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Presidenciais. Como ganhar à primeira volta

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Para o politólogo Costa Pinto, a candidatura de Sampaio da Nóvoa coloca problemas ao PS, isto é, "a agenda do candidato pode perturbar a agenda do partido, que, para já, são as legislativas"

José Ventura

Ser eleito Presidente à primeira volta não é fácil. O que é mais importante: concentrar votos num campo político, vir de fora do sistema ou simplesmente multiplicar as candidaturas? Falámos com os politólogos Rui Oliveira Costa, André Freire e Costa Pinto.

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

Não há doutrina feita e os exemplos em Portugal têm dado para várias teorias. Mas a verdade é que dos quatro presidentes eleitos depois do 25 de Abril, três ganharam à primeira volta logo no primeiro mandato, na altura em que vira o ciclo: Ramalho Eanes, Jorge Sampaio e Cavaco Silva.

Dos três, Eanes foi um caso à parte. Nunca ninguém o igualou em percentagem de votos (61,59%) mas também os tempos eram outros. Foi nos alvores da democracia, em junho de 1976, sete meses apenas depois do 25 de novembro, em que ele tinha sido o líder incontestado e o PREC estava ainda vivo. Esse momento foi irrepetível, apesar de ter sido reeleito num segundo mandato, com o apoio do PS e da então ASDI, igualmente à primeira volta - os votos é que diminuíram. A percentagem não foi além dos 56,44 por cento dos votos.



São os números!

Depois disso, Jorge Sampaio e Cavaco Silva foram outros casos. Sampaio, em janeiro de 1996, teve um candidato à sua direita (um enfraquecido Cavaco, acabado de deixar o Governo) e dois à esquerda: Jerónimo de Sousa (PCP) e Alberto Matos (UDP). Sampaio ganhou com 53,9% contra 46% de Cavaco Silva.

Já Cavaco Silva, na sua primeira volta, em 2006, beneficia "por uma unha negra" da multiplicidade de votos à esquerda: Mário Soares, Manuel Alegre, Jerónimo de Sousa, Francisco Louçã, Garcia Pereira. Conseguiu 50,54% dos votos. "Tivesse Garcia Pereira mais meio ponto e tirava a maioria a Cavaco", disse ao Expresso o politólogo Rui Oliveira Costa. O candidato do MRPP teve 0,44% dos votos, 23.983 votos.

Para este especialista em sondagens, o que conta é isso mesmo, a multiplicidade de candidatos, tanto faz à direita ou à esquerda. "A eleição é maioritária - a única em Portugal - e por isso quantos mais candidatos, mais votos, menos possibilidade de um só candidato ter a maioria absoluta à primeira volta".

Outro exemplo, mas "a contrario sensu"? O de Mário Soares, em 1986, na sua primeira eleição, que foi à segunda e não à primeira. "Mas não tivesse havido três candidatos (à esquerda, no caso) - além de Mário Soares, Salgado Zenha e Maria de Lurdes Pintassilgo - e Freitas do Amaral, que reuniu 48% dos votos teria sido eleito logo à primeira". Não terá sido por acaso que na candidatura de Soares, à época, se apostava muito em que Pintassilgo não desistisse. Era uma espécie de fundo de garantia para uma segunda volta de que Mário Soares sabia que necessitava.

Não, é a política!

Mas nem todos concordam com esta opinião. António Costa Pinto, por exemplo, considera que a questão de fundo é, tendo em conta a clivagem esquerda/direita, se há um candidato que faz o pleno  da sua área, perante vários candidatos do outro lado.

"Em princípio, uma área unificada, com um candidato de centro-direita ou centro-esquerda, se for sozinho, ganha", defende Costa Pinto, para quem o cenário tem ainda mais hipóteses se o maior partido do outro lado não tomar posição. Trocando por miúdos, se Marcelo Rebelo de Sousa, por exemplo, se confrontar sozinho, à direita, com vários candidatos à esquerda, tem o caminho aplainado para uma vitória à primeira volta.

Se houver mais do que um candidato à direita - dando por certo que, para já, é à esquerda que os candidatos se estão a multiplicar - , o jogo complica-se, diz Costa Pinto. Para ele, "a conjuntura em que Mário Soares ganhou não é repetível - as clivagens da sociedade portuguesa não passam pelo candidato à direita que assusta.

A esquerda hoje não pode demonizar nem um Marcelo, nem um Santana Lopes, nem Rui Rio". E conclui: o que se está a passar agora é que a candidatura de Nóvoa coloca problemas ao PS, isto é, "a agenda do candidato pode perturbar a agenda do partido, que, para já, são as legislativas".



Ao contrário, é ser fora do sistema

E se, afinal, não fosse nada disso e a questão fosse outra: a da fragmentação e da força relativa dos candidatos em presença? É esta a opinião do politólogo André Freire, que valoriza esta perspetiva, em detrimento da ideologia.

"Se o voto estiver muito concentrado em dois ou três é mais fácil alcançar a maioria absoluta, se o voto for disperso, será mais difícil", diz. "Não é uma questão de esquerda ou direita", afirma. "O campo menos fragmentado aumenta as possibilidades de ganhar à primeira volta, mas não é linear". Exemplo? O de Freitas do Amaral, o candidato único da direita em 1986, que vence por larga maioria a primeira volta, mas perde na segunda volta para Soares, perante uma esquerda que se uniu toda em torno dele.

Por outro lado, o apoio dos partidos também é importante, na logística, nos fundos disponibilizados, na estrutura. Mas, para André Freire, nas próximas eleições vai ser significativa a "proveniência" do candidato. "Os candidatos fora dos partidos podem baralhar os dados na primeira volta, pelo menos", diz. "As pessoas estão cansadas dos partidos e dos jogos partidários".

Por esta razão, prevê, a sua aposta "em abstrato" seria numa solução de uma candidatura de "extração não partidária, vinda de fora, mas com apoios partidários. Para já, tal hipótese só se configura à esquerda e está a causar feridos no PS. À direita, seja Marcelo Rebelo de Sousa, seja Santana Lopes, seja Rui Rio, todos eles saem de dentro do partido.