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Quem é o mais prejudicado pelas sondagens?

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Não é a primeira vez que o CDS de Paulo Portas levanta a hipótese de proibir as sondagens durante o período de campanha - já tinha sido anunciada depois das europeias de 2009, quando o partido ultrapassou os 8%, apesar de sondagens que chegaram a indicar 2%

Tiago Miranda

Resultados do CDS na Madeira levam partido de Paulo Portas a voltar a pensar numa alteração à lei. Ideia é impedir a publicação de sondagens nas duas semanas de campanha eleitoral oficial. 

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

O CDS está a estudar a possibilidade de apresentar uma proposta de lei para proibir a divulgação de sondagens durante o período oficial de campanha eleitoral. Paulo Portas voltou a levantar a questão esta segunda-feira, na reunião da Comissão Política do CDS, que analisou, à porta fechada, os resultados das eleições na Madeira.

Fontes centristas admitem que o partido poderá avançar com uma iniciativa ainda a tempo de estar em vigor nas legislativas deste ano.

Porém, ainda não há proposta redigida, nem sequer trabalhos de direito comparado, reconhecem outras fontes ouvidas pelo Expresso Diário. A que acresce a dificuldade de conseguir o apoio de outros partidos, e a delicadeza de mexer nas regras do jogo em cima de eleições. Mesmo na hipótese remota de uma iniciativa ser aprovada no Parlamento, seria muito improvável que o Presidente da República validasse esse tipo de alterações a poucos meses de uma campanha.

Embora este seja um antigo cavalo de batalha do CDS, a insistência dos centristas em desacreditar as sondagens neste momento poderá ter mais a ver com a negociação que que aproxima para a coligação com o PSD.

Os centristas defendem que um acordo deve ter por base os resultados das últimas legislativas (o que daria um lugar ao CDS por cada quatro do PSD), mas os sociais-democratas têm argumentado que o parceiro de coligação vale hoje menos do que valia em 2011 - e mostram como "prova" as sondagens. Há duas semanas o n.º 2 do PSD, Marco António Costa, apresentou numa reunião com  empresários uma sondagem que dava o PSD a pouca distância do PS (26% - 29%) e o CDS reduzido a 4%.

Daí a insistência dos centristas em mostrar que as sondagens não podem ser olhadas como factos. Nesse sentido, "o que se passou na Madeira é o melhor que nos podia ter acontecido", admite um responsável centrista: as sondagens previam uma queda do CDS, mas o partido, embora perdendo deputados, resistiu e manteve tranquilamente a segunda posição. Em rigor, perdeu menos terreno do que o próprio PSD.



A velha guerra contra as sondagens

Não é a primeira vez que o CDS levanta a hipótese de proibir as sondagens durante o período de campanha - já tinha sido anunciada depois das europeias de 2009, quando o partido ultrapassou os 8%, apesar de sondagens que chegaram a indicar 2%. Agora, é a resposta dos centristas ao que se passou na Madeira, onde as sondagens (incluindo a da Eurosondagem para o Expresso) davam o CDS a cair de segunda para terceira força política.

O último estudo divulgado antes das eleições (da Universidade Católica) caiu como uma bomba: punha o CDS em terceiro lugar com 11% (ficou em segundo, com 13,7%), a coligação do PS em segundo com 18% (acabou em terceiro, com 11,4%) e apostava numa maioria absoluta folgada do PSD com 49% (a maioria absoluta foi por um triz, com 44,3%).

"O resultado do CDS foi obtido apesar das sondagens e contra as sondagens", declarou Portas logo na noite eleitoral, acrescentando que "pela enésima vez na história deste partido, o povo dá-nos uma força que as empresas de sondagens não conseguem." Uma ideia reiterada esta segunda-feira pelo vice-presidente do CDS Diogo Feio, que foi o porta-voz da Comissão Política: o erro das sondagens "não pode ser deixado em claro e tem que haver, de uma vez por todas, consequências relativamente a esta matéria, ainda para mais num ano eleitoral". Feio insistiu em que, "no mínimo e em primeiro lugar", exista "uma reflexão" sobre este problema. Mas Portas tem falado em ir mais longe. "Se não conseguem fazer sondagens melhores, não as publiquem", diz um alto dirigente do partido, confirmando que a ideia de propor uma proibição "está a amadurecer".

Até ao ano 2000 a lei proibia a divulgação de sondagens e estudos de opinião nos últimos sete dias antes das eleições.



Uma boa lei para as empresas de sondagens?

Curiosamente, a proibição de sondagens durante a campanha pode ser um bom negócio para as empresas que fazem este tipo de estudo. "Enquanto administrador da Eurosondagem, só posso dizer: venha essa alteração da lei", diz Rui Oliveira e Costa, da empresa que faz os estudos eleitorais para o Expresso. A razão é simples: "Se durante a campanha não puder fazer sondagens para o Expresso e a SIC, em vez de duas faço umas dez", garante, pois não vão faltar embaixadas, grupos económicos e até partidos a encomendar esses estudos.

Foi o que aconteceu em Itália, o único país da Europa ocidental onde a regra da proibição estava em rigor nas últimas eleições: o principal fazedor de sondagens do país diz que, depois de imposta essa lei, passou a faturar "como nunca". "Nunca houve tantos bancos e empresas de investimento a encomendar sondagens na reta final da campanha", confessava Renato Mannheimer.