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O último discurso de Jardim: o estilo de sempre e uma citação bíblica sobre os justos e os malditos, as ovelhas e os cabritos

FOTO RICARDO CASTELO / LUSA

Foi o último discurso do mandato do atual presidente do Governo Regional da Madeira, que já anunciou que se demite a 12 de janeiro. Jardim não se mostrou preocupado com a dívida de 7,5 mil milhões de euros que deixa para pagar, não revela arrependimento por ter aproveitado o "dinheiro de graça" e acusou os partidos da oposição de terem um "comportamento rafeiro".

Marta Caires, correspondente na Madeira

No último discurso na Assembleia Legislativa, o líder madeirense manteve-se fiel ao estilo: classificou a oposição de "rafeira", acusou a República de colonialismo e voltou à maçonaria para explicar o que se passa na TAP. A intervenção durou uma hora e terminou com uma citação do evangelho de São Mateus sobre os justos e os malditos, as ovelhas e os cabritos.  

Antes de entrar para o debate de encerramento do orçamento regional para 2015, o presidente do Governo Regional reconheceu que tem um problema com Pedro Passos Coelho desde o tempo em que o primeiro-ministro era líder da JSD. "Existe há muitos anos" uma crispação que, de certo modo, está na origem dos processos disciplinares aos deputados do PSD-Madeira na Assembleia da República. "Isto é um revanchismo da direção nacional do partido contra as posições que a Madeira tem tomado e das quais eu tenho sido o rosto".

A ideia voltou a ser retomada no discurso quando, depois de falar das contas e da dívida - que é "só 83% do valor do PIB" -, Alberto João Jardim confessou as dificuldades de negociar em Lisboa e com pessoas do mesmo partido. Nunca as tinha sentido como agora, mas apenas porque, pela primeira vez, se "puseram questões pessoais a meio do Estado". Foi por isso que se assinou um plano de resgate à parte e não se incluiu a dívida da Madeira na dívida pública portuguesa. Com essa decisão, veio a austeridade imposta pela República, a subida dos impostos, a crise em que os madeirenses vivem há três anos.

Mesmo assim, sustentou, a Madeira conseguiu honrar os compromissos, o desemprego baixou e foram criadas empresas e, só em 2014, surgiram mais quatro mil novos postos de trabalho. Jardim não se mostrou preocupado com a dívida de 7,5 mil milhões de euros que deixa para pagar, nem revela arrependimento por ter aproveitado o "dinheiro de graça" que havia para promover o desenvolvimento. Se tivesse esperado, no estado "de decadência em que a União Europeia e a república portuguesa estão", não havia obras. "Assumo tudo o que fiz à frente do Governo Regional."

Este último discurso teve uma referência à maçonaria, que, afirmou, desta vez está infiltrada na administração brasileira da TAP. Neste momento, o assunto que mais preocupa a presidência do Governo é a greve marcada para o Natal e fim de ano e que poderá prejudicar a época alta de turismo na Madeira. O líder madeirense pediu uma intervenção do Estado, falou mesmo em requisição civil e apelou ao bom senso dos trabalhadores. É que, além do ataque da maçonaria, o Sindicato da Hotelaria agendou uma greve para a mesma altura, mas esse "é um golpe do PCP".

"Arder no eterno suplício" 

As vozes da oposição levantaram-se quando Jardim, para arrumar as críticas que lhe são feitas, acusou os partidos da oposição de terem um "comportamento rafeiro". O CDS pediu uma intervenção da mesa, mas o presidente da Assembleia demorou a reagir e o chefe do executivo repetiu a palavra várias vezes para que não ficassem dúvidas. Desta vez, no entanto, fê-lo sem o coro que habitualmente o acompanhava. Os deputados da maioria ficaram calados e voltaram a estar mudos quando o presidente do Governo insinuou que os problemas de Carlos Pereira, líder da bancada do PS, precisavam de tratamento psiquiátrico.

Nem a acusação de que o PCP ficava com o dinheiro das caixinhas - Edgar Silva, deputado comunista, teve, no início dos anos 90, um projeto de apoio a crianças de rua - trouxe apoio ao líder. Os deputados ouviram em silêncio Edgar Silva insurgir-se contra o líder, que até no fim "era reles e ordinário", que lhe "faltava dignidade, que nem se permitia sair de forma digna". O presidente ficou só no discurso. E o discurso terminou com uma citação do evangelho de São Mateus. Uma metáfora, explicou antes de ler a passagem sobre o julgamento dos justos e dos malditos, a separação entre as ovelhas e os cabritos, entre os que terão a salvação e os que irão arder no eterno suplício.

Depois da citação bíblica, a bancada social-democrata aprovou o orçamento como tinha sido anunciado. A novidade foi a declaração de voto de Miguel Sousa, deputado e também candidato a líder do PSD. O parlamentar entende que, ao contrário do que diz o Governo, não havia mal a região viver de duodécimos durante três meses. Contudo, para não provocar uma crise política a uma semana das eleições internas do partido e a um mês da demissão do Governo, votou ao lado da bancada.

A oposição votou contra, mas as intervenções finais dos partidos foram todas viradas para um futuro sem Jardim e sem o orçamento que se discutiu e aprovou na Assembleia. Com humor, como quando José Manuel Coelho lamentou não ver o choro das crianças e uma multidão a chorar pela partida do líder como na Coreia do Norte. Ou como Hélder Spínola, que garantiu que a prisão de Évora espera por mais inquilinos, mas vindos da Madeira. Mais sérios, os socialistas pediram eleições antecipadas após a demissão de Jardim e o CDS voltou a garantir que, se não houver demissão a 12 de janeiro, apresentará a 13 de janeiro uma moção de censura ao Governo.