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Política

Um homem sem confissões. Nem de Santo Agostinho

José Caria

Como Ricardo Salgado entrou discreto e tenso no Parlamento, e acabou a responder aos deputados enquanto consultava o telemóvel.

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Eram quatro e seis da tarde, já Ricardo Salgado estava a responder às perguntas dos deputados há coisa de seis horas, quando recebeu um sms. Tirou o telemóvel do bolso e passou os olhos pelo ecrã. Tudo com a discrição possível, que não era muita, tendo em conta que todos os olhos estavam postos nele - Salgado respondia, nesse momento, a uma pergunta do socialista Pedro Nuno Santos sobre o dinheiro que desapareceu do BES na reta final da sua administração. Não podia haver melhor sinal do à vontade do antigo homem-forte do BES. Estava perante a comissão parlamentar de inquérito (CPI) ao caso BES desde pouco depois das 9 da manhã, quando começou por ler uma longa declaração. Uma voz treinada, conscientemente pausada, mas tensa. Uma postura hirta, rígida. Passadas tantas horas, a tensão e a rigidez tinham desaparecido. Salgado deixava o corpo inclinar-se, recostar-se ligeiramente na cadeira, modular a voz, interagir com os seus inquiridores, medir-lhes as reações. Até, imagine-se, consultar o telemóvel enquanto respondia a uma das acusações mais sérias que lhe têm sido dirigidas. Se esses sinais indicavam alguma coisa, era que Salgado sentia que a audição não lhe estava a correr mal

Por essa altura, o antigo CEO do BES já tinha passado todas as mensagens que queria passar. A imputação de culpas ao Banco de Portugal por ter imposto um plano "inexequível" para isolar o BES dos riscos do ramo não financeiro do Grupo Espírito Santo. A responsabilização do governador e do seu "vice" por nunca terem dito claramente que o queriam afastar mais cedo da liderança do banco. O apontar do dedo do Banco de Portugal por fazer recomendações "imprudentes" e impor prazos "impossíveis", em vez de aceitar o plano a cinco anos que Salgado lhe tinha apresentado para salvar o grupo sem arrastar o banco - a falta de tempo foi várias vezes invocada como a mãe de todas as desgraças. Banco de Portugal, Banco de Portugal, Banco de Portugal...

E Governo, Governo, Governo - por não ter ajudado o GES, emprestando dinheiro através da Caixa Geral de Depósitos. Passos não ouviu os avisos de risco sistémico - até devolveu uma carta que o banqueiro lhe tinha mandado. Maria Luís não ajudou mais. Carlos Moedas e Durão Barroso "compreenderam", mas não eram eles que mandavam... Cavaco Silva também foi avisado... Os nomes iam sendo deixados cair, assim, ao longo da manhã, e iam saindo nas notícias sobre a audição.

E houve mais nomes, esses mais diretamente envolvidos: Francisco Machado da Cruz, o contabilista responsável pelas contas da ESI, que em novembro começaram a deitar abaixo o império - tudo, claro, perante a "surpresa" de Salgado. Álvaro Sobrinho, o homem que afundou o BES Angola - com Salgado a assumir "um erro de julgamento" pela sua escolha para liderar a filial angolana, mas mais nenhuma responsabilidade...

O "name droping", técnica velha, envolvia "toda a administração" do BES, "toda a administração" do GES, José Eduardo dos Santos, generais angolanos... Muita gente, uns chamados mais a propósito do que outros, todos amalgamados na grande narrativa de Salgado, onde ele era o centro, apesar de nunca se ter considerado "o dono disto tudo". Foi, pelo contrário, o homem que "tudo fez" para preservar o banco, o grupo, a família, os clientes. Sem nunca assumir qualquer responsabilidade no desmoronar disso tudo.

"Estou de consciência tranquila [sobre erros de gestão]", garantiu, ao início da tarde. "Em 40 anos de atividade bancária não tenho nada de que me arrependa", frisou, apesar de admitir o "peso" por o grupo que dirigia ter "soçobrado". "Há responsabilidades do nosso lado, certamente, mas haverá responsabilidades de outras entidades." Salgado encosta-se, depois de dizer estas palavras, e varre a sala com os olhos, por cima dos óculos, a medir o impacto das suas palavras. A voz está muito mais segura do que de manhã. Por essa altura, já Salgado e a sua comitiva tinham aproveitado a pausa do almoço para tirar o pulso à forma como as palavras do banqueiro passavam "lá fora". Enquanto comiam a vitela ou o peixe cozido que três funcionários do Parlamento foram buscar à cantina, Salgado e os seus acompanhantes tinham, apesar de tudo, razões para sorrir. Os títulos eram quase todos feitos com frases do banqueiro. No essencial, a sua mensagem tinha passado.

Quando Ricardo Salgado chegou ao Parlamento, faltava mais de uma hora para a hora marcada. As câmaras de televisão ainda estavam a ser instaladas e os fotógrafos iam-se posicionando para a melhor imagem possível da chegada de Salgado, tanto na porta lateral do Parlamento, por onde entram os convidados para as comissões parlamentares, quer no átrio que dá acesso ao corredor das comissões. Nem num nem noutro lugar os repórteres de imagem conseguiram vislumbrar o banqueiro - não só chegou cedo, como teve tratamento VIP: entrou no Parlamento por outra porta, e voltou a fazer o mesmo ao entrar na sala da audição. Não se sujeitou - ou não foi sujeito - ao desfile perante os media.

Com esta artimanha, ninguém filmou a entrada de Salgado, seguido de dois advogados (um deles puxando um troley daqueles que se leva para a cabina dos aviões, supostamente cheio de papéis), mais um relações públicas (com mais um dossiê atulhado de papéis), mais o segurança, mais o "motorista", que não ficou no carro, como fazem os motoristas, mas fez as vezes de segundo segurança - não fosse dar-se o caso de a segurança do Parlamento (sempre eficiente, mas hoje pouco discreta) não chegar para as encomendas. Chegou e sobrou.

A entrada de Salgado e comitiva, oito minutos depois das nove da manhã, por uma porta dos fundos, provocou um súbito silêncio numa sala que fervia de excitação. Ainda não eram oito e meia e já os lugares de imprensa estavam quase todos ocupados - e, em vez da habitual fila única de cadeiras da sala 6, havia três filas. Enquanto uma assessora e um deputado levavam uma cadeira extra tirada de outra sala, o funcionário do Parlamento que registava as entradas dos jornalistas pedia um reforço de credenciais - as que tinha, e que chegam sempre para as encomendas, mesmo quando estão várias comissões em funcionamento, já estavam esgotadas só com a CPI do BES.

"Parece que contrataram o Cristiano Ronaldo!", comentava um parlamentar do PSD para um colega de bancada que chegava. E chegou, não o Cristiano Ronaldo, mas o dono do banco que tinha Ronaldo como rosto publicitário. Foi o tal momento de silêncio - coisa breve, pois passada uma fração de segundo começaram a disparar as máquinas fotográficas. Uma muralha de repórteres de imagem cercou Salgado, que se sentou à direita de Fernando Negrão, o presidente da comissão, e à esquerda de Francisco Proença de Carvalho, um dos dois advogados que o acompanhou.

Negrão anunciou o início de "mais uma audição", como se fosse só mais uma. Não era. A singularidade daquela percebia-se, não só pela eletricidade que enchia o ar, pelos cliques das máquinas fotográficas, pela sala apinhada, mas também pela declaração inicial do depoente, anunciada como "longa. Por longa, quero dizer mais de uma hora", anunciou Negrão. "Isto é histórico! Um discurso de mais de uma hora no Parlamento, nem o Presidente da República", comentou para o lado o socialista José Magalhães.

A declaração escrita, de 58 páginas e mais de oito mil palavras, repetindo 51 vezes "Banco de Portugal" e 21 vezes "governador", foi o guião que Salgado seguiu à letra. Prometeu "defender a honra" e a família, inspirado num "muito velho provérbio chinês": "o leopardo quando morre deixa a sua pele, o homem quando morre deixa a sua reputação".

Até à hora de fecho deste texto, Salgado fazia tudo para salvar a pele e a reputação. Podia até ter referido outra citação, não tão velha, nem tão respeitável, mas igualmente sábia: "As falências dos bancos são provocadas pelos depositantes, que não depositaram dinheiro suficiente para cobrir as perdas resultantes da má gestão", disse um dia Dan Quayle, o mais parodiado vice-presidente norte-americano. A sua máxima podia assentar como uma luva na narrativa de Salgado: a culpa é de todos menos sua.

Carlos Abreu Amorim, que tentou demonstrar que era esta a narrativa de Salgado, recomendou-lhe que lesse as "Confissões" de Santo Agostinho. O banqueiro, assumindo-se como "católico praticante", com "o maior respeito" pelo grande Doutor da Igreja, garantiu que "sempre que posso leio as Meditações de Santo Agostinho". Não sendo "Meditações" nenhum título canónico da obra do santo de Hipona, a referência de Salgado não deixa de ser adequada. É que, Salgado, meditar, até pode ter meditado. Confessar, não confessou.