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Quem tem medo de Henrique Neto?

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Há quem diga que a candidatura de Neto é preocupante para a "saúde democrática"

FOTO MANUEL DE ALMEIDA/ LUSA

O empresário surpreendeu com o avanço de uma candidatura às presidenciais. Costa diz que lhe é indiferente. Será que é?

Bernardo Ferrão, Cristina Figueiredo e Rosa Pedroso Lima

No Largo do Rato encolhem-se os ombros perante a formalização da candidatura de Henrique Neto às presidenciais de 2016. A palavra de ordem é desvalorizar. "Não tem impacto nenhum para o PS". Aliás, entre os socialistas até se questiona o timing do empresário: "O Henrique Neto não tem qualquer relevância política. E, se queria tê-la, devia ter esperado mais tempo. Vai precisar de ter muita corda para aguentar até às eleições", diz um responsável socialista. 

Na direção de Costa há quem diga que a candidatura de Neto, feroz crítico de José Sócrates e apoiante de Seguro nas primárias, é preocupante, isso sim, para a "saúde democrática": "Que o populismo existia em certos nichos da política portuguesa já sabíamos. O que é novo é a multiplicação de focos deste tipo de agenda". Sobre os estragos, a leitura é que "não é preciso aparecer Henrique Neto para que se fale do Sócrates. Toda a gente sabe que ele existe. Não é novidade". Por isso, na direção costista, o avanço de Neto, que muitos julgavam já não pertencer ao PS, mas que ainda possui cartão de militante, é visto apenas como "mais um a poluir o debate". 

Sampaio da Nóvoa na frente

António Costa tentou não comentar a candidatura presidencial de Neto. Pressionado pelos jornalistas, acabou por deixar cair um "é-me indiferente". Quem conhece bem o líder socialista assegura que o desabafo é genuíno: Costa tem o seu calendário definido e não é este "imprevisto" que o vai obrigar a mudar de planos. E os planos estão bem definidos: a prioridade são as legislativas, as presidenciais são secundárias (para não dizer que constituem a menor das suas preocupações). Sem António Guterres, o seu favorito, sem António Vitorino, o plano B, o secretário-geral do PS já terá assente que apoiará a candidatura de António Sampaio da Nóvoa. Mas o anúncio será... quando for. Sem urgência.  

Neto não esquece

Quarta-feira, Henrique Neto, sozinho, deu o pontapé de saída, lançando-se como o primeiro candidato oficial à Presidência da República. Em resposta aos jornalistas - e ao líder socialista - garantiu que, para ele, "o PS não é indiferente". E, no mesmo dia, ao "Diário de Notícias", tinha chamado a António Costa "uma interrogação", a António José Seguro "um homem bom" e a José Sócrates "um desastre".  

Os recados para dentro do partido não estavam, porém, todos dados. O candidato defendeu "a unidade na ação de todos os portugueses, o que não significa esquecer o passado recente e os seus responsáveis", disse no seu discurso de apresentação. A frase teria deixado as orelhas a arder de algum dirigente socialista presente na sala. Se algum se tivesse dignado aparecer. Mas nem um se apresentou na sala do Padrão dos Descobrimentos, onde a cerimónia decorreu. 

Sinal dos tempos, a plateia não parecia sentir a falta dos políticos profissionais. Antes pelo contrário, a maioria anónima e de terceira idade que enchia a sala, gostou da apresentação do candidato como "o senhor Henrique José de Sousa Neto", sem doutor, engenheiro ou secretário-geral do que quer que seja a abrir-lhe o caminho para o palanque. A hora é dos cidadãos "que se destacam pela competência, capacidade e provas dadas". As "posições frontais" e a "cidadania lúcida, exigente e ativa" foram os cartões de visita apresentados pela comissão promotora da candidatura para apelarem ao apoio a Henrique Neto.

Trabalharam na sombra e  discretamente para apresentarem o candidato como uma surpresa para todos. Partido Socialista, incluído. Conseguiram. Mas Henrique Neto assume que lhe sobra em vontade e determinação o que lhe falta em quase tudo o resto: estrutura, mandatários, apoios, assinaturas para legalizar a candidatura no TC. Uma associação - a Faz Futuro Connosco - é a única base de apoio. Começou na hora a recolher donativos - uma quota mensal entre os 10 e os 100 euros porque "a participação é vital para ajudar a cobrir os custos da campanha".