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O delfim rebelde

Lusa/Homem de Gouveia

Apreciador de música e de caça, monárquico de pensamento, o novo líder do PSD-Madeira foi delfim antes de se rebelar e disputar o lugar de Jardim. 

Marta Caires

Jornalista

Advogado de profissão, antigo líder da JSD e durante 19 anos presidente da Câmara do Funchal, Miguel Albuquerque é a antítese de Jardim, o homem a quem sucede na presidência do PSD-Madeira. Foi um dos muitos delfins do presidente do Governo Regional, mas as relações arrefeceram ao ponto do executivo ordenar uma auditoria às contas da autarquia em 2005. Dado como politicamente morto, nem o facto de ganhar as eleições no Funchal era argumento a favor num tempo em que se acreditava que seria Alberto João Jardim a ditar o futuro do partido e da Madeira. 

Educado pelo avô, militar da Revolta da Madeira de 1931, Miguel Filipe Machado de Albuquerque, 53 anos, nasceu e cresceu no Funchal. Foi nadador do Nacional e, aos 16 anos, ganhava a mesada a tocar piano nos hotéis. Concluído o liceu, rumou a Lisboa para estudar Direito na Universidade de Lisboa, onde se licenciou. De regresso a Madeira, fez o estágio no escritório de Rui Nepomuceno, membro destacado do Partido Comunista. Por essa altura, era já quadro da JSD-Madeira, da qual veio a ser líder. A amizade com Pedro Passos Coelho remonta a esses tempos. 

A grande oportunidade política surge em 1993 como número dois da lista do PSD para a Câmara do Funchal. No Verão seguinte, em 1994, Virgílio Pereira, então presidente da Câmara, demite-se em rutura com Jardim e por causa do valor da dívida municipal. Miguel Albuquerque assume a presidência e toma posse em Setembro desse ano. Visto como o novo delfim de Jardim, irá viver um tempo de estado de graça, chegando a vice-presidente do partido. As boas relações não vão durar muito, a popularidade do novo presidente da Câmara do Funchal não agrada ao líder do partido. 

Com um estilo diferente - Miguel Albuquerque assume-se como monárquico - conquista o Funchal, tanto a classe média, como os eleitores das zonas altas da cidade (a periferia) e ainda os meios culturais, onde fazem sucesso as edições anuais do Funchal Jazz. A banda Velhos Hotéis, onde toca piano, enche tertúlias. Nas sondagens que se vão fazendo sobre a sucessão de Jardim, aparece como o mais votado, mas o partido desconfia do estilo e diz que não é pessoa para cativar o eleitorado fora da capital. Na viragem do século, as relações azedam um pouco mais quando Alberto João Jardim escolhe João Cunha e Silva para vice-presidente do Governo, o ideólogo das sociedades de desenvolvimento e das obras da Madeira Contemporânea. 

A Câmara Municipal do Funchal não tem meios financeiros para fazer frente aos centros cívicos, marinas e passeios marítimos que surgem pela Madeira e pelo Porto Santo. Albuquerque alarga becos e asfalta caminhos, faz publicidade da taxa de reciclagem e lança projetos como as hortas urbanas e os ginásios seniores. Nada de encher a vista, os críticos dizem que não faz nada, que não tem uma obra de vulto para apresentar. A tensão atinge o ponto máximo quando João Cunha e Silva ordena uma auditoria às contas da autarquia em 2005. Nada de relevante sairá desta auditoria a não ser a rutura definitiva. Alberto João Jardim mantém Albuquerque como candidato à Câmara, mas algo de irremediável aconteceu entre ambos. 

Em 2008, quando surge Manuel António Correia como novo delfim de Alberto João Jardim, é voz corrente na Madeira que Miguel Albuquerque não tem qualquer possibilidade, está arrumado. Numa entrevista que dá ao Diário de Notícias da Madeira, cita Winston Churchill e lembra que se morre muitas vezes em política. Os adversários não percebem o alcance da frase, mas a crise que se abate sobre a região irá mostrar que, afinal, não é só poesia. E que, por detrás do homem que gosta de música, de caçadas e de cultivar rosas - tem um roseiral premiado - está um político que é preciso ter em conta.

Os primeiros sinais da crise chegam em 2011. Primeiro às escondidas, depois abertamente, descobre-se que as escolas estão sem telefones por falta de pagamento, faltam medicamentos no hospital. No Verão, chega a notícia de que há uma dívida oculta, mas mesmo assim Jardim ganha as eleições regionais em Outubro. Em Janeiro de 2012 assina o plano de resgate, as finanças ficam sob tutela do Ministério das Finanças e já não se pode esconder o desemprego, as lojas fechadas, a nova vaga de emigração. Jardim é vaiado nas inaugurações, embora seja ainda o líder inquestionável do partido, o homem que põe e dispõe do PSD e da Madeira. O verniz estala quando lança Sérgio Marques para suceder a Miguel Albuquerque, impossibilitado de se candidatar por limite de mandatos. Albuquerque quer Bruno Pereira, o seu vice-presidente. 

O ainda presidente da Câmara do Funchal toma uma decisão inesperada: desafia a liderança de Alberto João Jardim. O partido fica surpreendido, mas ninguém acredita num resultado favorável ao a Miguel Albuquerque, de quem se diz que é incapaz de falar aos militantes de base e não é muito trabalhador. Jardim lança mão do 'Jornal da Madeira' numa campanha contra o adversário, mas nada será como dantes depois das eleições internas do PSD de 2 de Novembro de 2012. A derrota de Miguel Albuquerque por pouco, teve 49%, muda o partido e a Madeira. O futuro já não está nas mãos de Jardim. 

Nas autárquicas de 2013, o partido perde sete das 11 câmaras e, no princípio de 2014, depois de uns artigos de opinião, Alberto João Jardim tenta expulsar Miguel Albuquerque do PSD. No Chão da Lagoa, apela a que não se vote nessa gente, mas nada funciona. O partido está mobilizado e a dúvida é se o ex-presidente da Câmara do Funchal ganha na primeira ou na segunda volta. À terceira - depois de 2012 e da primeira volta - ganha por 64%. A Madeira vai para eleições antecipadas e será Miguel Albuquerque o candidato do PSD a presidente do Governo. 

Os madeirenses dirão nas urnas se partilham a mesma opinião dos militantes e se querem Miguel Albuquerque, advogado, pai de cinco filhos, apreciador de caça e música, à frente da presidência. Uma coisa é certa: pelo estilo, pela forma de estar na política, aberto e democrata - até os adversários da oposição reconhecem estas qualidades - o PSD-Madeira de Albuquerque será outro e muito diferente do de Jardim.