissão Europeia e como 'Jovem Empreendedor do Ano 2009' pelo IAPMEI/FINICIA.

 

CASOS QUE FICARAM PELO CAMINHO


Prodígio

Empresa de produções digitais pela Internet cujos fundadores venceram o prémio Jovem Empreendedor da ANJE, em 1999.

Global Clip

Projeto que pretendia sistematizar e disponibilizar informação noticiosa das fontes de informação online e que ganhou o prémio da ANJE em 2001.

Radionetics

Empresa de distribuição de discos e contagem de airplay (lista das músicas passadas na rádio), uma base de dados para as editoras discográficas que recebeu o prémio da ANJE em 2002.

Artigo publicado na edição do caderno de economia do Expresso de 23/12/2010

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