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Seixas da Costa: "A Europa é dominada por um centrão"

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Jorge Brilhante/Visão

Ex-secretário de Estado diz que há um "totalitarismo do centrão", cujo efeito foi fazer crescer as franjas políticas. 

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

A Europa é hoje dominada por um grande centrão, constituído pelos governos de direita, centro-direita e social-democrata, que já não se distinguem entre si, afirma o embaixador Seixas da Costa, posição defendida durante um debate organizado esta quarta-feira pelo Instituto Europeu da Faculdade de Direito de Lisboa.

Segundo o embaixador, que foi secretário de Estado dos Assuntos Europeus entre 1995 e 2001, esta situação conduz a um "colete de forças, uma espécie de totalitarismo do centrão", cujos efeitos se fazem já sentir através daqueles que rompem, à esquerda ou à direita.

"A Europa não consegue representar as franjas, que por si contestam o modelo", adverte o embaixador, que vê com preocupação o futuro da União, entregue a "reflexos soberanistas".

Segundo Seixas da Costas, a evolução da Europa neste sentido tem a ver com o euro, a condução de políticas através dele e "esse passo nefasto que foi o Tratado de Lisboa, que não foi nada porreiro", acrescenta, numa alusão à frase de Sócrates a Durão Barroso, quando se concluiu o tratado, durante a presidência portuguesa, em 2007.

Para o antigo secretário de Estado, apesar dessa tratado ter dado mais poderes à Comissão, retirou-lhe o papel moderador e regulador, que a tornou numa "espécie de ASAE da austeridade, subcontratada pelo Conselho Europeu". É neste órgão que as diferenças entre os Estados são mais acentuadas e daí a proeminência alemã, explicita.

Para Seixas da Costas, uma das vantagens das eleições gregas foi precisamente o "abalar do consenso de Bruxelas" que marcou o discurso ideológico e politicamente correto das instituições.

As três opções gregas

No mesmo painel, cujo tema era "União Europeia: um ponto de situação", intervieram ainda Rui Tavares, Mota Amaral, Correia de Campos, Eduardo Paz Ferreira e Matthias Fischer, conselheiro económico da embaixada alemã.

Rui Tavares defendeu a importância de haver mais governos antiausteridade para fazer a mudança, enquanto o antigo ministro e eurodeputado socialista Correia de Campos definiu três saídas possíveis para a Grécia.

"Ou sai do euro, ou dobra a espinha, ou tenta ganhar algo sem perder tudo", disse o ex-ministro, para quem todos os caminhos gerarão instabilidade política interna.

Mota Amaral apelou por seu turno à retomada do "discurso dos patriarcas" e à necessidade de encontrar formas de lidar com a nova realidade da liderança alemã na Europa, "que é a interlocutora de Obama e fala diretamente com Putin. Isto não é saudável, há que encontrar um equilíbrio", disse.

Sobre esse tema, o diplomata alemão afirmou que a Alemanha não gosta da ideia de que "somos hegemónicos" e que a influência que detém por causa da crise do euro não foi uma escolha própria.

Eduardo Paz Ferreira lamentou que após a queda do muro de Berlim se tenham levantado outros muros na Europa, entre o norte e o sul, credores e devedores, católicos e protestantes.